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Entrevista Concedida ao apresentador J� Soares por ocasi�o do lan�amento do
LP a "Panela do Diabo" com Marcelo Nova
J� - Eles cozinham na mesma panela: um � meio bruxo e nasceu h� 10 mil anos, e o outro �
seu companheiro e parceiro. Eu vou chamar Raul Seixas e Marcelo Nova.
E a� Raul, como � que � o neg�cio: voc� � ele ontem ou Marcelo � voc� amanh�?
Raul - (risadas) Eu estou muito satisfeito em trabalhar com Marcelo Nova. � uma pessoa
que tem a mesma metaf�sica que eu.
J� - Quer dizer que cozinham realmente na mesma panela?
Raul - Sim, na mesma panela.
J� - Marcelo, e voc�...� realmente Maluco por Beleza?
Marcelo - Sim, claro. E � coisa gozada porque n�s dois somos de Salvador. A gente n�o
� da turma do dengo, mas somos baianos, somos baianos do outro lado.
Raul - N�o somos da turma do dengo. (risos)
Marcelo - E nos anos 60, eu tinha 14 anos,
Raul devia ter uns 20 e poucos anos, e ele tinha uma banda chamada
Raulzito e os Panteras. E eu ia l� para a primeira fila assistir a
hist�ria. E 20 e tantos anos depois a gente est� cozinhando na mesma
panela.
J� - Quais s�o as caracter�sticas
principais de um Maluco Beleza, hein Raul?
Raul - (risos) Isso foi nos anos 70. Eu era
Maluco Beleza. Hoje em dia eu n�o falo muito, eu penso. Penso mais do que
falo.
J� - Mas voc� acha que quando falava
muito deu problema para voc�... falar muito nos anos
70?
Raul - Deu muito problema para mim. Eu fui
expulso do pa�s.
J� - Em que ano voc� foi expulso?
Raul - 74. Na �poca do Geisel.
J� - E foi pra onde?
Raul - Nova Iorque. Encontrei John Lennon em
Nova Iorque.
J� - E como foi tua barra em Nova Iorque? Como � que era a vida l�?
Raul - Bem, eu estive com John Lennon
quando ele estava separado da Yoko Ono num apartamento que ele
alugou. O apartamento era grande. Eu fui com um cara do
Cruzeiro. O seguran�a dele botou o cara para fora. Eu j�
tinha escrito cartas para ele falando da Sociedade Alternativa, e
foi por este motivo que eu fui posto para fora do pa�s. Queriam
saber quem eram os donos da Sociedade quando era apenas uma m�sica (risos).
Fiquei tr�s dias na casa de Lennon, conversamos
sobre os donos do planeta Terra. As pessoas que fizeram a cabe�a do
Planeta Terra. Jesus Cristo, pessoas ilustres (risos).
J� - Pessoas altamente ilustres, n�?
Raul - Pessoas ilustres... E ele me
perguntou quem � que tinha no Brasil de grande figura. N�s
conversamos sobre Cal�gula, sobre todas essas pessoas incr�veis e,
quando ele perguntou do Brasil, eu n�o tinha ningu�m para dizer! A�
disse Caf� Filho. Aquelas coisas quando a gente fica nervoso n�o
sabe o que dizer (risos)...
J� - Imagine o John Lennon ouvindo
isto... Coofee Filho??? (risos)
Raul - �, eu disse "N�o � nada, n�o".
J� - Raul, em Nova Iorque a barra
chegou a pesar? O neg�cio do lixo. Como � que era esse neg�cio do
lixo que voc� estava contando aqui?
Raul - Ah! do lixo... Tr�s horas da
manh� eu me vi numa viela perdido em Nova Iorque e tinha um palha�o
comendo lixo...
J� - Um palha�o!?!?
Raul - � um palha�o muito bonito, bem
vestido, comendo lixo. E ele me convidou assim (Rul faz um gesto cordial)
para ir comer o lixo com ele. E eu comi o lixo com ele...
(risos)N�o... mas o lixo de Nova Iorque � gostoso!
J� - � um lixo com�vel?
Raul - � um lixo com�vel. (risos)
J� - Voc� lembra o que � que tinha no lixo ou n�o?
Raul - Catchup. (risos)
J� - Muito catchup! Agora, catchup no lixo n�o vira um pouco comida de vampiro, n�o
Raul?
Raul - Naquela �poca eu tinha que ser vampiro mesmo. (risos)
J� - O que pintasse?
Raul - �, o que pintasse tava dando. Eu estava vivendo... sobrevivendo em New
York.
J� - Eu me lembro de voc� fazendo um show, que eu fui assistir no Teatro Teresa Raquel.
Era um show extraordin�rio...
Raul - Em 73, n�?
J� - Foi... 72... 73. Eu sei que tinha um lado muito moleque, muito irreverente. E voc� na
�poca dizia coisas no palco sobre o disfarce do roqueiro que as outras pessoas n�o podiam
dizer fora da m�sica, n�?
Raul - Sim...
J� - Ali�s, neste dia estava comigo meu amigo Paulo Pontes e ele me disse:
"Esse rapaz diz uma por��o de coisas que, se a gente quiser escrever numa pe�a de teatro, na
hora � proibido".
Raul - Eu sempre tive problema com a censura. At� hoje eu tenho 11 m�sicas
censuradas, eles olham minha obra de cima para baixo.
Sacodem para ver se sai alguma coisa.
J� - Mas at� hoje isso continua?
Raul - At� hoje. � uma coisa terr�vel!
J� - E o rock. O rock est� vivo no Brasil? Como est� a situa��o do rock, Raul?
Raul - Para mim o rock'n'roll morreu em 59. Hoje em dia o que existe � um
reflexo de nossa �poca, da nossa cultura.
J� - E como � que voc� chama a m�sica que voc� faz hoje?
Raul - Raulseixismo(risos).
J� - E o Marcelo? O Marcelo Nova est� fazendo o que, Marcelonovismo ou
Raulseixismo?
Marcelo Nova - �, acho que a gente tem umas coisas de identifica��o que j� vem
desde essa �poca que eu comecei a falar. Quer dizer, naquela �poca eu ouvia Beatles,
Rolling Stones, vinha tudo de outro continente, n�? A� eu descobri que existia um tal de
Raulzito e uma banda Os Panteras. Eu vou l� ver, e a� me apareceu esta figura (aponta para Raul)
vestida de couro e de topete. Eu olhei e disse: um dia quero ter uma Banda. Foi esse o
primeiro contato ao vivo.
J� - Voc� queria ter o que? A banda ou o topete?
Marcelo Nova - Os dois bicho... os dois. Tinha aquele neg�cio da cuspida do
chiclete que era esteticamente importante. Naquela �poca era muito importante voc� usar a gola
da camisa para cima e cuspir o chiclete.
J� - Mas por que importante?
Marcelo Nova - Porque o pai da gente n�o fazia isso. O pai da gente tinha a gola
assim (abaixa a gola) e n�o mascava. O mascar era um neg�cio muito complicado. Podia
ser muito arriscado inclusive.
J� - Marcelo, agora que voc� falou este neg�cio de cuspir, eu olhei de repente para voc� e
vi o Bob Cuspe, aquele personagem do Angeli.
Marcelo Nova - Rapaz, sabe que quando eu comecei, durante um certo tempo no Camisa
de V�nus, muita gente fazia esta compara��o.
J� - Raul como � que aconteceu, voc� em Serra Pelada dando autogr�fo?
Raul - Ah rapaz! Na hora do show me deu uma dor de barriga desgra�ada (risos).
Eu estava em Serra Pelada na casa de prostitutas, n�?, que serve para alimentar a popula��o de
garimpeiros dali. Eu fui chamado para l� mesmo.
Me levaram para um buraco para fazer minhas necessidades num buraco. Eu estava defecando e as
pessoas me pedindo autogr�fos com um isqueiro aceso para eu enxergar o buraco(risos).
J� - Que situa��o hein, Raul?!? Agora sobre o novo disco... Vai ter a foto dos dois na
capa, n�?
Raul - Vai ter n�s dois.
J� - E vai chamar A Panela do Diabo, e os dois demoninhos cozinhando naquela panela.
Marcelo Nova - �. N�s fomos tocar no interior de S�o Paulo, e o disco estava em
andamento e n�o tinha nome ainda. A� est�vamos dentro do camarim esperando para subir no
palco, veio uma pessoa com uns panfletos que estavam sendo distribu�dos na entrada, alertando
os jovens do perigo de assistir um show de Raul Seixas e Marcelo Nova porque n�s �ramos a
encarna��o do dem�nio. E fazia uma analogia com textos do Raul, Eu nasci h� 10 mil anos
atr�s...
Raul - Que eu vi Cristo ser crucificado. Eu era o diabo que estava ali no meio.
Marcelo Nova - Pois �, e eu olhei para o Raul e disse: bicho, ta� o nome do disco. Agora,
mais do que nunca, vai se chamar A Panela do Diabo. S�o eles que querem.
J� - E voc�s podem mostrar para a gente alguma coisa do disco novo?
Marcelo Nova - � claro. Est� aqui a Banda Envergadura Moral, que j� acompanhou a
gente em 43 shows.
J� - Ent�o vamos l�: Raul Seixas, Marcelo Nova e a Envergadura
Moral...
Raul e Marcelo cantam Carpinteiro do Universo
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