Vicentinos

 

FREDERICO OZANAN 

- FUNDADOR DA SOCIEDADE DE S. VICENTE DE PAULO -


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No passado dia 8 de Setembro completaram-se cento e cinquenta anos sobre a morte de Ant�nio Frederico Ozanam, fundador principal das Confer�ncias de S�o Vicente de Paulo. Neste per�odo de tempo, a semente que ele e os companheiros lan�aram � terra, no dia 23 de Abril de 1833, em casa de Emanuel Bailly, professor de Filosofia, ao fundar a Confer�ncia da Caridade que, um ano depois, passaria a chamar-se Confer�ncia de S�o Vicente de Paulo, deu frutos muito abundantes. Actualmente os vicentinos est�o espalhados por cento e trinta e oito pa�ses e s�o cerca de um milh�o. Todos exultam de alegria e entoam hinos de louvor, em honra daquele que o Papa Jo�o Paulo II beatificou em Paris, no dia 22 de Agosto de 1997, por ocasi�o da Jornada Mundial da Juventude, apresentando-o aos jovens e a todos os leigos cat�licos, como exemplo e modelo de apostolado laical.
A Confer�ncia Episcopal Portuguesa, na sequ�ncia do que j� fizera, atrav�s do seu Conselho Permanente, por ocasi�o dos 150 anos das Confer�ncias de S. Vicente de Paulo (1), tamb�m agora se associa aos treze mil vicentinos e vicentinas de Portugal, agrupados em mil e cem Confer�ncias, a fim de chamar de novo a aten��o de todo o Povo de Deus para a figura �mpar deste grande ap�stolo da caridade que, aos vinte anos de idade tinha definido um projecto de vida, sustentado por dois pilares: servi�o da verdade e testemunho da caridade.

Tra�os biogr�ficos
2. Frederico Ozanam nasceu em Mil�o, no dia 23 de Abril de 1813. Foi o quinto filho de um conjunto de catorze, dos quais s� quatro sobreviveram. O pai, m�dico dedicado � ci�ncia, � arte e ao trabalho, era homem de f� e com grande amor aos pobres. A m�e era uma crist� activa que se dedicava a cuidar dos doentes. A fam�lia fixou-se em Lyon e Frederico foi aluno do col�gio real, onde a sua f� sofreu fortes abalos. Aos quinze anos passou por uma crise de f�, vencida gra�as � ajuda e amizade do P. Noirot que o aconselhou a equilibrar as reflex�es filos�ficas com o estudo de temas b�blicos e com a ac��o apost�lica.
Aos 18 anos, ultrapassada a crise de f�, deixa Lyon e vai para Paris. Cursa Direito na Sorbonne e segue tamb�m alguns cursos no Col�gio de Fran�a. A par do Direito, �rea em que obteria o grau de Doutor em 1836, tamb�m se interessa pela Literatura, ramo em que se licenciou no ano de 1835 e lhe permitiu o contacto com grandes figuras da �poca, Chateaubriand, Montalembert, Lamartine e outros autores de renome, que defenderam o cristianismo da cr�tica racionalista.
Regressado a Lyon, a� faz uma experi�ncia profissional como jurista, ajudando a m�e, j� vi�va, e o irm�o mais novo. Prossegue a sua actividade apost�lica como presidente da Confer�ncia Vicentina local. Mas desgostoso com a justi�a, que considera �rodeada de imund�cies�, volta para Paris, retoma os estudos de literatura e elabora uma tese sobre Dante e a filosofia cat�lica do s�culo XIII, com a qual obt�m o grau de Doutor em Letras. Aceita a supl�ncia da Cadeira de Literatura Estrangeira, da qual viria a ser titular.
Desfeitas as d�vidas sobre a sua voca��o � vida religiosa, com a ajuda do seu grande amigo o P. Noirot, contraiu matrim�nio em 1841, tendo-lhe Deus concedido o dom de uma filha de nome Maria.
Acad�mico brilhante e pai de fam�lia dedicado, ainda tinha tempo para receber diariamente, em casa, alguns estudantes, para fazer confer�ncias no c�rculo cat�lico, para visitar os pobres e, claro, para se dedicar �s Confer�ncias de S. Vicente de Paulo, como membro do Conselho Geral a partir de 1840 e Vice-Presidente, a partir de 1844.
A doen�a grave que o afectou durante v�rios anos obrigou-o a abandonar a doc�ncia, um ano antes da morte prematura, que o atingiu em Marselha, no dia 8 de Setembro de 1853, em atitude de total abandono nas m�os de Deus. O seu t�mulo encontra-se na cripta da igreja dos Carmelitas, em Paris.

Acad�mico brilhante e intelectual crist�o
3. Os estudos de Paris forjaram nele um homem corajoso e entusiasta que completa a forma��o acad�mica com outras investiga��es no �mbito dos seus m�ltiplos interesses intelectuais, a que junta uma vasta rede de contactos pessoais e de iniciativas de apostolado e de caridade. Levado pelo zelo apost�lico, pediu ao Arcebispo de Paris que abrisse a c�tedra de Notre Dame a oradores competentes que pudessem ser �o contra-peso das gl�rias do erro�, pedido a que este acedeu, com agrado, encarregando dessa miss�o o c�lebre pregador Lacordaire.
Desde cedo adquire not�vel capacidade de discernimento dos esp�ritos e das correntes de pensamento. Trabalha sempre guiado pelo nobre ideal de �servir a verdade�, na Igreja, tentando dar corpo a um grandioso projecto de Hist�ria das Religi�es, no qual trabalhou com determina��o, durante toda a sua curta vida.
As suas Obras Completas, editadas em oito volumes, foram, posteriormente, acrescidas de mais tr�s e tiveram v�rias reedi��es no s�culo XIX. Desenvolvem-se � volta de duas ideias-chave: o trabalho apolog�tico e o testemunho pessoal. Nelas se incluem mais de mil e quinhentas cartas.
Como �mission�rio da f� junto da ci�ncia e da sociedade�, inaugura na Sorbonne a tradi��o dos universit�rios cat�licos, posi��o rara e inc�moda ao tempo; afirma-se como precursor do catolicismo social, mais tarde consagrado por Le�o XIII na enc�clica Rerum Novarum; garante lugar na sociedade aos intelectuais crist�os. Perante a pol�mica entre a ci�ncia e a f�, toma uma atitude conciliadora para n�o comprometer �a santidade da causa com a viol�ncia dos meios�. Para ele o mais importante era libertar as verdades fundamentais do erro, que as envolva, e dar visibilidade � pedra angular do mundo novo no qual o homem possa saciar �a sede de infinito� que o acicata, pondo em evid�ncia a ac��o ben�fica da Igreja e o papel civilizacional do cristianismo.
Homem franzino, modesto e s�bio, sincero e desinteressado, capaz de se inflamar perante um audit�rio � igualmente bondoso e sabe desculpar o erro. Firme na f� que alimenta na ora��o, tem consci�ncia de que o testemunho evang�lico comporta mais poder de convic��o do que qualquer tipo de argumenta��o apolog�tica. Por isso, ao brilho e � arg�cia da sua argumenta��o de acad�mico, junta a pr�tica da sua ac��o benfazeja para com os pobres, alicer�ada nas palavras de Jesus Cristo que se esfor�a por cumprir com rigor: �o que fizerdes aos outros � a Mim que o fazeis� (Mt 25,40). Com raz�o, o seu exemplo de vida � apontado ainda hoje, aos jovens e intelectuais crist�os, como forte interpela��o � coragem para testemunhar a f� pela palavra e pelo compromisso efectivo com os mais carenciados da nossa sociedade.

Ap�stolo da caridade
4. Frederico Ozanam aprendeu a amar os pobres no ambiente familiar e tinha por eles um amor entranhado. Considerava mesmo ser essa a sua voca��o, enraizada no amor de Deus que nos amou primeiro para que n�s tamb�m nos amemos uns aos outros (1Jo 4,11). Ia at� ao ponto de afirmar que n�o basta falar da caridade e da miss�o da Igreja, porque � preciso traduzir o servi�o dos pobres em compromisso efectivo. E foi este amor entranhado aos necessitados, que, um dia, ao ser espica�ado pelo desafio provocador de um colega de estudos - �v�s, que vos orgulhais de ser cat�licos, que fazeis?� - levou Frederico Ozanam e os seus companheiros a fundarem a Confer�ncia da Caridade, mais tarde chamada Confer�ncia de S. Vicente de Paulo, por influ�ncia da Irm� Ros�lia Rendu, vicentina, que, no �quartier Mouffetard�, onde era bem conhecida de todos os pobres, a quem tratava com especial estima e carinho, os ensinou a contactar com eles e a am�-los, a exemplo de S. Vicente de Paulo.
Ozanam tinha agora ao seu dispor um instrumento e uma metodologia para concretizar o sonho grandioso de �envolver o mundo numa rede de caridade�. A partir da�, dedicou-se de alma e cora��o a promover as Confer�ncias que, em 1835, tiveram o primeiro Regulamento aprovado; dez anos depois, j� a Santa S� confirmava o Regulamento Mundial. Ozanam era incans�vel na dedica��o aos pobres. Estuda a situa��o em que vivem e compromete-se com eles para os ajudar a crescer em humanidade. O amor aos pobres tornou-se para ele numa fonte de conhecimento (1Jo 4,12-13). E o conhecimento adquirido pelo amor foi a chave da sua vida espiritual. Pela caridade combatia as injusti�as, indo mesmo at� ao compromisso pol�tico, convicto de que nenhuma sociedade pode aceitar a mis�ria como uma fatalidade sem comprometer a sua honorabilidade.
Querendo amar a Deus e n�o sabendo faz�-lo de outro modo, amava-O nos pobres, a quem considerava como senhores, usando a express�o: �tu �s o meu senhor�. Deixou-nos, verdadeiramente, um testemunho de vida santa.

Reavivar o carisma vicentino
5. Movidos pela solicitude pastoral, antes de concluir, queremos expressar o nosso apoio e saudar com paternal estima os milhares de vicentinos e vicentinas portugueses que, a exemplo do seu Fundador, organizados em grupos de ac��o, com fidelidade, procuram aprofundar o sentido da f� na ora��o, no estudo da Palavra de Deus e na visita domicili�ria ao pobre, esfor�ando-se por dar testemunho da sua f� no exerc�cio permanente da caridade, junto dos doentes, dos reclusos, dos idosos, das crian�as e de toda a esp�cie de carenciados, sem olhar nem � idade, nem � condi��o social, nem � religi�o. A �nica raz�o que os move � seguir o exemplo de Cristo que lavou os p�s aos Ap�stolos e disse: �dei-vos o exemplo para que, como eu fiz, fa�ais v�s tamb�m� (Jo 13,15). Confiamos que a comemora��o dos 150 anos da morte de Ozanam seja uma boa oportunidade para reavivar o carisma vicentino e atrair �s Confer�ncias de S. Vicente de Paulo novos membros dotados do ardor caritativo do jovem estudante de Paris e do talento intelectual do acad�mico da Sorbonne.
No mundo actual, a pobreza continua a ser um grave problema social, dif�cil de controlar. Nem o avan�o da t�cnica nem as muta��es culturais conseguiram control�-la. Como ontem ainda hoje a caridade, carisma fundacional dos vicentinos, se afirma como sinal prof�tico do compromisso crist�o. E ningu�m tem o direito de se arrogar, com verdade, o t�tulo de crist�o se n�o p�e em pr�tica o dever sagrado da caridade para com os mais carenciados, que continuam � espera de quem lhes reconhe�a a dignidade original de seres humanos, os trate como irm�os e filhos do mesmo Pai que � Deus e com eles reparta generosamente os bens materiais e espirituais.
N�s, Bispos de Portugal, a exemplo do que fez o Papa Jo�o Paulo II, no dia da beatifica��o de Frederico Ozanam, convidamos todos os leigos crist�os, e particularmente os jovens, a empenharem-se, com imagina��o e coragem, na constru��o de uma sociedade mais justa e mais fraterna.
Aos vicentinos e vicentinas exortamos a que, pela palavra e pelo exemplo de vida, sejam, junto dos pobres, semente de esperan�a, sal que d� sabor � vida, fermento que leveda as almas, luz da aurora dos novos tempos e pren�ncio da bem-aventuran�a evang�lica.

F�tima, 13 de Novembro de 2003

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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