

I – MENÇÃO EM ÓRGÃO DE IMPRENSA

NOSSA SENHORA DE VALENÇA
Gastão Penalva –
março de 1937
Havia qualquer coisa que me chamava para lá. Havia muita
coisa. Laços sagrados de família, talvez. Talvez essa saudade que vive dentro em
mim de terras desconhecidas, de casas onde nunca vivi, de velhas gentes que
jamais encontrei.
Meu avô materno, por espaço da guerra do paraguai, fôra juiz
municipal daquele ingênuo termo fluminense. Aí por longos anos, morejou, sob a
efígie de Temis e a vara do Visconde do Rio Preto. Não longe da cidade, a
fazenda da Vista Alegre, que o destino transformou em fábrica de queijos,
propriedade de um dinamarquês ultra-simpático. Corri com emoção àquela casa
centenária do velho Sousa Barros, que se aparenta com os meus. Vista Alegre foi
dos mais pródigos nababos do Império. Tinha estadão na fazenda. Para ela atraia
os amigos em veraneios memoráveis. Tinha um palácio na rua do Conde, hoje o
hospital Hansemanniano. Ironia da sorte, onde em mais alta dose se gastou,
agora, formam-se homeopatas. Lembro-me do parque imenso que o tempo desfigurou.
Do edifício severo, de linhas sumptuosas, com amplas salas onde se realizaram
das melhores festanças do tempo, rivais das noitadas esplêndidas dos de
Abrantes e da Bela Vista. Fortuna sólida, de vastos latifúndios, de cafesais
pletóricos, de ubérrimas pastagens, que logo se escoou pelas pernas ágeis,
enganosas dos cavalos de corridas. Ficou dela uma tradião marcante, um
prestígio de nome que tão cedo não se apagará.
Ora, apanhei-me comovidíssimo naqueles aposentos onde minha
avó, a esposa do juiz municipal, passava horas, as mais felizes da sua vida, a
costurar todo o enxoval do seu primeiro neto. Uma avózinha de cabelos pretos, a
fiar, como as fadas legendárias, na
talagarça do seu bem-querer.
Vi-a eu por ali, muito atenta, naqueles cadeirões de braços,
dando à agulha para cobrir-me das roupas mais gentis que em toda a vida vesti.
Depois, a juntar tudo numa arquinha de cedro com fechos de prata velha, e a
enviar para a filha, no dia do seu natalício, uma semana antes de eu nascer.
Essa arca era muito da sua estimação. Nela guardava as suas
jóias, os seus lencinhos de valencianas, os graves documentos de toda a família,
as lembranças de toda a sua mocidade. Nunca, um só dia, minha vó se separou
dela. Se ia passar tempo em outras casas, em fasendas vizinhas, levava a arca
consigo, sobre os joelhos, como uma relíquia, aos trancos das traquitanas e
liteiras, pelos longos caminhos da serra. Certa noite, em Valença, houve fogo
numa loja fronteira. Minha avó alarmou-se. Gritou para o escravo de confiança:
-
Oscar,
depressa! Bota a arquinha na cabeça, vamos ver o incêndio.
Todo esse mundo de recordações me vinha a mente, no
ensombrado jardim da catedral, onde existe uma árvore que chora. Chora mesmo.
Em certas épocas do ano. Em outras, passa indiferente, ou, como nós, pensando e
acumulando lágrimas futuras. Um vigário materialista já quiz matar a lenda,
atribuindo o pranto da pobre árvore às garras de um inseto sequioso da seiva.
Mentira. A árvore chora. Derrama-se em torrentes melancólicas, que vão a ponto
de inundar o chão. Por que, ninguém sabe. Nem ninguém tem o direito de saber.
Se não fosse verdade, se as árvores não chorassem, Afonso Arinos não teria
escrito sua melhor página. Pois choram!
Aqueles sobrados... Que maravilha arquitetônica o solar do
fidalgo Rio Preto! Grnde, espaçoso, como uma chácara a perder de vista, o
brazão d´armas sobre o tímpano imponente à moda de Grandjean de Montegny.
Negociado ao dealbar da República, pela
quantia de sete contos, hoje é, prosaicamente, a pensão da Carola.
A dois passos, o teatro Glória. Construido em 1864. Passou
por êle gente de importância. A Candiani cantou. Gema Cuniberti, com oito anos
de idade, representou com tal sucesso que, ao final do espetáculo, Leocádia de
Barros, filha do Vista Alegre, subiu ao palco e ofertou-lhe um anel de
brilhantes. E numa noite de gala inesquecível, o grande Gottschalk, que andava
nos arredores como hóspede do Visconde de Pimentel, deu um concerto famoso,
tocou para o êxtase da platéia, o seu Trêmulo e o seu Hino Nacional, por entre
aclamações e aplausos delirantes daquelas baronesas e condessas (a Vista
Alegre, a Rio Preto, a Ipiabas, a Baependi), que, ao mesmo tempo, garridas e
mundanas, humilhavam-se genuflexas ao serviço cristão de aias de Nossa Senhora.
Na Câmara Municipal (logo à entrada, que horrenda figura da
República!), vou deparar uma biblioteca com mais de cinco mil volumes. O que
lia a boa gente de antanho! Que sossego fecundo naqueles doces serões fim de
Império! Tudo esvurmado e anotado. Garret, Bocage, Alvarenga, Cláudio, Gonzaga.
O douto Michelet. As saborosas Cartas Chilenas, de suspeita autoria
antes que Caio de Melo Franco, a atribuisse ao árcade Glauceste Saturnio, o
suicida da Conjuração.
E mais: o Panorama, o Arquivo Pitoresco, a Ilustração
Francesa, os Anais do Parlamento. E uma coleção completa da Revista
de Dois Mundos que pertenceu a Guisot, arrematada num leilão em Paris e
oferecida à Municipalidade pelo Ministro do Supremo Tribunal Federal, Dr.
Carlos de Oliveira Figueiredo.
Foi sempre a imprensa, excepção do presente, cultuada em
Valença com todo o fogo sagrado. Desde 1832. Desta data, O Valenciano,
que mantinha na Côrte, como representante, o luxo de um Evaristo da Veiga, e a Sentinela
Valenciana. E a Merrimac e o Alagoas para comemorar dois
navios que operaram bravuras na campanha contra Lopes. E o Regenerador.
Outro Valenciano com Lúcio de Mendonça. Em 1889, a cem anos da Revolução
Francesa, O Amigo do Povo recordando o libelo de Marat. Nesse viveram dias
gloriosos, as penas de Lúcio, Saldanha Marinho, João Claudio Larivoir. Na
República, O Primeiro de Maio, A Atualidade, o Santo Ofício,
com o lema definitivo: “Prefiro a liberdade tempestuosa à plácida escravidão”.
E o Colibri, onde adejavam plumas femininas. E muitíssimos outros.
Mais tarde surgiram as louváveis tentativas de um jornalista
abnegado, legítimo valenciano, defensor impávido dos pergaminhos da cidade
augusta: José Leoni
Iório. Fundou e dirigiu
vários periódicos, de lisonjeira aceitação: Valença, de grande formato,
impresso nas oficinas do País, o Jornal de Valença, órgão do
partido republicano, o Correio de Valença, órgão municipal. Organizou o Boletim
da Irmandade da Glória, histórico da catedral secular. Escritor teatral,
compôs uma revista de costumes que logrou êxito no teatro local. Diplomado em
Farmácia, ajunta aos seus lauréis, mais um que a todos sobrepuja: foi estudante
em Ouro Preto.
Esse amigo que me acompanha no giro cotidiano, por todo o
canto do nobre feudo da Virgem, vai-me relatando casos, episódios remotos, as
origens da provocação valenciana, a contar das aldeias indígenas dos purús, dos
coroados e dos araris. Mil e quatrocentos índios que a lança lusitana dispersou
por ordem de Luis de Vasconcelos, dando-se a terra nascente, o nome de Valença,
por ser êsse o da casa solarenga da estirpe do vice-rei. Cita-me o primeiro
livro de batisados, do arquivo da matriz, de 1809, pelo qual se deram nomes
compreensíveis a quarenta e dois selvícolas, a começar pelo sanhudo Tanguara,
que ficou se chamando Hipólito. Fala-me da imigração mineira para aquelas
bandas, por uma estrada que é hoje a rua Saldanha Marinho, não só padrinho
dessa via pública, como do sino da catedral que como êle, se apelida Joaquim.
Conduz-me após, pelos bairros pobres, onde, de raro, se montoam as frondes de
um pomar abastado. E os fico conhecendo a todos, tão aprazíveis e pitorescos:
Carambita, Santa Cruz, Aparecida, MonteD´Ouro, Laranjeiras, com o seu casario
singelo, os seus lares de taipa agarrados às barrancas, rondas de molecotes que
improvisam uma “chula” pela paga de um picolé de tostão. Em seguida, o
arrabalde operário. São três fábricas que apitam para o labor diário de dois
mil e quinhentos lidadores. Afóra os laticínios da Vista Alegre, orientados
pelos moldes sadios das indústrias da Europa septentrional.
Difunde-se a instrução pública de exuberantes sementeiras. A
Escola Normal. O Ginásio. O Grupo Escolar. Além das escolazinhas primárias do
ótimo padre Luna, no seu ditoso pastoreio, com casas à sua custa, professoras à
sua custa , livros à sua custa.
Fim de tarde, vamos à Santa Casa. É um ninho de blandicias,
um prado ameno de bálsamos aos que sofrem as dores do mundo. Grandes salões,
compridos corredores. Por êles, vêm vindo a nós, passinho curto, rosto contente
a aflorar num sorriso, a freirinha de serviço. Sempre alegre, segue-nos por
entre os leitos dos enfermos, em toda a parte onde se evidencia um rigoroso
apuro de higiene, uma limpeza excessiva, uma extrema disciplina. As órfãs
levantam-se, de súbito. Todas sorriem, dentro de profundo respeito. Há um ar de
satisfação, tranquilidade e fartura. O dormitório semelha, pela brancura das
camas, um pombal prestes a erguer vôo. Tenho receio de espantá-las. Paira no
espaço qualquer coisa de asa, alva, subtil, espalmada e benéfica, protegendo
tudo que é a própria Caridade. E a irmã de geito tímido, a pedir desculpas
daquele atropêlo, daquela desarrumação...
A certo ponto, o provedor Leoni, tio do meu amigo, um
devotado à vida santa do instituto, roga-me uma inscrição no livro de visitas.
Folheio o livro. E outros livros. Num deles, o da secção financeira, descubro a
letra da Redentora numa dádiva de quinhentos mil réis. E outra dos imperantes.
Da condessa de Barral e Pedra Branca. De pessoas aristocráticas que passavam a
existência a correr os hospitais, a mitigar a desgraça alheia.
Mas, que irei escrever? Olho o alto da parede: “Jesus está
nesta casa”. Se está! De fato, parece-me vislumbrar a figura d´Ele, a caminhar
pelas salas, a divagar pelas enfermarias, afagando a cabeça dos doentes,
amimando as crianças, sorrindo para os velhos, murmurando as mesmas coisas
bíblicas que, um dia, disse à Lázaro,
com as mãos repletas de bençãos, pagando os juros de quem empresta a Deus.
Eu costumo plasmar, na moldura ancestral das cidades
antigas, para cada cenário, um vulto de mulher. Não se enquadra melhor, tempos
afóra, tanta beleza d´alma e tanta nobreza de sentimento. Assim, Marília de
Dirceu, na pelúcia verde-negro de Vila Rica. Musa de um século, noiva da
Inconfidência. Assim, Bárbara Heliodora, na paisagem macia de S. João del-Rei,
sob a égide heróica de paulistas e emboabas, quebrando lanças pelo Santo Graal
da nacionalidade. Assim, sóror Joana Angélica, braços em cruz - cruz de honra e
de sangue – no pórtico ultrajado de um convento baiano. Assim...
Mas, em Valença, uma resume todo o meu espírito e acasala toda
a minha ternura. Ali nasceu. Ali cresceu. Brincou debaixo das mesmas copas
sombrias que ainda puderam me agasalhar. Viu aquelas montanhas morgadias que eu
avistei nas cinzas dos crepúsculos. E, um dia, se partiu, mandando-me voltar,
com braçadas de lírios e de afétos, como o seu mais querido mensageiro – minha
mãe.
II
- CARTA DE CARLOS DRUMOND DE ANDRADE
Transcrição
da Carta de Carlos Drummond de Andrade
Rio de Janeiro, 2 de março de 1978
Prezado Leoni Iório,
Estou grato
à sua gentileza de oferecer-me um exemplar de “Valença de Ontem e de Hoje”,
livro esse que reune valiosas notícias históricas e dados atuais de sua terra.
Considero esse gênero de trabalho dos mais úteis e merecedores de aplauso.
Assim, tantos outros municípios brasileiros tivessem o seu zeloso e eficiente monografista, o país ficaria mais
conhecido de nós mesmos.
Cordialmente,
o apreço e a simpatia de
Carlos Drummond de Andrade