Nos “sertoens” do rio Prêto, a mata era densa e frondosa, impenetrável e
imensa. Diante de tão exuberante vegetação, de proporções gigantescas que se
erguia, com imponência, entre os rios Paraíba e Prêto, a natureza era, ali, a
exaltação festiva de tanta riqueza invejável e atraente do seu solo admirável.
Por ali havia de passar um dia a caravana da Civilização.
A cobiça do homem branco, que vinha do litoral, Mantiqueira-acima, em busca do
ouro das Minas Gerais, — isto é, da fortuna preciosa e abundante, na conquista
de terras ainda inexploradas, — fazia-o transpor imensas barreiras geográficas
que desafiavam os exploradores a enfrentar, nas primeiras décadas do século
XIX o desconhecido, para dominar, por fim, em favor da fundaçáo de uma nova
pátria, o magnífico vale do Paraíba, para onde convergiram os felizes donos de
capitanias hereditárlas...
A
conquista não lhes era muito fácil, pois as barreiras sempre eminentes que
lhes ofereciam as serras do Mar e da Mantiqueira, teriam um dia de ser
transpostas em nome do Progresso. Era preciso vencer, antes, as muralhas
orográficas, pois o homem civilizado tinha a certeza dos grandes dias de
ventura e de grandeza, e certeza também tinha de ir lutar contra perigosas
féras e de bater-se contra diversas tribos nómades espalhadas por todo o
Sertão, as quais constitulam sérios obstáculos aos civilizadores, que se
originavam das baixadas infindas.
Mas o ideal de riqueza dos senhores da Guanabara era
mais potente e desafiava qualquer entrave ante o desejo da imediata posse de
terras desconhecidas.
A serra do Mar — êsse formidável impecilho a penetração
do homem branco tornara-se acessível aos invasores pela sua
intrepidez, não obstante a mata misteriosa que era “um colossal obstáculo isolando
as vilas marítimas da nascente civilização mineira, encarcerada no planalto”.
A Serra é a sedução que impressiona e o ouro é a atração inequívoca que
desperta os espíritos para as grandes jornadas.
O homem civilizado,
extasiado ante a melodia do cenário e a riqueza de tão suntuosa vegetação, onde
se deslumbravam as cenas edificantes das majestosas e acolhedoras florestas,
não recua, nem vacila e põe-se em contacto com a fauna impressionante, tão belamente
festejada por Saint Hilaire e, depois, com os seres viventes do sertão
desconhecido, de cujo solo, um dia, haveria de surgir o sertão de Valença —
rincão brasílico que, por fim, seduziria o irrequieto estrangelro, frente à
soberania de suas ambicionadas riquezas e de seus reais anhelos.
A marcha triunfal da Civilização em seu alto cometimento,
fêz nascer, sob os céus da Província do Rio de Janeiro, a futurosa aldeia de
Valença, que, aos encantos do poema cósmico das magnas fôrças dos grandes
destinos, se tornou a predestinada região de trabalho e cultura.
Viviam no sertão de Valença, entre os rios Paraiba
ePrêto, mesmo antes de 1789, os chamados índios “Coroados”, selvagens então
duramente perseguidos pelos seus temíveis parentes denominados “Puris”, que os
afugentavam em luta de morte, provocando constantes desordens, ao infestarem,
com depredações, as fazendas das vizinhas freguesias de Sacra Família do
Tinguá, Conceição do Patí do Alferes e São Pedro e São Paulo da Paraíba Velha,
cujos habitantes viviam sobressaltados. Os índios “Coroados”, que constituiam
de fato a aldeia de Valença, eram pacíflcos e inclinados ao trabalho. Esses primeiros
habitantes do sertão de Valença formavam o tronco “Tapuia”, que, por sua vez,
se dividia em três ramos, a saber: “Coroados”, subdivididos em “Purus”
(propriamente em Valença) e Araris”, instalados em Conservatória, os quais eram
em pequeno número e muito mesclados, dóceis e acessíveis ao trabalho,
geralmente espalhados pelo vale do Paraíba; e “Puris” (com i final), em grande
número e muito mesclados, espalhados pelo vale do Paraíba, os quais se
subdvidiam nos grupos “Tampruns” e “Sazaricons”, êstes em pequenos bandos
existentes aqui e ali; e, por fim, o ramo “Caiapós”, constituído do grupo
“Coropós”, em pequeno número e pouco mesclado, predominando na aldeia da Pedra
(atual Itaocara).
Os índios “Coroados” eram assim chamados
por usarem o corte de cabelo à maneira de uma corôa, a semelhança dos
sacerdotes. Os “Coroados” (“Purus” e “Ararís”), aquêles de estatura média,
morenos e organizados, êstes quase brancos, bem feito de corpo, guerreiros,
eram uns e outros, de belas feições, já vindos do litoral um tanto civilizados.
Debret, falando nos selvícolas do Paraíba acima, assim
escreve: “Confundem-se êles (os “Coroados”) muitas vêzes com os “Coropós” e
essas duas nações semelhantes, fragmentos da grande raça dos “Tapuios”,
unem-se para fazer guerra aos “Puris” que os perseguem sem cessar, embora sejam
de origem comum. Todos os “Coropós” e a maior parte dos “Coroados” são
civilizados”. (“Viagem Pitoresca” - págs. 31 e 32 — tomo 1). Debret cita ainda
as tribos selvagens mestiças chamadas “Tampruns” e “Sazaricons”, igualmente chamados
“Coroados”.
Há algum equívoco de certos escritores que confundem os
‘Puris”, inferiores aos seus parentes, com os “Coropós” e ‘Coroados”. Aos
primeiros tempos do chamado Sertão, entre os rios Paraíba e Prêto, os “Puris”,
errantes e solitários, se espalhavam por todo o vale do Paraíba. Dai a
possibilidade de serem confundidos com os “Purus” e “Ararís” (“Coroados”) e
“Coropós” e até mesmo, como era natural, se fizessem aqueles passar por êstes,
dada a sua flagrante semelhança.
O testemunho do historiador Príncipe Maximiliano, que
manteve contáto direto com os “Puris”, é evidente quando nos relata em sua
“Viagem ao Brasil” (edição Brasiliana), págs. 99 a 110: “(....) Entrando,
além dessas planuras, as margens do “Paraíba” são ainda habitadas por
aborígenes, em parte civilizados (. ..) Sucedem-se, à beira do rio, as grandes
fazendas (...) Os habitantes indígenas pertencem às tribos dos “Coroados”,
“Coropós” e “Puris”, esta ainda selvagem e vagueante pelas vastas solidões
situadas entre o mar e a margem norte do rio Paraíba (...) Vivem atualmente em
paz, mas, rio acima, na aldeia da Pedra, estiveram, havia pouco tempo, em
guerra com os “Coroados” (...) Do cume sobranceiro das montanhas, divisam-se,
em baixo, vales umbrosos interceptando o ermo agreste, cujo silêncio só de
raro em raro é quebrado pela passada do “Puri” saqueador e solitário. (...)
Aquele grupo de gente nua e escura constituía um espetáculo dos mais
interessantes e singulares. (...) Um dos homens se destacava pela fisionomia.
Pareceu-nos tão formidável que, todos nós, sem exceção, confessamos que não
gostaríamos de encontrá-lo, sozinhos e desarmados, num local solitário. (...)
Os portuguêses do “Paraíba” afirmam, sem discrepância, que os “Puris” (a
palavra puri quer dizer antropófago) comem a carne dos inimigos mortos, e
realmente parece haver alguma verdade nessa afirmativa”.
Por outro lado, Príncipe Maximiliano apresenta-nos oe
“Coroados” e os “Coropós” da seguinte maneira: “Cultivam mandioca, milho,
batatas, abóboras etc. (...) Achamos êsse povo ainda bastante puro, de tez
morena, fisionomia rlgorosamente nacional, compleição robusta e cabelos
negros”.
Saint Hilaire, avistando-se com os indios “Coroados”, na
fazenda de “Ubá”, achou-os feios, imundos, grosseiros, acanhados e imbecis.
Entretanto, o historiador Oliveira Viana nos relata em “Evolução do Povo
Brasileiro que os lndios “Puris” e “Araris”, pintados por Rugendas, ao
contrário de Saint Hilaire, eram de rara beleza, principalmente a índia “Puru”.
A respeito dos índios de Valença, antes sem habitação
permanente, pois eram enxotados pelos portuguêses que se dirigiam para Minas
em busca de fortunas, já se iam, por fim, se acostumando com as maneiras do
homem branco que lhes transmitiam todos os bons e maus costumes. Os “Coroados”
não tinham leis que regularizassem sua existência. Eram criados ao sabor das
leis da natureza, apesar de dotados de caráter nobre e varonil. Mansos, não
obstante sua rudeza, serviam com fidelidade, principalmente àqueles que os
distinguiam com dádivas de adornos diversas, e de aguardente que tanto os
alegravam. Por causa de uma boa dose de cachaça por tudo se sacrificavam. Daí
a facilidade com que os portuguêses os atraiam para a lavoura.
Vestiam-se, cobrindo-se muitos dêles, com tangas de couro,
presas, por um cordel, aos ombros. Alguns cobriam-se com um tecido de penas de
aves, quase sempre com a cabeça coberta de plumas de côres vivas, variadas,
principalmente nas guerras e nas suas festividades características. Outros
usavam, como vestes, as peles de animais diversos. A sua indumentária, em
certas ocasiões, era simplesmente extravagante: o chefe dod “Coroados” usava
vestes de penas de côres amarela e vermelha — côres de sua predileção. Entre
os índios não havia recato nem pudor, principalmente entre os “Puris”. As
índias dos grupos dos “Coroados” às vézes se mostravam recatadas, não obstante
a sua licenciosidade natural.
A sua alimentação era constituida de caça e comiam carne
assada, extremamente tostada. Os selvagens tinham grande apetite pelas frutas,
principalmente pelas raízes. O inhâme, sob a forma de farinha, cozido na água,
ou assado na brasa. O aipim, também conhecido por mandioca mansa, era comido
cru, como alimento predileto dos primeiros habitantes da terra
valenciana. Como utensílio, usavam a cuia e a combuca para comer e beber agua.
Os ‘Coroados” do sertão de Valença eram exímios
fabricantes de objetos de cerâmica. Faziam com habilidade incomum arcos e
flexas. Fabricavam com os galhos novos da embauba, suas rêdes, chegando mesmo a
fazerem camisas, de aspecto grosseiro, para uso dos portugueses que lh’as
encomendavam em troca de bebidas.
Uma de suas
principais ferramentas era o machado de pedra com que preparavam as várias
espécies de embiras na confecção de suas rêdes.
Entre os “Coroados” (“Purus” e “Araris”), as famílias
elegiam seus chefes. Eram os caciques cabeça única de govêrno. Os indígenas
eram fiéis ao chefe. Tributavam-lhe muito carinho e respeito, obedecendo-o
cègamente nas lutas contra os “Puris”. O “cacicado” passava de pai a filho,
herdando-o o prlmogênito. Os índios (“Purus” e “Araris”), que se internavam
nas matas do sertão do rio Prêto eram dóceis; entretanto, quando em luta
renhida com os seus provocadores, os inimigos “Puris”, arriscavam a vida pelo
seu chefe que, os empolgava, com a sua apresentação individual e começavam e
terminavam o combate com tal algazarra, que o ambiente se tornava
insuportável, confuso e ensurdecedor... O início da luta era aturdindo o
inimigo, por maneiras diversas, para entorpecer-lhe os sentidos no momento
crítico das batalhas. A sua preocupação era fazer, antes de tudo, a guerra de
nervos. Os vencedores desfrutavam os despojos. Os prisioneiros tinham suas
cabeças decepadas, que eram conduzidas, como troféus, na ponta de uma lança.
Era hábito dos “Coroados” enterrar — assim nos revela Saint Hilafre — os seus
chefes, de uma maneira bastante original: os despojos mortais dos caciques
venerados eram enfeixados dentro de um grande pote de barro, que era, então,
enterrado profundamente. à sombra de frondosa árvore.
***
O encontro do homem branco com os indígenas do sertão do
rio Prêto devia fazer-se imediatamente. Era inevitável. Assim o exigiam a
Civilização e o Progresso. A luta pelo desenvolvimento das terras descobertas
se aliava à conquista do ouro. Do litoral demandavam os exploradores as
Iongínquas Minas Gerais, em suas duras marchas, subindo a serra do Mar, na
ânsia de atingir a imponente Mantiqueira.
Era preciso que o desbravador estrangeiro, animado de
coragem e desprendimento pela vida, com o ânimo forte ao enfrentar as
impressionantes condições geográficas, palmilhasse com segurança o solo desconhecido
e devastasse as matas espessas que cobriam todo o vale do Paraíba. O objetivo
de aproximar as alterosas à Guanabara tinha de ser efetivado, custasse o que
custasse.
Com a Invasão do homem civilizado, buscando a fortuna nos
rincões da pátria brasileira, os selvagens eram postos em fuga, amendrontados
e humilhados, e o rio Paraíba fôra o único caminho para seu refúgio,
penetrando nas florestas da terra fluminense, por onde se fazia a entrada no
Sertão. Impunha-se a abertura de caminhos e de picadas. A derrubada de matas
era o primeiro passo gigantesco. Escalar montanhas e serras seria a jornada da
coragem e do denodo.
E a multidão guanabarina galga a Serra e transpõe
montanhas, dando-lhes logo as mãos mineiros e paulistas, na ajuda de
descobertas e de domínios, onde a retalhação do solo permitiria a distribuição
de sesmarias, cujo povoamento, em futuro não remoto, constituiria a fonte
inesgotável das imensas riquezas de um grande Império.
No imensurável sertão do rio Prêto, onde a luta entre
“Coroados” (“Purus” e “Araris”) e os temíveis “Puris”, era renhida e mortífera,
surgira, um dia, por ordem do Vice-Rei Dom Luis de Vasconcelos e Souza, o
capitão das Ordenanças, Inácio de Sousa Werneck, o qual, por volta de 1789,
viera rebatê-los em suas próprias aldeias”, segundo nos informa o historiador
monsenhor Pizarro. Inácio de Sousa Werneck era o destemido desbravador de
outras plagas que, na sua missão arriscada, se dirigia para o Rio de Janeiro,
abrindo estradas e abrandando a indiada bravia. Ia, pois, ao encontro da
“Civilização que vinha do fundo da Guanabara”, e penetrando nas matas entre
os rios Prêto e Paraíba, levou-a à Sacra Família do Tinguá, Conceição do
Alferes, Conceição da Paraíba Velha e Serra da Estrêla.
O intrépido capitão pondo-se em imediato contacto com os
indígenas do vale do Paraíba, conquistou-lhes logo a simpatia e a confiança,
trazendo-lhes a paz necessária com o término das guerras que lhes moviam os
perversos índios “Puris”, “selvagens e vagueantes”, então debandados em virtude
da invasão lusa.
Segundo o registro do mapa do “Certão do Rio Prêto”
(1808) de autoria do desbravador Inácio de Souza Werneck, e existente na secção
de manuscrito da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, notam-se nele vários
caminhos, destacando-se, entre outros, o Caminho da Aldeia (Valença), entre os
rios das Flôres e Paraíba, ao lado da Estrada Geral. Era, pois, pelo Caminho
da Aldeia, aberto pelo capitão Sousa Werneck, que se fazia ligação do sertão de
Valença com as aldeias dos “Araris” em Rio Bonito (Conservatórla), através do
rio das Flôres e, por outro lado, punha-se em contáto com a Estrada Geral, a
primeira estrada construída por Werneck entre os rios Prêto e Paraíba, a qual
se dirigia à capitanla de Minas Gerais, em direção ao arraial do Rio Prêto.
Mais tarde, outros caminhos foram abertos, destacando-se o do arraial das
Cobras e S. Sebastlão do Rio Bonito (atual Pentagna), o qual muito contribuiu
para o tráfego das tropas mineiras, vindas da parte ocidental das Minas
Gerais, com destino ao Rio de Janeiro.
Segundo nos revela Saint Hilaire, o Caminho de Rio Prêto
era, por meio dêste rio, o que conduzia da fazenda de Ubá a S. João d’El Rei.
De Ubá até ao arraial de Rio Prêto (Minas), passando por Valença, pelo rancho
das Cobras, o percurso era de 12 léguas. Para percorrê-lo, quem viesse do Rio
de Janeiro, teria de seguir primeiramente, pelo caminho de terra que vai à
fazenda do Pau Grande, de propriedade de José Rodrigues da Cruz, onde se
divide, indo um dos ramais, que é o prolongamento do caminho de terra, para a
Encruzilhada; o outro é o comêço do caminho do Rio Prêto. Diz Saint Hilaire:
“Estava ainda em obras, em 1819, quando segui o caminho de Rio Prêto”.
Construidas as primeiras estradas, que ligavam Minas ao
Rio de laneiro, os viajantes e tropas mineiros atravessavam passando por
Desengano, à margem direita do “Paraíba”, indo ter às vizinhanças do riacho
das “Mortes”, na atual estação de Barão de Vassouras, evitando assim o percurso
mais longo a que lhes obrigava o antigo caminho do Comércio. E graças ao
capitão Sousa Werneck, o pioneiro do sertão do rio Prêto, intensificava assim a
penetração do “vale fluminense do Paraíba”, unindo a Mantiqueira à Guanabara.
Intensificara a derrubada e também a construção de
estradas, e o homem civilizado passara a dominar os sertões em favor da Ordem
e do Progresso.
***
No vastíssimo sertão do Rio Prêto, isto é, no seio das
infindas florestas que cobriam enormes áreas compreendidas entre os rios Prêto
e Paraíba, os índios “Coroados” tinham o seu “habitat”, e em cujo cerro que se
transformara em sede do sertão de Valença, propriamente dito, aceitavam de bom
grado as imposições da Civilização.
Saint Adolphe, escritor francês de renome, refere-se
longamente aos primeiros passos dados no sentido da civilização dos índios de
Valença.
Coube a José Rodrlgues da Cruz, rico e prestigioso
fazendeiro, então proprietário das fazendas de Pau Grande e, depois, da fazenda
de Ubá, sitas no município de Vassouras, a glória de fundar Valença, vivendo
Rodrigues da Cruz em permanente contato com os índios “Coroados”, como nos
revela o escritor Joaquim Norberto de Sousa Silva, em sua “Memória Histórica
e Documentada das Aldeias de Indios da Província do Rio de Janeiro”, não lhe
foi difícil, em companhia de alguns “Purus”, que viviam com êle em suas
fazendas e já por êle mesmo civilizados, intrometer-se nas matas de Valença e
aí “fazer-se respeitado mais pela doçura do seu trato do que pelo terror das
armas, e com as suas próprias mãos repartia por êles todos os dias o produto de
suas lavouras, para seu sustento, além das ferramentas mais necessárias aos
seus rústicos trabalhos”.
Em 22 de outubro de 1798, o Ministro dos Negócios
Ultramarinos, Dom Rodrigo de Sousa Coutinho, escrevera a José Rodrlgues da
Cruz (“Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil” — XV — pág. 503),
informando-o de que Sua Majestade o considerava um grande agricultor, e digno,
portanto, de acatamento e aplausos pela sua notável dedicação aos índios, tão
útil ao Estado, e o felicitava pelo muito que vinha realizando em prol da civilização
dos Indígenas do sertão do rio Prêto, guiando-os na trilha do bem, e, com
efeito, pelas suas, esplêndidas descobertas e realizações ao longo do rio
Paraíba.
Não tardou o filantrópico fazendeiro José Rodrigues da
Cruz a responder à Côrte, em têrmos bastante claros, como o fêz, em
cumprimento àquelas respeitáveis ordens, remetendo-lhe, por intermédio do
Ministro Dom Rodrigo, uma carta datada de 31 de outubro de 1798, cuja exposição
sucinta e sensata causou vivo interêsse em Sua Alteza, a ponto da Côrte
deliberar, com especial recomendação, sôbre o urgente aumento dos meios e
elementos de catequese e tratamento dos índios, povoando por meio de sesmarias
as margens superiores do “Paraíba.”, principalmente, o sertão de Valença.
Dom Rodrigo de Sousa Coutinho fôra
informado do que se passava pelo ofício que lhe dirigira José Rodrigues da
Cruz, datado de Paraíba do Sul, aos 31 de outubro de 1799 (“Rev. do Instituto
Histórico e Geográfico do Brasil”, pág. 504), em face das continuas rixas
entre “Coroados” e “Puris”. Tomara logo todas as medidas necessárias para
auxiliar a civilização dos índios do sertão valenciano. Dom Rodrigo
comunicou-se imediatamente com o Vice-Rei, Conde de Rezende, fazendo-lhe ver os
valiosos serviços então prestados por José Rodrigues da Cruz, em outras partes
do sertão do rio Prêto. O destemido fazendeiro dedicava-se, de fato, aos
indígenas com grande entusiasmo e muito afeto, e, cada vez mais desenvolvia a
sua benemérita campanha catequista. Rodrigues da Cruz chegou a levar consigo,
à cidade do Rio de Janeiro, como prova de suas diligências, quatro dos índios
de Valença, que foram por êle apresentados ao Vice-Rei, Conde de Rezende, que
ficou muito bem impressionado, tendo dito, na ocasião, palavras de muito estimulo
e reconhecimento para com o abastado fazendeiro.
Indiscutivelmente José Rodrigues da Cruz foi maior
benfeitor dos “Coroados”: tinha por êles verdadeira caridade cristã, chegando a
manter no gentio e em sua própria Casa Grande cêrca de 154 índios, entre homens
e mulheres, tendo construido para êles, um grande hospital por causa da epidemia
das bexigas. Não fazia para os “Coroados” o que não lhe estivesse ao alcance. A
sua proteção quase paternal, fazia com que os índios o obedecessem,
incondicionalmente, e alimentava com êles, funda intimidade e desejo de
agradar-lhes, que, uma feita, comeu com êles o milho que lhe ofereceram e que
“fôra antes mastigado por velhas índias”.
O Vice-Rei Dom Fernando José de Portugal, quem tocou a
execução da ordem régia para substituir ao Conde de Rezende, compreendeu e
apladiu o imediato aldeiamento dos índios e, aceitou sugestão do Ministro Dom
Rodrigo, tendo ordenado, em 1801, a José Rodrlgues da Cruz “que se passasse às
margens superiores do rio Paraíba”, oferecendo aos índios, terreno eatabelecido
em lei, para o cultivo de plantações.
O zelo e a atividade do fazendeiro foram coroados de
êxito ao lado do capitão Inácio de Sousa Werneck, a quem, já próximo, com os
seus homens do sertão de Valença, apelara para os seus inestimáveis auxílios em
prol da fundação da Aldeia de Valença, de que fora incumbido pelo Vice-Rei.
José Rodrigues da
Cruz era um cidadão notável. Entendia-se tão bem com os índios, a quem tratara
com doçura, e não demorou muito para que, dos encontros com os índios do
sertão valenciano, nascesse uma sólida amizade entre êles. A estima que
devotavam os “Coroados” de Valença, que o chamavam de grande capitão, era tão
estreita que não tardou fôsse Rodrigues da Cruz, por êles convidado, a estabelecer-se
em suas terras, do outro lado do “Paraíba”, fundando aí, depois de desfazer-se
da sua antiga fazenda do “Pau Grande”, a grande fazenda de Ubá (sita no local
denominado Andrade Pinto), a uns três quilômetros dessa estação ferroviária.
Era nessa fazenda, à margem direita do “Paraíba”, que Saint Hilaire fazia seu
costumeiro repouso, quando de suas viagens pelo Interior da província.
O conde de Linhares, então Ministro do Estado conhecedor
da importância da fazenda de Ubá, tratou logo de aproveitar a oportunidade que
lhe ofereciam as terras férteis da região, encarregando a José Rodrigues da
Cruz de dividi-las. Tornou-se Rodrigues da Cruz, por seus méritos, possuidor –
de várias sesmarias, destacando-se dentre elas a que, partindo do antigo sitio
da “Passagem”, ia confinar com a Aldeia de Valença, na atual praça Viconde do
Rio Prêto, justamente na junção da atual Rua dos Mineiros, antigo caminho para
a Côrte, pela estrada da Polícia, via Quirino.
Rodrigues da Cruz tinha, por princípio, a fé cristã e
isso o animava cada vez mais a enfrentar todos os obstáculos, face à fundação
de Valença de que não podia recuar, apesar dos sacrifícios inúmeros que o ameaçavam,
a todo instante, nas lutas quotidianas entre “Coroados” e “Puris”, lutas que
êle conseguiu extinguir, trazendo, dentro em pouco, para o sertão valenciano, a
paz e o trabalho na lavoura.
A Aldeia de Valença progredia, mas, Rodrigues da Cruz
ansiava por maiores cuidados religiosos que êle sòzinho não podia distribuir
entre a indiada. Preocupava-se com a educação espiritual dos “Coroados”.
Entretanto, o Vice-Rei Dom Fernando José de Portugal, também alimentava as
mesmas esperanças de ver os índios encaminhados na religião católica. Foi
quando o Vice-Rei, com a Portaria de 21 de novembro de 1801, na qual, essa
autoridade ordenava a José Rodrigues da Cruz, entre outras iniciativas: —
“... o avisasse quando fôsse ocasião oportuna para êle fazer ir os
missionários para catequlisar - instruir e administrar os sacramentos aos
mesmos índios” (“Dicionário Geográfico do Brasil” —1899 — págs. 707 a 714 —
Alfredo Moreira Pinto).
Nos têrmos da mesma Portaria de 21 de novembro de 1801,
Rodrigues da Cruz tomou posse para os índios da sesmaria de sua aldeia, que,
antes, em nome deles, havia requerido. Antes, porém, de construir a Aldeia,
requisitou do Vice-Rei um diretor espiritual para os índios, isto é, um homem
em que estes depositassem confiança e lhes servisse de apoio e proteção.
“Lembrara, para preencher êste lugar — escreve Moreira Pinto — do padre Manoel
Gomas Leal, que já tinha sido nomeado capelão dos índios e só esperava os
paramentos e ornamentos da capela, para fazer sua entrada no sertão”.
Assim é que — segundo afirma o historiador João Batista
Cortines Laxe, comentando Joaquim Norberto de Sousa e Silva, em sua obra
“Memória sôbre o Aldeiamento dos índios” — cap. VI: — “... José Rodrigues da
Cruz senhor da Fazenda do Pau Grande empregou todos os meios ao seu alcance,
para chamá-los à vida civilizada e ao grêmio da religião católica”
José Rodrigues da, Cruz prepara, então, os “Coroados”
para receber a assistência espiritual, fixando, antes, ao solo, os selvagens e
ajustando-os à lavoura com o assentamento de uma população, embora reduzida,
mas pacífica e compreensível, constituindo, antes de tudo, um núcleo de ordem
e de trabalho, de modo a poder receber a catequese religiosa como um bem,
acima de qualquer constrangimento.
Deve-se, sem dúvida, a José Rodrigues da Cruz, o efeito
salutar dêsse preparo moral dos índios “Coroados”, pois, como nos informa
Joaquim Norberto de Sousa e Silva (“Memória sôbre Aldeiamento dos Indios”): —
“...Reunindo-se o padre Leal a Rodrlgues da Cruz e seus companheiros, fundou a
capela de Nossa Senhora da Glória, na aldeia que tomou o nome de Valença em
honra a Dom Fernando José de Portugal, descendente da casa de Valença”, graças
à Ordem Régia de 7 de março de 1800, com que se apressa o bispo D. José Joaquim
Justiniano a assinar uma portaria datada de 2 de março de 1803 (face à Portaria
do Vice-Rei, de 5 de fevereiro de 1803), nomeando o padre Manoel Gomes Leal,
então vigário de Sacra Família, para as funções de capelão dos índios
“Coroados”, tendo-lhe o bispo conferido “a necessária jurisdição para
construir, edificar e levantar altar em sitio que melhor conviesse, benzer a
capela e igreja ou cemitério que erguesse, procedendo-lhe a faculdade régia
para administrar aos índios todos os sacramentos”. Nessa ocasião “fundou-se a
capelinha, tendo por orago a virgem, sob a invocação de Nossa Senhora da Glória...
“, em vista de Portaria de 23 de janeiro de 1812.
“Estava, pois, consentida oficialmente a existência da
Aldeia e dados os primeiros passos para o seu desenvolvimento — um triunfo de
José Rodnlgues da. Cruz, auxiliado por Inácio de Sousa Werneck e pelo padre
Manoel Gomes Leal” — escreve Arnaldo Nunes (“O Valenciano”, de 28-2-53).
“Das cidades fluminenses nascidas como aldeias indígenas
— escreve Alberto Lamego em sua obra “O Homem e a Serra” - pág. 128) — Valença,
Itaocara e Santo Antônio de Pádua são as únicas a datarem do século passado.
Quinhentista foi Nlterói; seiscentista Mangaratiba, São Pedro d’Aldeia e Macaé;
setecentista, Itaguaí e São Fidélis. Com exceção de Pádua e Valença, cresceram
às demais, sob a orientação dos jesuitas e capuclnhos”.
A catequese religiosa era um meio lento e penoso,
trazendo muitos desenganos como nos revela a história. O sentimento de caridade
de José Rodrigues da Cruz e os ensinamentos morais do padre Gomes Leal
contrlbuiram para, a formação de uma população digna das melhores simpatias do
governo e da Igreja, pois os índios se fizeram indivíduos dóceis no gôzo de
seus direitos, sob a proteção das nossas leis liberais.
No primeiro livro de registro de batizados, datado de
1809, existente na Catedral de Valença, segundo nos Informa Luiz Damasceno, em
sua “História de Valença”, pág. 9, consta que, nêsse mesmo ano, foram
batizadas 59 pessoas, dentre as quais 42 índios, servindo de padrinhos, a
muitos dêles, o capitão Inácio de Sousa Werneck e Ana Joaquina, irmã do padre
Gomes Leal. Curioso é que, no referido livro de batizados, encontra-se o
assentamento de batismo do cacique Tanguára, chefe dos índios “Coroados”, o
qual recebera, na pia batismal, o nome de “Hipólito”.
Ós indígenas - escreve Afrânio Peixoto - eram, a
principio, numerosos, mais de milheiro e meio, mas, para logo, a Civilização
operou neles a destruição que o ferro e o fogo não fizeram nas entradas e na
conquista. A varíola de um lado, do outro o alcolismo de mãos dadas, fizeram
aqui (Valença) o mesmo que no resto do Brasil: apenas se salvaram aqueles que
a preferência das índias pelos brancos colonizadores daria numa mestiçagem escassa.
O branco subsistiu, e com o negro importado para a lavoura, foi substituida a
raça aborígene”.
A sorte da Aldeia de Valença foi a de tôdas as outras da
Província do Rio de JaneIro: os índios foram, pouco a pouco, dizimados por
epidemias diversas, ficando na pequena paróquia apenas a população branca que
logo aumentou, atraida pela fertilidade do solo.
A varíola, as moléstias venéreas e o uso imoderado do
álcool, introduzido pelos portuguêses, foram a causa principal do
desaparecimento rápido dos “Coroados” e os poucos que escaparam a êsse flagelo,
foram aldeiar, outras localidades mais ou menos próximas, como Pomba, São
Vicente Férrer e Carangola, na Província de Minas Gerais.
***
A Aldeia de Valença, com seus poucos índios restantes, já
educados na lavoura e na religião católica, prossegue, ao lado de notáveis
fazendeiros, donos de crescente número de colonos negros importados da Africa
- desenvolve-se demográfica e economicaamente.
A Aldeia torna-se, inevitàvelmente, a passagem forçada
de milhares de burros carregados de carga preciosa, originários do interior de
Minas; as tropas
estabelecem seu pouso em dois pontos da Aldeia
central: o primeiro, no antigo bêco da Mangueira e o segundo, na rua dos
Mineiros, aquêle, no início da ladeira do Barroso e êste, precisamente, na
esquina com a rua Nilo Peçanha. Valença consegue tornar-se um pequeno centro
de comércio elementar. Os arrojado donos de sesmarias enfrentam e vendem todos
os obstáculos, estabelecendo suas lavouras que logo se põem em contato com os
núcleos das circunvizinhanças, adquirindo prestigio oficial.
Era tão grande a necessidade do aldeiamento de Valença,
que não tardou a Aldeia contar 119 fogos (famílias), e mais de 900 adultos, excluidos dêsse número
os indio aldeiados que eram cêrca de 1.400, em princípios do século XIX.
Em 1820, o número de imigrantes aumentara e a população atingira a mais de 1000
portuguêses.
O seu progresso rápido exigia uma administração direta,
autônoma e mais eficaz. O destino da Aldeia era tornar-se Vila, como se deduz
da Ordem Régia, de 25 agosto de 1801, face ao decreto de 26 de março de 1819.
Aos 17 dias do mês de outubro de 1823, a Aldeia de
Valença foi erecta em Vila, com a
denominação “Aldeia de Valença”. Instalada que foi a Vila, verificou-se em em
12 de novembro de 1826, a instalação da primeira sessão da Câmara provisória, a
qual, teve lugar na Vila, na residência do ouvidor da Comarca do Rio de
Janeiro, Antônio Barreiro Pereira Pedroso, fato êsse ocorrido por falta de casa
própria.
A Vila de Valença que passava, por lei, a ser sede de
município, desmembrara-se dos distritos da Côrte e das Vilas de São João do
Príncipe e de Rezende.
“Bem depressa divulgou-se a fama da fertilidade das
terras e os habitantes das circunvizinhanças e, mais tarde, os estrangeiros
atraídos ao Rio de Janeiro, precipitam-se para Valença” (Joaquim Norberto: obr.
cit.).
Tão logo ficou provada a excelência das terras
valencianas para o cultivo do café, e uma multidão de agricultores procedeu a
derrubada das matas, preparando os morros e os montes, em largas extensões,
para a exploração do ouro verde. E com crescente fluxo comercial entre os
sertões de Minas e Rio de Janeiro, através de Valença, não se demorou a
verificar-se o aceleramento da sua evolução econômico-social.
Portuguêses e fluminenses, unidos aos mineiros, e
seguidos de numerosos colonos, atacam as florestas e as matas-virgens, e
plantam café que cobre todo o solo do novo município.
Valença cresce no Império e a Côrte a prestigia. O café
enriquece a região e engrandece um povo em formação. Cria-se, na Vila, uma
grande aristocracia rural.
Com notáveis progressos das lavouras cafeeiras, Valença
adquire invejável importância. Por todos os quadrantes do município domina a
riqueza dos solares rurais que tudo dão para o desenvolvimento da Vila. A
aristocracia, “solidamente organizada”, une Valença à cidade do Rio de Janeiro.
A sua importância econômica assoberba-se em crescentes
empreendimentos político-sociais. A Vila passa a dever a sua ótima posição
rural a um punhado de mineiros de escol que atravessam o rio Prêto para virem
instalar-se nas matas de Valença.
E agora, decorridos os cem anos de sua evolução à
categoria de Cidade, Valença, honrando o seu cognome — “Princesa da Serra”,
cidade industrializada, respeitada pelo seu elevado gráu de progresso
político-econômico e de assistência social e cultural, — exalta jubilosamente o
seu passado e as suas tradições gloriosas nas inesquecíveis figuras de Paulo de
Frontin, Antônio Januzzi, Manoel Joaquim Cardoso, José Siqueira Silva da
Fonseca e D. André Arcoverde — os maiores benfeitores da cidade em festa.