Tudo pela Pátria!
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

Peça  em um ato 


 

Original de: 
Leoni Iório
- 1920 -
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                      Duas palavras

 

              É-me dever, em me estreiando nas letras do teatro, agradecer ao distincto amigo Exmo. Snr. Tte. Luiz França, que tão gentil, na sua apreciação de "Tudo pela Pátria", me honra imerecidamente.

 

              "Tudo pela Pátria" é um trabalho sem pretenção, a primeira peça  d'este genero que escrevo, e, atendendo ao fim patriótico que tenho em mira, espero ter favorável acolhimento no seio da mocidade brasileira.

 

               A crítica mordaz pôde feril-o, na sua forma litteraria, deprecial-o no seo valor theatral, mas aqui vae um pedaço do meo coração que dedico á minha Patria!

 

 

                                                                                                                            Leoni Iório

 

                          Ouro Preto, 12 de Outubro de 1920.

 

 

 Apreciação do Tte. Luiz França:

 

Caro  Iório,

 

Li o teu trabalho: "Tudo pela Pátria!"

 

Confesso que não podias ser mais feliz do que foste, na escolha do assumpto que resumes n'um só acto do teu drama.

 

"Tudo pela Pátria" é a synthese do que, de mais nobre e grande, tens no coração. "Tudo pela Pátria" constitue já, um triumpho alcançado em princípios de tua carreira de escriptor theatral.

 

Lembra-te que o theatro nacional já tem seiva; mas, necessita, ainda, de maiores estímulos para uma vida de glorias. E's moço, e portanto, muito poderás fazer por elle.

 

                                                                                          Do teu amigo

 

                                                                                            L. França

                        Ouro Preto - 1920

 

 

                                         __________________

 

      

  Ao distincto

 

                                            Cap. LEONIDAS MARQUES

 

                              Este ensaio de continência á patria.

 

                                       

 

Ao mestre-scena

 

 

                                           JOSÉ GUIMARÃES

 

                              Este fruto das suas lições.

 

 

    Figuras:

 

LUIZ STEPHEM, 20 annos

MARIA, mãe de Luís

STEPHEM, ébrio, pae de Lucas

Pe. Caetano, irmão de Maria e vigario da villa

        A acção se passa n'uma villa do extrangeiro.

 

                                                  ****************************************

ACTO UNICO

 

A scena representa um casebre : ao F. porta e janel­la que dão para o campo; portas lateraes que comrnuni­cam com o interior da casa; á E. baixa, uma meza tosca, sobre a qual se acham alguns livros, papeis em desordem e um castiçal com vela acesa. Em redor da meza estão um banco e um tamborête. Á parede do F., entre a porta e a janella, está pendurado um crucifixo de metal. Tudo denota pobreza. E’ noite.

 

Scena I

 

LUIZ,

 

que tem physionomia cadaverica, ao levantar o panno, tem a cabeça debruçada sobre a meza, onde cochila; de­pois de pausa, como si estivesse sonhando, murmura as seguintes palavras:

 

“- Derramarei a minha ultima gotta de sangue!. Pela patria unida sacrificarei o meo corpo.” .

 

(Acorda n’um sobresalto, ao dar horas o relogio da vi/la; esfregando os olhos, com admiração) Quê?!... Estaria eu sonhando, ha pouco ?!... (Consulta os papeis) Sim. Era mesmo um sonho. (Procurando recordar) Que palavras tão felizes!... (Consulta de novo os papeis) Nada. Aqui não as vejo escriptas! Foi realmente um sonho. A vontade de escrever é tanta... que ja me faz sonhar! (Pausa. Levanta-se e dirige-se à janella do F.; depois de ter contemplado o céo, suspíra).

 

Ah, Brasil de mính’alma! Estás tão longe... e a mim, me faltam azas para voar... voar, qual aguia altaneira, em busca do teo céo azul!... (Desce; acende o cigarro á chamma da vela; senta-se, rnudando de tom.) As minhas paixões levam-me a abandonar este paiz. O dever obriga-me a incorporar-me ás fileiras da minha patria!... Mas não posso assim fazel-o, infelizmente, por emquanto: tenho receio que meo pae me castigue. Elle sempre me diz que
não tenho patria ! Emfim... deixal-o fallar, coitado!
(Toma da penna para escrever).

 

 
Scena II

O MESMO E MARIA.

 

MARIA, que veste chales grosso, tem physionomia cançada; entra D. alta, trazendo ás mãos um terço de contas volumosas. Benzendo -se. Á meia voz:

Luiz ainda está. acordado?!... (Alto) Admiro-me muito, filho, como podes supportar o frio d’esta noite?!

 

LUIZ, trabalhando com attenção, não a percebe.

Esta phrase vou deixar; é de effeito magnifico!

 

MARIA, aproxima-se de Luiz, batendo-lhe no hombro.

Luiz?!...

        

LUIZ, voltando-se, atira fóra o cigarro.

Oh, mãe, tu por aqui?!...

 
MARIA

Não vês como a neve cae e o frio é forte?!... São horas de dormir. Não te sacrifiques, tanto, até alta noite. A tua saúde nào permitte que desafies este rude tempo!...

 
LUIZ, descançando a penna

E’ duro, mãe, supportar este frio cruel, bem sei. Mas, que fazer, si o meo coração me obriga a este sacrifício ?!.. Por isso, não poderei perder estas noi­tes tranquíllas, que me fazem sonhar... que me Inspiram a escrever um livro patriotico!

 

MARIA

Mas, filho, primeiramente, a tua saúde e, depois...

 

LUIZ, interrompendo-a

E depois...

 

MARIA, concluindo                                

A tua felicidade.

 

LUIZ,

Sim, mãe, porque a minha felicidade está n’es­te trabalho que dedico a minha patria. Aquella patria que vive tão longe dos meos olhos!...

                                                      

MARIA

Oh!... Não estas, por ventura, em tua patria?!..

Não é tua esta patria? Eu e teo pae nascemos aquí: portanto não deixará ella de ser tua tambem!... E’s meo filho!

 

 

LUIZ, sorrindo

Oh, este paiz, minha patria?!. (aparte) Singular theoria feminina!... (Alto) Ainda ha pouco dízias que patria é o logar onde se nasce.. Agora te per­gunto: onde nasci eu?

 

 

               MARIA

Oh!... Não sabes?! .. (Contrariada) Foi no... no... (aparte); Stephem prohibio-me de dizel-o!...

 

LUIZ

Basta. Percebo o teo sacrificio, mãe. Nasci no Brasil. Si este paiz, a que, presentemente, tenho os olhos vendados á sua belleza, á sua riqueza. me vío nascer... dize, mãe, que paiz é este?

 

MARIA, contrariada

E’... é...

 

LUIZ interrompendo-a

O Brasil!... A minha patria!...

 

MARIA, sentando-se

Inegavelmente, o Brasil é tua pátria. Eu não te digo o contrario; mas poderás considerar esta, como tua patria, uma vez que aqui nasci.

 

LUIZ

Sim, mãe. Para te ser agradavei, poderei quan­do muito, considerar este paiz como segunda patria.

A primeira foi onde nasci!... Aquella que, pri­meiramente, amei.. “como si pode amar uma só vez na vida.”

 

MARIA

Tens razão, meo filho!

 

LUIZ

Assim digo, mãe, porque tu mesma me disseste, quando pequenino, que a minha patría sempre foi o Brasil.

 

MARIA

Realmente, filho! Tu assim fallando, me trazes á mente as horas que passei, junto de ti, a rezar contigo pelos parentes nossos que ainda por lá vi­vem; que te despertei os primeiros sentimentos patriotícos, mostrando-te o desfilar das tropas nos dias nacionaes! Sim. Fui eu mesma quem te ensinou a amar a tudo isto!

 

LUIZ, com meiguice

E mais ainda, mãe: ensinaste-rne amar a ti mesma!

 

MARIA

Pois, meo filho, foi lá mesmo, naqueIle paiz de felicidades, onde a miseria, graças a Deos, nunca edificou o seo castello funebre, que ti dei as primei­ras luzes da vida.

 

LUIZ

Então ?!... Porque me não mandam para lá, agora, que me sorriem os annos felizes da minha vida de moço?!... Lá, sim, poderei manifestar com maior liberdade os meos sentimentos patrioticos!

 

MARIA

Mas, bem sabes...

 

LUIZ, continuando

Aqui estou contrariado; eu soffro, tu soffres, sofremos todos: — rneo pae, coitado, levando esta vida infeliz;  tu martyrisada e sem a alegria no lar, e eu, longe da patria e sem liberdade!

 

MARIA

Não podes imaginar, que de jubilo vae-me n’alma ao ver o teo bello modo de pensar! Jamais te opporei ás intenções patrioticas, porque quem ama a pa­tra, ama a si proprio! (O relogio da vil/a bate onze horas) Quê?!... - Já onze horas?! E teo pae não vem! (Levantando-se, vai para a porta do F.; olhando para fora como quem procura a/guem). Certa­mente está em qualquer estalagem, (descendo) d’essas que só servem para levar ao abysmo da desventura o meo pobre marido.

Tenho tanta pena d’eIIe!

 

LUIZ, commovido

E eu tambem!... Fraco, meo pobre pae, não resiste ás tentações d’aquelles que se dizem seos amigos. Impelido pelo alcool, entra em pandegas e zombarias e, esquece a familia. Elle soffre muito!...

 

MARIA                              

Fiz o que pude para livral-o das más compa­nhias, mas nunca o consegui.

 

LUIZ

Para mim, a maior dôr, é quando o vejo suffocado nos vapores alcoolicos a blasphemar contra tudo. (Pausa) Soffro calado, porque é meo pae!... Pobre, infeliz!...

 

MARIA

Nào deves te affligir. Nem sempre as lagrymas e as tristezas te fazem bem!

 

LUIZ

Nunca chorei mãe! Mas, dóe-me demais ao ver em meo pae concretisada a imagem de um ébrio! Más companhias!...

 

MARIA

Bem sabes que não são por falta de conselhos meos.

 

LUIZ

Quanto a mim, procedo como filhoI

 

MARIA

Nas mãos de Deos, pois, deixo o destino de Stephem. (Pausa; mudando de tom). Bem. Mudemos de assumptos. Queres que vá preparar uma chicara de chá ? Deves ter fome.

 

LUIZ

Acceito, mãe, embora a ocasião não seja propria para este sacrificio da tua, parte.

 

MARIA

Para um filho, mãe não conhece sacrificios (Sae pela E. alta.)

 

 

SCENA III

 

LUIZ,

Obrigado, bôa’ mãe! Pobre creatura! E’ uma santa cá na terral! Bondosa e conformada com a sorte, soffre resignada! (Pausa; levanta-se, pegando parte dos pqpeis escrtptos, como que recordando, falla:) Foi n’uma  das bellas noites de Dezembro, ouvindo Bilac, cuja
vôz fallava ao coração da mocidade, que vi a alma brasileira vibrar com enthusiasmo!

Bilac fallava pela patria e por ella trabalhava! Da sua bocca ouvi brotar vivas e patrioticas orações, que, ora coloridas pelo sentimento, ora felizes pelas expressões, deixaram-me profundamente sensibilisado!

Desde logo comprehendi que algo era preciso fazer também.

Puz-me a caminho e comecei a escrever este li­vro patriotico que, si valor real algum não tem, vae n’elle, pelo menos, um pedaço de minh’alma á patria estremecida!

Bem. Deixemos de divagações e meditemos um pouco (Debruçando a cabeça sobre a mesa.)

 

 

SCENA IV

O MESMO E PADRE CAETANO

 

PADRE CAETANO, entra, trazendo um breviario na mão. Agazalha.se n’uma capa

Que Deos esteja n’esta casa! (A Luiz que ergue a cabeça,). Dormias ?!... Ainda lha pouco quando sahi, trabalhavas com vivacidade!

 

LUIZ

Não, tio padre, descançava um pouco. E tu? Foste visitar algum doente, a estas horas ?                    

PADRE CAETANO

Sim. Fui ver o pobre Rodrigues. Elle estava mal. Dei-lhe os santos sacramentos, e agora..

 

LUIZ, que o interrompe                                                     

Melhorou ?...

 

PADRE CAETANO

Morreo! Morto, tinha traduzido nos labios o que sua alma sentia. Morreo feliz!...

                                                                                                           

LUIZ, com pena

Pobre Rodrigues!...

                                    

PADRE CAETANO, depois de pausa; que o tem observado em outro tom.

Pela physionomia pallidá que tens, trabalhaste muito esta noite?! 

 

LUIZ

E’ verdade, tio; trabalhei com a penna n’uma das mãos e o coração na outra ! Estou trabalhando ás escondidas, para não contrariar o meo bom pae.

 

PADRE CAETANO, sentando-se     

Então, já déste o titulo ao teo livro?...

 

LUIZ                                         

Ah, sim ! O titulo é aquelle mesmo que ainda hontem te taIlei — “TUDO PELA PÂTRIA” !

 

PADRE CAETANO

O titulo é promettedor!

 

LUIZ

Veja, só, estas palavras: (lendo) — Lá de longe, desafias pelo teo esplendor; seduzes, pela tua belleza; impões pela riqueza de teo solo; ensoberbas teos filhos pela magnificencia da tua hospitalidade !... — Que tal, heim ?..   

 

PADRE CAETANO, enthusiasmado

Magnilico! (Á parte) Este rapaz promette futuro glorioso

 

LUIZ

Não e só isso. Seguem-se situaç5es melhores.

 

PADRE CAETANO, depois de pausa                                 

Como passa a bôa mana?                

 

LUIZ

Minha mãe vae cumprindo a sua sorte, obediente aos caprichos do Destino e resignada como sempre! Está lá dentro a preparar-me uma chicara de chá.

 

PADRE CAETANO
E teo pae já chegou?...
 
LUIZ
Ainda não.

 

PADRE CAETANO, ironico

Com certeza, está por ahi a cumprir o seo fado, ouvindo o tilintar dos copos a transformar a pança em uma nova adéga franciscana! E’ triste, é triste mas tem graça ás vezes. Porque não vaes buscál-o?...

 

LUIZ, rindo

Falta-me coragem e tenho amor ao pêllo; não desejo conhecer o peso do seo braço.

 

PADRE CAETANOI ironico

Que com o peso do alcool não deve ser leve demais!...

 

LUIZ

Quando vejo meo infeliz pae n’aquelle estado, sinto queimar-me o sangue1 congestionar-me o ce­rebro. Revolto-me contra a sorte e tenho impetos de...

 

PADRE CAETANO, interrompendo-o

Mas que fazer, se assim o quer o Destino?!!

 

LUIZ

Mas tenho fé em Deos que um dia meo pae ha de se rehabilitar e lhe seja a sorte mais propicia. Tenho fé que mais tarde elle ha de louvar as minhas idéas e torne-se um fervoroso patriota como eu.

 

PADRE CAETANO

E pensas bem ! Creio piamente na tua felicidade.

                                   

LUIZ

Tanto mais, quanto agora que sou moço, que a luz da verdade penetra na retina de minh’alma, estou convencido que nunca poderei viver fóra da minha patria que meo pae talvez, por um capricho. me nega. Sou brasileiro; tenho uma patria e muito preciso fazer por ella!

 

PADRE CAETANO                                                           

Sem duvida, meo Luiz!                                          

 

LUIZ, continuando

 

Eu quizera ser, um dia, util á minha patria e sel-o-hei n’estas noites de sacrificio, embóra meo pae dominado pelo aIcool, me amedronte com sua ira.

 

PADRE CAETANO

Pouco importa! O principal é que não negues o respeito que sempre dedicaste a teos paes. Coragem, que a victoria será tua!

 

LUIZ, tirando, do bolso, um maço de cigarros que oferece ao Padre, sentando-se.

E’s servido de um cigarro?

 

PADRE CAETANO
Não, obrigado.

 

LUIZ

Então, com tua licença.

 

PADRE CAETANO
Oh, á tua vontade...

 

LUIZ, acendendo o cigarro á chamma da vela.

E’ uma das minhas distrações. (Pausa). Ao acen­der este cigarro, veio-me á lembrança - a canção “O CIGARRO DO SOLDADO” que é muito engraçadinha. Conhece-a, tio padre?

 

PADRE CAETANO, ironico

Oh, corno conhecel-a, si nunca ouvi cantar!...

 

LUIZ

Espera lá. Vóu ver si me lembro o principio da primeira quadra. (Procurando recordar-se) Ah, já me recordo. Lá vae: (canta:)

 

O cigarro é um amigo

Que na paz ou no perigo,

Nos dá conforto e prazer,

A gente falla-lhe e sente

Que o cigarro arde contente

Por nos saber entender.

 

E no meio da batalha,

Quando a furia da rnetraiha

Tudo leva n’uma aragem,

Um cigarro é um achado

Que traz ao pobre soldado

À alegria e a coragem.

 

E lá na terra estrangeira,

Quando est!vér na trincheira

Mettendo a mão no bornal

Puxará da cigarrada

Que levou da patria amada,

Que levou de Portugal.

 

Puxará da cigarrada

Que levou da. patria amada

Que levou de Portugal.

 

PADRE CAETANO, que tem dado attenção á Luiz

Muito bem! Bellissimas quadras!... Talvez se­jam tuas estas poesias?.. .

 

LUIZ

Minhas?... Ah, quem me déra ter veia para versos!...

 

PADRE CAETANO

Pensei que, além de seres escritor, fosses tam­bem um cançonetista !...  

 

LUIZ

Si não fosse o meo trabalho, estaria aqui, me de­Iiciando com a rabéca!... Faria chorar um frade!

 

PADRE CAETANO, ironico

Quando um frade chega a chorar... é porque a coisa, é mesmo, de lagrymas.

 

LUIZ

Bem entendido: -“um frade de pedra”!

 

PADRE CAETANO, admirado

“Frade de pedra”?!!...

 

LUIZ

Sim. São marcos de pedra que ficam á entrada de ruas.        

 

PADRE CAETANO

Ah!... Quanto mais se vive, mais se aprende!...

                                                                                                                  

 

SCENA V
OS MESMOS E MARIA

 

MARIA entra da E. alta, trazendo uma bandeja com duas chícaras de chá.

Aqui tens o chá, meo filho. (Dirigindo-se ao Padre Caetano) Estás de volta ou vaes sahir?...

 

PADRE CAETANO

Estou de volta. Não me viste sahir?! Fui dar a communhão ao Rodrigues.

 

MARIA

E como vae elle?

 

PADRE CAETANO

Já entregou sua alma a Deos.

 

MARIA, com pena

Coitado! Era uma bôa creatura!... (Dístribuindo as chicaras) Mano, o chá, bem quentiriho estâ a teo gosto.

 

PADRE CAETANO, pegando a chácara

Ah, isto veio a calhar!...

                                                 

LUIZ

Minha mãe, não ha, lá por dentro, algumas ros­quihas para dar a tio padre?...

 

PADRE CAETANO, ironico

 

Rosquinhas?!... (Rindo) Ah!... Ah!... Ah!...  (Á Maria) Tem elle ídéas tão confusas que não se lembra que o medico prohibio-me de comer rosqui­nhas a estas horas! (Á Luiz) Bem sabes, Luiz, que a minha machina, ca de dentro, não funciona regu­Iarmente,

Já foi muito bôa; desenvolvia, antigamente, uma energia poderosa! Hoje, porem, a engrenagem não funciona com segurança.

 

LUIZ

Tio  padre está hoje muito pilhérico!...

 

PADRE CAETANO, suspírando

Ah! Tenho os meos dias!

 

MARIA, que tem observado Luiz:

Luiz, estás tão desfigurado?! Sentes alguma coi­sa?. . . Que tens?...

 

LUIZ, disfarçando-se, coloca a chícara sobre a meza.

Nada sinto, minha mãe. Apenas um pouco can­sado.

 

MARIA, approxirnando-se de Luiz

E’ bom que descances um pouco. Tens traba­lhado muito e não deves te sacrificares assim.

 

PADRE CAETANO

Sim, é preciso rehaveres as forças perdidas. Acho que não deves ficar aqui, já que tomaste o chá quente, esta corrente de ar frio não te fará bem.

 

LUIZ, levantando-se

Tens razão, tio padre. Obedeço-lhes, bons amigos.

 

Luiz sae pela D. alta, enquanto Maria arruma as chi­caras á bandeja; pausa por instantes, enquanto ella enxuga os olhos com o lenço que traz no avental. Padre Caetano que tem acompanhado Luiz até a porta, saccóde a cabeça, dirigindo-se para a meza.

 

Scena VI

MARIA E PADRE CAETANO           

 

MARIA, com a voz tremida

Quando chegará o nosso dia de felicidades?!...

 

PADRE CAETANO

Quando Deos Nosso Senhor quiser, bôa mana.

 

MARIA

Já me sinto sem forças... não posso mais sof­frer!.

 

PADRE CAETANO, consolando-a

Para alcançar o reino dos Céos, é forçoso, soffrer e muito soffrer n’esta vida! Chrísto. tambem soffreo!... “Bemaventurados aquelles que soffrem”...                       

 

MARIA, resignada

E’ justo que eu soffra.... (Pausa, impaciente di­rige-se ao F. olhando da janella para fóra)

Mas.., e o meo marido que não chega?!... (Desce)

 

PADRE CAETANO

Tranquiliza-te, mana. Deos na sua bondosa mi­sericórdia, não deixa de guiar os passos vacillantes de Stephem. Elle virá...

 

MARIA, dirigindo-se ao F., em soluços

 

Assim seja, meo Duos!... (Em tom de prece) Oh, minha Mãe dos Céos. iluminae com a luz de vossa bondade o caminho do bem a Stephem!

Retirae dos seos olhos a teia espessa que inter­cepta os raios fulgidos do vosso coração!

Lançae, oh Mãe sagrada, a ancora salvadora. n’aquelle mar de angustias, em que o meo marido, impotente, naufraga-se cada vez mais!.. Oh, Virgem Santa, sou mãe tambem; vós, que sois Mãe da Hmanidade, tambem sois Mãe, de Stephem! Arran­cae-o do lodo em que se afoga!... (Dirigindo-se ao crucifixo) E tu, Salvador das almas infelizes, pelas chagas do teo sagrado corpo, dês a Stephem o teo coração!. . . (Cae em prantos)

 

PADRE CAETANO, levantando-a pelo braço

Levanta-te, bôa Maria. Sei quanto é doloroso o ferimento no coração de uma mulher que chora o des­graçado marido!... (Tira do bolso o lenço, com o qual enxuga os olhos) Deos sabe o que faz. (Luiz que tem assistido ao fim d’esta scena, saccóde a cabeça em signal de compaixão.)

                                          

 

Scena VII

OS MESMOS, LUIZ E DEPOIS STEPHEM

 

LUIZ, commovido, áparte.

Pobre mãe...

 

MARIA

E o meo bom filho?!... Soffre resignado as impertinencias do seo pae.

 

LUIZ approximando-se de Maria

Eu não soffro, minha mãe. E’s tu que soffres!

 

PADRE CAETANO, percebendo-o, com admiração

Não quizeste repousar?!!...

Maria sentando-se, dejanimada.

 

LUIZ

Não pude descançar, tio padre. Senti-me mal na cama; tinha o rosto em braza!...

Uma visão extranha perturbou-me o descanço: - parecia ser meo pae; vi-o no angulo direito do quar­to; senti-o calcar-me; o meo corpo vibrava de mêdo!...

 

PADRE CAETANO, solemne

Não rezaste, talvez, ao deitar?!...

 

LUIZ
Como não havia de rezar?...

Rezo sempre. Faço-o toda vez que me recolho. (Pausa; dirígindo-se a Maria como que tomado de uma resohqJo.)  Minha mãe, é-me forçoso evitar, por qualquer meio, estes meos aborrecimentos. Sou moço, não quero a velhice precoce. Desde já tomo a deliberação: partir o mais breve possivel para minha patria.

 

MARIA, triste

Mas. meo filho?!!...

 

LUIZ, interrompendo-a

Não ficarás só. Tio padre velará pela tua sorte, enquanto procurarei o socego para nós lá no Brasil.

 

MARIA, meiga

E o teo pae?...

 

LUIZ

Meo pae?... Elle, certameiite. ha de se regene­rar. Deos é tão bom!... (Senta-se.)

 

STEPHEM, de fóra, gritando furiosamente

Mato-o... mato-o, hoje mesmo!... Miseravel!...

 

MARIA, assustada

Stephem?!!... Santo Deos!...

                                       

LUIZ, com calma

Não te apoquentes. minha mãe.

E’ mais um drama, digno de compaixão, que meo pae representa no scenario de sua infeliz vida!

 

STEPHEM, idem

Encontrar-te-hei, novamente, biltre!... (Ouvem-se grande algazarra e assobios contra Stephern). Vaes ver quanto vale um Stephem !... Matar-te-hei com si faz a umcão!...

                                                                                                                1

MARIA, horrorisada

Oh, meo Deos, matar?!... Meo marido, um a~ssassino?... Stephem assassino?... Oh, nunca!... (Tenta dirigir-se ao F., porem Padre Caetano a detem, fazendo-a sentar.)

 

PADRE CAETANO, consolando~a

Calma, calma!... (áparte) A coisa não vae bem; é preciso retirar-me quanto antes !... (Alto) O peior e que não sei onde puz a chave do quarto... (procurando-a nos bolsos) Ah... cá está!...

 

LUIZ

Vá, minha mãe, deitar-te. Tenho receio que... (ouve-se immediatamente um tiro de pistola dado por Stephem.)

                                       

TODOS, assustados

Ah!...

 

STEPHEM, idem

Tiveste a sorte, maganão, de não ires fazer uma visitinha a Satanaz!... (A vóz de Stephem aproxíma-se aos poucos). Hoje não estou com a mão certa no alvo, sinão havias de conhecer Lucifér!... Mi­serave!...

 

PADRE CAETANO, dirigindo-se á Maria, acompanha-a até a porta da D. alta. Vá para teo quarto. Tem fé! (Voltando dirige-se para E. baixa, ollhando com receio para o F., de vez em quando) Luiz, até logo!... (Sae pela E. baixa)

 

 

SCENA VIII

LUIZ E STEPHEM

 

LUIZ, tomando da penna

Comecemos a trabálhar.

 

STEPHEM, apparecendo ao F... cambaleando, tendo roupa velha, em­punha uma garrafa que, de quando em vez, leva á bocca, estalando a lingua, n’um gesto ridiculo.

E’ o succo dos “mata bichos”!... Quando isto escorrega pela «guela» abaixo, desce que nem um gôsto (Desce cambaleando, detendo-se deante de Luiz que flnge não percebel-o) Então, meo garoto... (virando a garrafa á bocca) anda continúas com a tua beIla idea de... de... (diabo, agora me faIta o raio do nome!) de... escriptor de livros patriotlcos?...

                                

LUIZ, amavel

E’ verdade, meo pae. Nada mais soberbo, nada mais patriotico! Como se é feliz quando se tem uma patria!...

 

STEPHEM, ridicularisando

Ah! Estás, como sempre, com a cabeça no ar. (Mudando de tom) Diga-me:- sabes o que é patria?...

 

LUIZ,  com enthusiasmo e expressão.

Patria é o logar onde se nasce!... Patria é aquele logar onde brilha o Cruzeiro do Sul, num céo diáphano!... Patria...

 

STEPHEM, interrompendo-o com uma gargalhada.

Não tens vergonha, meo gaiáto, de dizer que possues patria?!...

 

LUIZ

Perdão, meo pae...

 

STEPHEM, interrompendo-o

Qual, tu és um louco criança inexperiente!... (Depois de pausa, cambaleia, procurando remexer os pa­peis de Luiz) Que papeís são estes, cheios de gara­tujas?!... Alguma poesia, talvez. que vaes dedicar â algum graúdo lá do Brasil!...

 

LUIZ

Não é poesia, meo pae: - são duros sacrificíos de muitas noites frias; é um livro dedicado a mocldade brasileira!...

 

STEPHEM, ironico

Ah!... Ah! Brasil?!... (Dando gargalhadas) Ah!... Ah! Qual Brasil, qual patria, qual nada!... Aqui no extrangeiro não se conhece esse Brasil que tanto sonhas!...

 

LUIZ, áparte

Quanta injustiça á minha patria!...

 

STEPHEM

O tempo que perdes em te dedicares a estas ba­julanças de patria, seria melhor si me acompanhas­ses na luta pela vida — a trazer para casa o alivio da fome !... (Fasendo signal de roubar) Comprehen­des?...

 

LUIZ, áparte

A//ívío da fome!?!... (Alto) Ah, isso nunca, meo pae! Ninguem, até o presente dia, me ensinou a rou­bar. O meo caracter e a minha dignidade a isso me prohibem.

 

STEPHEM, depois de ter virado a garrafa á bocca

Então, ficas em casa?! Esperas que a patria te traga o pão para matares a fome?. .. Eu cá nunca tive patría e nem conto cam elIa; fiquei completamente descrente quando, um dia, perdi o emprego da mina, só porque pedia o augmento do meo parco salarío. O miseravel industrial negou-me sempre. Negou-me...

 

LUIZ áparte, interrompendo-o                      

Oh, meo Deus!.                           

 

STEPHEM, continuando

Negou-me o pão de cada dia. Sabes o que é o pão? Nunca tiveste fome? Soffreste, por ventura, algum dia, o frio da cadeia que fére como o gume afiádo de um punhal?...

 

LUIZ, comrnovido, áparte

A dôr punge-me o coraça!....

                                              

STEPHEM                          

Não... não conheces a fome; nunca sentiste o frio das algemas ! Por isso, digo e direi sempre: não tenho patria—a minha patría é o estomago! (Leva á boca a garrafa, arregalando os olhos com prazer, num forte estalo de /tngua.) Como hei de considerar este paiz. minha patria. si elle nunca premeiou os meos suores, suores que se converteram em moeda para a Nação e lagrymas para a famiha! Á nossa custa, o “rico” tem recheiados os seos bólsos. Ser rico, é para mim, o maior peccado que Deos poz no mum4o, si é que ha um Deos!....

 

LUIZ

Mas, meo pae.....

 

STEPHEM, continuando.

Este meo paiz tem, á custa dos operarios, os co­fres recheiados, enquanto nós, miseraveis operarios, calcados sob o peso dos impostos, vivemos por ahi... por... ahi, sugando uns e outros!

 

LUIZ

Talvez, si todos operarios...

 

STEPHEM, continuando.

Operarios, que trabalhámos desde a aurora ao cahir da tarde, sem recompensa, cheios de dividas e até com a saúde roubada!...

 

LUIZ, áparte.

Em parte, meo bom pae, não deixa de ter a sua razão!...

 

STEPHEM, continuando.

Revoltei-me deante do espirito avesso dos pa­trões; conspirei, entre os meos colIegas, uma greve geral e todos nós reclamámos o pão - o direito do homem que trabalha!...

 

LUIZ

Tudo isto, meo pae, são consequencias de mas administrações e desmedidas ambições. Lá na minha patria já não acontece o mesmo:  — o braço operario encontra apoio, desvelo e humanidade. Lá, tudo se resume em ordem e progresso!

 

STEPHEM, dando longas gargalhadas.

Ah !.. Ah!... Ah!... Todas ellas são a mes­ma coisa!...

 

Isto de direito, humanidade, ordem e progresso, não são mais que phrases soltas ao vento!... (Sen­tando-se)

Esquece-a, de urna vez!

                                  

LUIZ, /evantando-se.                                          

Esquecel-a?!... Nunca. Oh, nunca! Esquece-­se o amigo que nos foi infiel; esquece-se a mulher que nos trahio; porem, nunca se esquece a patria que se ama em vida, a patria, cujo filho morto, está sempre prompta abrir suas entranhas para receber seos despojos mortaes. (Sentando-se) Esquecel-a?!... Nunca!

 

STEPHEM

No entretanto, os teos sermões... Desprezo e es­queço esta patria, esta sociedade vil que suga rnisera­velmente do operario, o fructo sacrificado dos seos suores! Do operario que, oprimido pela ambição desta sociedade, vive suplicando da patria o pão, a troco do seo talento, da sua honra e da sua propria vida! Achas isso bonito?..

 

LUIZ, consolando-o.

 

Acalma-te, pae. O teo desespero é justo. Deos um dia ha de te salvar, dando-te o logar que te é pro­prio. Tem esperança.

 

STEPHEM

Qual!... Quando o “rico” é transportado, pe­las azas da sorte, ás culminancias, ao apogêo das grandezas.  elle tudo esquece e o pobre operario con­tinúa carpindo suas dôres de miseria e fome!.. N’essas condições, meo filho, não se tem patria... tudo illusão!

Não deves tu pensar em patria, porque és operario ­tambem, filho do homem do trabalho. Um operario não tem patria!...

 

LUIZ, áparte.

Quanta injustiça attribuida á patria!... Emfím... é meo pae!

 

Scena IX

OS MESMOS E PADRE CAETANO

 

PADRE CAETANO, entrando da E. baixa, receioso.

Que Deos seja comtigo, amigo Stephem! 

 

STEPHEM

Oh, por aqui!... Então, já tomaste hoje o bom do teo vinho de missa ?... Pois, eu cá, por mim, não tomei ainda! (Virando a garrafa á bocca, n’um forte estalo de língua) Prova... vê só como isto escorréga macio!... (Offerece a garrafa ao Padre)

 

PADRE CAETANO, recusando.

Obrigado, eu não bêbo.

 

STEPHEM, ironico.

Ah!... O padre Caetano não bebe?!... (Rindo) Ah!... Ah!... Ah!... Se me dissesses  que gatto é que não bebe, ainda poderias... (levando de novo a garra/a á bócca) Eu é que não bêbo... Isto vale por mil vinhos do Porto!...

 

PADRE CAETANO, idem.

Obrigado, caro Stephem. Não posso ser victima de taes abusos! Sou velho e como intréprete de Deos devo dar sempre bons exemplos!

 

STEPHEM, com ironia.

Já vens com as tuas desentoádas ladainhas!... Não é com os teos mízeréres que me vaes fazer, de um operario, um industrial... (Tocando-lhe com a mão á barriga) E’s tu que sabes viver... tens aqui um alambique!...

 

PADRE CAETANO, irritado, repelle-o.

Não trates assim ironicamente a um sacerdote! Não é assim que se dirige a um Ministro de Deos!...

 

LUIZ, que se achava distrahido com seos trabalhos, diz em tom de censura.

Oh, meo pae!...

 

STEPHEM, com ironia.

Ministro?!... (Rindo) Ora seo ministro!... (Abra­çando ao Padre) Não te zangues, sim?... (Á Luis) O padre Caetano é meo amigo!

 

PADRE CAETANO

Deos te guie! Olha, dormir que a noite está fria... sao quasi tres horas!... (Mostrando-lhe o relogio de bolso) Trabalhaste muito hoje e, por isso, necessitas do descanço. O operario que trabalha durante o dia, tem a noite para o devido repouso.

 

STEPHEM

Principalmente quando elle perde metade de suas forças, empregadas, habilmente, para mais recheiar os bolsos gananciosos dos “ricos.”

 

LUIZ

Vá, meo bom pae. Minha mãe está acommoda­da. Por favor, dá-lhe satisfação, ao menos...

 

STEPHEM, dirigindo-se para a D. alta, com ironia.

Deixa-me vêl-a, coitadinha.

Certamente está á bater lingua! Com um rozario phenomenal, reza, reza até o gallo cantar a alvora­da!... (Sae a passos curtos e deseguaes, levando á boc­ca, de vez em quando, a garrafa e estalando a língua facilmente.)

 

scena X

OS MESMOS, EXCEPTO STEPHEM

 

PADRE CAETANO, que o acompanha com a vista até Stephem desaparecer.

Coitado! Segue ás palpadellas, como um cego! (Desce) Impossivel fazel-o regenerar-se, pobre infeliz !...

 

LUIZ. impaciente.

Estou receioso... tenho máos presentirnentos! Minha mãe sósinha no quarto... meo pae, n’aquelle estado!...

 

PADRE CAETANO, consolando-o

Sê tranquillo!

 

LUIZ, idem.

Não posso ter calma. Si pudesse arrancal-a d’aquella situação... (tenta dirigir-se para D. Alta; porem Padre Caetano o impede.)

 

PADRE CAETANO

Calma, calma!...

 

LUIZ

Sinto cá dentro, alguma coisa que me não é na­tural...

 

PADRE CAETANO

Deos não deixará de velar sobre a tua mãe; ella é religiosa!... E assim, tambem saberá conter Ste­phem.

 

LUIZ

Sentir-me-ia bastante feliz, si pudesse levar tambem minha mãe para o Brasil. Lá, então, gozaría­mos segura tranquillidade.

 

PADRE CAETANO, sentando-se.

Não te desanimes. Quem espera sempre alcança. Ainda muito poderás fazer pela tua patria.

 

LUIZ                            

Assim o espero, ainda mesmo que d’antemão, eu saiba que de lá, a morte virá lhe arrebatar de­pois! É-se feliz quando se morre pela patria!

 

PADRE CAETANO

Bravos! – “É belo e doce morrer pela patria” — assim dizia Horacio aos filhos de Roma, exhortan­do-os a imitar as virtudes patrioticas dos seos maiores.

 

LUIZ

Agora, mais do que nunca, o Brasil precisa dos  seos filhos. É necessario que saibámos quantos somos, para sabermos o quanto valemos! Eu preciso lá estar, quanto antes — sou tambem brasileiro!...

 

PADRE CAETANO

Mas... e a tua mãe?

 

LUIZ

Minha mãe tem vontade de ir tambem... Contou-me ella ha tempo, que um parente nosso ha­bita o Brasil ha muitos annos.

Elle vive lá. na sua bella mansão de paz, des­fructando a sua riqueza. Ah, si pudesse vêl-o... talvez, me fizesse feliz!...

 

PADRE CAETANO, recordando.

Ah, sim... sim! Este parente de quem a mana falla, talvez irmão de Stephem.

 

LUIZ

Não te posso affirmal-o, tio padre.

 

PADRE CAETANO

Si Stephem seguisse o exemplo do seo irmão, não seria um ébrio, amaria mais a sua familia e não acusava a patria como causadora das suas pai­xões. Que felicidade para nós!...

 

LUIZ

É verdade, tio padre. E si estivéssemos lá, estou certo, meu pae, com os exemplos do seo irmão, já nos teria feito felizes.

Eu, como soldado-official, e tu, como capellão — um cura dos soldados!.

                                

PADRE CAETANO

Que bello não seria! Tem fé

                                            

LUIZ, dando ao Padre alguns papeis escriptos.

Vê, quanto é nobre este trabalho! Estou inti­mamente convencido, que esse trabalho me fará feliz, e que minha mãe terá sernpre o sorriso de uma ale­gria n’alma, participando da minha felicidade.

                                                                         

PADRE CAETANO, que tem consultado os papeis.

Escreveste rnuito!

 

LUIZ

Alguma coisa. Mas como te dizia — e meo pae não seria mais um ébrio. Enquarito eu, Luiz Stephem, tivesse forças para o trabalho honesto!

                    

Scena XI

OS MESM0S E STEPHEM

 

Ouvem-se do quarto da D. alta alguns passos; em seguida, um tiro de pistola, Luiz e Padre Caetano ficam immoveis por instantes. Stephem entra da D. Alta, tendo a face esquerda ensanguentada e a pistola n’uma das mãos. Sem poder fallar, el/e se escóra,. exhausto de dores, dá alguns passos em falso, deixando-se cahír bruscamente no chão. Luiz apoia sobre seos braços a cabeça de Stephem.

 

STEPHEM, erguendo um pouco a cabeça, balbucia com difficuldade:

Luiz... a... ma... a tua pa... tria! (deixando ca­hir a cabeça sobre os braços de Luiz.)

 

LUIZ. aterrorisado.

Morto!

O relogio da vi/Ia bate tres horas compassadamente. Luis, dirigindo- se ao Padre Caetano, enxuga os olhos na manga da paletot.

 

PADRE CAETANO, conformado.

Consummatum est!

 

LUIZ

Meo pae!...

 

PADRE CAETANO

Oh, Deos de rnisericordia, dae a esta alma que foi infeliz na terra, o vosso reino!

 

Scena XII

OS MESMOS E MARIA

 

MARIA, pai/ida e assustada, tendo os cabellos soltos, com physi­nomia interrogativa, apparece á D. alta.

Vendo Stephem morto no chão, atira-se sobre elle n’uma expressão de infinita dor.

Morto! Ah, meo pobre Stephem.

 

LUIZ, procurando consola/-a.

Não chores, mãe... foi o Destino!

 

MARIA, soluçando.

Madrugada fatal!...

 

LUIZ, ao Padre Caetano.

Para socego do meo espirito e consolo de minha mãe, só me resta partir — para o Brasil.

 

PADRE CAETANO

Cumpra-se o teo destino: parte para o teo Brasil sonhado!

Serve-o com carinho; venera-o, com nobreza, porque elle é tua patria!

 

MARIA, soluçando.

Oh, Deos  meo!... Stephem morto!...

 

PADRE CAETANO, dírigindo-se para o F., toma do crucifixo que está pen­durado na parade. Ouve-se lá fóra, ao longe, o som ma­vioso de um violino, acompanhado de outros instrumen­tos.

Luiz, tens aqui o emblema dos padecimentos do Christianismo. De braços estendidos sobre este lenho, está o Martyr do Golgotha, que derramou o seo san­gue em pról da Humanidade.

 

MARIA, em soluços.

Oh, duro contraste!... Lá fóra, reina a alegria e aqui dentro, um remansó de dôr!...

 

PADRE CAETANO, continuando.

Recebe esta rccordação que um cura das almas te offerece.

Tens aqui o exemplo, tão bello quanto heroico, de uma alma virtuosa que soube soffrer!

(Dá-lhe o crucifixo,)

Soffre tu tambem com resignação que te fará mais digno da tua patrta e que te dará, como recom­pensa, a patria celestial!

 

LUIZ, que recebe o crucifixo.

Obrigado, tio padre (Dobrando os papeis que se acham sobre a meza e guardando-os no bolso). E’ com o coração em pedaços, retalhado pelas dores e ani­mado pela esperança de ver a minha patria, que te vou deixar.

(Dirigindo-se a Maria)

O’ mãe!

 

MARIA, erguendo a cabeça.

Filho!

 

LUIZ

Está tudo acabado. Beija rneo pae e abençôa­-me depois.

 

MARIA

Filho: — Deos, Mãe e Patria, eis a benção que te dou!

Abraçam-se. Luiz commavido1 enxuga as lagry­mas.

 

LUIZ

Mas, tu que me déste a benção. roga de Deos a minha felicidade n’aquella patria abençoada.

(Dirigindo-se ao crucifixo que tem na mão).

Oh tu, consolo dos que soffrem, excelso Nazare­no, abençôa-me n’esta hora suprema!... (Pausa)

E tu, patria minha amada, filha dilecta do Cru­zeiro do Sul, abençôa este meo pequeno coração, que te jura pelo sangue do meo pae, ter um peito prompto para os maiores sacrificios e sempre capaz... de tudo pela patria!

 

CAE O PANNO, LENTAMENTE

 

 

 

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