“Ha muitos milagres, mas não milagre mais
estranho do que o Homem...
O Homem que luta com a Terra Incansável e
Imortal...”
Sófocles.
Quando o
colonizador português subiu a Serra, demandando o sertão do Rio Preto, após a exploração penosa e demorada do vale
do Paraíba, surgia com êle, o pioneiro da Civilização, de machado em punho, na
sua gloriosa missão de combate a selvageria, de abertura de estradas de
penetração e de formaçao de núcleos de trabalho intenso, com que se inaugurava
a nova fase de iniciativas que nos levariam a grandeza econoinica da zona
montanhosa fluminense.
O ouro das
Minas Gerais que tanto atraia o homem, Mantiqueira acima, fê-lo com que,
antes, - ao familiarizar-se com os índios, então embrenhados no vasto sertão
rio pretano - aí fundasse a aldeia dos índios de Valença e nela implantasse o
regime do amor ao solo, em favor da sobrevivência humana; fundava-se o núcleo
agrícola constituido de colonos
adestrados, cujo espírito de arrojo e combatividade viera transformar a região,
antes a mata densa e quase impenetrável, num centro espetacularmente produtor,
que animava a segunda metade do seculo XVIII, excelentemente vivido por
fascinantes povoadores que se entusiasmavam ante a dadivosa natureza de que
eram únicos donos os seus irmãos, considerados selvagens.
A luta da
conquista geográfica fora tremenda, mas o conquistador, a cada passo, na
derrubada da multissecular e frondosa mataria, surgia, aqui e acolá, dominante
soberbo, vencendo terras desconhecidas para nelas implantar o março da
Civilização. Quanto sacrifício humano dedicado, palmo a palmo, nas jornadas das
encostas das montanhas, por vezes surpreendidas com horrorosos pantanais, no
seio das quais, o homem, sem medo e altivo, ia transpondo as misteriosas e
impressionantes florestas das terras que, um dia, se chamariam Valença.
O
colonizador, impávido e lutador, sobe e desce os monumentais cerros,
embrenhando-se, cada vez mais, pelas matas a dentro, onde a luz do sol não
penetrava, abrindo picadas, na ânsia de novas conquistas em terras ubérrimas,
apezar da luta atroz e constante que lhe oferece o selvagem arredio. O esforço
humano era impressionante. Nada detinha o homem na arrancada civilizadora. A
catequese entre ou chamados
índios “Coroados” se desdobrava com fraternidade e carinho. Os colonos se uniam
aos indigenas e a terra se abria toda em flores e frutos, graças as mãos
abençoadas de quem plantara ali, a venturosa semente da iniciativa agrária.
O colono,
expandindo estusiasmo, com o seu coração cheio de esperanças sempre renovadas,
construira, com segurança, o seu “habitat”, onde a sombra da cruz de Cristo,
pontificariam, um dia, a nobreza e o amor pela concretização da Civilização.
O homem
civilizado tem ai o seu destino: e o desbravador irnpávido que rasga a
vegetaçao cerrada, deixando com a queimada que fica atraz, a imensidade de
troncos caídos, enegrecendo o chão, para abertura de novos caminhos onde a
tentação do desconhecido o impulsiona a novos avanços, a novas conquistas, a
novas aventuras.
O serrano,
sem temor, palmilha, colina a colina, e dá-nos o essencial de sua edificante
realização: o belo exemplo de uma energia férrea. O desbravador, tenaz e
invicto, desafia a natureza e domina a selva bravia, aclimatando-se num meio
tao adverso, que o arrasta a sua propria redenção.
Ao solo
dadivoso apega-se o homem civilizado e nêle escreve uma das mais brilhantes
páginas da nossa história rural: “na mais espetacular revolução agrária”,
funda-se a Aldeia dos índios de Valença. O homem civilizado aí se detém. A sua
marcha é suspensa para que, no sertão valenciano, seja ele escrita nas
brilhantes páginas do amor às conquistas, mais tarde alcandorada pelos feitos
esplendorosos das “casas grandes” de onde viera a elite agrária encarnando a
grandesa da terra fluminense.
***
Tudo mudara
no Cêrro da Coroa e suas imediações: a terra, outrora coberta de frondosas
árvores de gigantescos troncos, estava, agora, completamente nua; aqui e ali,
sem alinhamento, espalhavam-se algumas tabas dos Coroados.
Uma
capelinha, construida pelos índios, surgia no topo da colina: coberta de sapé e
cercada de palmitos, atestava o sacrifício do venerando padre Manuel Gomes
Leal, na penosa catequese da indiada, agora dócil para com os brancos e sempre
obediente ao indômito cacique Tanguára, orgulhoso amigo do rico fazendeiro José
Rodrigues da Cruz, fundador da Aldeia de Valença.
Fundada a
Aldeia pelo fazendeiro catequista, a cuja inspiração se desenvolvera aquela
gente, um franco progresso, cada vez mais crescente, sacudia e engrandecia todo
o sertão.
Nos morros e
nos vales onde a derrubada se fizera para dar lugar a civilização, agora
erguia-se um centro agrário de valor e onde as plantaçoes eram ativadas e novas
residências de colonos se faziam num crescendo admirável.
A terra
quente e úmida, arrepiada pela mão do homem, agasalhava a semente da fartura:
tinha o aspecto de vida nova em terra nova e promissora.
Da redondeza
próxima, ainda semi-coberta de mata impenetrável, vinha o ar leve e perfumoso,
cheirando a resina de novos troncos recém-tombados e sôbre a região habitada
desciam os raios do sol vivificador, numa claridade que estonteava. Aí, ao
calor solar, as plantações de milho e de mandioca cresciam e enriqueciam os
campos e as serras às margens do rio das Flores, à pequena distância, Coroados
e portuguêses, em comunhão de ideias, implantavam a felicidade de viver.
Mulas
carregadas de jacás e samburás repletos, seguiam seus destinos comerciais; a
gente branca transformava com os nativos, em pequenos celeiros, os pequenos
campos da região onde o rio, em dias de enchente, alagava e fertilizava o solo
bendito.
E à margem
dos caminhos que o desbravador Inácio de Souza Werneck rasgara em demanda à
Corte, desdobrava-se aos olhos dos viandantes o tapete de verduras e de plantas
de frutos saborosos.
No povoado,
no alto do cerro, de onde o cacique dominava todo o seu reduto, dando-lhe
ordens de combate em defeza do solo, toda a população cristã se jubilava com a
chegada do padre Gomes Leal que nem sempre podia vir até ali para celebrar a
missa domirgueira, pois a caminhada, em lombo de burro, por ínvios caminhos, entre
a Aldeia de Valença e o
arraial de Pati do Alferes, era longa e penosa... Ao surgir na povoaçao o
sacerdote era, para os indigenas, um dia de grande festa e todos os fiéis da
região prestavam, a sombra da Cruz, o preito de sua homenagem àquêle que lhes
mostrava o caminho para a Luz e para a Verdade.
Ao chamamento
do velho padre ninguém podia faltar, sob pena de um grande pecado, porque,
dizia o reverendo, era na fortaleza do trabalho, da fé e da doce paz
do espírito que se encontrava o pão de cada dia.