A Princeza
da 
Serra
Revista em 3 actos
- 1929 -
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

DISTRIBUIÇÃO: COMPÈRES

 

 

JOÃO TEIXEIRA: Conegundes da Purez

 

JOSÉ GUIMARÃES: Jornal de Valença

 

BALBINA MILANO: Cidade - Telephonista - Reclame - Árvore que chora - "Misss" Rua da Palha - A Bandeira - Água - Gavião Calçudo - Os "quintos" do Quinto - Festa Joannina

 

GEORGETTE TEIXEIRA: Viúva - Luzinha - A Fésinha - Festa Joannina

 

ODÉLIA CANTARINO: A Belleza - Moça Sapéca - Escola Normal - Festa Joannina

 

YOLANDA CANTARINO: A Graça - 2a Moça Sapéca - Dama da Cruz Vermelha - Festa Joannina

 

SYLVIA CANTARINO: 3a Moça Sapéca - Grupo Escolar - Dama da Cruz Vermelha - Festa Joannina

 

ZILAH DANTAS: A Crítica - 4a Moça Sapéca - Gymnasio - Festa Joannina

 

ZULEIKA DANTAS: Escola Mixta

 

GISELDA GUIMARÃES: O Eco

 

ELMIRA GUIMARÃES: Filha da Viúva

 

JOÃO COSATE: Reclame - Casa do Caboclo - Esgoto - Nicola Cortese (conferencistaa) - Carregador        

No. 1.

 

ANTONIO GUIMARÃES: O Valenciano - 1o Soldado - Homem Religioso - Dono da Vacca - Indio

Coroado.

 

PEREIRA DA COSTA: Saudação - Roberto - Porteiro da Tourada

 

JOÃO DE SOUZA: 2o Soldado - A Chapa - Toureiro - Oferido

 

DOMINGOS SILVA: Tratador de vaccas - Tiro de Guerra 551

 

GERALDO GUIMARÃES: Vendedor de Bananas

 

                                                                                                                                            

                         A PRINCEZA DA SERRA

      

PRIMEIRO ACTO

          

No.1

ABERTURA

 (marcha)

 

                  CORO

 

Attenção, senhores! Attenção!

Vae agora a revista começar.

O “compadre” desta troça

Neste momento vae chegar.

 

E Valença, bem contente,

Vae com elle conversar.

 

Mostremos, com geito,

Os seus defeitos e factos,

Com graça e chalaça,

Mesmo que sejam boatos.

 

Princeza da Serra,

Onde o prazer faz morada,

Como é bella a terra,

Por nós idolatrada!

 

No. 2

A GRAÇA

               (maxixe)

 

Em Valença eu sou a Graça,

Plena d’arte esfusiante

Vejam só! não é carcaça

O meu porte insinuante!

 

A CRITICA

Sou a critica innocente,

Que não fere em sua troça;

Vamos brincar, minha gente,

Nesta vida que é uma jóça!

 

A BELLEZA

Na odorosa natureza,

Desta Princeza da Serra,

Sou a formosa Belleza

De que se orgulha esta terra.

 

CORO

Eia-nos todas bem juntinhøs,

Nós somos tres, nesta terra,

Somos tres nas tres gracinhas

Desta Princeza da Serra!

 

No. 3

COPLAS DO CAIPIRA

(cateretê)

Jóca

Presta vance attenção

Naquillo que eu vou dizê;

Vou falá com o coração,

Pró sô jorná escrevê.

 

Eu aqui estô,

Seu Conegundes chegô!

 

CORO:

Elle aqui está,

Vae ver a cidade já!

 

Esta cidade eu vim vê

Para sôdades eu matá;

Mi disséro que elIa está

Porguedindo como quê!

 

Eu aqui estô,

Seu Conegundes chegô!

 

CORO:

Elle aqui está,         

Vae ver a cidade já!

 

Encantado vou ficá

Com as belleza das muié;

Sô capais di mi casá

Outra veis, si Deus quizé!

 

Eu aqui estô,

Seu Conegundes chegô!

 

CORO:

EIle aqui está,

Vae ver a cidade já

No. 4

CIDADE

            Balbina Milano                     

(valsa)

 

Eu sou Valença querida,

Plena de graça e belleza

FIôr perfumada,

Cheia de vida,

Eu sou do Estado a Princeza!

                                         

Em meu regaço se aquece

Este povo que honra a terra

Idolatrada,

E canta em prece:

Eis a Princeza da Serra!

 

Valença!

Vaiença!

Sou a Princeza da Serra!

 

Sou a terra preferida,

Tenho o dom de seduzir.

A natureza,

Enriquecida,

Sempre está a reflorir.

 

Meu progresso vae marchando

Com certesa, para a frente;

Minha riqueza

Meu clima encerrando

Para o bem da minha gente!

 

Valença

Valença

Sou a Princesa da Serra

 

N. 5

“O VALENCIANO”

ANTONIO GUIMARÀES  

(polka-maxixe)

 

Sou o jornal

Desta cidade;

                    Não faço mal  

Á sociedade

 

Na opposição,

Eu sou turuna,

E grito, então,

Pela columna !

 

 

Vivo de annuncio

Que dá dinheiro

Que é prenuncio

Alviçareiro.

 

 

Si alguem commigo bole,

Caras eu não respeito;

Não gosto que amole,

Porque sou pelo direito!

 

 

Não sou de encrenca,

Vivo pr’a mim.

Dinheiro em penca

Procuro, emfim.

 

 

Vamos embora,

“Seu” jornalsinbo;

Deixemos agora

Este visinho.

 

No. 6

AS SOMBRINHAS

 

Engraçadirihas, somos as sombrinhas,

Andando sempre muito espertinhas;

E os rapazes, quando nos seguem,

Não nos deixam e nos perseguem.

 

Então fazemos umas voltinhas,

Nas nossas sombras gaIantesinhas;

E os taes mocinhos ficam sorrindø,

E nós, garbosas, vamos fugindo.

 

Vem, vem, vem,

Vem commigo, vem

Namorar.

 

 

Escondidas, nas sombrinhas,

Agarradinhas,

Vamos casar

Vamos casar.

 Ai! Ui!

 

Vem, vem, vem

Vem commigo, vem

Conversar;

Quero pois, meu bem,

Contigo gozar!

 

 

N. 7

TELEPHONISTA

            BaIbina Milano.               

                                                 (fox-trot)

 

Sou a telephonista,

Sempre attenciosa;

Mas teme que alguma conquista

Se torne, pois, desgostosa

Quando estão a namorar,

Sem amar.

 

 

Ligar e desligar

Numero, faz favor!

Esses moços são tão exigentes,

Nunca elles estão contentes,

E a gente treme de pavor!

 

 

Allô! allô! que numero, faz favor!

E si esta ligação

Ficar, então,

Interrompida,

Isto é da vida!

Isto é da vida!

Não há perigo,

Meu amigo,

Não.

 

—o—

 

 

SEGUNDO ACTO

 

N. 1

ARVORE QUE CHORA

Balbina MiIano         

                                (melodia)

 

Uma existencía amarga,

Ei’s a minha vida!

Soffro cruel destino

Qu’é chorar.i

Pela praça se alarga

A magua dorida

Que me leva ao desatino

Em louco tranze de dor,

No meu penar.

Só, aqui, nesta tristeza,

Sem poder falar,

E’ dura a minha sina

De soffrer.

E, com certeza,

Tenho que esperar

A sorte que defina

Dando sombra ao Amor,

Depois mørter!

 

 

No. 2

A CASA DO CABOCLO

J. Cosati                    (canção)

 

No. 3

“MlSS” RUA DA PALHA

Balbina Milano         (maxixe)

 

Meu amô!

Sou da rua da Páia

A “miss” que ispáia

A belleza e o fulgô,

E que, com os seus carinho,

Conquistô, numa farra,

Uns  mocinho tão bonitinho,

Sem algazara!

 

Gomo é puro o meu amô

Com que venci sem favô;

Não sô da laia,

Nem gandáia!

 

Estô triste, porque estô pensando

Sem notas se vivê amando:

É triste para um coração

Agente amá e ficá na mão!

                                      

 

 No. 4
             FÉSINHA
             Georgette         (fox-trot)

 

Si alguem quizer algum dinheiro ter,

Sem hesitar, sem pensar, deve jogar;

Pois, podem crêr, basta ter, para ganhar,

Algum palpite.

Sem méu convite

Impossivel se ganhar.

Pra se acertar, o que a gente deve ter,

E’ coragem e nenhuma hesitação,

Na cavação;

Tudo está na maneira de jogar;­

 

 

E sem palpite a gente não acerta,

E p’ra se ter alguma “bolada” certa,

E’ preciso ter-se uma bôa fésinha

Em qualquer bichinho da visinha,

Para depois, sem medo de errar,

Fazer, então a paradinha,

Para bastante dinheiro ganhar.

 

 

—o—

 

TERCEIRO ACTO

 

No. 1

AGUA E ESGOTO

BALBINA e COSATE

(Duetto)             (Tango)

 

ESGÔTTO -  Estou secco, estou escangaIhado

De tanto te esperar.

AGUA - Mas não fique assim tão zangado,

Que a água aqui vai chegar.

 

ESG. - Tu bem sabes que ha muito te espero

Muita agua como quê?!...

ÁGUA - PoIs, chegar eu também quero

Que é para eu lavar você.

 

ESG. - Eu vivo assim, meu bem, nesta sujeira    

             Sem poder dar vasão

AGUA - Pode crer, não haverá torneira.

                        Que aguente meu ribeirão!

 

ESG. - Estou triste! Minha sina é um buraco!

 Vem me descarregar!

AGUA - O SEU Prefeito é um TACO!

Pois muita agua vae lhe dar.

 

 

No. 2

A INSTRUCÇÃO

                        (marcha)

 

O Saber foi sempre o grande ideal

Que a humanidade cultua,

Pr’a que o mundo se instrúa.

 

O estudar a ninguem faz mal,

Devemos todos bem dizer

O que estuda pr’a vencer.

 

Feliz o que traz o livro em mão,

Cujas paginas todos têm

O ensinamento do bem;-

Feliz, feliz o que recebe a Instrucção

                                  

 

 No. 3
 O GAVIÃO

 Balbina (samba, novidade musical com successo no Rio)

 

N.4
            OS “QUINTOS” DO QUINTO
            Balbina                  (marcha-canção)

 

 

Si não tem a cidade

Agua para se beber,

Tambem não tenho vaidade

De, em Valença, dizer

Que a minha agua é cotada,

            Cujo stock não se finda

Para esta cidade amada

            De natureza linda!

 

 

Estribilho:

Os “quintos” do Quinto   (

Não, não levam cachaça,(

Nem mesmo vinho tinto; ( Bis

                                   (

Levam agua de graça!      (

 

 

Minha agua é saborosa,

Que se bebe com prazer;

Si não fosse tão gostosa

Outra fama devia ter...

Mas está sempre bem fresquinha

E não acabou ainda;

Ella é a fontesinha

Desta cidade tão linda.

 

 

Estribilho:

Os “quintos” do Quinto   (

Não, não levam cachaça,(

Nem mesmo vinho tinto; ( Bis

                                   (

Levam agua de graça!      (

 

No. 5

A CHAPA (Parodia)

COSATE          (valsa)

 

Mio Déuse, chi cosa danata,

Las moças di agora

Sono muito levata.

Con los vestidos curtino

Deixa a gente ficá

Con la capéça inxata!

 

Ramona, vá pro diabo chi lo carregue!

Tú mi bota la mia capéça maluca;

Pá marona! chi stá facendo u dotore Saverio

Chi num bota tutta essa gente, tutta, na arapuca!

Ramona dá dore di barrica, á gente.

E’ piore, é piore che la marellina,

Ramona! Diabo, diabo e mil veis diabo!

Urucubaca da miudina!

 

No. 6

FESTAS JOANNINAS

(desgarrada)

 

SÓLO

Estas festas joanninas

São festas do coração:

Somos moças e meninas,

Somos rosas em botão.

 

Pedimos a caridade,

Pelo serviço do Amôr;

Ao povo desta cidade

                          Imploramos com fervôr.

 

CÔRO           

Uma flôr offerecemos,

Sem preço, sem exigir,

E assim todas o fazemos

Pr’a cidade progredir.

 

Vejam neste nosso gesto

A melhor das intenções;

O óbulo, por mais modesto,

Enriquece os corações.

 

SÓLO

E’ divino e muito nobre

Todo gesto caridoso,

Porque socorrendo o pobre,

Agrada a Deus que é bondoso.

 

Em Valença toda a gente

Tem gesto de caridade;

E trabalha-se contente

Em favor desta cidade.

 

CÔRO

Nestas festas joanninas,

Somos as portuguesinhas

Que têm nas mãos pequeninas

A attracçào das barraquinhas.

                                      

Trabalhamos com alegria

Pelas obras desta terra;

Somos fortes na porfia,

Pela Princeza da Serra!

 

—o—

 

APOTHEOSE — Os “Coroados”

J. GUIMARÁES     (Declamação final)

 

Volvamos nós, pois, agora,

Nossos olhos para a historia

Desta cidade onde móra

Nosso passado de gloria!

 

E’ que esse passado encerra

A historia dos “Coroados”:

Foram os indios, nesta terra,

Os nossos antepassados.

 

E unindo o pensamento

À historica tradição

Levante-se um monumento

Em nosso coração!

 

Sem sahirmos do Presente,

Louvemos com grande crença

Os indios – aquela gente

Que, antes, habitou Valença!

 

 


- FIM DA PEÇA -

 

 

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