Aldeia de Valença e Sua Fundação 

 

 


Revista Alvorada, setembro de 1957

 

        Nos “sertoens” do rio Prêto, a mata era densa e frondosa, impenetrável e imensa. Diante de tão exuberante vegetação, de proporções gigan­tescas que se erguia, com imponência, entre os rios Paraíba e Prêto, a natureza era, ali, a exaltação festiva de tanta riqueza invejável e atraen­te do seu solo admirável.

 

Por ali havia de passar um dia a caravana da Civilização. A cobiça do homem branco, que vinha do litoral, Mantiqueira-acima, em busca do ouro das Minas Gerais, — isto é, da fortuna preciosa e abundante, na conquista de terras ainda inexploradas, — fazia-o transpor imensas bar­reiras geográficas que desafiavam os exploradores a enfrentar, nas pri­meiras décadas do século XIX o desconhecido, para dominar, por fim, em favor da fundaçáo de uma nova pátria, o magnífico vale do Paraíba, para onde convergiram os felizes donos de capitanias hereditárlas...

 

A conquista não lhes era muito fácil, pois as barreiras sempre eminen­tes que lhes ofereciam as serras do Mar e da Mantiqueira, teriam um dia de ser transpostas em nome do Progresso. Era preciso vencer, antes, as muralhas orográficas, pois o homem civilizado tinha a certeza dos grandes dias de ventura e de grandeza, e certeza também tinha de ir lutar contra perigosas féras e de bater-se contra diversas tribos nómades espalhadas por todo o Sertão, as quais constitulam sérios obstáculos aos civilizadores, que se originavam das baixadas infindas.

 

Mas o ideal de riqueza dos senhores da Guanaba­ra era mais potente e desafiava qualquer entrave ante o desejo da imediata posse de terras desco­nhecidas.

 

A serra do Mar — êsse formidável impecilho a penetração do homem branco tornara-se acessível aos invasores pela sua intrepidez, não obstante a mata misteriosa que era “um colossal obstáculo iso­lando as vilas marítimas da nascente civilização mi­neira, encarcerada no planalto”. A Serra é a sedu­ção que impressiona e o ouro é a atração inequívoca que desperta os espíritos para as grandes jornadas.

 

O  homem civilizado, extasiado ante a melodia do cenário e a riqueza de tão suntuosa vegetação, onde se deslumbravam as cenas edificantes das majestosas e acolhedoras florestas, não recua, nem vacila e põe-se em contacto com a fauna impressionante, tão be­lamente festejada por Saint Hilaire e, depois, com os seres viventes do sertão desconhecido, de cujo solo, um dia, haveria de surgir o sertão de Valença — rincão brasílico que, por fim, seduziria o irrequieto es­trangelro, frente à soberania de suas ambicionadas riquezas e de seus reais anhelos.

 

A marcha triunfal da Civilização em seu alto cometimento, fêz nascer, sob os céus da Província do Rio de Janeiro, a futurosa aldeia de Valença, que, aos encantos do poema cósmico das magnas fôrças dos grandes destinos, se tornou a predestinada região de trabalho e cultura.

 

Viviam no sertão de Valença, entre os rios Paraiba ePrêto, mesmo antes de 1789, os chamados índios “Coroados”, selvagens então duramente perseguidos pelos seus temíveis parentes denominados “Puris”, que os afugentavam em luta de morte, provocando constantes desordens, ao infestarem, com depreda­ções, as fazendas das vizinhas freguesias de Sacra Família do Tinguá, Conceição do Patí do Alferes e São Pedro e São Paulo da Paraíba Velha, cujos habitantes viviam sobressaltados. Os índios “Coroa­dos”, que constituiam de fato a aldeia de Valença, eram pacíflcos e inclinados ao trabalho. Esses pri­meiros habitantes do sertão de Valença formavam o tronco “Tapuia”, que, por sua vez, se dividia em três ramos, a saber: “Coroados”, subdivididos em “Purus” (propriamente em Valença) e Araris”, instalados em Conservatória, os quais eram em pequeno número e muito mesclados, dóceis e acessíveis ao trabalho, geralmente espalhados pelo vale do Paraíba; e “Puris” (com i final), em grande número e muito mesclados, espalhados pelo vale do Paraíba, os quais se subdvidiam nos grupos “Tampruns” e “Sazaricons”, êstes em pequenos bandos existentes aqui e ali; e, por fim, o ramo “Caiapós”, constituído do grupo “Coropós”, em pequeno número e pouco mesclado, predominando na aldeia da Pedra (atual Itaocara).

 

Os índios “Coroados” eram assim chamados por usarem o corte de cabelo à maneira de uma corôa, a semelhança dos sacerdotes. Os “Coroados” (“Pu­rus” e “Ararís”), aquêles de estatura média, morenos e organizados, êstes quase brancos, bem feito de corpo, guerreiros, eram uns e outros, de belas feições, já vindos do litoral um tanto civilizados.

 

Debret, falando nos selvícolas do Paraíba acima, assim escreve: “Confundem-se êles (os “Coroados”) muitas vêzes com os “Coropós” e essas duas nações semelhantes, fragmentos da grande raça dos “Ta­puios”, unem-se para fazer guerra aos “Puris” que os perseguem sem cessar, embora sejam de origem comum. Todos os “Coropós” e a maior parte dos “Coroados” são civilizados”. (“Viagem Pitoresca” - págs. 31 e 32 — tomo 1). Debret cita ainda as tribos selvagens mestiças chamadas “Tampruns” e “Sazaricons”, igualmente chamados “Coroados”.

 

Há algum equívoco de certos escritores que con­fundem os ‘Puris”, inferiores aos seus parentes, com os “Coropós” e ‘Coroados”. Aos primeiros tempos do chamado Sertão, entre os rios Paraíba e Prêto, os “Puris”, errantes e solitários, se espalhavam por todo o vale do Paraíba. Dai a possibilidade de serem con­fundidos com os “Purus” e “Ararís” (“Coroados”) e “Coropós” e até mesmo, como era natural, se fizes­sem aqueles passar por êstes, dada a sua flagrante semelhança.

 

O testemunho do historiador Príncipe Maximi­liano, que manteve contáto direto com os “Puris”, é evidente quando nos relata em sua “Viagem ao Bra­sil” (edição Brasiliana), págs. 99 a 110: “(....) En­trando, além dessas planuras, as margens do “Paraí­ba” são ainda habitadas por aborígenes, em parte civilizados (. ..) Sucedem-se, à beira do rio, as gran­des fazendas (...) Os habitantes indígenas perten­cem às tribos dos “Coroados”, “Coropós” e “Puris”, esta ainda selvagem e vagueante pelas vastas solidões situadas entre o mar e a margem norte do rio Pa­raíba (...) Vivem atualmente em paz, mas, rio acima, na aldeia da Pedra, estiveram, havia pouco tempo, em guerra com os “Coroados” (...) Do cume sobran­ceiro das montanhas, divisam-se, em baixo, vales um­brosos interceptando o ermo agreste, cujo silêncio só de raro em raro é quebrado pela passada do “Puri” saqueador e solitário. (...) Aquele grupo de gente nua e escura constituía um espetáculo dos mais interessantes e singulares­. (...) Um dos homens se destacava pela fisionomia. Pareceu-nos tão formidável que, todos nós, sem exceção, confessamos que não gostaríamos de encontrá-lo, sozinhos e desarmados, num local solitário. (...) Os portuguêses do “Paraíba” afirmam, sem discrepância, que os “Puris” (a palavra puri quer dizer antropófago) comem a carne dos inimigos mortos, e realmente parece haver algu­ma verdade nessa afirmativa”.

 

Por outro lado, Príncipe Maximiliano apresenta-nos oe “Coroados” e os “Coropós” da seguinte ma­neira: “Cultivam mandioca, milho, batatas, abóboras etc. (...) Achamos êsse povo ainda bastante puro, de tez morena, fisionomia rlgorosamente nacional, compleição robusta e cabelos negros”.

 

Saint Hilaire, avistando-se com os indios “Coroa­dos”, na fazenda de “Ubá”, achou-os feios, imundos, grosseiros, acanhados e imbecis. Entretanto, o his­toriador Oliveira Viana nos relata em “Evolução do Povo Brasileiro que os lndios “Puris” e “Araris”, pintados por Rugendas, ao contrário de Saint Hilaire, eram de rara beleza, principalmente a índia “Puru”.

 

A respeito dos índios de Valença, antes sem habi­tação permanente, pois eram enxotados pelos portu­guêses que se dirigiam para Minas em busca de for­tunas, já se iam, por fim, se acostumando com as ma­neiras do homem branco que lhes transmitiam todos os bons e maus costumes. Os “Coroados” não tinham leis que regularizassem sua existência. Eram criados ao sabor das leis da natureza, apesar de dotados de caráter nobre e varonil. Mansos, não obstante sua rudeza, serviam com fidelidade, principalmente àque­les que os distinguiam com dádivas de adornos diversas, e de aguardente que tanto os alegravam. Por causa de uma boa dose de cachaça por tudo se sa­crificavam. Daí a facilidade com que os portuguê­ses os atraiam para a lavoura.

 

Vestiam-se, cobrindo-se muitos dêles, com tangas de couro, presas, por um cordel, aos ombros. Alguns cobriam-se com um tecido de penas de aves, quase sempre com a cabeça coberta de plumas de côres vi­vas, variadas, principalmente nas guerras e nas suas festividades características. Outros usavam, como vestes, as peles de animais diversos. A sua indumentária, em certas ocasiões, era simplesmente extrava­gante: o chefe dod “Coroados” usava vestes de penas de côres amarela e vermelha — côres de sua predi­leção. Entre os índios não havia recato nem pudor, principalmente entre os “Puris”. As índias dos gru­pos dos “Coroados” às vézes se mostravam recatadas, não obstante a sua licenciosidade natural.

 

A sua alimentação era constituida de caça e co­miam carne assada, extremamente tostada. Os sel­vagens tinham grande apetite pelas frutas, princi­palmente pelas raízes. O inhâme, sob a forma de farinha, cozido na água, ou assado na brasa. O aipim, também conhecido por mandioca mansa, era co­mido cru, como alimento predileto dos primeiros ha­bitantes da terra valenciana. Como utensílio, usa­vam a cuia e a combuca para comer e beber agua.

 

Os ‘Coroados” do sertão de Valença eram exímios fabricantes de objetos de cerâmica. Faziam com ha­bilidade incomum arcos e flexas. Fabricavam com os galhos novos da embauba, suas rêdes, chegando mesmo a fazerem camisas, de aspecto grosseiro, para uso dos portugueses que lh’as encomendavam em troca de bebidas.

 

Uma de suas principais ferramentas era o ma­chado de pedra com que preparavam as várias espé­cies de embiras na confecção de suas rêdes.

 

Entre os “Coroados” (“Purus” e “Araris”), as fa­mílias elegiam seus chefes. Eram os caciques cabeça única de govêrno. Os indígenas eram fiéis ao chefe. Tributavam-lhe muito carinho e respeito, obedecen­do-o cègamente nas lutas contra os “Puris”. O “cacicado” passava de pai a filho, herdando-o o prl­mogênito. Os índios (“Purus” e “Araris”), que se internavam nas matas do sertão do rio Prêto eram dóceis; entretanto, quando em luta renhida com os seus provocadores, os inimigos “Puris”, arriscavam a vida pelo seu chefe que, os empolgava, com a sua apresentação individual e começavam e terminavam o combate com tal algazarra, que o ambiente se tor­nava insuportável, confuso e ensurdecedor... O início da luta era aturdindo o inimigo, por maneiras diversas, para entorpecer-lhe os sentidos no momen­to crítico das batalhas. A sua preocupação era fazer, antes de tudo, a guerra de nervos. Os vencedores desfrutavam os despojos. Os prisioneiros tinham suas cabeças decepadas, que eram conduzidas, como troféus, na ponta de uma lança. Era hábito dos “Co­roados” enterrar — assim nos revela Saint Hilafre — os seus chefes, de uma maneira bastante original: os despojos mortais dos caciques venerados eram enfei­xados dentro de um grande pote de barro, que era, então, enterrado profundamente. à sombra de fron­dosa árvore.

 

                                                                          ***

O encontro do homem branco com os indígenas do sertão do rio Prêto devia fazer-se imediatamen­te. Era inevitável. Assim o exigiam a Civilização e o Progresso. A luta pelo desenvolvimento das terras descobertas se aliava à conquista do ouro. Do litoral demandavam os exploradores as Iongínquas Minas Gerais, em suas duras marchas, subindo a serra do Mar, na ânsia de atingir a imponente Mantiqueira.

 

Era preciso que o desbravador estrangeiro, animado de coragem e desprendimento pela vida, com o âni­mo forte ao enfrentar as impressionantes condições geográficas, palmilhasse com segurança o solo des­conhecido e devastasse as matas espessas que cobriam todo o vale do Paraíba. O objetivo de aproximar as alterosas à Guanabara tinha de ser efetivado, custas­se o que custasse.

 

Com a Invasão do homem civilizado, buscando a fortuna nos rincões da pátria brasileira, os selva­gens eram postos em fuga, amendrontados e humi­lhados, e o rio Paraíba fôra o único caminho para seu refúgio, penetrando nas florestas da terra flumi­nense, por onde se fazia a entrada no Sertão. Impu­nha-se a abertura de caminhos e de picadas. A der­rubada de matas era o primeiro passo gigantesco. Escalar montanhas e serras seria a jornada da coragem e do denodo.

 

E a multidão guanabarina galga a Serra e transpõe montanhas, dando-lhes logo as mãos mineiros e paulistas, na ajuda de descobertas e de domínios, onde a retalhação do solo permitiria a distribuição de sesmarias, cujo povoamento, em futuro não remo­to, constituiria a fonte inesgotável das imensas ri­quezas de um grande Império.

 

No imensurável sertão do rio Prêto, onde a luta entre “Coroados” (“Purus” e “Araris”) e os temíveis “Puris”, era renhida e mortífera, surgira, um dia, por ordem do Vice-Rei Dom Luis de Vasconcelos e Souza, o capitão das Ordenanças, Inácio de Sousa Werneck, o qual, por volta de 1789, viera rebatê-los em suas próprias aldeias”, segundo nos informa o historiador monsenhor Pizarro. Inácio de Sousa Wer­neck era o destemido desbravador de outras plagas que, na sua missão arriscada, se dirigia para o Rio de Janeiro, abrindo estradas e abrandando a indiada bravia. Ia, pois, ao encontro da “Civilização que vi­nha do fundo da Guanabara”, e penetrando nas ma­tas entre os rios Prêto e Paraíba, levou-a à Sacra Família do Tinguá, Conceição do Alferes, Conceição da Paraíba Velha e Serra da Estrêla.

 

O intrépido capitão pondo-se em imediato con­tacto com os indígenas do vale do Paraíba, conquis­tou-lhes logo a simpatia e a confiança, trazendo-lhes a paz necessária com o término das guerras que lhes moviam os perversos índios “Puris”, “selvagens e vagueantes”, então debandados em virtude da invasão lusa.

 

Segundo o registro do mapa do “Certão do Rio Prêto” (1808) de autoria do desbravador Inácio de Souza Werneck, e existente na secção de manuscrito da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, notam-se nele vários caminhos, destacando-se, entre outros, o Caminho da Aldeia (Valença), entre os rios das Flô­res e Paraíba, ao lado da Estrada Geral. Era, pois, pelo Caminho da Aldeia, aberto pelo capitão Sousa Werneck, que se fazia ligação do sertão de Valença com as aldeias dos “Araris” em Rio Bonito (Conservatórla), através do rio das Flôres e, por outro lado, punha-se em contáto com a Estrada Geral, a primeira estrada construída por Werneck entre os rios Prêto e Paraíba, a qual se dirigia à capitanla de Minas Gerais, em direção ao arraial do Rio Prêto. Mais tarde, outros caminhos foram abertos, destacando-se o do arraial das Cobras e S. Sebastlão do Rio Bonito (atual Pentagna), o qual muito contribuiu para o tráfego das tropas mineiras, vindas da parte ociden­tal das Minas Gerais, com destino ao Rio de Janeiro.

 

Segundo nos revela Saint Hilaire, o Caminho de Rio Prêto era, por meio dêste rio, o que conduzia da fazenda de Ubá a S. João d’El Rei. De Ubá até ao arraial de Rio Prêto (Minas), passando por Valen­ça, pelo rancho das Cobras, o percurso era de 12 lé­guas. Para percorrê-lo, quem viesse do Rio de Ja­neiro, teria de seguir primeiramente, pelo caminho de terra que vai à fazenda do Pau Grande, de propriedade de José Rodrigues da Cruz, onde se divide, indo um dos ramais, que é o prolongamento do ca­minho de terra, para a Encruzilhada; o outro é o co­mêço do caminho do Rio Prêto. Diz Saint Hilaire: “Estava ainda em obras, em 1819, quando segui o caminho de Rio Prêto”.

 

Construidas as primeiras estradas, que ligavam Minas ao Rio de laneiro, os viajantes e tropas mi­neiros atravessavam passando por Desengano, à mar­gem direita do “Paraíba”, indo ter às vizinhanças do riacho das “Mortes”, na atual estação de Barão de Vassouras, evitando assim o percurso mais longo a que lhes obrigava o antigo caminho do Comércio. E graças ao capitão Sousa Werneck, o pioneiro do sertão do rio Prêto, intensificava assim a penetração do “vale fluminense do Paraíba”, unindo a Mantiqueira à Guanabara.

 

Intensificara a derrubada e também a constru­ção de estradas, e o homem civilizado passara a do­minar os sertões em favor da Ordem e do Progresso.

 

***

 

No vastíssimo sertão do Rio Prêto, isto é, no seio das infindas florestas que cobriam enormes áreas compreendidas entre os rios Prêto e Paraíba, os ín­dios “Coroados” tinham o seu “habitat”, e em cujo cerro que se transformara em sede do sertão de Va­lença, propriamente dito, aceitavam de bom grado as imposições da Civilização.

 

Saint Adolphe, escritor francês de renome, refe­re-se longamente aos primeiros passos dados no sen­tido da civilização dos índios de Valença.

 

Coube a José Rodrlgues da Cruz, rico e prestigio­so fazendeiro, então proprietário das fazendas de Pau Grande e, depois, da fazenda de Ubá, sitas no municí­pio de Vassouras, a glória de fundar Valença, vi­vendo Rodrigues da Cruz em permanente contato com os índios “Coroados”, como nos revela o escri­tor Joaquim Norberto de Sousa Silva, em sua “Me­mória Histórica e Documentada das Aldeias de Indios da Província do Rio de Janeiro”, não lhe foi difícil, em companhia de alguns “Purus”, que viviam com êle em suas fazendas e já por êle mesmo civi­lizados, intrometer-se nas matas de Valença e aí “fazer-se respeitado mais pela doçura do seu trato do que pelo terror das armas, e com as suas próprias mãos repartia por êles todos os dias o produto de suas lavouras, para seu sustento, além das ferra­mentas mais necessárias aos seus rústicos trabalhos”.

 

Em 22 de outubro de 1798, o Ministro dos Negó­cios Ultramarinos, Dom Rodrigo de Sousa Couti­nho, escrevera a José Rodrlgues da Cruz (“Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil” — XV — pág. 503), informando-o de que Sua Majesta­de o considerava um grande agricultor, e digno, portanto, de acatamento e aplausos pela sua notável dedicação aos índios, tão útil ao Estado, e o felici­tava pelo muito que vinha realizando em prol da ci­vilização dos Indígenas do sertão do rio Prêto, guian­do-os na trilha do bem, e, com efeito, pelas suas, esplêndidas descobertas e realizações ao longo do rio Paraíba.

 

Não tardou o filantrópico fazendeiro José Rodri­gues da Cruz a responder à Côrte, em têrmos bas­tante claros, como o fêz, em cumprimento àquelas respeitáveis ordens, remetendo-lhe, por intermédio do Ministro Dom Rodrigo, uma carta datada de 31 de outubro de 1798, cuja exposição sucinta e sen­sata causou vivo interêsse em Sua Alteza, a ponto da Côrte deliberar, com especial recomendação, sôbre o urgente aumento dos meios e elementos de catequese e tratamento dos índios, povoando por meio de sesmarias as margens superiores do “Pa­raíba.”, principalmente, o sertão de Valença.

 

Dom Rodrigo de Sousa Coutinho fôra informa­do do que se passava pelo ofício que lhe dirigira José Rodrigues da Cruz, datado de Paraíba do Sul, aos 31 de outubro de 1799 (“Rev. do Instituto His­tórico e Geográfico do Brasil”, pág. 504), em face das continuas rixas entre “Coroados” e “Puris”. Toma­ra logo todas as medidas necessárias para auxiliar a civilização dos índios do sertão valenciano. Dom Rodrigo comunicou-se imediatamente com o Vice-Rei, Conde de Rezende, fazendo-lhe ver os valiosos serviços então prestados por José Rodrigues da Cruz, em outras partes do sertão do rio Prêto. O deste­mido fazendeiro dedicava-se, de fato, aos indígenas com grande entusiasmo e muito afeto, e, cada vez mais desenvolvia a sua benemérita campanha cate­quista. Rodrigues da Cruz chegou a levar consigo, à cidade do Rio de Janeiro, como prova de suas diligências, quatro dos índios de Valença, que foram por êle apresentados ao Vice-Rei, Conde de Rezen­de, que ficou muito bem impressionado, tendo dito, na ocasião, palavras de muito estimulo e reconhecimento para com o abastado fazendeiro.

 

Indiscutivelmente José Rodrigues da Cruz foi maior benfeitor dos “Coroados”: tinha por êles verdadeira caridade cristã, chegando a manter no gentio e em sua própria Casa Grande cêrca de 154 índios, entre homens e mulheres, tendo construido para êles, um grande hospital por causa da epidemia das bexigas. Não fazia para os “Coroados” o que não lhe estivesse ao alcance. A sua proteção quase paternal, fazia com que os índios o obedecessem, incondicionalmente, e alimentava com êles, funda intimidade e desejo de agradar-lhes, que, uma feita, comeu com êles o milho que lhe ofereceram e que “fôra antes mastigado por velhas índias”.

 

O Vice-Rei Dom Fernando José de Portugal, quem tocou a execução da ordem régia para substituir ao Conde de Rezende, compreendeu e apladiu o imediato aldeiamento dos índios e, aceitou sugestão do Ministro Dom Rodrigo, tendo ordenado, em 1801, a José Rodrlgues da Cruz “que se passasse às margens superiores do rio Paraíba”, oferecendo aos índios, terreno eatabelecido em lei, para o cultivo de plantações.

 

O zelo e a atividade do fazendeiro foram coroados de êxito ao lado do capitão Inácio de Sousa Werneck, a quem, já próximo, com os seus homens do sertão de Valença, apelara para os seus inestimáveis auxílios em prol da fundação da Aldeia de Valença, de que fora incumbido pelo Vice-Rei.

 

José Rodrigues da Cruz era um cidadão notável. ­Entendia-se tão bem com os índios, a quem tratara com doçura, e não demorou muito para que, dos encon­tros com os índios do sertão valenciano, nascesse uma sólida amizade entre êles. A estima que devotavam os “Coroados” de Valença, que o chamavam de grande capitão, era tão estreita que não tardou fôsse Rodrigues da Cruz, por êles convidado, a estabelecer-se em suas terras, do outro lado do “Paraíba”, fundando aí, depois de desfazer-se da sua antiga fazenda do “Pau Grande”, a grande fazenda de Ubá (sita no local denominado Andrade Pinto), a uns três quilômetros dessa estação ferroviária. Era nessa fazenda, à margem direita do “Paraíba”, que ­Saint Hilaire fazia seu costumeiro repouso, quando de suas viagens pelo Interior da província.

 

O conde de Linhares, então Ministro do Estado conhecedor da importância da fazenda de Ubá, tratou logo de aproveitar a oportunidade que lhe ofereciam as terras férteis da região, encarregando a José Rodrigues da Cruz de dividi-las. Tornou-se Rodrigues da Cruz, por seus méritos, possuidor – de várias sesmarias, destacando-se dentre elas a que, partindo do antigo sitio da “Passagem”, ia confinar com a Aldeia de Valença, na atual praça Viconde do Rio Prêto, justamente na junção da atual Rua dos Mineiros, antigo caminho para a Côrte, pela es­trada da Polícia, via Quirino.

 

Rodrigues da Cruz tinha, por princípio, a fé cristã e isso o animava cada vez mais a enfrentar todos os obstáculos, face à fundação de Valença de que não podia recuar, apesar dos sacrifícios inúme­ros que o ameaçavam, a todo instante, nas lutas quo­tidianas entre “Coroados” e “Puris”, lutas que êle conseguiu extinguir, trazendo, dentro em pouco, para o sertão valenciano, a paz e o trabalho na lavoura.

 

A Aldeia de Valença progredia, mas, Rodrigues da Cruz ansiava por maiores cuidados religiosos que êle sòzinho não podia distribuir entre a indiada. Preocupava-se com a educação espiritual dos “Co­roados”. Entretanto, o Vice-Rei Dom Fernando José de Portugal, também alimentava as mesmas espe­ranças de ver os índios encaminhados na religião católica. Foi quando o Vice-Rei, com a Portaria de 21 de novembro de 1801, na qual, essa autoridade or­denava a José Rodrigues da Cruz, entre outras ini­ciativas: — “... o avisasse quando fôsse ocasião opor­tuna para êle fazer ir os missionários para catequlisar - instruir e administrar os sacramentos aos mesmos índios” (“Dicionário Geográfico do Brasil” —1899 — págs. 707 a 714 — Alfredo Moreira Pinto).

 

Nos têrmos da mesma Portaria de 21 de novem­bro de 1801, Rodrigues da Cruz tomou posse para os índios da sesmaria de sua aldeia, que, antes, em nome deles, havia requerido. Antes, porém, de construir a Aldeia, requisitou do Vice-Rei um diretor espiritual para os índios, isto é, um homem em que estes de­positassem confiança e lhes servisse de apoio e pro­teção. “Lembrara, para preencher êste lugar — es­creve Moreira Pinto — do padre Manoel Gomas Leal, que já tinha sido nomeado capelão dos índios e só esperava os paramentos e ornamentos da ca­pela, para fazer sua entrada no sertão”.

 

Assim é que — segundo afirma o historiador João Batista Cortines Laxe, comentando Joaquim Norberto de Sousa e Silva, em sua obra “Memória sôbre o Aldeiamento dos índios” — cap. VI: — “... José Rodrigues da Cruz senhor da Fazenda do Pau Grande empregou todos os meios ao seu alcan­ce, para chamá-los à vida civilizada e ao grêmio da religião católica”

 

José Rodrigues da, Cruz prepara, então, os “Co­roados” para receber a assistência espiritual, fixan­do, antes, ao solo, os selvagens e ajustando-os à la­voura com o assentamento de uma população, em­bora reduzida, mas pacífica e compreensível, cons­tituindo, antes de tudo, um núcleo de ordem e de trabalho, de modo a poder receber a catequese re­ligiosa como um bem, acima de qualquer constran­gimento.

 

Deve-se, sem dúvida, a José Rodrigues da Cruz, o efeito salutar dêsse preparo moral dos índios “Co­roados”, pois, como nos informa Joaquim Norberto de Sousa e Silva (“Memória sôbre Aldeiamento dos Indios”): — “...Reunindo-se o padre Leal a Ro­drlgues da Cruz e seus companheiros, fundou a ca­pela de Nossa Senhora da Glória, na aldeia que to­mou o nome de Valença em honra a Dom Fernando José de Portugal, descendente da casa de Valença”, graças à Ordem Régia de 7 de março de 1800, com que se apressa o bispo D. José Joaquim Justiniano a assinar uma portaria datada de 2 de março de 1803 (face à Portaria do Vice-Rei, de 5 de fevereiro de 1803), nomeando o padre Manoel Gomes Leal, então vigário de Sacra Família, para as funções de capelão dos índios “Coroados”, tendo-lhe o bispo conferido “a necessária jurisdição para construir, edificar e levantar altar em sitio que melhor con­viesse, benzer a capela e igreja ou cemitério que erguesse, procedendo-lhe a faculdade régia para ad­ministrar aos índios todos os sacramentos”. Nessa ocasião “fundou-se a capelinha, tendo por orago a virgem, sob a invocação de Nossa Senhora da Gló­ria... “, em vista de Portaria de 23 de janeiro de 1812.

 

“Estava, pois, consentida oficialmente a existên­cia da Aldeia e dados os primeiros passos para o seu desenvolvimento — um triunfo de José Rodnl­gues da. Cruz, auxiliado por Inácio de Sousa Wer­neck e pelo padre Manoel Gomes Leal” — escreve Arnaldo Nunes (“O Valenciano”, de 28-2-53).

 

“Das cidades fluminenses nascidas como aldeias indígenas — escreve Alberto Lamego em sua obra “O Homem e a Serra” - pág. 128) — Valença, Itao­cara e Santo Antônio de Pádua são as únicas a da­tarem do século passado. Quinhentista foi Nlterói; seiscentista Mangaratiba, São Pedro d’Aldeia e Ma­caé; setecentista, Itaguaí e São Fidélis. Com ex­ceção de Pádua e Valença, cresceram às demais, sob a orientação dos jesuitas e capuclnhos”.

 

A catequese religiosa era um meio lento e pe­noso, trazendo muitos desenganos como nos revela a história. O sentimento de caridade de José Ro­drigues da Cruz e os ensinamentos morais do padre Gomes Leal contrlbuiram para, a formação de uma população digna das melhores simpatias do governo e da Igreja, pois os índios se fizeram indivíduos dó­ceis no gôzo de seus direitos, sob a proteção das nos­sas leis liberais.

 

No primeiro livro de registro de batizados, da­tado de 1809, existente na Catedral de Valença, se­gundo nos Informa Luiz Damasceno, em sua “His­tória de Valença”, pág. 9, consta que, nêsse mesmo ano, foram batizadas 59 pessoas, dentre as quais 42 índios, servindo de padrinhos, a muitos dêles, o ca­pitão Inácio de Sousa Werneck e Ana Joaquina, irmã do padre Gomes Leal. Curioso é que, no re­ferido livro de batizados, encontra-se o assentamen­to de batismo do cacique Tanguára, chefe dos ín­dios “Coroados”, o qual recebera, na pia batismal, o nome de “Hipólito”.

 

Ós indígenas - escreve Afrânio Peixoto - eram, a principio, numerosos, mais de milheiro e meio, mas, para logo, a Civilização operou neles a destrui­ção que o ferro e o fogo não fizeram nas entradas e na conquista. A varíola de um lado, do outro o alcolismo de mãos dadas, fizeram aqui (Valença) o mesmo que no resto do Brasil: apenas se salva­ram aqueles que a preferência das índias pelos brancos colonizadores daria numa mestiçagem es­cassa. O branco subsistiu, e com o negro impor­tado para a lavoura, foi substituida a raça abo­rígene”.

 

A sorte da Aldeia de Valença foi a de tôdas as outras da Província do Rio de JaneIro: os índios foram, pouco a pouco, dizimados por epidemias diver­sas, ficando na pequena paróquia apenas a popu­lação branca que logo aumentou, atraida pela fertilidade do solo.        

 

A varíola, as moléstias venéreas e o uso imoderado do álcool, introduzido pelos portuguêses, foram a cau­sa principal do desaparecimento rápido dos “Coroados” e os poucos que escaparam a êsse flagelo, foram aldeiar, outras localidades mais ou menos próximas, como Pomba, São Vicente Férrer e Carangola, na Província de Minas Gerais.

 

***

 

A Aldeia de Valença, com seus poucos índios restantes, já educados na lavoura e na religião ca­tólica, prossegue, ao lado de notáveis fazendeiros, donos de crescente número de colonos negros im­portados da Africa - desenvolve-se demográfica e economicaamente.

 

­A Aldeia torna-se, inevitàvelmente, a passagem forçada de milhares de burros carregados de carga preciosa, originários do interior de Minas; as tropas
estabelecem seu pouso em dois pontos da            Aldeia cen­tral: o primeiro, no antigo bêco da Mangueira e o segundo, na rua dos Mineiros, aquêle, no início da ladeira do Barroso e êste, precisamente, na esquina com a rua Nilo Peçanha. Valença consegue tornar-­se um pequeno centro de comércio elementar. Os arrojado donos de sesmarias enfrentam e vendem todos os obstáculos, estabelecendo suas lavouras que logo se põem em contato com os núcleos das circ­unvizinhanças, adquirindo prestigio oficial.

 

Era tão grande a necessidade do aldeiamento de Valença, que não tardou a Aldeia contar 119 fogos (famílias), e  mais de 900 adultos, excluidos dêsse número os indio aldeiados que eram cêrca de 1.400, em princípios do século XIX. Em 1820, o número de imigrantes aumentara e a população atingira a mais de 1000 portuguêses.

 

O seu progresso rápido exigia uma administração direta, autônoma e mais eficaz. O destino da Aldeia era tornar-se Vila, como se deduz da Ordem Régia, de 25 agosto de 1801, face ao decreto de 26 de março de 1819.

 

Aos 17 dias do mês de outubro de 1823, a Aldeia de Valença foi erecta em  Vila, com a denominação “Aldeia de Valença”. Instalada que foi a Vila, verificou-se em em 12 de novembro de 1826, a instalação da primeira sessão da Câmara provisória, a qual, teve lugar na Vila, na residência do ouvidor da Comarca do Rio de Janeiro, Antônio Barreiro Pereira Pedroso, fato êsse ocorrido por falta de casa própria.

 

A Vila de Valença que passava, por lei, a ser sede de município, desmembrara-se dos distritos da Côrte e das Vilas de São João do Príncipe e de Rezende.

 

“Bem depressa divulgou-se a fama da fertilidade das terras e os habitantes das circunvizinhanças e, mais tarde, os estrangeiros atraídos ao Rio de Janeiro, precipitam-se para Valença” (Joaquim Norberto: obr. cit.).

           

Tão logo ficou provada a excelência das terras valencianas para o cultivo do café, e uma multidão de agricultores procedeu a derrubada das matas, preparando os morros e os montes, em largas ex­tensões, para a exploração do ouro verde. E com crescente fluxo comercial entre os sertões de Minas e Rio de Janeiro, através de Valença, não se demorou a verificar-se o aceleramento da sua evolução econômico-social.

 

Portuguêses e fluminenses, unidos aos mineiros, e seguidos de numerosos colonos, atacam as florestas e as matas-virgens, e plantam café que cobre todo o solo do novo município.

 

Valença cresce no Império e a Côrte a prestigia. O café enriquece a região e engrandece um povo em formação. Cria-se, na Vila, uma grande aristocracia rural.

 

Com notáveis progressos das lavouras cafeeiras, Valença adquire invejável importância. Por todos os quadrantes do município domina a riqueza dos solares rurais que tudo dão para o desenvolvimento da Vila. A aristocracia, “solidamente organizada”, une Valença à cidade do Rio de Janeiro.

 

A sua importância econômica assoberba-se em crescentes empreendimentos político-sociais. A Vila passa a dever a sua ótima posição rural a um punhado de mineiros de escol que atravessam o rio Prêto para virem instalar-se nas matas de Valença.

 

Em 29 de setembro de 1857, a Vila de Valença é elevada à categoria de Cidade e    sua população se inclina, agradecida, pelo seu desenvolvimento diante das memórias  de Estevão Ribeiro de Rezende, Conde, depois Marquês de Valença —radores: o fundador das primeiras fazendas de café do município; do Visconde de Rio Prêto que, construiu à suas custa, o calçamento da Vila e deu água encanada aos seus moradores; do conde, depois Visconde de Baependi, o benemérito fundador da Santa Casa de Misericórdia, onde, sucessivamente, foram provedores o mesmo Visconde, o Barão da Aliança, do Barão depois Visconde de Ipiabas e o Barão de Santa Fé.

 

E agora, decorridos os cem anos de sua evolução à categoria de Cidade, Valença, honrando o seu cognome — “Princesa da Serra”, cidade industrializada, respeitada pelo seu elevado gráu de pro­gresso político-econômico e de assistência social e cultural, — exalta jubilosamente o seu passado e as suas tradições gloriosas nas inesquecíveis figuras de Paulo de Frontin, Antônio Januzzi, Manoel Joaquim Cardoso, José Siqueira Silva da Fonseca e D. André Arcoverde — os maiores benfeitores da cidade em festa.

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