TERCEIRO  BARÃO DO RIO BONITO

POR LEONI IÓRIO

 

CAPÍTULO 2

A MARCHA DO PROGRESSO

 

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Os Faro de Valença

As Realizações do Terceiro Barão

Engenho Central Rio Bonito

Retardamento

A Batalha da Emancipação

Vila, a Futura Cidade

 OS FARO DE VALENÇA

          Os primeiros colonizadores brancos, de origem portuguesa e brasileira, que se instalaram nas proximidades do povoado, foram os Faro e os Pereira da Silva, que orientavam e animavam, ao lado de tantos ilustres titulares do Império, o surto econômico da lavoura cafeeira e a grandeza social da velha e aristocrática Valença, nas vizinhas terras de Ipiabas.

          Os Faro eram, em Valença, fazendeiros cultos e possuidores de muitos escravos. Da sua numerosa família, destacaram-se, na colonização da freguesia de Nossa Senhora das Ipiabas, entre outros, contribuindo assim, para o surgimento da atual freguesia de Santana e do futuroso povoado que, um dia, se chamaria Barra do Piraí - ilustres e insignes representantes da aristocracia rural valenciana.

         

Citemos, primeiramente, Joaquim José Pereira de Faro, que foi o 1o Barão do Rio Bonito. Natural da cidade de Braga (Portugal), era filho de José Pereira de Faro, natural de Galiza, e de D. Francisca Pereira Fernandes Sá, também natural da cidade de Braga. O 1o Barão do Rio Bonito era casado com D. Ana Rita do Amor Divino, posteriormente, Ana Rita de Faro, que faleceu, no Rio de Janeiro, em 18 de outubro de 1854, e era pai de João Pereira Darrigue de Faro, 2o Barão e depois Visconde do Rio Bonito, e avô de José Pereira de Faro, 3o Barão do Rio Bonito - o defensor da emancipação política de Barra do Piraí.  

 

Ascendência do Barão do Rio Bonito

 

 

                                               Árvore Genealógica do 3o Barão do Rio Bonito  

 
                              Primeiro Barão do Rio Bonito                             Primeira Baroneza do Rio Bonito

            

             Primeiro Barão do Rio Bonito                      Primeira Baroneza do Rio Bonito

          O 1o Barão do Rio Bonito aconselhou ao seu filho João Pereira de Larrigue (lê-se em vários documentos Darrigue ou Larrigue. Darrigue - aportuguesamento de "de Larrigue", de origem francesa) de Faro que, em respeito aos sentimentos de tradição de família, acompanhasse a oposição e servisse à causa do Brasil. Foi Fidalgo Cavaleiro da Imperial Ordem do Cruzeiro, Coronel de Infantaria reformado, membro da Junta Administrativa da Caixa de Amortização e grande negociante na praça do Rio de Janeiro. Conferiu-se-lhe o uso do brasão de armas de seus antepassados pela carta de 24 de março de 1841 (Arquivo Heráldico Genealógico do Visconde de Sanches de Baena). Os brasões do 1o Barão do Rio Bonito têm a seguinte apresentação:

 

"Escudo partido em palas, na primeira - as armas dos Pereira que são em campo vermelho, uma cruz de prata florida e vazia de campo; na segunda, as armas dos Faro que são em campo preto em aspa vermelho e sôbre a aspa, cinco escudos e as quinas de Portugal, sem a orladura dos carvalhos. Elmo de preto guarnecido de oiro, timbre dos Faro que é o antigo dos Pereira, que é nacarado de prata com três laçados no pescoço em sangue, bridado de ouro, com cabeçadas e rédeas de vermelho. E por diferença, uma brica azul com uma estrela de prata". (5)

(5) Arquivo Nobiliárquico Brasileiro (pág. 387 a 390)

 

  O 2o Barão e Visconde do Rio Bonito

"Um titular de grande projeção política e econômico-social, em Valença, foi o grande fazendeiro João Pereira Darrigue Faro - 2o Barão, e depois, Visconde do Rio Bonito, filho do 1o Barão Joaquim José Pereira de Faro e da Baronesa Ana Rita de Faro, e tio do 3o Barão do Rio Bonito com D. Mariana Joaquina Fonseca, neta paterna do 1o Barão do Rio Bonito. João Pereira Darrigue Faro foi veador e, por quatro vezes, vice-presidente da Província do Rio de Janeiro". (6)

 

Exerceu o cargo de presidente no período de 02-05-1854 a 13-09-1854, em substituição ao Presidente Luiz Antônio Barboza. Esse ilustre titular muito concorreu para o desenvolvimento agrário da freguesia de Ipiabas, onde, entre outros tão importantes titulares que pontificaram no período áureo do café, e ao lado de seus prestigiosos parentes, contribuiu generosamente, para a construção da primitiva capela em honra à Nossa Senhora da Piedade. O seu brasão de armas é exatamente igual ao do 3o Barão do Rio Bonito (José Pereira de Faro).

                                                                                                                        

"Da família Faro, destacaram-se ainda, na vida política e econômica de Valença, o comendador José Pereira da Silva Faro, o médico Dr. Luiz Pereira Ferreira de Faro (casado com sua sobrinha Maria Madalena de Matos) e Camilo José Pereira de Faro, tendo o primeiro exercido as funções de Juiz da Paz do distrito de Ipiabas, no período de 1837 a 1840 e o segundo, ocupando o mesmo cargo, no período de 1837 a 1848 (7).


              Dr. Luiz Pereira de Faro                         

         Dr. Luiz Pereira Ferreira de Faro,                      Maria Madalena de Matos (Faro),
        filho do Primeiro Barão do Rio Bonito.            sobrinha e esposa do Dr. Luiz Pereira.
                                                                                           

"O cidadão Antônio Pereira de Faro (irmão do Terceiro Barão), nascido em 05 de outubro de 1835, foi, também, Juiz da Paz no distrito de Ipiabas, no período de 1861 a 1864, tendo falecido em 10 de janeiro de 1888, em Nova Friburgo, onde foi sepultado. Assim como, José Pereira de Faro, o 3o Barão do Rio Bonito, foi, igualmente, Juiz de Paz no mesmo distrito, nos períodos de 1853-1860, 1865-1868, 1869-1872 e 1873-1880". (8)

(6), (7) e (8) - História de Valença - pág. 208 a 214 (ref. ao distrito de Ipiabas).

               AS REALIZAÇÕES DO TERCEIRO BARÃO

O 3o Barão do Rio Bonito foi, sem dúvida, uma das mais vivas expressões da vida rural valenciana, na antiga freguesia de Nossa Senhora da Piedade das Ipiabas, atual distrito de Ipiabas. A sua dedicação à lavoura, o fizera, incontestavelmente, um exemplo de trabalho e honradez, educado que fora no regime da disciplina paternal, trazendo consigo, por tradição, aquelas mesmas elevadas virtudes do seu velho tio - o Visconde do Rio Bonito.                

Segundo a tradição, José Pereira de Faro, o futuro 3o Barão do Rio Bonito, não esquecia a Lei No. 96, de 6 de dezembro de 1837 e a Deliberação de 28 de setembro do ano seguinte, que erigia em vila, a freguesia de Santana do Piraí. Pretendia o 3o Barão reviver essa idéia para realizá-la, ampliá-la, até chegar a "Cidade de Santana de Barra do Piraí", ou simplesmente, "Cidade de Santana".

                                                                      

       O Terceiro Barão do Rio Bonito


          Mas, era preciso desenvolver a freguesia de "Santana do Piraí". De fato, a história fornece elementos que amparam essa voz corrente, tendo em vista, ainda, o futuro promissor das terras da margem direita do Paraíba, onde o povoado de Gonçalves de Morais oferecia, de certo modo, à visão e ao sentimento profético de José Pereira de Faro, as mais largas perspectivas de progresso.

 

Vassouras, com o seu forte desejo de evoluir, econômica e socialmente, propõe tornar-se uma grande cidade. Mas, era necessário vencer, antes, o obstáculo geográfico da distância que a separava do Rio de Janeiro. Só uma ligação ferroviária direta resolveria a situação. E à sua gente rural, que sempre esteve à frente das reformas e das iniciativas, devem-se, incontestavelmente, os primeiros estudos de organização da antiga Estrada de Ferro D. Pedro II.

 

"Os Teixeira Leite queriam ver correr os trens do alto da cordilheira, ao longo da calha natural do Paraíba. São os Teixeira Leite, entre outros, os que mais pugnam por esse feito e custeiam o difícil reconhecimento da subida da Serra", no dizer de Alberto Lamêgo. (9)

(9) - O Homem e a Serra (pág. 117)<

Por ocasião da construção da 1a Seção da Estrada de Ferro D. Pedro II, duas prestigiosas e ricas famílias empenhavam-se em luta diplomática - de um lado, os Teixeira Leite, pelejando pela vitória do plano do Morro Azul; de outro, os Faro, batendo-se pela do plano do Ribeirão dos Macacos, isto é - cada qual, ambicionando fosse esse grande empreendimento, o mais útil possível para os seus domínios - Vassouras e Valença, respectivamente.

 

E Inácio Raposo nos informa:

  "Acusavam os Teixeira Leite de só quererem os Faro, a realização deste último plano, porque vinha este valorizar as suas propriedades, quase todas localizadas à margem do Paraíba.

 Idênticas acusações faziam os Faro aos Teixeira Leite, mas, estes se defendiam, alegando que os primeiros estudos da estrada tinham sido feitos por sua conta e estavam eles, portanto, no direito de ser beneficiados pela via-férrea.

  Eram ambas essas famílias riquíssimas e poderosas, contando os Teixeira Leite com a energia das famílias Correia e Castro, Avellar, Werneck, Furquim de Almeida e muitas outras, e os Faro com todos os fazendeiros situados à margem do Paraíba, com o formidável prestígio do principal membro da família, o poderoso Barão do Rio Bonito e a maravilhosa proteção de inúmeros figurões do Império" (10).

(10) História de Vassouras (pág. 155 e 156)

 

Enquanto que os eminentes senhores do café, em Vassouras, procuravam torná-la uma grande cidade, os Faro sonhavam com a solução imediata do grande problema do transporte ferroviário. O ideal era ligar, diretamente, o nascente povoado da Barra do Piraí ao Rio de Janeiro; mas, os vassourenses, por outro lado, idealizavam a sua expansão econômica, sonhando com a estrada dentro da cidade de Vassouras.

 

Como de natural, querem eles a linha tronco passando por Vassouras, seguindo o traçado do Morro Azul, levando à cidade a centralização dos transportes entre toda uma grande zona cafeeira e a Guanabara. De São Paulo e de Minas, todo o intercâmbio com o Rio de Janeiro encaminhar-se-ia através de Vassouras.

 

Eis porém que, com interesses não menos consideráveis, apresentam-se nas margens do Paraíba, os irmãos Faro, riquíssimos proprietários, um deles já criador do embrionário arraial de Barra do Piraí. Na renhida luta de bastidores entre os dois partidos, perdem os Teixeira Leite, desfavorecidos pelo parecer de técnicos. Ganham os poderosos Faro - um deles, é o 3o Barão do Rio Bonito.

 

"O tratado do Morro Azul é desprezado pela subida de Mendes e, com isto, Vassouras continua solitariamente a evolucionar por seus recursos próprios".(11)

Definitivamente escolhido o trajeto da então Estrada de Ferro Pedro II que, já  "em Japeri subia a serra numa contínua escavação de túneis em busca do insignificante arraial de Barra do Piraí" (12), os Faro, estimulados pela luta que, nessa ocasião, se esboçava entre os barões de Vassouras e Juparanã, em Valença, batendo-se este, notadamente, no sentido de que, a "Pedro II" passasse por terras valencianas, tiveram sua vitória, graças aos esforços, à persistência e ao prestígio pessoal do 3o Barão do Rio Bonito e do Barão de Juparanã.

(11) e (12) - O Homem e a Serra

Com referência à estação, que deveria servir a cidade de Vassouras, escreve Inácio Raposo:

"Sobre a instalação d'essa aprazível estação, temos algo a relatar. Houve, por seu respeito, uma pendência entre o Barão de Vassouras, intransigente e partidário do plano do Morro Azul, e o Barão do Rio Bonito e Comendador Faro, acérrimos defensores do plano dos Macacos. Divergiam, mais uma vez, quanto ao ponto em que deveria ficar a estação de entroncamento, interessando-se estes pelo povoado da Barra do Pirahy e aquele pelo povoado do Rio das Mortes, o que, valorizaria o município de Vassouras. A família Teixeira Leite, mais uma vez, acusa a família Faro de só querer o triunfo de Barra do Pirahy, porque isto lhe valorizava os ricos domínios territoriais, ao passo que, os de Vassouras, não tinham nisso, interesses individuais. No entanto, o tempo veio provar que os Faro agiram, em tudo, levados tão somente pelo desejo de bem servir os interesses da estrada. Coube a vitória a estes últimos. A nossa encantadora cidade, sequer teve uma estação inteiramente sua!... Seria servida pela mais próxima..." (13)  

(13) - História de Vassouras

Sobre esse notável acontecimento, escreve o historiador Alberto Lamego:

"Devido à sua incansável atividade, foi que a "Pedro II", após alcançar Japeri no dia 18 de novembro de 1858, desvia-se do caminho de Vassouras, põe-se a subir a serra pelo vale do ribeirão das Lajes e do seu afluente, o Macacos, penetra no Túnel Grande, visitado pelo Imperador em 3 de julho de 1860, inaugura a estação de Macacos em 3 de junho do ano seguinte, a de Rodeio, em 12 de junho de 1863, e finalmente a de Barra, em 7 agosto de 1864.

Significante é a nossa primeira locomotiva que para ali arrasta o primeiro trem. É o silvo da pequenina "Baronesa" que iniciara uma nova era no Brasil com a mecanização dos transportes terrestres que vem afugentar milênios de barbárie na letárgica floresta, e desvenda novos planos para a investida do sertão. Porque, brevemente a seguir, de Barra se projetariam em direção oposta as duas mais importantes vias de comunicação que ligam até hoje, a Guanabara aos nossos dois maiores Estados. Em 13 de abril de 1865, abria-se a estação de Ipiranga na linha de Minas, e em 20 de janeiro de 1871, a de Vargem Alegre, na de São Paulo.

Por Barra do Piraí, passaria, doravante, a desfilar toda a cultura mineira e os milhões de arrobas de café das fazendas de rio-acima, as quais, já cultivando todo o vale fluminense, também sacudiam a zona superior paulista, adormecida desde os tempos da mineração.

Desde quando ali chega a ponte de trilhos, uma súbita agitação comercial movimenta o embrionário povoado. Em barcos, em tropas, em carroças e em carros de boi, o grosso da produção de café de vasta zona começa a ser dirigido para um novo centro de expedição. Funda-se uma companhia de transporte fluvial - a de Miguel Simões - que navegava pelas águas do Piraí e do Paraíba, indo neste a Pinheiral, Barra Mansa e às proximidades de Resende, no "Tombo Grande".

De toda a banda lhe chegam torrentes de café. Os velhos caminhos coloniais da descida da Serra começam a esvaziar-se. Surge, na cordilheira, uma nova mentalidade. Uma nevrótica aceleração de atividades. As velhas cidades aristocráticas focalizam, despeitadas, o pequeno arraial centralizador, e um nome até então quase desconhecido passa a um dos mais pronunciados por fazendeiros e mercadores, por crescentes populações que irão subir a Serra com um estágio obrigatório no vilarejo, cuja designação como as excessivamente popularizadas, são reduzidas pela economia no falar. Barra do Piraí vai, simplesmente, tornar-se a "Barra".

E este nome cresce. É o mais falado em todo o grande centro mineiro. Por uma quase instantânea propaganda, ecoa nos sertões goianos, de onde partem as longas tropas em viagens de meses. O alvo final, após centenas de léguas, já não são mais os portos da Estrela, de Inhomirim, do Pilar, de Angra dos Reis ou do Rio de Janeiro. É a Barra.

Os velhos embarcadouros do recôncavo da Guanabara começam repentinamente a extinguir-se. O maior dos fatores da evolução dos países modernos, a mecanização dos transportes, inesperadamente, revoluciona todo o sistema de intercâmbio, deslocando para o coração da serra, à margem do Paraíba, quase toda a movimentação das "vilas de comércio", esparsas pelos contornos da Guanabara, onde Porto das Caixas, em breve, também irá agonizar com a construção da Estrada de Ferro de Cantagalo.

Barra do Piraí encabeça a dianteira econômica das povoações de Serra-acima. Grandes casas matrizes do comércio de café no Rio de Janeiro, erguem ali, filiais e armazéns. É na Barra que pilhas de mercadorias aguardam as tropas de Minas e de Goiás. O arraial vive abarrotado e as ruas formigam de itinerantes.

E tudo isso, pode-se dizer, resultava do dinamismo esclarecido de um dos mais eminentes aristocratas rurais da terra fluminense: o 3o Barão do Rio Bonito". (14)

(14) - O Homem e a Serra (pág. 137)

 

O povoado de Barra do Piraí começou, então, a desenvolver-se. Era o ponto de embarque de toda a exportação paulista e mineira, a qual, se fazia, até ao povoado, por meio de barcos oriundos de São Paulo, e de carroças e tropas provenientes de Minas.

 

"Na cerrada peleja que descrevemos - assinala Alberto Lamêgo (15) - ao tratar de Vassouras, em que tanto se empenharam os Faro e os Teixeira Leite, sobre o traçado da Estrada de Ferro Pedro II, jogavam-se, inconscientemente, os destinos de Barra do Piraí. Com a vitória daqueles, o futuro de um novo núcleo urbano, de antemão, era garantido, sob a supervisão estimuladora do mais eminente dos membros da família, o 3o Barão do Rio Bonito".

(15) - O Homem e a Serra (pág. 136)

 

O traçado do Morro Azul foi vencido, conquanto fizessem parte da Diretoria e do Conselho Fiscal da "Companhia D. Pedro", pessoas de tradicionais famílias vassourenses.

 

"O que, efetivamente, ele defendia - escreve Amaral Barcelos - era o futuro da Barra do Piraí. Buscava a selva para a futura força econômica da cidade que se abria aos olhos proféticos. Não advogava só a causa justa da cidade de 1940, que se formava e se erguia no seu espírito, e por que se enamorava. Pugnava pelos interesses da própria Estrada de Ferro e pela facilidade com que seria feito, no futuro, seu intensíssimo tráfego da Capital do Império ou da República com os Estados de São Paulo e Minas Gerais. De todas as obras realizadas por um dos maiores benfeitores da Barra do Piraí, essa é a mais grandiosa, em todos os seus aspectos e confrontos. Defenderam os Faros, com uma previsão e tenacidade de esclarecidos, a pedra de toque da marcha triunfante do progresso da pequena povoação". (16)

(16) - Fragmentos Históricos do Município de Baarra do Piraí (pág. 26)

 

Max Vasconcelos, escrevendo sobre a estação ferroviária em Barra do Piraí, qualificou-a de "coração da Central". E acrescenta:

 

"É, com efeito, aí que se verifica o desdobramento da Estrada nas suas grandes linhas que, como amplos braços fraternais, ligam, em estreito amplexo, os Estados Unidos do Brasil: a que serve ao norte do país e a do sul, seguindo esta para sudoeste e aquela na direção oposta, ambas marginando o Paraíba, em cujo vale, de Guararema a Porto Novo, num percurso de 471 km, ecoa o sibilo sonoro das locomotivas da Central". (17)

 

(17) - Vias Brasileiras de Comunicação (pág. 733)

 

"Entretanto - no dizer do iluminado poeta Ovídio Mello - apesar de sua importância comercial, Barra não era, a esse tempo, sequer, um distrito de paz, civilmente falando, nem um curato, na categoria religiosa".

 

Notável influência, tiveram também os aristocratas rurais de Valença, tendo à frente o 3o Barão do Rio Bonito, na construção da antiga Estrada de Ferro de Santa Isabel do Rio Preto (posteriormente, Rede Mineira de Viação Sul), entre as freguesias da Barra do Piraí e de Santa Isabel do Rio Preto, do município de Valença, com uma extensão de 85 quilômetros.

   

                    

                                              Trecho da Rede Mineira de Viação Sul, 

                                        atravessando o rio Paraíba, em Barra do Piraí.

O responsável pela construção dessa estrada era o seu tio comendador e Visconde João Pereira Darrigue Faro, conceituado fazendeiro em Valença, segundo se lê nos estatutos da Companhia da Estrada de Ferro de Santa Isabel do Rio Preto, aprovados pelo Decreto imperial No. 7549, de 22 de novembro de 1879, o qual, autorizava o seu funcionamento, em seu artigo 1o, assim redigido:

 

"Art. 1o - Tem a Companhia da Estrada de Ferro de Santa Izabel do Rio Preto por objeto, a construção, custeio e gozo por 90 annos de uma estrada de ferro que, partindo de Barra do Pirahy, vá terminar em Santa Izabel do Rio Preto, no ponto que for designado de conformidade com o contrato celebrado entre a província do Rio de Janeiro e o comendador João Pereira Darrigue Faro, em Dezembro de 1876, contrato cujas cláusulas fizeram parte destes estatutos."

 

Eis, na íntegra, o texto do Decreto imperial No. 7549, de 22 de novembro, constante dos estatutos acima referidos:

 

- Decreto No. 7549 de 22 de novembro de 1879.

 Aprova, com modiciações, os estatutos da Companhia Estrada de Ferro de Santa Izabel do Rio Preto, e concede-lhe autorização para funcionar.

 Attendendo ao que Me requereu a Companhia da Estrada de Ferro de Santa Izabel do Rio Preto, devidamente representada, e de conformidade com a Minha Imediata Resolução de 15 do corrente mez, lançada em parecer da Secção dos Negocios do Imperio do Conselho de Estado, exarado em consulta de 16 de Agosto do corrente ano, Hei por bem, Approvar os estatutos da mesma companhia e Conceder-lhe autorização para funccionar, com as modificações que, com este, baixam assignadas por João Lins Vieira Cansansão de Sinimbú, do Meu Conselho, Senador do Imperio, Presidente do Conselho de Ministros, Ministro e Secretario de Estado dos Negocios da Agricultura, Commercio e Obras Publicas, que assim o tenha entendido e faça executar. Palácio do Rio de Janeiro, em 22 de Novembro de 1879, 58o da Independência e do Imperio.

 Com a rubrica de Sua Magestade o Imperador.

                                                        João Lins Vieira Cansansão de Sinimbú

O capital da Companhia era de Cr$ 3.800.000,00 representados por ações de valor nominal de Cr$ 200,00 cada uma, em número de 19.000.

 

A primeira diretoria da Estrada de Ferro de Santa Isabel do Rio Preto era composta dos Srs. José Leite de Souza, José Pedro Martins de Almeida e Pedro Carlos da Silva, a qual, serviu durante todo o tempo de construção da ferrovia.

 

A sede da companhia era na então povoação de Conservatória (antiga freguesia de Santo Antônio do Rio Preto), com representante na cidade do Rio de Janeiro.  

 

                

                   Locomotiva à vapor, utilizada pela RMV, no extinto trajeto Barra do Piraí- 

  Santa Isabel do Rio Preto, exposta à visitação próxima à Rodoviária de Conservatória. 

    

Pelo decidido apoio do rico Barão de Vargem Alegre ao 3o Barão do Rio Bonito, segundo Alberto Lamego, foi aquele titular, dono da "União" e "Vargem Alegre", um excelente coadjuvante na questão da passagem, por Barra do Piraí, da antiga ferrovia D. Pedro II.

 ENGENHO CENTRAL RIO BONITO

          José Pereira de Faro era um cidadão de vistas largas. Sua visão de homem           progressista devassava horizontes em busca de novas realizações econômicas.

 

Opulento fazendeiro no vale do Paraíba e prestigiosa figura em Valença, o 3o Barão do Rio Bonito era dono das fazendas Santana, Aliança, Monte Alegre e S. Pedro, e aí criou o Engenho Central que, em sua honra, recebeu a denominação de "Engenho Central Rio Bonito".

       

                                   
                                              Engenho Central Rio Bonito, em terras da freguesia de Ipiabas, 

                                                                     mais tarde, Bairro do Matadouro.

 

 

F. A. Noronha Santos, sobre esse empreendimento, escreve: "Aquele titular coube também a iniciativa de montar o Engenho Central Rio Bonito, pertencente à Companhia Lavoura, Indústria e Colonização - organizada em virtude do Decreto N. 9547, de 16 de janeiro de 1886 e estabelecida em suas fazendas de Santana, Aliança, Monte Alegre e S. Pedro.

Foi talvez, esta a primeira empresa que se fundou no Brasil, para atenuar a crise econômica que se aproximava com o crescente e avassalador movimento abolicionista, subdividido por processos práticos, a cultura de terras das grandes propriedades.

O Engenho Central, inaugurado a 20 de Novembro de 1886, destinava-se à fabricação de assucar e alcool, com capacidade para moer 250.000 kilos de cana em 24 horas, e com proporção para ser aumentada essa quantidade. Possuía aperfeiçoadíssimos maquinismos e uma linha férrea de bitola de um metro, com a extensão de 9 kilometros, entroncando-se com as Estradas de Ferro D. Pedro II e a de Santa Izabel do Rio Preto. 

 

              Armazém de exportação das Fazendas do Barão do Rio Bonito,

                    mais tarde estação da Sapucaí, da Rede Sul Mineira.

 

A gerência técnica do Engenho Central Rio Bonito esteve sob a responsabilidade do engenheiro Luiz de Castilhos, um dos diretores da Companhia Lavoura, Industria e Colonização.

Habil profissional, dirigiu todos os trabalhos da grande usina desde o lançamento da pedra fundamental.

O engenheiro Castilhos, dias após a demorada visita do ministro da agricultura, conselheiro Rodrigo Silva, àquele engenho, realizou na Escola Politécnica, interessante conferencia acerca da industria açucareira.

Ainda, sob a gestão do conselheiro Rodrigo Silva, empreendeu o notavel profissional, viagem às Antilhas, para, em comissão, o governo, estudar os processos mais aperfeiçoados de fabricação do assucar.

Luiz de Castilhos - sem contar com as trombetas anunciadoras de renome - constituiu-se num dos pregoeiros de novos ideaes de trabalho. Independente no julgar, honrado nas ações, teve intensa vida de labor - toda dedicada ao estudo dos problemas econômicos.

Faleceu esse esforçado patriota, na cidade do Rio de Janeiro, a 31 de março de 1898. (18)

(18) - A Conservatória dos Índios (pág. 46 e 477)

 

               

                                             Aspecto da construção onde funcionava o "Engenho Central Rio

            Bonito", construído em 1886, pelo Barão. Ao alto, vê-se a placa indicativa da empresa.

  

         

Com relação à fundação da notável e importante Companhia Lavoura, Indústria e Colonização, fundada por José Pereira de Faro, eis o decreto que autorizou sua organização:

 

(Observação: A fundação do "Engenho Central" põe em evidência, os méritos do 3o Barão do Rio Bonito que, já em 1855, visava dar ao Brasil, o exemplo da substituição imediata da monocultura (o café), por outras fontes de produção, em regime industrial.

Decreto N. 9547, de 16 de janeiro de 1886.

Concede autorização à Companhia Lavoura,

Industria e Colonização para se organizar.

Atendendo ao que requereu a Companhia Lavoura, Indústria e Colonização, devidamente representada, e tendo ouvido o parecer da Seção dos Negócios do Império do Conselho do Estado, exarado em Consulta de 11 de Novembro do ano próximo passado, Hei por bem, conceder-lhe autorização para se organizar com os estatutos que acompanharam seu requerimento de 1 de setembro do ano próximo passado e sob as cláusulas que com este baixam, assinadas por Antonio da Silva Prado, do Meu Conselho, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Agricultura, Comercio e Obras Públicas, que assim, o tenha atendido e faça executar. Palácio do Rio de Janeiro, em 16 de janeiro de 1886.

                                                      Rubrica de Sua Majestade, o Imperador

                                                      (a) Antonio da Silva Prado

Segundo os Estatutos referidos no Decreto 9547 acima: "Os fins da Companhia, conforme os três primeiros parágrafos do Art. 1o, são: 1o - Explorar as fazendas que adquire e vier a adquirir, à margem da Estrada de Ferro D. Pedro II; 2o - Cultivar nelas o café e a cana; preparar e vender os respectivos produtos, servindo-se dos engenhos existentes e dos que fundar às margens esquerda e direita do Rio Paraíba, na barra do Piraí; 3o - Promover a substituição gradual do trabalho servil pelo trabalho livre. Os fundadores, como declara o parágrafo 2o do Artigo também 2o, são o Barão do Rio Bonito e a firma Furquim, Joppert & Cia. - O Capital e sua realização, na forma do artigo 3o e respectivas alíneas A, B, C e D, bem como o parágrafo 4o, alíneas A e B, e parágrafo 5o, são: Art. 3o - O Capital da Companhia é de Cr$ 2.600.000,00, dividido em treze mil ações de Cr$ 200,00; alínea A)10.000 integralisadas pela efetiva entrada do respectivo contingente de bens, de que tocam 8.750 ao Barão do Rio Bonito e 1.250 a Furquim, Joppert & Cia. B) 500, que subscrevem em partes iguais os ditos acionistas Barão do Rio Bonito e Furquim, Joppert & Cia. C) 500, que subscrevem em partes iguais os acionistas Frederico Larrigue de Faro e Luiz de Castilho. D) 2.000, subscritas por diversos. Parágrafo 4o - O Capital correspondente às ações já integralisadas consiste: alínea A) Nas fazendas, sítios e prédios em Barra do Piraí, com que entra o acionista Barão do Rio Bonito, estimados todos em Cr$1.750.000,00; alínea B) Na fazenda e acessórios com que entram os acionistas Furquim, Jopper & Cia., e que são estimados em Cr$ 250.000,00; e parágrafo 5o, que esclarece: Os bens a que se refere este artigo são especificados na escritura de notas do Tabelião Cunha Júnior, passada entre acionistas, em data de 28 de outubro de 1885, livro 47, fls. 97."

 

 

 

RETARDAMENTO

 

O progressivo desenvolvimento do povoado tinha o seu marco na situação privilegiada pela via férrea que, com suas pontas de trilho, avançava para São Paulo e Minas Gerais.

 

Em 7 de agosto de 1864, foram inauguradas as estações de Mendes, Santana e Barra do Piraí.

                                  

O transporte de café e de outras mercadorias, como gêneros alimentícios vindos de São Paulo, que era, então, feito por meio de embarcações de pequeno calado, que navegavam pelos rios Paraíba e Piraí, sob a responsabilidade da empresa de navegação fluvial, constituída por Diogo Miguel Simões e seu filho Manoel Miguel Corrêa e, mais tarde, por descendentes deste, passa, agora, a ser feito pela Estrada de Ferro Pedro II, recém-inaugurada.

 

De Minas, por ínvios caminhos, em direção à Corte, baldeiam-se, dos carros de bois e tropas, as mercadorias de origem agro-pecuária, e, por intermédio do crescente povoado de Barra do Piraí, maior centro de operações comerciais, são elas transportadas para o Rio de Janeiro, cujo abastecimento se avolumava, dia a dia, com a ascensão de "Pedro II" à Serra, seguindo o serpenteante Paraíba.

 

Segundo nos relata a história, teve o povoado, por algum tempo, relaxado o ritmo de sua evolução. E relativamente a esses vai-e-vens de seus destinos, Alberto Lamêgo nos revela:

 

"Ao serem inauguradas as estações de Vargem Alegre, Barra Mansa e Resende

que açambarcam a produção cafeeira das suas respectivas zonas de montante, e as de Barão de Vassouras e de Entre Rios as de jusante, há um relaxamento momentâneo no progresso do arraial. Junte-se àquelas estações, as da Estrada de Ferro de Santa Izabel do Rio Preto que, iniciada em 1877, chega aos limites de Minas em 1881 e a Piraiense, de concessão decretada em 28 de junho de 1879, e vemos que, Barra do Piraí, não obstante, sempre a crescer de importância como centro ferroviário, gradativamente, vai perdendo o primeiro monopólio do transporte do café.

Em sua estação, aumenta o rolar dos trens, mas, a cada novo ponto de parada da sua progressiva articulação ferroviária, atrasa-se a marcha evolutiva do arraial. E a esse fator regressivo, adicionam-se outros de motivos inicialmente religiosos.

Entre as duas margens do Paraíba, sôbre as quais, a cidade atual se estende, há uma viva rivalidade de nascença. Dois bairrismos de irmandades inconciliáveis, cada qual em pugna por ser dado à localidade, o nome do seu padroeiro predileto.

De aparência insignificante, esse caso desenvolve consequências sociais bastante profundas para repercutir no desenvolvimento de Barra. Revela-nos ele, ademais, o fenômeno da luta de classes que, estranhamente, já se esboça no vilarejo serrano, em pleno feudalismo agrícola brasileiro.

O potencial financeiro do arraial não se entrosava, exclusivamente, numa aristocracia agrária estabilizada em suas redondezas, ou em ricos negociantes urbanos a ela subordinados, como na maioria das demais cidades do café. Bem distinta, é sob este ponto, sobretudo, pelo antagonismo, a diferença entre a formação social de Barra do Piraí e a de Vassouras, com a sua coesiva aristocracia rural bem cimentada pelo interesse mútuo e por um forte espírito grupalista que envolvia a coletividade.

E é, antes de tudo, em seus próprios fatores geográficos que iremos descobrir em Barra do Piraí, os motivos da discórdia entre a sua população.

Raras são as cidades que, nascidas à beira de grandes rios, equilibradamente, se alastram por ambas as margens. O comum é a hipertrofia de uma banda em detrimento de outra, mormente, quando em seus inícios, a ausência de uma ponte dificulta o tráfego intermarginal. Inevitável se torna o aumento da população e do comércio em uma das margens mais favorecida pelas vias de comunicação ou por retaguardas mais progressivas. E este começo das cidades, é tão decisivo em sua urbanização futura que, dificilmente, o vemos modificado a não ser em agrupamentos de grande magnitude.

Ao fundar-se um povoado, o maior afluxo de população a uma das margens e que, em geral, decide por vários séculos a virem, a ocupação das áreas urbanas, a não ser que, imperiosos motivos de ordem geográfica ou econômica, cancelem ou mesmo, revertam os efeitos da sua primitiva agrupação, descentralizando por meio de novas artérias os arruamentos dos pioneiros.

O rápido crescimento de um povoado fluvial apertado contra colinas íngremes, por exemplo, e ali fixado pela maior facilidade de comunicações com uma zona produtiva, poderá ocasionar uma posterior e mais desenvolvida evolução da margem oposta desafogada em planícies ou em suaves ondulações, desde que, uma futura ponte venha tornar possível uma contínua intercomunicação bi-marginal.

Barra do Piraí, entretanto, tem uma dupla origem a dividir em facções opostas, os habitantes de cada margem. Na esquerda, com o Barão do Rio Bonito, enraizara-se o espírito da nobreza rural, enquanto da direita, logo após a chegada dos primeiros trens, inúmeros imigrantes, sobretudo portugueses, instalaram-se ao redor da nova estação.

O forte comércio desenvolvido com o café nesta margem, consolidado com grandes capitais de firmas cariocas, em transações com longínquas fazendas de várias zonas distanciadas do arraial e de proprietários desatentos da vida urbana, cria ali uma classe financeira, instabilizada pelo desapego ao solo agrícola, onde não tem raízes. Enquanto isto, na margem esquerda, domina o Barão, grande senhor das terras que, até ali, vinham com seu potencial econômico, exclusivamente, agrícola.

 

 Igreja de São Benedito, vendo-se em                       

primeiro plano o coreto da praça Nilo Peçanha                

 

O exemplo é notável, de um poderoso choque entre o campo e a cidade. Enquanto na sua margem constrói o Barão, a sua igreja de Santana, levantam os barrenses, na outra, a capela de São Benedito. Nasce logo, uma simplória querela de irmandades que se nutre e aumenta com a separação criada pelo rio. Fortifica-se com o antagonismo entre a burguesia, subitamente, enriquecida pelo comércio e a aristocracia rural ciosa das suas tradições de pioneiros. Acirra-se com a politicagem sempre à espreita das menores desavenças, para delas se beneficiar.

                         

Causas de germinação insignificante podem, desse modo, acarretar repercussões sociais lesivas à coletividade. É o que vai resultar daquele simples bate-bôca de arraial.

Conquanto, desde 1853, existisse, na zona, o distrito de paz de Mendes, Barra do Piraí só é elevada a essa categoria, em 23 de abril de 1868. Para que o povoado se desenvolva, entretanto, não basta a expansão comercial motivada pelo café. Não tem ele, recursos próprios para melhoramentos como simples dependência administrativa do município de Piraí e, o primeiro passo para a sua autonomia - a máxima ambição dos arraiais progressisstas no passado -  que era o de tornar-se freguesia, é-lhe vedado pela própria população, cindida pela exploração de ninharias de campanário.  

 

Mendes é elevada à freguesia, em 29 de setembro de 1855. Já na mesma categoria, se destacam, no futuro município da Barra, Nossa Senhora das Dores e São José do Turvo que, respectivamente, datam de 24 de março de 1844 e de 28 de setembro de 1855. Mas, só em 3 de novembro de 1885, vinte e um anos após a chegada da estrada de ferro, e quase na república, é que é criada a freguesia de São Benedito, em Barra do Piraí, sob a pressão do eleitorado que, na margem direita crescera com a naturalização de sensível número de portuguêses. 

 

O Bispado, e ao fundo, parte da majestosa Catedral de Sant´Anna.

 

A margem esquerda entretanto, protesta,  e, para acalmar uma rivalidade que sobreviveria, o bispado denomina a nova divisão eclesiástica de freguesia de Sant'Ana e São Benedito.  

 

Inútil será dizer que, de tais desavenças se utilizavam as administrações de Vassouras e Valença, superiormente dirigidas para impedir a criação de um novo município em detrimento dos seus territórios.  

A formação social de Barra do Piraí, seccionada pela intromissão de um novo espírito comercial sem fundamentos diretos na exploração rural, retardou imensamente a sua evolução, já enfraquecida com o avanço dos ramais férreos que inauguravam novas estações. A mais importante encruzilhada ferroviária no período imperial acanhou-se, debilitada por mesquinhas pendências de confrarias, instigadas por inescrupulosidades políticas em detrimento do interesse coletivo.

Por tais motivos, estranhamente, alheios às raras possibilidades sobrevindas com o caminho de ferro, o seu desenvolvimento, entre as cidades do vale do Paraíba, foi tolhido. O arraial criado pela mecanização dos transportes, viu-se por longo tempo, à mercê de uma engrenagem social desajustada pelos fatores geográficos presentes à sua formação e originadores de um entrechoque de classes decorrente do antagonismo entre o espírito urbano e o rural, exteriorizado em querelas religiosas e políticas." (19)

(19) - O Homem e a Serra (pág. 138 a 141)

 A BATALHA DA EMANCIPAÇÃO

O 3o Barão do Rio Bonito jamais esquecia a elevação da freguesia de Santanna do Piraí à situação de vila, face à Lei No. 96, de 6 de dezembro de 1837 e em virtude da Deliberação de 28 de setembro de 1838. Pretendia ele, fosse esse benefício ampliado, como de direito, até chegar à cidade de Santana de Barra do Piraí, ou simplesmente, Cidade de Santana.

 

De fato, a história fornece elementos que asseguram esse desiderato. O Barão José Pereira de Faro, que anteviu o futuro das terras da margem direita do Paraíba, colocou-se, inteiramente, ao serviço do desenvolvimento da povoação de Santana, da freguesia de Ipiabas, favorecendo-a com valiosas iniciativas de interesse público. Era preciso valorizar as terras, tanto da margem esquerda, como da margem direita dos rios Paraíba e Piraí, onde acabava de ser assinalado o marco da triunfante marcha ferroviária da "Pedro II".

 

Do lado de Santana, José Pereira de Faro estabelecia, com desprendimento, o seu programa de benemerência, aliás, próprio da índole dos titulares de Valença.  

 

                              

Vista do bairro de Sant´Anna, vendo-se a Catedral e o antigo campo do Royal Sport Club - 1939

Começa por tomar parte da Comissão que se compunha dos cidadãos João Pereira da Silva e Antônio Moreira Coelho de Magalhães, comissão que fora nomeada pela Câmara Municipal de Valença, em sua sessão de 28 de abril de 1856, com o fim de adotar a freguesia de Ipiabas, com um cemitério. (20)

  (20) História de Valença (pág. 208)

 

Uma das maiores preocupações de Rio Bonito era a situação do povoado que, apesar de sua prosperidade e de seu desenvolvimento comercial, ainda não lograra chegar à "condição civil de mero distrito de paz ou mesmo, de um curato na hierarquia eclesiástica".

 

"Era apenas - escreve Amaral Barcelos - e nada mais, o simples povoado de Barra do Piraí, administrado por Piraí, que lhe desfrutava, já, preciosa renda. Importante praça de comércio interior, não passava, para os governantes, de frações territoriais dos municípios de Piraí, Vassouras e Valença. Os interesses políticos defendiam esse tríplice jugo: administrativo, judiciário e religioso.

Essa displicência - prossegue Amaral Barcelos - não podia continuar. Os clarins reivindicadores despertariam, com seu toque de alvorada libertadora, os sonolentos governantes provinciais. (21)

(21) - Fragmentos Históricos do Município de Baarra do Piraí

 

Graças aos esforços e à persistência do dinâmico Barão do Rio Bonito, recebia o próspero povoado, em 23 de abril de 1868, a sua primeira categoria político-administrativa, com a criação de um distrito policial, no lugar denominado "Barra do Piraí", compreendendo um dos quarteirões da antiga freguesia de Santana, e começando sua divisa na "Ponte da Pedra", sobre o rio Piraí, próximo ao túnel da "Preguiça", para descer pela margem esquerda desse rio, até no ponto de sua confluência com o Paraíba; e daí, subindo para encontrar a fazenda do comendador Joaquim José Gonçalves de Morais, abrangendo-a em todas as suas divisas, e a fazenda de São Félix, até encontrar o ponto de partida. Nesse território ficava incluída toda a povoação da Barra do Piraí, além dos habitantes circunvizinhos e a estação ferroviária.

  

Decorridos dois anos, nova Deliberação, datada de 31 de agosto de 1870, veio alterar o território do distrito de Barra do Piraí.

 

O ilustre titular não desanimava; pelo contrário, prosseguia, com entusiasmo, na campanha pró-autonomia do povoado. Assim foi que, em 1885, tal era o seu desenvolvimento que se verificou o seu reconhecimento como distrito, pois, o Decreto que legislou sobre a matéria tomou o No. 2779, de 3 de novembro desse ano, criando a Freguesia de São Benedito de Barra do Piraí, cujos limites eram os mesmos descritos na Deliberação de 23 de abril de 1868, o qual passou a pertencer ao município de Barra do Piraí, cujos limites eram os mesmos descritos na Deliberação de 23 de abril de 1868, o qual, passou a pertencer ao município de Piraí.

 

"José Pereira de Faro idealizou e realizou o abastecimento da povoação, com água potável, como consta da ata da sessão da Câmara de Valença, realizada em 14 de agosto de 1883, na qual, foram aprovados a planta e o orçamento respectivos, na importância de Cr$ 5.569,00, apresentados pelo vereador major Lindolfo de Carvalho que, nessa ocasião, anunciou haver o 3o Barão do Rio Bonito doado à municipalidade, para uso público, o chafariz com três torneiras e o reservatório, por ele construídos e instalados na rua da Carioca". (22)

 (22) - História de Valença (pág. 209)

               Cogitou também Rio Bonito, de outro melhoramento para a povoação: a iluminação pública, a querosene. "Na sessão da Câmara Municipal de Valença, em 29 de março de 1887, foi lido um ofício assinado por Frederico Darrigue Faro, Dr. Aureliano Teixeira Garcia e Manoel Gonçalves Brazuna, da povoação da Barra do Piraí, pertencente à freguesia de Ipiabas, naquele município, no qual faziam oferta à municipalidade , de 13 colunas com os respectivos  lampiões que, então, mandara assentar na localidade". (23)

  (23) - História de Valença (pág. 209)

 

"A primitiva igreja da freguesia de Ipiabas, mereceu, por sua vez, a carinhosa benemerência da família Faro. Tanto a Baronesa do Rio Bonito, como o cidadão Dr. Luiz Pereira Ferreira de Faro e D. Angélica Joaquina de Vergueiro Faro, prestaram seu generoso concurso, contribuindo, financeiramente, para a construção da antiga capela daquela freguesia, ali erguida em 1850, sob a invocação de Nossa Senhora da Piedade. (24)

  (24) - História de Valença (pág. 209)   

 

Adendo: Posteriormente, viria a ser construida, em 1871, a definitiva Igreja de Ipiabas, às expensas exclusivas do Comendador José Gonçalves de Moraes. Nessa igreja, foi batizado o Terceiro Barão do Rio Bonito, conforme nos relata Amaral Barcelos, em seu livro "Barra do Piraí - Registros Históricos e Contemporâneos" - edição de 1970.

 

                             

                                                Igreja do distrito de Ipiabas  Igr

Um dos grandes empreendimentos do Barão do Rio Bonito foi, sem dúvida, a construção, às suas expensas, da igreja de Santana, atual Catedral da Barra do Piraí.

                                             

A cerimônia de lançamento da pedra fundamental, dado o elevado prestígio pessoal de José Pereira de Faro, trouxe à freguesia, a visita de Sua Majestade D. Pedro II que, nessa ocasião, inaugurou, ao lado, a capela provisória, sob a invocação de Santana, junto à antiga sede do Tiro de Guerra "Duque de Caxias", à rua Barão do Rio Bonito.

 

Mais tarde, aquele titular, resolveu construir, por sua conta, a Igreja de Santana, cuja inauguração teve lugar, em 1881, com grande pompa, e presença dos ricos titulares de Valença. É esse belo templo, hoje, a Catedral de Sant'Anna, patrimônio de arte que desperta admiração pela elegância de suas linhas arquitetônicas.  

 

                      

      Altar e teto da Catedral de Sant’Anna, construída em 1881, pelo Barão do Rio Bonito.

 

Novas possibilidades iluminavam os destinos da freguesia de São Benedito de Barra do Piraí , então, pertencente ao município de Piraí. A freguesia prosperava e, mais se acendia no espírito de conquista do 3o Barão do Rio Bonito, a chama ardente do seu ideal decisivo: a cidade de Barra do Piraí.

 

Com o seu desenvolvimento, sempre crescente, recrudescia a campanha libertadora, iniciada em 1879, e chefiada pelo inolvidável titular.

 

Os homens de responsabilidade e de cultura da época se uniam ao Barão e novas lutas despertavam o mais intenso interesse da população pela sua emancipação. Espírito combativo, austero e possuidor de fibra singular, o 3o Barão do Rio Bonito teve logo a adesão de elementos de valor social e intelectual, como entre outros, o Dr. Aureliano Garcia e o consagrado poeta Ovídio de Mello, com os quais, dava início a apresentação, à Assembléia Provincial, de anteprojetos de lei atinentes à elevação da sede da freguesia de São Benedito de Barra do Piraí à categoria de cidade, com a criação do município de Barra do Piraí.

 

As adesões se avolumavam, pois, a idéia de emancipação, fortalecida por um só pensamento, fazia com que José Pereira de Faro tivesse uma única diretriz na batalha: para a freguesia de São Benedito de Barra do Piraí, um lugar de honra, como de justiça e de direito, dentro da Província.

 

Faro sonhava com a vitória dessa gloriosa causa de que se tornou o baluarte incansável, de francas atitudes municipalistas que a todos empolgavam. O 3o Barão do Rio Bonito tinha fé nos destinos de Barra do Piraí, por isso, lutava com espírito de combatividade em prol do ideal que, já não só lhe pertencia...

 

À vista dos anteprojetos de lei pró-desmembramento de terras, os município vizinhos de Piraí, Valença e Vassouras, que se sentiam prejudicados, protestavam e trabalhavam contra a idéia magnífica.

 VILA, A FUTURA CIDADE

Em 1888, na Assembléia Provincial, era, finalmente, apresentado o projeto de lei que elevava a freguesia de São Benedito da Barra do Piraí à condição de Vila, com a denominação de Vila da Barra do Piraí, constando o seu termo do território da mesma freguesia e dos de S. José do Turvo, N. S. das Dores, Santa Cruz dos Mendes e N. S. da Piedade.

 

Em 15 de outubro desse ano, em sessão da Câmara Municipal de Valença, exclusivamente convocada para tomar conhecimento da Portaria do Governo que lhe pedia informações sobre o supra citado projeto de lei, a Câmara deliberou, unanimemente, que se informasse contra o projeto em causa. (25)

(25) – “História de Valença” (pág.  277 e 278)

 

Mas, os Faro resistiam à oposição, ao lado de seus companheiros de ideal, defendendo-o acirradamente junto aos deputados, na Assembléia.

 

A luta partidária provocara protelações, face aos desencontrados interesses políticos.

 

Em cada ano que passava, novos anteprojetos sobre o assunto eram apresentados à Assembléia. As tentativas da oposição pareciam jogar por terra todo um ideal que já pertencia a um poderoso núcleo humano, já por si vitorioso nas suas conquistas econômicas.

 

E a luta prosseguia com iluminadas perspectivas da próxima vitória da cidade emancipada.

 

 

 

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