José
Régio
No ano de 2001 comemora-se o centenário do nascimento do escritor e poeta José Régio que esteve ligado ao Alentejo durante muitos anos da sua vida docente. Queremos aqui recorda-lo e dar a conhecer um pouco da sua obra.
José
Régio é o pseudónimo de José
Maria dos Reis Pereira (1901-1969) que nasceu em Vila do Conde. Viveu os
primeiros anos na sua terra natal ,onde iniciou os seus estudos
que o levaram ao Porto e
depois para a Universidade de Coimbra onde se
licenciou em Filologia Românica.
Defendeu a tese intitulada As
correntes e as individualidades na Moderna Poesia Portuguesa,
trabalho em que foi feita pela primeira vez a apologia dos poetas do Orpheu.
Desde muito cedo iniciou a sua actividade literária em jornais e revistas, nomeadamente nas revistas portuenses Crisálida e A Nossa Revista e também nas coimbrãs Bizâncio e Trípico.
Recém
licenciado publicou o
primeiro volume de poesia Poemas
de Deus e do Diabo, usando pela primeira vez o pseudónimo José
Régio.
Em
Março de 1927, fundou com João Gaspar Simões e Branquinho
da Fonseca, a revista Presença que durou treze anos e
foi considerada o órgão do «segundo modernismo».
Após
a conclusão da Escola Normal , iniciou a carreira docente, com uma breve experiência
como professor provisório no Liceu Alexandre Herculano, no Porto, e em
1930 é colocado como professor
efectivo no liceu de Portalegre, cargo que exerceu até se reformar, em 1962.
Entre
os anos de 1930/1966 vive alternadamente entre a sua terra natal e a cidade onde
trabalha. Mas em 1966 regressa definitivamente a
Vila do Conde.
Morreu
a 22 de Dezembro de 1969, vítima de doença cardíaca.
Para
além de professor e da actividade de produção literária colaborou em
diversos jornais e revistas como crítico . É de
realçar o seu envolvimento político, sempre que as situações críticas
da vida nacional o justificavam, mantendo-se sempre firme e frontal nos seus
ideais socialistas, apesar do regime repressivo de então.
Devido
ao seu interesse pelas peças de antigas de arte popular reuniu uma ampla colecção
nas suas casas de Portalegre e Vila do Conde que foram transformadas em casas-
museus com o seu nome literário.
De entre a sua vastíssima obra destacamos alguns trabalhos: Fado , Mas Deus é Grande, A Chaga do Lado, Filho do Homem,Cântico Suspenso, Jogo da Cabra Cega (romance) , Davam Grandes Passeios aos Domingos(novela) e O Príncipe com Orelhas de Burro (romance).
Seleccionamos alguns dos seus poemas:
FADO
ALENTEJANO
Alentejo,
ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Pátria
que à força escolhi!
Quando cheguei quis-te mal,
Alentejo
–ai- solidão......
Julguei
eu que te quis mal,
Chegava
do vendaval,
Tão
cego que nem te vi!
Alentejo,
ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Adro
de melancolia!
Tua tristeza me pesa,
Alentejo
–ai- solidão......
Quanto
às vezes me não pesa,
Mas fora dessa tristeza,
Pesa-me
toda a alegria!
Alentejo,
ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Meu Norte-Sul- Este Oeste!
Voltei ferido da guerra,
Alentejo
–ai- solidão......
Faminto voltei da guerra,
Mendiguei
de terra em terra ,
Esmola
só tu ma deste!
Alentejo,
ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Oceano
de ondas de oiro!
Tinhas um tesouro perdido,
Alentejo
–ai- solidão......
Que eu já dera por perdido,
Nos
teus ermos escondidos,
Vim
achar o meu tesoiro!
Alentejo,
ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Convento de céu aberto!
Nos
teus claustros me fiz monge,
Alentejo
–ai- solidão......
Em ti por ti me fiz monge,
Perdeu-se
a terra ao longe,
Chegou-se –me o céu mais
perto!
Alentejo,
ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Padre nosso dos infelizes!
Vim
coberto de cadeias,
Alentejo
–ai- solidão......
Coberto
de vis cadeias,
Mas
com estas com que me enleias,
Deram-me
asas e raízes!
IGNOTO DEO
Desisti de saber qual é o Teu nome,
Se tens ou não tens nome que Te demos,
Ou que rosto é que toma, se algum tome,
Teu sopro tão além de quanto vemos.
Desisti de Te amar, por mais que a fome
Do Teu amor nos seja o mais que temos,
E empenhei-me em domar, nem que os não dome,
Meus, por Ti, passionais e vãos extremos.
Chamar-Te amante ou pai... grotesco engano
Que por demais tresanda a gosto humano!
Grotesco engano o dar-te forma! E enfim,
Desisti de Te achar no quer que seja,
De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja...
– Tu é que não desistirás de mim!
Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.
Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.
Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!
Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épitragicômicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...
O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.
Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!
Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.
Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!
Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, manitado, iluminado.
Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!
Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.
Mas o meu sonho megalômano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...
Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...
Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.