Um
olhar de Ana Cristina sobre uma flor - Florbela Espanca
Talvez
esta mulher tenha vinda ao mundo para ser infeliz, ou talvez não, pois ela
tornou-se um marco na nossa cultura. Veio ao mundo e sofreu, amou muito, e
talvez tenha sido pouco amada, tinha ânsia de viver, o seu desejo de ser mãe
nunca o conseguiu, mas foi mãe desta magnifica obra literária, repleta de
sentimentos, angústias, paixões, sensualidade e por vezes até algum erotismo!
Espanca foi uma flor em portugal, que agraciou a nossa cultura com as suas belas
e eternas palavras, foi mulher, foi amante, foi irmã, companheira, e soube
partilhar, partilhou tão bem a sua essência, que quando a lemos nos
emocionamos. É uma flor nascida e enterrada nas raízes culturais portuguesas,
um mito quase!
“Sou
uma céptica que crê em tudo, uma desiludida cheia de ilusões, uma revoltada
que aceita, sorridente, todo o mal da vida, uma indiferente a transbordar de
ternura. Grave e metódica até à mania, atenta a todas as subtilezas dum
raciocínio claro e lúcido, não deixo, no entanto, de ser uma espécie de D.
Quixote fêmea a combater moinhos de vento, quimérica e fantástica, sempre
enganada e sempre a pedir novas mentiras à vida, num dom de mim própria que não
acaba, que não desfalece, que não cansa!”
Florbela
Espanca nasceu a 8 de Dezembro de 1894, em Vila Viçosa.
Florbela
nasceu fora do casamento de seu pai, cuja mulher não podia ter filhos, e foi
criada, pela sua mãe legitima, seu pai e mulher deste.
Teve
uma ligação muito forte com seu irmão Apeles, nascido a 10 de Março de 1897,
e falecido a 6 de Junho de 1927, que foi um marco na sua vida, foi o seu amparo
espiritual.
A
11 de Novembro de 1903, a poetisa começa a desabrochar em Florbela.
Em
1911, a mulher, estudante ainda, encontra o seu primeiro namoro, talvez a única
experiência amorosa que passa em sua vida sem deixar sequelas.
Florbela
vai lendo, Alexandre Dumas, Camilo Castelo Branco e Guerra Junqueiro, que lhe vão
abrindo o percurso de expressão e sensibilidade.
Em
1912, encontra uma paixão que lhe despedaça o seu coração, talvez para
sempre. Casa em 1913 pela primeira vez, com um jovem de 20 anos, Alberto de
Jesus Silva Moutinho.
Em
1916, participa literariamente no Notícias
de Évora. E em carta dirigida à sua confidente Júlia Alves –
subdirectora de uma revista, Florbela revela que o casamento se tinha tornado
como uma repressão sob a forma da possessão de seu marido,
demasiada, para o seu vasto e lato espirito, que começa a estar
combalido e a sua saúde também.
Conta
também a Júlia, que tinha mandado alguns dos seus versos a Raul Proença, irmão
de um amigo intimo de seu pai, ele iria dazer o prefácio de seu livro, uma espécie
de apresentação ao público, que lhe fez algumas anotações, sugestões e emendas. De relevar, que Florbela não respeitou as
emendas, as suas versões permaneceram intactas.
Vai
então para Lisboa, e começa a frequentar a Faculdade de Letras.
Florbela
tem 23 anos, está debilmente doente, e termina o seu primeiro casamento.
Decide
ingressar no Direito, e em 1919, surge uma luz, é publicado o seu livro Mágoas. Em 1920, conhece o que será o seu segundo marido – António
José Marques Guimarães Alferes da Guarda Republicana.
Em
1922 continuando a escrita, esta mulher, termina um novo livro de sonetos –
Claustro das Quimeras, que será publicado sob o titulo de Soror Saudade, em
1923. Neste livro expõe-se o erotismo da mulher, que de certa forma estilhaça
as limitações da ética social burguesa.
Sendo
vítima da vida, Florbela, continuava a sua madrasta sina, terminando assim o
seu segundo casamento, devido à situação do seu marido – militar – e seus
principios, e cujos ciúmes impunha, e Florbela desafiou a sociedade, como
mulher casada, em relação ao seu amigo, Dr. Mário Pereira Lage.
Estamos,
agora perante o último ciclo da sua vida.
Em
1923, é publicado o citado livro Sóror Saudade, e Mário Lage diagnosta uma
colite a Florbela, e em 1923, Florbela junta-se a Mário, comunicando à família
o seu segundo fracasso matrimonial, e a sua actual relação com Mário, o que não
será aceite, nem pelo seu irmão, que se afastam dela durante dois anos, até
ao seu casamento com Mário, em 1925, mais
uma dor que a poetisa sofreu.
Florbela
interrompe um pouco a sua escrita e dedica-se a traduções por necessitar de
dinheiro.
Mais
uma dor se aproxima, estamos em 1927, depois de Florbela ter estado com seu irmão
de 1 a 4 de Junho, em Lisboa, no dia 6 do mesmo, o então Tenente Apeles
Espanca, sofre um acidente fatal, na queda de um hidroavião, que se suspeitou
ser suicidio.
Chega
o desespero a Florbela, era o principio do fim, a morte do seu irmão veio
apressar a sua, Florbela não mais riu, nunca deixou o luto.
1928
– Cada vez mais doente, com febre, fumando imenso, Florbela, toma consciencia
que este seu matrimónio tinha sido para satisfazer apenas a sociedade.
Uma
nova Paixão o Dr. Luis Maria Cabral, médico.
Este
ano demarca a neurose, a depressão, a morte de seu irmão, o ruir do seu
casamento, a paixão que nutre por Luis, dá aso a uma tentativa frustada de
suicidio.
1929,
passa, a poetisa continua doente e não consegue editar seus livros.
1930
– Florbela está mesmo à beira da rotura, escreve uma carta ao Dr. Guido, está
magra sem forças e insuportavel (autoanálise). Florbela está plena de consciência
da sua condição. E diz: “o meu mundo não é como o dos outros, quero
demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante
que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes
uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não
sente bem onde está, que tem saudade...sei lá de quê!” (carta a Guido
Battelli).
Florbela
está já perto do fim, mas ainda tem mais um romance, desta vez Angelo César
um advogado do Porto, o qual se torna seu confidente, estamos em Outubro, e ela
tenta de novo o suicidio.
Florbela
decide então morrer e confidencia a uma sua amiga que será o seu presente de
aniversário, pois irá morrer, no dia seguinte, em que celebrava a data do seu
nascimento.
Na
noite anterior ao fatidico dia, do seu aniversário,
Florbela diz à criada, que não vai dormir, no quarto de casal, em
virtude das insónias. Pede ainda para a não acordarem no dia seguinte.
É
encontrada tarde demais, restava um pouco de leite e dois frascos vazios de
Veronal! Florbela morrera enfim, durante a noite, deve ter subido aos céus mais
ou menos, aquando da hora do seu nascimento, há 36 anos atrás.
Em
1930 é publicado o seu livro de sonetos Charneca em Flor, e Guido Battelle
publica Cartas de Florbela Espanca e Juvenilia (poesias inéditas)
Em
1932 é publicado o seu livro de contos As máscaras do destino, nesta sua
prosa, revela-se uma sensibilidade própria, que tende a determinar a mundividência.
Em
1949 é inaugurado, no jardim público de Évora um monumento a Florbela, do
escultor Diogo de Macedo.
Azinhal
Abelho e José Emidio Amaro publicam as cartas de Florbela Espanca, sem data.
Em
1964 – em Maio os restos mortais de Florbela são transladados para o cemitério
de Vila Viçosa.
Morre
assim a nossa poetisa, que imortalizou sentimentos, amores e desamores, raivas e
alegrias, tristezas e muita dor, cuja obra está publicada nos seus sonetos.
Florbela
essencialmente sentiu, tem uma trilogia – sentir-pensar-amar, que a eternizará.
Florbela
é a jóia portuguesa da poesia portuguesa, jamais será esquecida, foi mulher,
amiga, filha, amante, irmã, sentiu, experimentou vários sentimentos distintos,
é conhecida actualmente por todo o mundo, e deve-se dar a conhecer esta imensa
mulher.
Do
seu soneto EU
“sou
talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém
que veio ao mundo pra me ver
E
que nunca na vida me encontrou!”
Florbela
morreu como quem beija!
Aqui
fica o seu poema, mais conhecido talvez, já passado a música, pelo grupo
Trovante:
Ser Poeta
Ser
poeta é ser mais alto, é ser maior
Do
que os homens! Morder como quem beija!
É
ser mendigo e dar como quem seja
Rei
do Reino de Aquém e de Além Dor!
É
ter de mil desejos o esplendor
E
não saber sequer que se deseja!
É
ter cá dentro um astro que flameja,
É
ter garras e asas de condor!
É
ter fome, é ter sede de Infinito!
Por
elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É
condensar o mundo num só grito!
E
é amar-te, assim, perdidamente…
É
seres alma e sangue e vida em mim
E
dizê-lo cantando a toda a gente!
(Florbela
Espanca, «Charneca em Flor», in «Poesia Completa»)
Bibliografia:
Agustina
Bessa Luís – a vida e obra de Florbela Espanca (2ª. Edição Dezembro de
1979 - Editora – Arcádia, SARL.
Florbela
Espanca – Sonetos – 4ª. Edição – publicações Europa América.
Obras
completas de Florbela Espanca Vol I - Poesia – Publicações D. Quixote –
Lisboa 1985.
Obras
completas de Florbela Espanca Vol II – Poesia – Publicações D. Quixote –
Lisboa 1986.
Obras
completas de Florbela Espanca Vol III – Contos – Publicações D. Quixote
– Lisboa 1985.
Obras
completas de Florbela Espanca Vol IV Contos e Diário – Publicações D.
Quixote – Lisboa 1985.