


Duas palavras
É-me dever, em me estreiando nas
letras do teatro, agradecer ao distincto amigo Exmo. Snr. Tte. Luiz França, que
tão gentil, na sua apreciação de "Tudo pela Pátria", me honra
imerecidamente.
"Tudo pela Pátria" é
um trabalho sem pretenção, a primeira peça
d'este genero que escrevo, e, atendendo ao fim patriótico que tenho em
mira, espero ter favorável acolhimento no seio da mocidade brasileira.
A crítica mordaz pôde feril-o,
na sua forma litteraria, deprecial-o no seo valor theatral, mas aqui vae um
pedaço do meo coração que dedico á minha Patria!
Leoni Iório
Ouro Preto, 12 de Outubro de 1920.
Apreciação do Tte. Luiz França:
Caro
Iório,
Li o teu trabalho: "Tudo pela
Pátria!"
Confesso que não podias ser mais feliz do
que foste, na escolha do assumpto que resumes n'um só acto do teu drama.
"Tudo pela Pátria" é a synthese
do que, de mais nobre e grande, tens no coração. "Tudo pela Pátria"
constitue já, um triumpho alcançado em princípios de tua carreira de escriptor
theatral.
Lembra-te que o theatro nacional já tem seiva;
mas, necessita, ainda, de maiores estímulos para uma vida de glorias. E's moço,
e portanto, muito poderás fazer por elle.
Do teu amigo
Ouro Preto - 1920
__________________
Ao distincto
Cap. LEONIDAS MARQUES
Este ensaio de continência á patria.
Ao mestre-scena
JOSÉ GUIMARÃES
Este fruto das suas lições.
Figuras:
MARIA, mãe de Luís
STEPHEM, ébrio, pae de Lucas
Pe. Caetano, irmão de Maria e vigario da villa
A acção se
passa n'uma villa do extrangeiro.
****************************************
A scena representa um casebre : ao F. porta e janella que dão para o campo; portas lateraes que comrnunicam com o interior da casa; á E. baixa, uma meza tosca, sobre a qual se acham alguns livros, papeis em desordem e um castiçal com vela acesa. Em redor da meza estão um banco e um tamborête. Á parede do F., entre a porta e a janella, está pendurado um crucifixo de metal. Tudo denota pobreza. E’ noite.
LUIZ,
que tem physionomia cadaverica, ao levantar o panno, tem a cabeça debruçada sobre a meza, onde cochila; depois de pausa, como si estivesse sonhando, murmura as seguintes palavras:
“- Derramarei a minha ultima gotta de sangue!. Pela
patria unida sacrificarei o meo corpo.” .
(Acorda
n’um sobresalto, ao dar horas o relogio da vi/la; esfregando os olhos, com
admiração) Quê?!... Estaria
eu sonhando, ha pouco ?!... (Consulta
os papeis) Sim. Era mesmo
um sonho. (Procurando
recordar) Que palavras tão
felizes!... (Consulta de
novo os papeis) Nada. Aqui não
as vejo escriptas! Foi realmente um sonho. A vontade de escrever é tanta... que
ja me faz sonhar! (Pausa.
Levanta-se e dirige-se à janella do F.; depois de ter contemplado o céo,
suspíra).
Ah, Brasil de mính’alma! Estás tão longe... e a mim, me faltam azas para voar... voar,
qual aguia altaneira, em busca do teo céo azul!... (Desce; acende o cigarro á chamma da vela; senta-se, rnudando de tom.) As minhas paixões levam-me a abandonar este paiz.
O dever obriga-me a incorporar-me ás fileiras da minha patria!... Mas não posso
assim fazel-o, infelizmente, por emquanto: tenho receio que meo pae me
castigue. Elle sempre me diz que
não tenho patria ! Emfim... deixal-o fallar, coitado! (Toma da penna para escrever).
O MESMO E
MARIA.
MARIA, que veste
chales grosso, tem physionomia cançada; entra D. alta, trazendo ás mãos um terço
de contas volumosas. Benzendo -se. Á meia voz:
Luiz ainda está. acordado?!... (Alto) Admiro-me muito, filho, como
podes supportar o frio d’esta noite?!
LUIZ, trabalhando
com attenção, não a percebe.
Esta phrase vou deixar; é
de effeito magnifico!
MARIA, aproxima-se de Luiz, batendo-lhe no hombro.
Luiz?!...
LUIZ, voltando-se,
atira fóra o cigarro.
Oh, mãe, tu por aqui?!...
Não vês como a neve cae e o frio é forte?!... São horas de dormir. Não te sacrifiques,
tanto, até alta noite. A tua saúde nào permitte que desafies este rude
tempo!...
E’ duro, mãe, supportar este frio cruel, bem sei.
Mas, que fazer, si o meo coração me obriga a este sacrifício ?!.. Por isso, não
poderei perder estas noites tranquíllas, que me fazem sonhar... que me Inspiram a escrever um livro
patriotico!
Mas, filho, primeiramente, a tua saúde e, depois...
LUIZ, interrompendo-a
E depois...
MARIA, concluindo
A tua felicidade.
LUIZ,
Sim, mãe, porque a minha felicidade está n’este
trabalho que dedico a minha patria. Aquella patria que vive tão longe dos meos
olhos!...
Oh!... Não estas, por ventura, em tua patria?!..
Não
é tua esta patria? Eu e teo pae nascemos aquí: portanto não deixará ella de ser
tua tambem!... E’s meo filho!
LUIZ, sorrindo
Oh, este paiz, minha patria?!. (aparte) Singular theoria feminina!... (Alto) Ainda ha pouco
dízias que patria é o logar onde se nasce.. Agora te pergunto: onde nasci eu?
MARIA
Oh!... Não sabes?! .. (Contrariada) Foi no... no... (aparte); Stephem
prohibio-me de dizel-o!...
Basta. Percebo o teo sacrificio, mãe. Nasci no
Brasil. Si este paiz, a que, presentemente, tenho os olhos vendados á sua
belleza, á sua riqueza. me vío nascer... dize, mãe, que paiz é este?
MARIA, contrariada
E’... é...
LUIZ interrompendo-a
O Brasil!... A minha patria!...
MARIA, sentando-se
Inegavelmente, o Brasil é tua pátria. Eu não te digo
o contrario; mas poderás considerar
esta, como tua patria, uma vez que aqui nasci.
Sim, mãe. Para te ser agradavei, poderei quando
muito, considerar este paiz como segunda patria.
A primeira foi onde nasci!... Aquella que, primeiramente,
amei.. “como si pode amar uma só vez na vida.”
Tens razão, meo filho!
Assim digo, mãe, porque tu mesma me disseste, quando
pequenino, que a minha patría sempre foi o Brasil.
Realmente, filho! Tu assim fallando, me trazes á
mente as horas que passei, junto de ti, a rezar contigo pelos parentes nossos
que ainda por lá vivem; que te despertei os primeiros sentimentos patriotícos,
mostrando-te o desfilar das tropas nos dias nacionaes! Sim. Fui eu mesma quem
te ensinou a amar a tudo isto!
LUIZ, com
meiguice
E mais ainda, mãe: ensinaste-rne amar a ti mesma!
Pois, meo filho, foi lá mesmo, naqueIle paiz de
felicidades, onde a miseria, graças a Deos, nunca edificou o seo castello
funebre, que ti dei as primeiras luzes da vida.
LUIZ
Então ?!... Porque me não mandam para lá, agora, que
me sorriem os annos felizes da minha vida de moço?!... Lá, sim, poderei
manifestar com maior liberdade os meos sentimentos patrioticos!
Mas, bem sabes...
LUIZ, continuando
Aqui estou contrariado; eu soffro, tu soffres,
sofremos todos: — rneo pae, coitado, levando esta vida infeliz; tu martyrisada e sem a alegria no lar, e eu,
longe da patria e sem liberdade!
Não podes imaginar, que de jubilo vae-me n’alma ao
ver o teo bello modo de pensar! Jamais te opporei ás intenções patrioticas,
porque quem ama a patra, ama a si
proprio! (O relogio da
vil/a bate onze horas) Quê?!... - Já
onze horas?! E teo pae não vem! (Levantando-se,
vai para a porta do F.; olhando para fora como quem procura a/guem). Certamente
está em qualquer estalagem, (descendo) d’essas que só servem para levar ao abysmo da
desventura o meo pobre marido.
Tenho tanta pena d’eIIe!
LUIZ, commovido
E eu tambem!... Fraco, meo pobre pae, não resiste ás
tentações d’aquelles que se dizem seos amigos. Impelido pelo alcool, entra em
pandegas e zombarias e, esquece a familia. Elle soffre muito!...
MARIA
Fiz o que pude para livral-o das más companhias,
mas nunca o consegui.
Para mim, a maior dôr, é quando o vejo suffocado nos
vapores alcoolicos a blasphemar contra tudo. (Pausa) Soffro calado,
porque é meo pae!... Pobre, infeliz!...
Nào deves te affligir. Nem sempre as lagrymas e as
tristezas te fazem bem!
Nunca chorei mãe! Mas, dóe-me demais ao ver em meo
pae concretisada a imagem de um ébrio! Más companhias!...
Bem sabes que não são por falta de conselhos meos.
Quanto a mim, procedo como filhoI
Nas mãos de Deos, pois, deixo o destino de Stephem. (Pausa; mudando de tom). Bem. Mudemos de
assumptos. Queres que vá preparar uma chicara de chá ? Deves ter fome.
Acceito, mãe, embora a ocasião não seja propria para
este sacrificio da tua, parte.
Para um filho, mãe não conhece sacrificios (Sae pela E. alta.)
SCENA III
LUIZ, só
Obrigado, bôa’ mãe! Pobre creatura! E’ uma santa cá
na terral! Bondosa e conformada com a sorte, soffre resignada! (Pausa; levanta-se, pegando parte dos pqpeis
escrtptos, como que recordando, falla:) Foi n’uma das bellas noites de Dezembro, ouvindo Bilac,
cuja
vôz fallava ao coração da mocidade, que vi a alma brasileira vibrar com
enthusiasmo!
Bilac fallava pela patria e por ella trabalhava! Da
sua bocca ouvi brotar vivas e patrioticas orações, que, ora coloridas pelo
sentimento, ora felizes pelas expressões, deixaram-me profundamente
sensibilisado!
Desde logo comprehendi que algo era preciso fazer
também.
Puz-me a caminho e comecei a escrever este livro
patriotico que, si valor real algum não tem, vae n’elle, pelo menos, um pedaço de
minh’alma á patria estremecida!
Bem. Deixemos de divagações e meditemos um pouco (Debruçando a cabeça sobre a mesa.)
SCENA IV
PADRE CAETANO, entra,
trazendo um breviario na mão. Agazalha.se
n’uma capa
Que Deos esteja n’esta casa! (A Luiz que ergue a cabeça,). Dormias ?!... Ainda lha pouco quando
sahi, trabalhavas com vivacidade!
Não, tio padre, descançava um pouco. E tu? Foste
visitar algum doente, a estas horas ?
Sim. Fui ver o pobre Rodrigues. Elle estava mal.
Dei-lhe os santos sacramentos, e agora..
LUIZ, que o
interrompe
Melhorou ?...
Morreo! Morto, tinha traduzido nos labios o que sua
alma sentia. Morreo feliz!...
LUIZ, com
pena
Pobre Rodrigues!...
PADRE CAETANO, depois de pausa; que o tem observado em outro tom.
Pela physionomia pallidá que tens, trabalhaste muito
esta noite?!
E’ verdade, tio; trabalhei com a penna n’uma das
mãos e o coração na outra ! Estou trabalhando ás escondidas, para não
contrariar o meo bom pae.
PADRE CAETANO, sentando-se
Então, já déste o titulo ao teo livro?...
Ah, sim ! O titulo é aquelle mesmo que ainda hontem
te taIlei — “TUDO PELA PÂTRIA” !
O titulo é promettedor!
Veja, só, estas palavras: (lendo) — Lá de longe, desafias pelo teo esplendor; seduzes, pela
tua belleza; impões pela riqueza de teo solo; ensoberbas teos filhos pela
magnificencia da tua hospitalidade !... — Que tal, heim ?..
PADRE CAETANO, enthusiasmado
Magnilico! (Á
parte) Este rapaz promette futuro glorioso
Não e só isso. Seguem-se situaç5es melhores.
PADRE CAETANO, depois de pausa
Como passa a bôa mana?
Minha mãe vae cumprindo a sua sorte, obediente aos
caprichos do Destino e resignada como sempre! Está lá dentro a preparar-me uma
chicara de chá.
PADRE
CAETANO, ironico
Com certeza, está por
ahi a cumprir o seo fado, ouvindo o tilintar dos copos a transformar a pança em
uma nova adéga franciscana! E’ triste, é triste mas tem graça ás vezes. Porque
não vaes buscál-o?...
LUIZ, rindo
Falta-me coragem e tenho amor ao
pêllo; não desejo conhecer o peso do seo braço.
PADRE CAETANOI ironico
Que com o peso do alcool não deve ser leve
demais!...
LUIZ
Quando vejo meo infeliz pae n’aquelle estado, sinto
queimar-me o sangue1 congestionar-me o cerebro. Revolto-me contra a
sorte e tenho impetos de...
PADRE CAETANO, interrompendo-o
Mas que fazer, se assim o quer o Destino?!!
LUIZ
Mas tenho fé em Deos que um dia meo pae ha de se
rehabilitar e lhe seja a sorte mais propicia. Tenho fé que mais tarde elle ha
de louvar as minhas idéas e torne-se um fervoroso patriota como eu.
PADRE CAETANO
E pensas bem ! Creio piamente na tua felicidade.
LUIZ
Tanto mais, quanto agora que sou moço, que a luz da
verdade penetra na retina de minh’alma, estou convencido que nunca poderei
viver fóra da minha patria que meo pae talvez, por um capricho. me nega. Sou
brasileiro; tenho uma patria e muito preciso fazer por ella!
PADRE CAETANO
Sem duvida, meo Luiz!
LUIZ, continuando
Eu quizera ser, um dia, util á minha patria e
sel-o-hei n’estas noites de sacrificio, embóra meo pae dominado pelo aIcool, me
amedronte com sua ira.
Pouco importa! O principal é que não negues o
respeito que sempre dedicaste a teos paes. Coragem, que a victoria será tua!
LUIZ, tirando,
do bolso, um maço de cigarros que oferece ao Padre, sentando-se.
E’s servido de um cigarro?
Então, com tua licença.
LUIZ, acendendo
o cigarro á chamma da vela.
E’ uma das minhas distrações. (Pausa). Ao acender este
cigarro, veio-me á lembrança - a canção “O CIGARRO DO SOLDADO” que é muito
engraçadinha. Conhece-a, tio padre?
PADRE CAETANO, ironico
Oh, corno conhecel-a, si nunca ouvi cantar!...
Espera lá. Vóu ver si me lembro o principio da
primeira quadra. (Procurando
recordar-se) Ah, já me
recordo. Lá vae: (canta:)
Que na paz ou no perigo,
Nos dá conforto e prazer,
A gente falla-lhe e sente
Que o cigarro arde contente
Por nos saber entender.
E no meio da batalha,
Quando a furia da rnetraiha
Tudo leva n’uma aragem,
Um cigarro é um
achado
Que traz ao pobre soldado
À alegria e a coragem.
E lá na terra estrangeira,
Quando est!vér na trincheira
Mettendo a mão no bornal
Puxará da cigarrada
Que levou da patria amada,
Que levou de Portugal.
Puxará da cigarrada
Que levou da. patria amada
Que levou de Portugal.
PADRE CAETANO, que tem dado attenção á Luiz
Muito bem! Bellissimas quadras!... Talvez sejam
tuas estas poesias?.. .
Minhas?... Ah, quem me déra ter veia para versos!...
Pensei que, além de seres escritor, fosses tambem
um cançonetista !...
Si não fosse o meo trabalho, estaria aqui, me deIiciando
com a rabéca!... Faria chorar um frade!
PADRE CAETANO, ironico
Quando um frade chega a chorar... é porque a coisa,
é mesmo, de lagrymas.
Bem entendido: -“um frade de pedra”!
PADRE CAETANO, admirado
“Frade de pedra”?!!...
Sim. São marcos de pedra que ficam á entrada de
ruas.
Ah!... Quanto mais se vive, mais se aprende!...
MARIA entra da E. alta, trazendo uma
bandeja com duas chícaras de chá.
Aqui
tens o chá, meo filho. (Dirigindo-se ao Padre Caetano) Estás de volta ou vaes sahir?...
Estou de
volta. Não me viste sahir?! Fui dar a communhão ao Rodrigues.
Já
entregou sua alma a Deos.
MARIA, com pena
Coitado!
Era uma bôa creatura!... (Dístribuindo as chicaras) Mano, o chá, bem quentiriho estâ a teo
gosto.
PADRE CAETANO, pegando a chácara
Ah, isto
veio a calhar!...
Minha
mãe, não ha, lá por dentro, algumas rosquihas para dar a tio padre?...
PADRE CAETANO, ironico
Rosquinhas?!... (Rindo) Ah!... Ah!...
Ah!... (Á Maria) Tem elle ídéas tão confusas que não se lembra que
o medico prohibio-me de comer rosquinhas a estas horas! (Á Luiz) Bem sabes, Luiz,
que a minha machina, ca de dentro, não funciona reguIarmente,
Já foi muito bôa; desenvolvia, antigamente, uma
energia poderosa! Hoje, porem, a engrenagem não funciona com segurança.
Tio padre está
hoje muito pilhérico!...
PADRE CAETANO, suspírando
Ah! Tenho os meos dias!
MARIA, que
tem observado Luiz:
Luiz, estás tão desfigurado?! Sentes alguma coisa?.
. . Que tens?...
LUIZ, disfarçando-se,
coloca a chícara sobre a meza.
Nada sinto, minha mãe. Apenas um pouco cansado.
MARIA, approxirnando-se
de Luiz
E’ bom que descances um pouco. Tens trabalhado muito
e não deves te sacrificares assim.
Sim, é preciso rehaveres as forças perdidas. Acho
que não deves ficar aqui, já que tomaste o chá quente, esta corrente de ar frio
não te fará bem.
LUIZ, levantando-se
Tens razão, tio padre. Obedeço-lhes, bons amigos.
Luiz sae pela D. alta, enquanto Maria arruma as chicaras á bandeja; pausa por instantes, enquanto ella enxuga os olhos com o lenço que traz no avental. Padre Caetano que tem acompanhado Luiz até a porta, saccóde a cabeça, dirigindo-se para a meza.
Scena VI
MARIA E
PADRE CAETANO
MARIA, com
a voz tremida
Quando chegará o nosso dia de felicidades?!...
Quando Deos Nosso Senhor quiser, bôa mana.
Já me sinto sem forças... não posso mais soffrer!.
PADRE CAETANO, consolando-a
Para alcançar o reino dos Céos, é forçoso, soffrer e
muito soffrer n’esta vida! Chrísto. tambem soffreo!... “Bemaventurados aquelles
que soffrem”...
MARIA, resignada
E’ justo que eu soffra.... (Pausa, impaciente dirige-se ao F. olhando da
janella para fóra)
Mas.., e o meo marido que não chega?!... (Desce)
Tranquiliza-te, mana. Deos na sua bondosa misericórdia,
não deixa de guiar os passos vacillantes de Stephem. Elle virá...
MARIA, dirigindo-se
ao F., em soluços
Assim seja, meo Duos!... (Em tom de
prece) Oh, minha Mãe dos Céos. iluminae com a luz de vossa bondade o caminho do
bem a Stephem!
Retirae dos seos olhos a teia espessa que intercepta
os raios fulgidos do vosso coração!
Lançae, oh Mãe sagrada, a ancora salvadora.
n’aquelle mar de angustias, em que o meo marido, impotente, naufraga-se cada
vez mais!.. Oh, Virgem Santa, sou mãe tambem; vós, que sois Mãe da Hmanidade,
tambem sois Mãe, de Stephem! Arrancae-o do lodo em que se afoga!... (Dirigindo-se ao crucifixo) E tu, Salvador das almas infelizes, pelas chagas
do teo sagrado corpo, dês a Stephem o teo coração!. . . (Cae em prantos)
PADRE CAETANO, levantando-a pelo braço
Levanta-te, bôa Maria. Sei quanto é doloroso o
ferimento no coração de uma mulher que chora o desgraçado marido!... (Tira do bolso o lenço, com o qual enxuga
os olhos) Deos sabe o que
faz. (Luiz que tem
assistido ao fim d’esta scena, saccóde a cabeça em signal de compaixão.)
Scena VII
OS MESMOS,
LUIZ E DEPOIS STEPHEM
LUIZ, commovido,
áparte.
Pobre mãe...
E o meo bom filho?!... Soffre resignado as
impertinencias do seo pae.
LUIZ approximando-se
de Maria
Eu não soffro, minha mãe. E’s tu que soffres!
PADRE CAETANO, percebendo-o, com admiração
Não quizeste repousar?!!...
Maria sentando-se, dejanimada.
Não pude descançar, tio padre. Senti-me mal na cama;
tinha o rosto em braza!...
Uma visão extranha perturbou-me o descanço: -
parecia ser meo pae; vi-o no angulo direito do quarto; senti-o calcar-me; o
meo corpo vibrava de mêdo!...
PADRE CAETANO, solemne
Não rezaste, talvez, ao deitar?!...
Rezo sempre. Faço-o toda vez que me recolho. (Pausa; dirígindo-se a Maria como que tomado
de uma resohqJo.) Minha mãe, é-me
forçoso evitar, por qualquer meio, estes meos aborrecimentos. Sou moço, não
quero a velhice precoce. Desde já tomo a deliberação: partir o mais breve
possivel para minha patria.
MARIA, triste
Mas. meo filho?!!...
LUIZ, interrompendo-a
Não ficarás só. Tio padre velará pela tua sorte,
enquanto procurarei o socego para nós lá no Brasil.
MARIA, meiga
E o teo pae?...
Meo pae?... Elle, certameiite.
ha de se regenerar. Deos é tão bom!... (Senta-se.)
STEPHEM, de
fóra, gritando furiosamente
Mato-o... mato-o, hoje mesmo!... Miseravel!...
MARIA, assustada
Stephem?!!... Santo Deos!...
LUIZ, com
calma
Não te apoquentes. minha mãe.
E’ mais um drama, digno de compaixão, que meo pae
representa no scenario de sua infeliz vida!
STEPHEM, idem
Encontrar-te-hei, novamente, biltre!... (Ouvem-se grande algazarra e assobios contra
Stephern). Vaes ver quanto vale um Stephem !... Matar-te-hei com si faz a
umcão!...
1
MARIA, horrorisada
Oh, meo Deos, matar?!... Meo marido, um
a~ssassino?... Stephem assassino?... Oh, nunca!... (Tenta dirigir-se ao F., porem Padre Caetano a detem, fazendo-a sentar.)
PADRE CAETANO, consolando~a
Calma, calma!... (áparte)
A coisa não vae bem; é preciso retirar-me quanto antes !... (Alto) O peior e que não sei onde puz a chave do
quarto... (procurando-a nos bolsos) Ah...
cá está!...
Vá, minha mãe, deitar-te. Tenho receio que... (ouve-se immediatamente um tiro de pistola
dado por Stephem.)
TODOS, assustados
Ah!...
STEPHEM, idem
Tiveste a sorte, maganão, de não ires fazer uma
visitinha a Satanaz!... (A vóz de
Stephem aproxíma-se aos poucos). Hoje não estou
com a mão certa no alvo, sinão havias de conhecer Lucifér!... Miserave!...
LUIZ E STEPHEM
LUIZ, tomando
da penna
Comecemos a trabálhar.
STEPHEM, apparecendo
ao F... cambaleando, tendo roupa velha, empunha uma garrafa que, de quando em
vez, leva á bocca, estalando a lingua, n’um gesto ridiculo.
E’ o succo dos “mata bichos”!... Quando isto
escorrega pela «guela» abaixo, desce que nem um gôsto (Desce cambaleando, detendo-se deante de Luiz que
flnge não percebel-o) Então, meo
garoto... (virando a
garrafa á bocca) anda continúas
com a tua beIla idea de... de...
(diabo, agora me faIta o raio do nome!) de... escriptor de livros
patriotlcos?...
LUIZ, amavel
E’ verdade, meo pae. Nada mais soberbo, nada mais
patriotico! Como se é feliz quando se tem uma patria!...
STEPHEM, ridicularisando
Ah! Estás, como sempre, com a cabeça no ar. (Mudando de tom) Diga-me:- sabes
o que é patria?...
LUIZ, com enthusiasmo e expressão.
Patria é o logar onde se nasce!... Patria é aquele
logar onde brilha o Cruzeiro do Sul, num céo diáphano!... Patria...
STEPHEM, interrompendo-o
com uma gargalhada.
Não tens vergonha, meo gaiáto, de dizer que possues
patria?!...
Perdão, meo pae...
STEPHEM, interrompendo-o
Qual, tu és um louco criança inexperiente!... (Depois de pausa, cambaleia, procurando remexer os papeis de Luiz) Que papeís são estes, cheios de garatujas?!...
Alguma poesia, talvez. que vaes
dedicar â algum graúdo lá do Brasil!...
Não é poesia, meo pae: - são duros sacrificíos de
muitas noites frias; é um livro dedicado a mocldade brasileira!...
STEPHEM, ironico
Ah!... Ah! Brasil?!... (Dando gargalhadas) Ah!... Ah! Qual Brasil, qual patria, qual
nada!... Aqui no extrangeiro não se conhece esse Brasil que tanto sonhas!...
LUIZ, áparte
Quanta injustiça á minha patria!...
O tempo que perdes em te dedicares a estas bajulanças de patria, seria melhor si
me acompanhasses na luta pela vida — a trazer para casa o alivio da fome !... (Fasendo
signal de roubar) Comprehendes?...
LUIZ, áparte
A//ívío da fome!?!... (Alto) Ah, isso nunca, meo pae! Ninguem,
até o presente dia, me ensinou a roubar. O meo caracter e a minha dignidade a
isso me prohibem.
STEPHEM, depois
de ter virado a garrafa á bocca
Então, ficas em casa?! Esperas que a patria te traga
o pão para matares a fome?. .. Eu cá nunca tive patría e nem conto cam elIa; fiquei
completamente descrente quando, um dia, perdi o emprego da mina, só porque pedia o augmento do meo parco salarío. O miseravel
industrial negou-me sempre. Negou-me...
LUIZ áparte, interrompendo-o
Oh, meo Deus!.
STEPHEM, continuando
Negou-me
o pão de cada dia. Sabes o que é o pão? Nunca tiveste fome? Soffreste, por
ventura, algum dia, o frio da cadeia que fére como o gume afiádo de um
punhal?...
LUIZ, comrnovido, áparte
A dôr
punge-me o coraça!....
STEPHEM
Não...
não conheces a fome; nunca sentiste o frio das algemas ! Por isso, digo e direi
sempre: não tenho patria—a minha patría é o estomago! (Leva á boca a garrafa, arregalando os olhos com prazer, num forte estalo
de /tngua.) Como hei de considerar este paiz. minha patria. si elle nunca premeiou os
meos suores, suores que se converteram em moeda para a Nação e lagrymas para a
famiha! Á nossa custa, o “rico” tem recheiados os seos bólsos. Ser rico, é para
mim, o maior peccado que Deos poz no mum4o, si é que ha um Deos!....
LUIZ
Mas, meo pae.....
STEPHEM, continuando.
Este meo paiz tem, á custa dos operarios, os cofres recheiados, enquanto nós,
miseraveis operarios, calcados sob o peso dos impostos, vivemos por ahi...
por... ahi, sugando uns e outros!
Talvez, si todos operarios...
STEPHEM, continuando.
Operarios, que trabalhámos desde a aurora ao cahir
da tarde, sem recompensa, cheios de dividas e até com a saúde roubada!...
LUIZ, áparte.
Em parte, meo bom pae, não deixa de ter a sua
razão!...
STEPHEM, continuando.
Revoltei-me deante do espirito avesso dos patrões;
conspirei, entre os meos colIegas, uma greve geral e todos nós reclamámos o pão
- o direito do homem que trabalha!...
Tudo isto, meo pae, são consequencias de mas
administrações e desmedidas ambições. Lá na minha patria já não acontece o mesmo: — o braço operario encontra apoio, desvelo e
humanidade. Lá, tudo se resume em ordem e progresso!
STEPHEM, dando
longas gargalhadas.
Ah !.. Ah!... Ah!... Todas ellas são a mesma
coisa!...
Isto de direito, humanidade, ordem e progresso, não são
mais que phrases soltas ao vento!... (Sentando-se)
Esquece-a, de urna vez!
LUIZ, /evantando-se.
Esquecel-a?!... Nunca. Oh, nunca! Esquece-se o
amigo que nos foi infiel; esquece-se a mulher que nos trahio; porem, nunca se
esquece a patria que se ama em vida, a patria, cujo filho morto, está sempre
prompta abrir suas entranhas para receber seos despojos mortaes. (Sentando-se) Esquecel-a?!...
Nunca!
No entretanto, os teos sermões... Desprezo e esqueço
esta patria, esta sociedade vil que suga rniseravelmente do operario, o fructo
sacrificado dos seos suores! Do operario que, oprimido pela ambição desta
sociedade, vive suplicando da patria o pão, a troco do seo talento, da sua
honra e da sua propria vida! Achas isso bonito?..
LUIZ, consolando-o.
Acalma-te, pae. O teo desespero é justo. Deos um dia
ha de te salvar, dando-te o logar que te é proprio. Tem esperança.
Qual!... Quando o “rico” é transportado, pelas azas
da sorte, ás culminancias, ao apogêo das grandezas. elle tudo esquece e o pobre operario continúa carpindo suas
dôres de miseria e fome!.. N’essas condições, meo filho, não se tem patria...
tudo illusão!
Não deves tu pensar em patria, porque és operario tambem,
filho do homem do trabalho. Um operario não tem patria!...
LUIZ, áparte.
Quanta injustiça attribuida á patria!... Emfím... é
meo pae!
OS MESMOS
E PADRE CAETANO
PADRE CAETANO, entrando da E. baixa, receioso.
Que Deos seja comtigo, amigo Stephem!
Oh, por aqui!... Então, já tomaste hoje o bom do teo
vinho de missa ?... Pois, eu cá, por mim, não tomei ainda! (Virando a garrafa á bocca, n’um forte estalo de língua) Prova... vê só como isto escorréga macio!... (Offerece a garrafa ao Padre)
PADRE CAETANO, recusando.
Obrigado, eu não bêbo.
STEPHEM, ironico.
Ah!... O padre Caetano não bebe?!... (Rindo) Ah!... Ah!...
Ah!... Se me dissesses que gatto é que
não bebe, ainda poderias... (levando
de novo a garra/a á bócca) Eu é que não bêbo... Isto vale por mil vinhos do
Porto!...
PADRE CAETANO, idem.
Obrigado, caro Stephem. Não posso ser victima de
taes abusos! Sou velho e como intréprete de Deos devo dar sempre bons exemplos!
STEPHEM, com
ironia.
Já vens com as tuas desentoádas ladainhas!... Não é com os teos mízeréres
que me vaes fazer, de um operario, um industrial... (Tocando-lhe com a mão á barriga) E’s tu que sabes viver... tens aqui um
alambique!...
PADRE CAETANO, irritado, repelle-o.
Não trates assim ironicamente a um sacerdote! Não é assim que se dirige a um Ministro
de Deos!...
LUIZ, que
se achava distrahido com seos trabalhos, diz em tom de censura.
Oh, meo pae!...
STEPHEM,
com ironia.
Ministro?!... (Rindo) Ora seo ministro!... (Abraçando ao Padre) Não te zangues, sim?... (Á Luis) O padre Caetano
é meo amigo!
Deos te guie! Olha, vá dormir
que a noite está fria... sao quasi tres horas!... (Mostrando-lhe o relogio de bolso) Trabalhaste
muito hoje e, por isso, necessitas do descanço. O operario que trabalha durante
o dia, tem a noite para o devido repouso.
Principalmente quando elle perde metade de suas forças, empregadas, habilmente, para
mais recheiar os bolsos gananciosos dos “ricos.”
Vá, meo bom pae. Minha mãe está acommodada. Por
favor, dá-lhe satisfação, ao menos...
STEPHEM, dirigindo-se
para a D. alta, com ironia.
Deixa-me vêl-a, coitadinha.
Certamente está á bater lingua! Com um rozario phenomenal,
reza, reza até o gallo cantar a alvorada!... (Sae a passos curtos e deseguaes, levando á bocca, de vez em quando, a garrafa e estalando a língua facilmente.)
PADRE CAETANO, que o acompanha com a vista até Stephem desaparecer.
Coitado! Segue ás palpadellas, como um cego! (Desce) Impossivel fazel-o
regenerar-se, pobre infeliz !...
LUIZ. impaciente.
Estou receioso... tenho máos presentirnentos! Minha
mãe sósinha no quarto... meo pae, n’aquelle estado!...
PADRE CAETANO, consolando-o
Sê tranquillo!
LUIZ, idem.
Não posso ter calma. Si pudesse arrancal-a d’aquella
situação... (tenta
dirigir-se para D. Alta; porem Padre Caetano o impede.)
Calma, calma!...
Sinto cá dentro, alguma coisa que me não é natural...
Deos não deixará de velar sobre a tua mãe; ella é
religiosa!... E assim, tambem saberá conter Stephem.
Sentir-me-ia bastante feliz, si pudesse levar tambem
minha mãe para o Brasil. Lá, então, gozaríamos segura tranquillidade.
PADRE CAETANO, sentando-se.
Não te desanimes. Quem espera sempre alcança. Ainda
muito poderás fazer pela tua patria.
Assim o espero, ainda mesmo que d’antemão, eu saiba
que de lá, a morte virá lhe arrebatar depois! É-se feliz quando se morre pela
patria!
Bravos! – “É belo e doce morrer pela patria” — assim
dizia Horacio aos filhos de Roma, exhortando-os a imitar as virtudes
patrioticas dos seos maiores.
Agora, mais do que nunca, o Brasil precisa dos seos filhos. É necessario que saibámos
quantos somos, para sabermos o quanto valemos! Eu preciso lá estar, quanto
antes — sou tambem brasileiro!...
Mas... e a tua mãe?
Minha mãe tem vontade de ir tambem... Contou-me ella
ha tempo, que um parente nosso habita o Brasil ha muitos annos.
Elle
vive lá. na sua bella mansão de paz, desfructando a sua riqueza. Ah, si
pudesse vêl-o... talvez, me fizesse feliz!...
PADRE CAETANO, recordando.
Ah,
sim... sim! Este parente de quem a mana falla, talvez irmão de Stephem.
Não te
posso affirmal-o, tio padre.
Si
Stephem seguisse o exemplo do seo irmão, não seria um ébrio, amaria mais a sua
familia e não acusava a patria como causadora das suas paixões. Que felicidade
para nós!...
É
verdade, tio padre. E si estivéssemos lá, estou certo, meu pae, com os exemplos
do seo irmão, já nos teria feito felizes.
Eu, como
soldado-official, e tu, como capellão — um cura dos soldados!.
Que
bello não seria! Tem fé
Vê,
quanto é nobre este trabalho! Estou intimamente convencido, que esse trabalho
me fará feliz, e que minha mãe
terá sernpre o sorriso de uma alegria n’alma, participando da minha
felicidade.
PADRE CAETANO, que tem consultado os papeis.
Escreveste rnuito!
Alguma coisa. Mas como te dizia — e meo pae não
seria mais um ébrio. Enquarito eu, Luiz Stephem, tivesse forças para o trabalho
honesto!
Ouvem-se do
quarto da D. alta alguns passos; em seguida, um tiro de pistola, Luiz e Padre
Caetano ficam immoveis por instantes. Stephem entra da
D. Alta, tendo a face esquerda ensanguentada e a pistola n’uma das mãos. Sem
poder fallar, el/e se escóra,. exhausto de dores, dá alguns passos em falso,
deixando-se cahír bruscamente no chão. Luiz apoia sobre seos braços a cabeça de
Stephem.
STEPHEM, erguendo
um pouco a cabeça, balbucia com difficuldade:
Luiz... a... ma... a tua pa... tria! (deixando cahir a cabeça sobre os braços de
Luiz.)
LUIZ. aterrorisado.
Morto!
O
relogio da vi/Ia bate tres horas compassadamente. Luis, dirigindo- se ao Padre
Caetano, enxuga os olhos na manga da paletot.
PADRE CAETANO, conformado.
Consummatum est!
Meo pae!...
Oh, Deos de rnisericordia, dae a esta alma que foi
infeliz na terra, o vosso reino!
Scena XII
MARIA, pai/ida
e assustada, tendo os cabellos soltos, com physinomia interrogativa, apparece
á D. alta.
Vendo
Stephem morto no chão, atira-se sobre elle n’uma expressão de infinita dor.
Morto! Ah, meo pobre Stephem.
LUIZ, procurando
consola/-a.
Não chores, mãe... foi o Destino!
MARIA, soluçando.
Madrugada fatal!...
LUIZ, ao
Padre Caetano.
Para socego do meo espirito e consolo de minha mãe,
só me resta partir — para o Brasil.
Cumpra-se o teo destino: parte para o teo Brasil
sonhado!
Serve-o com carinho; venera-o, com nobreza, porque
elle é tua patria!
MARIA, soluçando.
Oh, Deos meo!...
Stephem morto!...
PADRE CAETANO, dírigindo-se para o F., toma do crucifixo que está pendurado na parade. Ouve-se lá fóra, ao longe,
o som mavioso de um violino, acompanhado de outros instrumentos.
Luiz, tens aqui o emblema dos padecimentos do
Christianismo. De braços estendidos sobre este lenho, está o Martyr do
Golgotha, que derramou o seo sangue em pról da Humanidade.
MARIA, em soluços.
Oh, duro contraste!... Lá fóra, reina a alegria
e aqui dentro, um remansó de dôr!...
PADRE CAETANO, continuando.
Recebe esta rccordação que um cura das almas te
offerece.
Tens aqui o exemplo, tão bello quanto heroico, de
uma alma virtuosa que soube soffrer!
(Dá-lhe o crucifixo,)
Soffre tu tambem com resignação que te fará mais
digno da tua patrta e que te dará,
como recompensa, a patria celestial!
LUIZ, que
recebe o crucifixo.
Obrigado, tio padre (Dobrando os papeis que se acham sobre a meza e guardando-os no bolso). E’ com o coração em pedaços, retalhado pelas
dores e animado pela esperança de ver a minha patria, que te vou deixar.
(Dirigindo-se
a Maria)
O’ mãe!
MARIA, erguendo
a cabeça.
Filho!
Está tudo acabado. Beija rneo pae e abençôa-me
depois.
MARIA
Filho: — Deos, Mãe e Patria, eis a benção que te
dou!
Abraçam-se.
Luiz commavido1 enxuga as lagrymas.
LUIZ
Mas, tu que me déste a benção. roga de Deos a minha
felicidade n’aquella patria abençoada.
(Dirigindo-se ao crucifixo que tem na mão).
Oh tu, consolo dos que soffrem, excelso Nazareno,
abençôa-me n’esta hora suprema!... (Pausa)
E tu, patria minha amada, filha dilecta do Cruzeiro
do Sul, abençôa este meo pequeno coração, que te jura pelo sangue do meo pae,
ter um peito prompto para os maiores sacrificios e sempre capaz... de tudo pela
patria!