Um olhar de Ana Cristina sobre uma flor - Florbela Espanca 

Talvez esta mulher tenha vinda ao mundo para ser infeliz, ou talvez não, pois ela tornou-se um marco na nossa cultura. Veio ao mundo e sofreu, amou muito, e talvez tenha sido pouco amada, tinha ânsia de viver, o seu desejo de ser mãe nunca o conseguiu, mas foi mãe desta magnifica obra literária, repleta de sentimentos, angústias, paixões, sensualidade e por vezes até algum erotismo! Espanca foi uma flor em portugal, que agraciou a nossa cultura com as suas belas e eternas palavras, foi mulher, foi amante, foi irmã, companheira, e soube partilhar, partilhou tão bem a sua essência, que quando a lemos nos emocionamos. É uma flor nascida e enterrada nas raízes culturais portuguesas, um mito quase!

Carta de Florbela ao Dr. Guido Batteli de 27-7-1930

“Sou uma céptica que crê em tudo, uma desiludida cheia de ilusões, uma revoltada que aceita, sorridente, todo o mal da vida, uma indiferente a transbordar de ternura. Grave e metódica até à mania, atenta a todas as subtilezas dum raciocínio claro e lúcido, não deixo, no entanto, de ser uma espécie de D. Quixote fêmea a combater moinhos de vento, quimérica e fantástica, sempre enganada e sempre a pedir novas mentiras à vida, num dom de mim própria que não acaba, que não desfalece, que não cansa!”

Florbela Espanca nasceu a 8 de Dezembro de 1894, em Vila Viçosa.

Florbela nasceu fora do casamento de seu pai, cuja mulher não podia ter filhos, e foi criada, pela sua mãe legitima, seu pai e mulher deste.

Teve uma ligação muito forte com seu irmão Apeles, nascido a 10 de Março de 1897, e falecido a 6 de Junho de 1927, que foi um marco na sua vida, foi o seu amparo espiritual.

A 11 de Novembro de 1903, a poetisa começa a desabrochar em Florbela.

Em 1911, a mulher, estudante ainda, encontra o seu primeiro namoro, talvez a única experiência amorosa que passa em sua vida sem deixar sequelas.

Florbela vai lendo, Alexandre Dumas, Camilo Castelo Branco e Guerra Junqueiro, que lhe vão abrindo o percurso de expressão e sensibilidade.

Em 1912, encontra uma paixão que lhe despedaça o seu coração, talvez para sempre. Casa em 1913 pela primeira vez, com um jovem de 20 anos, Alberto de Jesus Silva Moutinho.

Em 1916, participa literariamente no Notícias de Évora. E em carta dirigida à sua confidente Júlia Alves – subdirectora de uma revista, Florbela revela que o casamento se tinha tornado como uma repressão sob a forma da possessão de seu marido,  demasiada, para o seu vasto e lato espirito, que começa a estar combalido e a sua saúde também.

Conta também a Júlia, que tinha mandado alguns dos seus versos a Raul Proença, irmão de um amigo intimo de seu pai, ele iria dazer o prefácio de seu livro, uma espécie de apresentação ao público, que lhe fez algumas anotações, sugestões  e emendas. De relevar, que Florbela não respeitou as emendas, as suas versões permaneceram intactas.

Vai então para Lisboa, e começa a frequentar a Faculdade de Letras.

Florbela tem 23 anos, está debilmente doente, e termina o seu primeiro casamento.

Decide ingressar no Direito, e em 1919, surge uma luz, é publicado o seu livro Mágoas. Em 1920, conhece o que será o seu segundo marido – António José Marques Guimarães Alferes da Guarda Republicana.

Em 1922 continuando a escrita, esta mulher, termina um novo livro de sonetos – Claustro das Quimeras, que será publicado sob o titulo de Soror Saudade, em 1923. Neste livro expõe-se o erotismo da mulher, que de certa forma estilhaça as limitações da ética social burguesa.

Sendo vítima da vida, Florbela, continuava a sua madrasta sina, terminando assim o seu segundo casamento, devido à situação do seu marido – militar – e seus principios, e cujos ciúmes impunha, e Florbela desafiou a sociedade, como mulher casada, em relação ao seu amigo, Dr. Mário Pereira Lage.

Estamos, agora perante o último ciclo da sua vida.

Em 1923, é publicado o citado livro Sóror Saudade, e Mário Lage diagnosta uma colite a Florbela, e em 1923, Florbela junta-se a Mário, comunicando à família o seu segundo fracasso matrimonial, e a sua actual relação com Mário, o que não será aceite, nem pelo seu irmão, que se afastam dela durante dois anos, até ao seu casamento com Mário, em 1925,  mais uma dor que a poetisa sofreu.

Florbela interrompe um pouco a sua escrita e dedica-se a traduções por necessitar de dinheiro.

Mais uma dor se aproxima, estamos em 1927, depois de Florbela ter estado com seu irmão de 1 a 4 de Junho, em Lisboa, no dia 6 do mesmo, o então Tenente Apeles Espanca, sofre um acidente fatal, na queda de um hidroavião, que se suspeitou ser suicidio.

Chega o desespero a Florbela, era o principio do fim, a morte do seu irmão veio apressar a sua, Florbela não mais riu, nunca deixou o luto.

1928 – Cada vez mais doente, com febre, fumando imenso, Florbela, toma consciencia que este seu matrimónio tinha sido para satisfazer apenas a sociedade.

Uma nova Paixão o Dr. Luis Maria Cabral, médico.

Este ano demarca a neurose, a depressão, a morte de seu irmão, o ruir do seu casamento, a paixão que nutre por Luis, dá aso a uma tentativa frustada de suicidio.

1929, passa, a poetisa continua doente e não consegue editar seus livros.  

1930 – Florbela está mesmo à beira da rotura, escreve uma carta ao Dr. Guido, está magra sem forças e insuportavel (autoanálise). Florbela está plena de consciência da sua condição. E diz: “o meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudade...sei lá de quê!” (carta a Guido Battelli).

Florbela está já perto do fim, mas ainda tem mais um romance, desta vez Angelo César um advogado do Porto, o qual se torna seu confidente, estamos em Outubro, e ela tenta de novo o suicidio.

Florbela decide então morrer e confidencia a uma sua amiga que será o seu presente de aniversário, pois irá morrer, no dia seguinte, em que celebrava a data do seu nascimento.

Na noite anterior ao fatidico dia, do seu aniversário,  Florbela diz à criada, que não vai dormir, no quarto de casal, em virtude das insónias. Pede ainda para a não acordarem no dia seguinte.

É encontrada tarde demais, restava um pouco de leite e dois frascos vazios de Veronal! Florbela morrera enfim, durante a noite, deve ter subido aos céus mais ou menos, aquando da hora do seu nascimento, há 36 anos atrás.

Em 1930 é publicado o seu livro de sonetos Charneca em Flor, e Guido Battelle publica Cartas de Florbela Espanca e Juvenilia (poesias inéditas)

Em 1932 é publicado o seu livro de contos As máscaras do destino, nesta sua prosa, revela-se uma sensibilidade própria, que tende a determinar a mundividência.

Em 1949 é inaugurado, no jardim público de Évora um monumento a Florbela, do escultor Diogo de Macedo.

Azinhal Abelho e José Emidio Amaro publicam as cartas de Florbela Espanca, sem data.

Em 1964 – em Maio os restos mortais de Florbela são transladados para o cemitério de Vila Viçosa.

Morre assim a nossa poetisa, que imortalizou sentimentos, amores e desamores, raivas e alegrias, tristezas e muita dor, cuja obra está publicada nos seus sonetos.

Florbela essencialmente sentiu, tem uma trilogia – sentir-pensar-amar, que a eternizará.

Florbela é a jóia portuguesa da poesia portuguesa, jamais será esquecida, foi mulher, amiga, filha, amante, irmã, sentiu, experimentou vários sentimentos distintos, é conhecida actualmente por todo o mundo, e deve-se dar a conhecer esta imensa mulher.

Do seu soneto EU

“sou talvez a visão que Alguém sonhou,

Alguém que veio ao mundo pra me ver

E que nunca na vida me encontrou!”

 

 

Florbela morreu como quem beija!

Aqui fica o seu poema, mais conhecido talvez, já passado a música, pelo grupo Trovante:

 

Ser Poeta

 

 Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

 

 É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

 

 É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…

É condensar o mundo num só grito!

 

E é amar-te, assim, perdidamente…

É seres alma e sangue e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

(Florbela Espanca, «Charneca em Flor», in «Poesia Completa»)

Bibliografia:

Agustina Bessa Luís – a vida e obra de Florbela Espanca (2ª. Edição Dezembro de 1979 - Editora – Arcádia, SARL.

Florbela Espanca – Sonetos – 4ª. Edição – publicações Europa América.

Obras completas de Florbela Espanca Vol I - Poesia – Publicações D. Quixote – Lisboa 1985.

Obras completas de Florbela Espanca Vol II – Poesia – Publicações D. Quixote – Lisboa 1986.

Obras completas de Florbela Espanca Vol III – Contos – Publicações D. Quixote – Lisboa 1985.

Obras completas de Florbela Espanca Vol IV Contos e Diário – Publicações D. Quixote – Lisboa 1985.

 

Ana Cristina

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