
Voz da Serra,
dezembro de 1968
A vida está difícil, cada vez mais
difíciI, difíciI sob todos os aspéctos... Vivê-la, em nossos dias, é praticar a
magia, o malabarismo, é ser herói. E´ exercer a acrobacia da sobrevivência.
Mas, apesar dos pesares por que faIar mal da vida? Se ela não é compreendida,
nem elevada pela inteligência dos homens que, social e economicamente, a
desumanizam numa situação desfraternizada em que ninguem se entende e vive
assustadoramente... Que falta ao homem para compreender a vida em tôda a sua
plenitude vigorante? Está lhe faltando o princípio cristão que une os
espíritos e congrega as sociedades?
Vivemos o
momento da desilusão, o momento em que a fé se consome no desperdício dos
ideais, o momento em que o homem está se destruindo...
Os povos
sofrem a desigualdade material que martiriza e oprime os sonhos das gerações
que se sucedem. O homem rompe e extermina os ansêios dos povos que aspíram a
felicidade de viver. Cresce o progresso em todos os sentidos, enquanto a moral,
a crença e os estímulos se perdem na loucura dos incompreensíveis, dos reformadores
sem fé, fazendo do mundo um vasto hospital e uma incomensurável oficina de
máquinas que dominam pela destruição permanente do homem pelo homem.
O homem, que
se está tornando miseràvelmente desumano, está diante de dias negros que
desfilam na passarela de tantas promessas, ameaçando a humanidade, cuja sorte
é sofrer eternamente, porque é o seu destino, destino que o próprio homem
criou e alimenta, na sucessão dos séculos, turvados por maus prenúncios em que
a paz é volúvel e anestesiante, maliciosa e amedrontada.
Vivemos o
século da paz armada, em que o homem tem medo do homem e os destinos se chocam
e se confundem na luta pela vida. As máquinas atômicas e os engenhos
nucleares têm apenas o rótulo da paz, mas no fundo a substância é o terror que
sobressalta os espíritos, a loucura que estronda nos espaços e a morte
arrazante que destrói as raças desentendidas e humilhadas ante os caprichos
dos poderosos - porque o homem, êsse homem insensível e incontentável é a
fôrça do mal destruindo o felicidade de viver, é a própria fôrça gerando
outras fôrças contra si mesmo.
Quando
chegará o dia em que os homens se contratarnizarão, saindo da tremenda
escuridão em que se encontram — para a claridade da alta compreensão?
Quando
chegará o dia em que os homens compreenderão que a vida é bôa e digna de viver?
Sim, e vida é
boa... mas, os homens é que são difíceis.