La Luna



Angelov e Sarah entram correndo na cabana abandonada e trancam a porta. Ele sabia que aquele lugar seria seguro apenas por pouco tempo, mas estavam sem opções. Depressa, acende um antigo candelabro gótico disposto sobre a mesa para que saíssem da escuridão total, e as primeiras formas vão aparecendo: um velho sofá coberto por um lençol bege com aranhas de pernas finas pairando acima dele, caixas de papelão amontoadas num dos cantos da sala, produzindo sombras fantasmagóricas nas paredes alvas. Encostada a porta desde que chegara, com a sensação de estar vivendo um pesadelo, Sarah protesta:

-Credo! Esse lugar dá calafrios!... Vai me contar do que estamos fugindo?



Após acender a última vela do candelabro, Angelov se aproxima sem pressa. O piso de tábuas soltas range a cada passo dele, até o momento em que pára a menos de um metro de Sarah e pede num tom baixo:

-Silêncio. Quero ouvir os sons que vem de fora.

-Que sons? Não reparou na falta de sons lá fora? Nem mesmo dos grilos... - ela faz uma pausa, depois continua no mesmo tom que o dele. - Sei o que vi naquele bosque, parecia um lobo, mas era do tamanho de um homem. E, sei que você também viu algo... O que era aquilo?

Ao invés de responder, ele abaixa a cabeça, checando o número de balas de prata restantes no carregador de sua arma: só tinha uma. Achou melhor não dizer nada a Sarah, nada sobre as balas, nem sobre o que havia na floresta. Queria evitar assustá-la. Então, pergunta algo ao qual já suspeitava:

-Não é da cidade, é?

Jogando o capacete sobre o sofá, Sarah o encara e responde:

-Já disse que não. Estou perdida! Tentava chegar em Berkshire cortando caminho pelo bosque e de repente, estou aqui com você.

Sem lhe dar atenção, ele se abaixa, tirando uma pistola da barra da calça. Em seguida, levanta e, estendendo a pistola a Sarah, avisa:

-Vai precisar de uma dessas. Sabe usar?

-Só vou tocar nisso depois que disser a verdade: O que está atrás de nós?

Misterioso desde o princípio, Angelov sabia que lhe devia uma explicação. Ainda que fosse fantástica e absurda demais para se acreditar:

-É conhecido pelos gregos como lykanthropos, também chamado de werewolf, e o mais comum: LOBISOMEM – ele revela, abrindo a palma de sua mão e lhe entregando a pistola.

-O QUÊ??? - indaga Sarah. - Lobisomens não existem! Fazem parte de uma lenda que remota a grécia antiga. Isso é... Irreal!

Pensando ter ouvido qualquer ruído, Angelov se afasta, caminhando pela cabana bem devagar... Uma aranha medonha desce do teto em seu fio de teia brilhante e semi-transparente, passando a meio centímetro das costas de Angelov. Mas, ele nem nota, tinha os olhos voltados para as paredes, como se quisesse enxergar através delas, ou quem sabe, “ouvir” através delas...



Enquanto isso, Sarah permanecia colada a porta, sussurrando com seus botões:

-Não dê ouvidos a ele, Sarah Flame! É só um cara bonito, que usa uma sobrecapa preta, e com certeza não bate bem da cabeça...

Angelov vira para ela espantado. - Disse “Flame”?

Sarah perde a fala por um segundo. Como ele poderia ter ouvido se havia falado tão baixinho e ainda mais, estando de costas e distante? Confusa, sem saber direito o que pensar, deduziu que ele devia ter uma audição extremamente boa. Fechando os olhos por um segundo, ela se limita a responder:

-É o meu sobrenome... Algum problema?

Para sua surpresa, o forasteiro se ajoelha diante dela, como quem se ajoelha diante de uma rainha e diz:

-Segundo uma profecia local, você é descendente direta de uma antiga família de caçadores de lobisomens... Esperei sua vinda durante anos – ele levanta e se aproxima, olhando em seus olhos. - Seja bem vinda à luta contra o mal.

Sarah sorri por um instante, até notar que ele não parecia estar brincando:

-Há um engano nisso tudo. Sou uma simples redatora, vim passar umas férias nessa região, relaxar. Deve estar me confundindo com alguém de sobrenome parecido...

-Psiu! - ele a interrompe e num segundo, aponta sua arma para cima. - Estão aqui!!!

Nisso, ambos ouvem um estalo vindo do teto... Um par de garras longas e vorazes destroem uma parte do telhado como papelão. Era o lobisomem de novo, ávido por sangue... E, pelo barulho que vinha da extremidade oposta do telhado, ele não estava sozinho...



Parte4


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