"ARS LATINA"
A prova de Latim me preocupava imensamente. Eu posso dizer que estava enloquecendo
tentando analizar sintaticamente as frases e passá-las para a língua
morta, ao mesmo tempo que tentava absorver o seu vocabulário e inclui-lo
no meu dia a dia. Já eram quase duas da manhã quando resolvi
dormir porque estava num prego lascado, porém o sono custou a chegar.
Antes não houvesse dormido.
Em meio a uma nebulosidade onírica, me vi em plena Roma do século
I, em meio a gente de Togas e um intenso tráfego de carroças,
bigas e o pior: gente falando uma língua imcompreensível
mas ligeiramente familiar.
Todos passavam e me olhavam de alto a baixo com curiosidade e risinhos
idiotas. Nunca viram ninguém de tênis, bermuda e camiseta?
Eu tinha em minhas mãos o livro de Latim "Ars Latina". Ri pensando,
que sonho mais idiota. Me belisquei tentando fugir a este pesadelo mas
nada de acordar.
Por estranhas conjuminações psiquicas, eu havia me transportado
no tempo! À minha frente já se aglomerava uma pequena multidão
que começava a atrapalhar o livre tráfego da rua e no intuito
de saudá-los, exclamei: "Ave populum romanorum", ao que eles responderam
como numa missa: "Aveeee".
Droga, eu não tinha mais o que dizer. Folhei o livro em busca de
algo apropriado para a ocasião e disse "Brasilia Terra magna est".
Silvae nostrae magnae sunt. Cassius filius Brasiliae est. Cassius de Lupo
et Viro narrat. E comecei a ler a lição 30 da pág
38. A raposa e o Homem. Foi quando chegaram os soldados distribuindo porradas
em todo mundo.
Tentei sair à francesa mas logo fui agarrado numa gravata e gritei:
"Poeta, poeta", mas não teve jeito. Fui arrastado a uma caladouço
escuro fétido e cheio de gente. Mesmo com toda confusão
eu não desgrudava de meu livro, minha única e possível
saudação.
Meus companheiros de cela tinha um aspecto desagradável mas estavam
calmos e recitando conjuntamente algo como uma oração. De
longe eu ouvia um rumor como quando era dia de jogo no maracanã.
Aquele barulho de torcida soava quando um soldado abriu a porta da cela
e em altos brandos foi nos colocando para fora e nos conduzindo aos empurrões
através de uma mal iluminada galeria . Fui percebendo que os rumores
de uma massa num estádio de futebol aumentava. Pude ver a luz no
fim do túnel. Estávamos no coliseum. Seríamos devorados
por feras. Fomos levados ao centro do estádio e abandonados as pressas
pelos soldados.
Eu não precisava saber latim para imaginar o que aconteceria. De
todos os lados abriram-se grades e saltaram leões e tigres que correram
para nós sedentos de sangue. O tumulto em nosso meio foi geral .
Já os primeiors caiam vítimas das feras e eu .que ficara
sempre escondido atrás de alguém, não podia crer que
morreria vítima do meu medo de uma prova de latim.
As feras já havia matado a todos e me vi cercado por elas que
se aproximavam ameaçadoramente. Eu só podia me defender com
meu livro de latim. Mostrei a elas enquanto fazia caretas de fúria.
Acho que a bela capa do livro de cor laranja as encantou e elas,
talvés já saciadas pela matança anterior, deitaram-se
calmamente. Ouviu-se um "OHHHHHH" de espanto seguido de aplausos frenéticos.
Uma figura que estava cercada de guardas levantou-se e fez uma sinal de
positivo com o polegar para cima, mostrando a todo o estádio o gesto,
que foi imitado pelos demais. Ele me parecia familiar. Ei, era o professor
Horácio! Ele deve ser o Imperador. Como ele estava bem de
toga e louros na cabeça!!!!!
Aproximei-me calmamente da tribuna para não espantar os bichos que
me cercavam, e perguntei: Professor, o que vai cair na prova???
E ele respondeu: Mas você Cássio, não toma vergonha
na cara nem aqui em Roma!
Foi quando acordei...
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