Jorge Amado

 

Verde e Amarelo

 

Verde e amarelo

Eram as cores de sua terra

Pinceladas de histórias

De Tietas e Gabrielas,

De Coroneis e fazendas,

De capitães de areia e

Meninos da rua ...

Verde e amarelo

Eram as cores da terra

De um homem

Um contador de histórias

Que tocou o mundo

Com suas histórias

Verde e amarelo

É a terra de Jorge Amado

Que morreu ...

Mas morreu amado !

 

Ana Cristina - 08/2001

 

 

De Jorge Amado muito se poderia dizer, poderiamos dar aqui  um pequeno resumo da sua vasta bibliografia desde "No pais do Carnaval"  até "O milagre dos pássaros", não esquecendo as suas pérolas mais brilhantes como "Jubiabá", "Os capitães de areia" ou "Os pastores da noite".

Poderíamos tentar fazer uma cronologia dos principais acontecimentos da sua vida desde a nascença em 1912, na casa da figura ao lado, até à sua morte no mês passado. Passando por um curso de direito tirado no Rio de Janeiro, uma vida de jornalista boémio ou os tempos da prisão e do exilío.

Poderíamos enaltecer as suas qualidades como escritor, seja na vertente romance, poesia, manifesto político, conto infantil, teatro ou biografia. 

Poderíamos citar os numerosos prémios ganhos, como o Camões em 1994, o Stalin em 1951 ou o Graça Aranha em 1936.

Poderíamos contar da sua ideologia comunista, da sua participação na campanha de Gertúlio Vargas, da sua vivênca na ex-checoslováquia onde escreveu a triologia "Os subterraneos da liberdade" ou do seu apoio ao Movimento dos Sem Terra. 

Mas não ! 

Jorge Amado com a obra que nos deixou, alcançou a imortalidade. E nada que aqui disséssemos poderia ser mais demonstrativo desse homem com um H do tamanho do Brasil que as suas próprias palavras, lindas e mulatas escritas com sotaque e um forte cheiro a cacau.Este escritor de língua portuguesa mas de caracter universal soube descrever, como ninguém, quer o sofrimento dos povos oprimidos quer o sofrimento por um amor não correspondido. Soube transformar em palavras aquilo que poucos conseguem sentir com o coração: "A poesia não está somente nos versos, ela está no coração, e é tamanha, a ponto de não caber nas palavras". Nunca, no entanto fugiu ao seu compromisso de escrever um "romance popular e social, com uma problemática ligada ao pais, aos seus problemas, à causa do povo".

Segue-se um trecho de "Os pastores da noite" exemplificativo da sua escrita.

Curió estava com a face coberta do drama: no dia seguinte iria cravar um punhal no peito do seu amigo dileto. se Martim o matasse, não podia queixar-se. Talvez fosse até melhor. Matasse a ele e a ela, aos dois amantes (platónicos), ficariam estendidos juntos no necrotério, juntos seriam conduzidos pelos amigos, para a cova. via-se morto, uma flor no peito, Marialva a seu lado, oscabelos soltos, a garganta cortada.

Ou morto, estendido frio e ensaguentado, Marialva com um punhal no peito, ou vivo a assistir ao desespero de Martim. Em certos momentos chegava a preferir a primeira hipótese tanto o horrorizava a segunda, a visão de homem tão macho como Martim, acabrunhado, liquidado para sempre. Sim, porque sem Marialva a vida é triste.

Curió imaginava a cena: chegaria, olharia o amigo, contar-lhe~ia tudo. tudo, não. Não falaria dos beijos, das mordidas, da mão descendo pelo colo no caminho das delícias dos seios. Falaria sim, daquele amor de loucura e perdição, surgindo de repente, à primeira vista, e o imenso sofrimento, a batalha sem quartel para contê-lo e arrancá-lo do coração., aquele amor condenado. Tinham-se mantido num plano de pura amizade, como irmãos. Mas quem pode resistir ao amor, "quando dois corações entoam uníssonos a canção das nupcias sagradas" e "nem os ventos da tempestade nem as ameaças de morte podem separá-los", como bem dizia o Secretário dos amantes. Não haviam podido reprimir os sentimentos cada vez mais violnetos, mas, fazendo das tripas coração, conseguiram, todo aquele tempo, respeitar a honra do Martim, imaculada e intacta até ao momento à custa de imenso sacrificio dos dois apaixonados. Marialva o fazia por gratidão, para não magoar Martim por ela tão louco e devotado, curió por amizade o fazia, lealdade ao irmão de santo tão sagrado como se fora seu irmão de sangue. Intacta, imaculada, impoluta a honra de Martim, nem uma só mancha por mais miníma (ah! os beijos, não podia fazer nenhuma alusão a eles, nem mesmo aos apertos de mão), porém o amor continuava a devorá-los como as chamas do inferno. Não conseguiam., ele e Marialva, suportar por mais tempo aquela situação equívoca e terrível. Eis porque ali estava, solene e grave, diante de Martim. para colocar em suas mãos a decisão, o destino deles três. sem Marialva não podia viver, preferia a morte. sabia quanto seria doloroso para Martim, porém ...

(...)

Na porta do quarto, Marialva não podia controlar-se, era-lhe dificil naquela hora gloriosa representar a pobre vitíma, donzela perseguida. Uma aura de triunfo circundava seu rosto. Seus olhos iam de curió a Martim, preparava-se para pisar, sobre os dois, para ser por eles disputada a ferro e fogo.

Martim esforçava-se por entender a complicada explanação do amigo, tão respingada de palavras dificeis, aquela mania do curió de comprar e ler folhetos e livros. Fechava o rosto no esforço. Desespero, imaginava Marialva. Horror ante traição do amigo, pensava Curió.

(...)

O melhor, no entanto era esclarecer de vez. Interrompeu o discurso num trecho particularmente emocionante e perguntou, levando a mão desconfiada à testa lisa:

- Tu andou comendo ela ?

Estremeceu Curió, em vão dispensara seus talentos e sua erudição, não fora entendido, não lhe reconhecia Martim, a pureza das intenções. Respondeu definitivo:

- Não ! O que é que lhe estou dizendo desde que comecei ?

Acrescentando logo depois, no entanto a completa verdade:

- Não comi mas ela me apetitou.

(...)

Sorriu comovido o cabo Martim, tanta lealdade de Curió chegava a arder-lhe nos olhos, a amolecer seu coração. (...) Voltou-se para a porta do quarto:

- Marialva, arruma tua trouxa, tu vai com curió. - e sorrindo para o amigo - Tu vai levar ela agora mesmo, não fica bem largar tua mulher aqui em minha casa com a fama ruim que eu tenho ...

Curió abriu a boca, ficou com ela aberta, apatetado. Esperava por tudo: gritos, pragas, desespero, faca erguida, revolver, quem sabe? Desforço fisíco, choro, horror, suicidío, assassinato, tragédia com manchete nos jornais, tudo menos aquilo, aquela de todo inesperada solução. quando conseguiu falar foi ainda como um bebado:

- Levar ela ? Agora mesmo ? E para quê ?

 

Jorge Amado

in "Os pastores da noite"

Pedro Farinha

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