
Fôste na terra a flôr
recém-nascida,
Que se queimou ao sol das
desventuras,
Quando a aurora de tua doce vida
Beijava esse horizonte de canduras.
Tu fôste cedo e sem viver a vida
Deste mundo, tão cheio de
amarguras,
Para o reino dos céos que dá
guarida
A quem merece as portas das Alturas.
Deixaste, aqui, teus paes, na
immensidade
Deste mundo, chorando a dôr, sem
fim,
Da lágrima dorida da Saudade.
Partiste, eu sei, partiste bello
anjinho,
Voando nas tuas azas de setim,
Para o Céo! para Deus! para o teu
Ninho!
Vila Rica, 1922
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A VINGANÇA DE JUDAS
Jamais hei de
olvidar essa figueira,
No porte e robustez,
descomedida
Onde ante no azul a
cabeleira,
Os braços para o céu,
cheios de vida!
Ah! Como não lembrá-la, se, altaneira,
Inda a vejo, dos pássaros guarida,
Na saudação ao sol ser a primeira,
Toda em cânticos e luzes convertida!
É mais uma relíquia que se encerra
No
mausoléu das tradições da terra
Cheia de cicatrizes tão profundas!
Mas na saudade,
entanto, eis! inda vive
No-la mostrando, do ar, sobre o declive
Onde
ela frondejara, a mão de Judas!
Ouro Preto, 1923
Nota extraida do livro de Nabor Fernandes, "Antologia de
Poetas Valencianos": Pelo 1o quartel deste século, havia em Valença, uma
imensa e incomparável figueira, secular, relíquia dos valencianos. Um dia,
revoltado contra o machado que a abatera, o então estudante de Ouro Preto,
protestara, escrevendo este soneto, em homenagem às tradições valencianas.
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VINTE DE MAIO (À graciosa
Geraldina Longo)
Nestes meus versos, ó lyrial creatura!
Louvo o dia do teu anniversario;
São gorgeios que o coração murmura,
Neste ninho em que vive solitario.
Vinte de maio! Rico de ventura,
Teu espírito excelso, qual sacrário,
Resplandece de luz. Vives tão pura,
A desfiar, da vida, o teu rosário!
Estes meus versos são humildes flôres,
Que a teus pés eu deponho, com divino
Respeito, consagrado os teus amôres.
Abençoáe, Mãe de Deus, tão grande dia!
Perfume-o a extranha candidez de um hymno
Feito de amôr e feito de alegria.
Vila Rica, 1922
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A MINHA GATINHA (A Alberto
Fonseca)
Tinha em casa uma linda companheira,
De olhos verdes, branca e bonitinha,
Muito mimosa, gorda e janelleira,
Que eu chamara - Mimi - minha gatinha.
Com carícias lá vinha tão cordeira,
A afagar-me, mais mansa que a visinha;
Humilde, obediente e prazenteira,
Era ella, dentre as gatas, a rainha.
Mas, um dia, ella quasi me cegou,
Com uma unháda, feróz e inteligente
Porque dos meus carinhos não gostou...
Philosophia! Mundo de ilusões!
Como era a gata pouco diferente
Das mulheres, que arranham corações!
Valença, 1924.
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Volvamos nós, pois, agora,
Nossos olhos para a História
Desta cidade onde mora
Nosso passado de glória!
É que esse passado encerra
A história dos "Coroados"
Foram os índios, nesta terra,
Os nossos antepassados.
E unindo o pensamento
À histórica tradição
Levante-se um Monumento
Em o nosso coração!
Sem sairmos do presente,
Louvemos com grande crença
Os índios - aquela gente
Que, antes, habitou Valença!
Nota extraida do livro de Nabor Fernandes em seu livro
"Antologia de Poetas Valencianos": Com estes versos, Leoni Iório terminava a
sua revista teatral musicada, entitulada: "A Princesa da Serra".
Versos declamados no final da peça pelo inesquecível amador teatral José
Guimarães, levada à cena em 1929, no
antigo Teatro Glória, em Valença.
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Eu sou Valença querida
Olena de grande beleza
Flor perfumada
Cheia de vida
Eu sou do Estado, a Princesa!
Em meu regaço se aquece
Este povo que honra a terra
Idolatrada
E canta em prece
Eis a Princesa da Serra!
Valença!
Valença!
Sou a Princesa da Serra!
Sou a terra preferida,
Tenho o dom de seduzir...
A Natureza,
Enriquecida,
Sempre está a reflorir...
Meu progresso vai marchando
Com certeza, para a frente;
Minha riqueza
Meu clima encerrando,
Para o bem de minha gente!
Valença!
Valença!
Eu sou a Princesa da Serra!
Nota extraida do livro de Nabor Fernandes
"Antologia de Poetas Valencianos": Estes versos foram cantados pela
inesquecível atriz Balbina Fonseca, quando levada à cena, no antigo Teatro
Glória, de Valença, em 1929, a revista de costumes locais, intitulada: "A
Princesa da Serra"
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SALVE SANTA TERESA (ao Exmo. Sr. Dr. Manoel Duarte)
Teresenses!...
Mirai vossa grandeza,
Irmanada ao
Progresso em forte laço,
Vós que sonhais
um sonho de riqueza
E uma glória maior
que o imenso espaço,
Alargai, com toda
essa natureza,
Num vôo de
esperança, o vosso passo,
Que vos há-de
elevar, Santa Teresa,
Da Fortuna e de
Glória no regaço!
Sede grande,
pequeno teresense!
Trilhai do Ideal
a doce e bela estrada,
Para orgulho do
povo fluminense
Salve, Santa
Teresa idolatrada!
Tendes no seio o
espírito que vence
E a fama em vossa
história apontada!
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À BEIRA DO TEU BERÇO (Ao Carlinhos)
- Carlos!
Nasceste como a luz divina
Que despertta nas
áureas alvoradas
Desabrochando
qual flôr pequenina,
Num regaço de
rosas perfumadas
A tua voz é um
cântico risonho
Que, em accórdes
celestes, offereces...
És um fluido
puríssimo de um sonho
Que sonharam teus
pares em doces préces.
No teu pequeno
berço alabastrino,
És um grito, és
um medo, és um suspiro;
Porém, logo, em
teu lábio peregrino,
Róla um beijo que
é filho do suspiro
- Carlos!
Tu bens merece a carícia
Que te dispensa a
tua mãe querida;
Ella tem nos teus
lábios a delícia
De ser mãe,
embora, soffra nesta vida.
O beijo que te dá
é feito d'amôr,
Do amôr de mãe
que vem do coração...
Suas lágrimas não
serão de dôr,
Serão lágrimas de
satisfação.
Sonha... porque
no teu pequeno abrigo,
Está também
sonhando, enamorada,
Tua mãe que
estará sempre contigo,
Nos teus sonhos,
em dúlcida balada.
- Carlos!
És o reisinho desse lar,
Entre as malhas
do teu rendado véo...
Que bello! às
crianças tua mãe falar:
- Carlinhos é um
presente lá do céo!
- Laurita!
Carlos é todo esse amôr
Que te transforma
em mãe do pequenino...
Sê como a Virgem,
num sorriso em flôr,
Para os olhos do
teu Jesús-menino!
Valença, 9 - 6 - 1926