TERCEIRO
BARÃO DO RIO BONITO
POR LEONI IÓRIO
CAPÍTULO 3
O FIM DA JORNADA
ROLE
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Barra
do Piraí, a futura cidade, que estava sendo construída às margens de grandes
rios, tinha, por força do seu destino, a tendência a desenvolver-se mais na
parte da freguesia de São Benedito, embora do outro lado, à margem esquerda do
Paraíba, graças a aristocracia agrária estabelecida na zona de Valença, o
distrito de Ipiabas tivesse o seu povoado de Santanna enriquecido de uma bela
igreja, com o seu abastecimento de água já inaugurado e outros melhoramentos públicos.
A freguesia de São Benedito oferecia maiores possibilidades de evolução, face
aos fatores geográficos que lhes asseguravam uma situação privilegiada, ante
os centros produtores, com o forte comércio de café, que se dirigia para as
zonas consumidoras.

Aspecto do povoado de Barra do Piraí, na segunda metade do século XIX,
mostrando a única ponte que ligava as freguesias de Sant´Anna e São Benedito.
Ao
Rio Bonito, deparava-se um grande problema: a freguesia de Santana estava fadada
ao êxodo de sua população para a margem direita do Paraíba, onde a situação
econômica e a influência do movimento comercial tornaram-se inegáveis
atrativos, como imediatos atributos do progresso, cuja chave era a "D.
Pedro II", com os seus ramais para São Paulo e Minas.
Via
o titular, a necessidade de fazer de Santana e de São Benedito unidos, uma
grande cidade pois, as margens do Piraí estavam sendo colonizadas por
imigrantes portugueses, instalados, principalmente, em redor da estação.
Enquanto
recomeçava a marcha do progresso, efervescia, ainda mais, e com maior
intensidade, a idéia da emancipação e, com ela, o "recrudescimento da
campanha libertadora".
Ao
lado de Faro, Antônio Teixeira de Andrade, Aureliano Garcia e outros, cerraram
fileiras, personalidades locais, como Antônio Moreira dos Santos, Antônio
Joaquim de Novais, Ovídio dos Santos Mello e o modesto pedreiro Francisco
Fernandes, bem como Pedro Celestino da Cunha, comendador José Teixeira de
Barros Nóbrega e Bento Cândido Coelho, pela freguesia das Dores; Manoel Coelho
Sobrinho, José Rufino e Catão Couto, pelo Turvo; o boticário Falcão Dias e o
negociante João Vieira, por Mendes; e, por Piraí, Antônio Maldonado -
idealistas consumados que se bateram pela idéia de autonomia.
Cidade
de Barra do Piraí! - era a voz entusiástica que reboava, de colina em colina,
nas margens férteis do Paraíba e do Piraí, em ecos sucessivos - vozes
altissonantes partidas de corações ansiosos e transbordantes de fé e de
civismo.
A
luta prosseguia intensa e cheia de ardor, coesa e irredutível.
Era preciso manter o fogo da autonomia: não desanimavam aqueles que
estavam fiéis à idéia de Rio Bonito, apesar das marchas e contramarchas e dos
imprevistos das lutas político-partidárias, dentro da Província.
Na
Assembléia, uma corrente se opunha, fortemente aos projetos de Lei, relativos
à criação do município de Barra do Piraí, pelo que, por várias vezes,
periclitara a concretização da magna idéia.
Apesar
da solidez do crédito do Império e do fausto rural, havia , no entanto, a
preocupação intensa de que o ano de 1877, com a sua ruína cafeeira, haveria
de ser o prenúncio de crises profundas antes as perspectivas de abolição
imediata do trabalho servil, sem medidas acauteladoras do porvir.
Mas,
entre os grandes senhores do Paraíba, não obstante o pessimismo reinante,
havia os espíritos confiantes no futuro trabalho livre, os quais, estavam
certos de que a mudança do regime rural traria, sem dúvida, sacrifícios
sociais e econômicos.
Apesar
desse ambiente de inquietações, em virtude da irredutibilidade da opinião pública
inteiramente abolicionista, a idéia da emancipação de Barra do Piraí crescia
em todos os espíritos e se alastrava em todos os setores...
Município
de Barra do Piraí!
Cidade de Barra do Piraí! - era o brado de todos os corações cheios de crença nos destinos daquela freguesia futurosa.
O
que se conhece à distância, nunca nos dá,com a mesma intensidade, a impressão
do que se sente ou sentiu, de perto. Está neste caso, a escravidão no Brasil.
Ainda hoje, não são raros os que julgam o nosso pecado imperdoável, e muitos
os que, menos avisados, o têm como injustificável.
Em
razão disto, o verem-se com maus olhos os senhores de escravos, esquecidos os
maiores culpados, porque neles não se fala no Estado e nos traficantes que
ficaram estes, impunes, e com os resultados integrais de seu comércio infame.
Daí
a necessidade de nos colocarmos na época, para examinarmos os fatos que lhe
correspondem, ainda que, a largos traços.
O
tráfico de negros tem origem na própria
Europa, logo que, os portugueses fizeram os primeiros descobrimentos na costa da
África. Diz o padre Galanti, que a justificativa era o fato dos negros haverem,
antes, invadido Portugal e Espanha, e que o desforço ainda era um benefício
deles, pois, os peninsulares iriam prestar-lhes o grande serviço de tirá-los
da selvageria para convertê-los ao Cristianismo.
"Em
seguida,
não
só Portugal e Espanha, mas, todos os países da Europa permitiram, formalmente,
o tráfico, legalizando assim, um comércio nefando, de que se auferiam
grandes proveitos. A nação que, maiores proporções deu a esse comércio, foi
a Inglaterra. Ali, se organisaram grandes empresas para isso, as quais,
forneciam negros em abundância a todas as colônias da América. (...) Em 1773,
Welberforce, ainda estudante, escreveu uma memória contra o tráfico e, em
1787, propôs a abolição do mesmo, no Parlamento.
Semelhante proposta foi repulsada oito vêzes, até que, em 1807, foi
convertida em lei. Desde então, não permitiu mais a Inglaterra, que outras nações
continuassem a fazer um negócio de que ela se privava.
Houve
porém, dois países que já haviam tomado tal deliberação, isto é, de abolir
o tráfico de negros, antes dela: a Dinamarca em 1792,
e os Estados Unidos da América do Norte em 1807. Os demais países
seguiram estes, nas seguintes datas: Suécia em 1813; Holanda em 1814; Espanha
em 1820; Nápolis em 1833; Sardenha em 1834; Portugal em 1836; os Hanseáticos
em 1837; Toscana em 1837; Áustria, Prússia e Rússia em 1841; A França aboliu
em 1794, mas, restabeleceu-o em 1802, tendo Napoleão, ao regressar da ilha de
Elba, anulado este ato e tornado definitivo aquele". (26)
(26)
- História do Brasil - Rocha Pombo, vol. IIX, pág. 353.
Em
toda a parte, diz
Rocha Pombo,
a eliminação da escravatura apaixonou o sentimento cristão e feriu a consciência
jurídica em todas as nações que, tiveram a infelicidade de herdá-la, dos
tempos coloniais". E
no Brasil? Logo depois da Independência, comprometeu-se o governo, com o
parlamento inglês, a reprimir, de 1830 em diante, a importação de escravos.
Outras medidas gradativas foram sendo tomadas, mas, no papel... até que, em
face da procrastinação interminável, só chegou em 13 de maio de 1888, à
medida final, sem que se previsse sequer, os interesses do próprio Estado.
A
escravidão era, pois, como se vê, um mal universal, que se impunha a todo o
organismo que pretendesse prosperar, uma conseqüência do tempo. Nem todos os
senhores de escravos eram maus, e entre os bons, se inscrevia, com destaque, o 3o
Barão do Rio Bonito, como nos provam os fatos. Tratava-os sem masmorras, ferros
ou chibata; proporcionava-lhes uma enfermaria, na época, de 1a
ordem, edifício de dois andares, com amplo sótão; enfermeiros, farmácia, médicos
e dentistas.
Poupava
os velhos, cuidava, convenientemente, das crianças, alforriava de quando em
quando, tratando a todos com humanidade. Dos próprios estatutos da sua
"Companhia Lavoura, Indústria e Colonização", fez constar a cláusula
de gradativa substituição do trabalho escravo pelo livre.
Mas,
veio o 13 de maio, e com ele, sua ruína. Certo, pensaria o Barão, como o
grande economista francês Horácio Say, ao qual, se refere Afonso de E. Taunay,
nos seguintes termos:
"Homem de notável elevação moral, não podia Horácio Say deixar de ser abolicionista convicto. Mas, ao mesmo tempo, como economista, encarava, com exata visão das cousas, as circunstâncias múltiplas e temerosas que envolviam a solução do problema servil no Brasil. Entendia ele que, a abolição só podia ser gradativa, devido ao atraso imenso, sob o ponto de vista da civilização, dos africanos. Era preciso, em primeiro lugar, solidamente, vincular entre eles, as noções de constituição de família. Havia depois, a questão da indenização a pagar-se aos fazendeiros, justíssimo, em face da verdadeira desapropriação. E ainda, nova dificuldade: a de se afeiçoarem os pretos livres, recém-escravos, ao trabalho regular e ordenado. Acaso, se adaptariam eles a estas condições? Assim, era indispensável, a seu ver, este período de transição". (27)
(27)
- História do Café no Brasil - vol. IV, páág. 313
E
realizou-se, tudo quanto temia Horácio Say.
Chega-nos
o 1888 - ano da abolição da escravatura. Decreta-se a lei do 13 de maio, graças
a qual, desaparecia, em todo o país, o regime servil.
"Numerosos
agricultores haviam ficado, de vez, arruinados. Muitos havia que, tinham perdido
centenas de escravos, alguns até milhares, o que representava o desaparecimento
de capital vultoso e, às vezes, vultosíssimo.
A
lavoura fluminense, sobretudo, sofrera terrível golpe, cujas consequências
seriam irreparáveis, na maioria dos casos individuais, daí provindo uma
transformação profunda no cadastro dos agricultores fluminenses." (28)
(28)
- "Pequena História do Café no Brasill" (pág. 141)
Os
Faro tiveram, como era natural, também a sua crise, e toda a lavoura cafeeira
do vale do Paraíba sofrera súbito colapso. Que ao menos se esperasse o término
da colheita, para a promulgação da lei Áurea!...
Fracassada
a lavoura, o governo diante da grita geral dos fazendeiros, concedera-lhes
recursos financeiros, mas, o 4617 contos concedidos aos lavradores, eram uma
insignificância. Maiores fôssem, e nem assim, passariam do efeito do "balão
de oxigênio". E a ruína rural veio com um terrível flagelo.
A
abolição e a consequente desvalorização do café provocaram, com a debandada
dos escravos, o desânimo dos meios produtores do país. O braço servil que
concorria para a grandeza e a opulência das fazendas do vale do Paraíba,
afastava-se do campo, onde se desfrutava verdadeira situação de privilégios.
Os "barões do café" sofreram o
drama das casas grandes que perderam as suas pompas e progressos, e muitas delas
foram abandonadas por seus próprios donos.
O
3o Barão do Rio Bonito, sucessor de seu tio João Pereira Darrigue
de Faro (2o Barão e Visconde do Rio Branco), que foi grande
fazendeiro do café, em Valença, e politico de influência e largo prestígio
na Província do Rio de Janeiro (29), da qual foi vice-presidente - sofreu,
resistiu e soube manter a sua situação de recuperação, porque o seu município
"não sucumbiu com a Abolição, malgrado ter sido a sua riqueza, baseada,
exclusivamente, na sua grande massa negra."
(30)
(30)
- "O Homem e a Serra"(pág. 132)<
"O
golpe de 13 de maio libertou a escravaria e paralisou o trabalho, enfraquecendo
a autoridade dos senhores do campo e a riqueza do país. A pujança econômica
do vale do Paraíba é abalada e desarticulada. As propriedades rurais se
desvalorizam e a essa situação de desespero e
debandada
"vem juntar-se mais uma reincidência da febre amarela em 1889"
(31).
(31)
- O Homem e a Serra (pág. 124)
Por
cuja debelação, ao lado de tantos beneméritos, fulgurara o espírito humanitário
de José Pereira de Faro, que não poupara esforços em defesa da saúde do
povo.
A
freguesia de São Benedito da Barra do Piraí, apesar do seu desenvolvimento
comercial e industrial, ficara abatida, mas, confiava seus destinos ao grande
sonho da emancipação, que ainda não havia arrefecido, porque madura estava a
idéia do Rio Bonito.
Não
obstante, a fuga do homem rural para as cidades industriais, já servidas pela
ferrovia, a freguesia de Barra do Piraí não soçobrou; pôde resistir e
reanimou-a a pecuária, onde a iniciativa agrícola havia perdido o seu fulgor.
Cessado
o movimento abolicionista, com a assinatura da Lei de 13 de maio de 1888, José
Pereira de Faro, o atilado e poderoso Barão que, então, dominava aquela parte
do vale do Paraíba, com o seu espírito de lutas e coração pleno de bondade,
quis sobrepor-se aos reveses que a Abolição lhe trouxera, como a todo o país.
Chegou mesmo, a iniciar medidas atenuadoras do profundo golpe desferido contra a
sua economia; este porém, por ser demasiado extenso, mostrou-se logo, irreparável.
José
Pereira de Faro sofria intimamente, procurando sempre ocultar a sua decepção.
A sua família era a única que percebia, quanto lhe ia na alma.
O
ato, no entanto, era humano, e o mal da precipitação correspondia ao governo a
que o 3o Barão do Rio Bonito era fiel e votava admiração, não
podendo, portanto, nem queixar-se. Poderia agora, limitar-se a uma vida acomodada, e pessoalmente, viver muito bem, até que o
país se reorganizasse,
adaptando-se à nova ordem de coisas; mas, essa comodidade não era para o seu
temperamento, nem para o seu patriotismo.
Além
disso, como "uma desgraça nunca vem só", segundo a crendice popular,
lá veio o 15 de novembro e, com ele, a ruína de todos os seus parentes e
amigos, e de todos os seus projetos para o futuro.
Todo
o país fora sacudido pela inesperada Revolução.
Que
poderia Rio Bonito fazer agora, ele que tanto pretendia realizar? E esse desejo
era-lhe um grande consolo que passa a ser, de certo modo, uma grande angústia,
uma visão de todo instante... Abala-se-lhe mais a saúde e, por isso,
recolhe-se a Friburgo, de onde, ao lado de seus parentes, acompanharia, em espírito,
a continuação do movimento pró município, que ele inaugurara sob os mais
vivos augúrios.
Apesar
de longe, Rio Bonito, em pensamento, estaria, ainda, junto de seus companheiros
de ideal, na luta pela emancipação de Barra do Piraí, a cuja infância e
adolescência consagrara, pessoalmente, toda a sua energia espiritual, a sua
inteligência invulgar e a sua cultura cívica. Onze anos de sofrimento já eram
decorridos.
Consolava-se,
porque havia confiado a sua idéia a cidadãos idealistas, que haviam aderido a
batalha. Ele ia repousar e fazia-o porque a sua saúde estava comprometida. O
que ele queria e pedia, mesmo distante, era que mantivessem viva a chama do
movimento da já vitoriosa Barra do Piraí.
Longa
luta pelo ideal, que Rio Bonito não queria ver desfeita, porque agora confiava
a bandeira, que antes desfraldara, àquele grupo de novos batalhadores que, fiéis
ao seu pensamento, "continuam a demonstrar vivamente, o inabalável propósito
de libertar a já florescente freguesia de Barra do Piraí das correntes
administrativas que sustinham os municípios de Piraí, Valença e Vassouras.
(32)
(32)
- "Fragmentos Históricos do Municípioo de Barra do Piraí" (pág. 47)
A
República não seria nenhum motivo para a debandada; pelo contrário, a idéia
de emancipação não podia morrer porque o regime político republicano era o
que nos servia, pois, no Brasil, "não
pudera o Império permanecer de pé por lhe faltarem raízes". A república
era um imperativo nacional.
A
data da Proclamação foi, em todo o Brasil, condigna e entusiasticamente
festejada na freguesia de Barra do Piraí, e esse acontecimento veio reacender,
mais fortemente, a chama das vontades municipalistas em torno da autonomia justa
e oportuna.
Estava
na Assembléia, em última discussão, o projeto de criação do município de
Barra do Piraí, quando foi proclamada a República - o que tornou redobradas as
manifestações cívicas da população barrense, sempre inesgotável no seu
desejo de progredir.
Decorridos
alguns meses, após o grande acontecimento nacional, eis que o Dr. Francisco
Portela, primeiro governador do Estado do Rio de Janeiro, promulga o decreto No.
50, de 19 de fevereiro de 1890, com o
qual, "atendendo ao que representou à comissão encarregada da decisão
judiciária e à opinião manifestada pelos interessados", eleva à
categoria de cidade, a freguesia de Barra do Piraí.

Marco de criação do município de Barra do Piraí, na Praça Pedro Cunha.
Em face do protesto da população do município de Piraí que, pelo decreto acima, passava a ser administrado por Barra do Piraí, o governador Portela assinou, em 10 de março de 1890, novo decreto que consagrou, em definitivo, a criação do município barrense, cujo artigo primeiro é do seguinte teor:
|
"Decreto
No 59, de 10 de março de 1890 O
doutor Francisco Portela, governador do
Estado do Rio de Janeiro, decreta: Artigo
1o - Fica creado o município de Barra
do Piraí, tendo por sede a povoação do mesmo nome, elevada a categoria de cidade" |
Como
era natural, o povo de Barra do Piraí exultou-se de contentamento, em festivas
aclamações, saudando em praça pública, as figuras beneméritas do 3o
Barão do Rio Bonito e de seus companheiros e continuadores da luta de emancipação,
sendo nessa ocasião, calorosamente homenageado o governador Francisco Portela.
Por
muitos dias, ficou a cidade engalanada e muitas sessões cívicas tiveram lugar,
em comemoração à grande data.
Barra
do Piraí foi o primeiro município criado pela República.
A
idéia do Rio Bonito estava vitoriosa. A população, em regozijo permanente,
vivia o seu maior dia, o seu magno e histórico acontecimento.
A
repercussão do ato de emancipação de Barra do Piraí trouxe, no entanto,
descontentamentos e protestos em municípios vizinhos.
Vassouras
protestara contra o ato oficial que lhe desmembrou o distrito de Mendes que,
passava agora, a fazer parte do novo município.
A
esse respeito, escreve Inácio Raposo:
"É
certo que Mendes não constituiu, desde a sua origem, uma freguesia do nosso
município, como se verifica mesmo da leitura desta história; mas, já pelos
seus hábitos e coesão completa com a nossa gente, se tinha de tal sorte ligado
conosco que, essa separação se tornava quase um absurdo, e sobretudo iníqua,
quando Vassouras dizimada pela febre amarela, empobrecida com a lei de 13 de
maio, precisava muito mais ainda do amparo dos seus povoados prósperos que, se
alguma coisa eram, o deviam tão somente ao esforço inaudito de uma sede que,
muito mais cuidava do bem estar do município em geral, que dos seus próprios
melhoramentos.
Mendes
foi arrancada do colo de Vassouras, como um filho querido, pelas mãos de ferro
da prepotência.
Contra
esse ato injusto, a nossa edilidade protestou da seguinte forma:
A Intendência Municipal de Vassouras, considerando que, o desmembramento da Freguezia de Mendes vem ferir os interesses do Município; considerando que o Município de Barra do Pirahy, novamente creado, foi constituído do território do Município de Pirahy e, por conseguinte, não devia ser augmentado com a nova Freguesia, em detrimento de um município que merece todo o apoio dos poderes superiores; considerando que não é de boa administração enfraquecer municípios antigos, para dar maior força e importância a municípios novos, quando estes já são formados por circunscripções extensas, populosas e productivas, resolve protestar contra o decreto de 19 de fevereiro de 1890, publicado nos jornais de hoje, 20 de fevereiro, que desmembrou aquela Freguezia do Município de Vassouras, officiando desde já, ao Governo do Estado, no sentido exposto, e resolvendo discutir esta questão na próxima sessão, e qual a attitude a tomar ante o occorrido, attendendo a que o referido decreto vem surprehender e embaraçar a Intendência, quando esta tratava de organizar o projecto de divisão dos novos Districtos Municipais e providenciar sobre a arrecadação de impostos cujas tabellas já estavam organizadas e approvadas. Alfredo Teixeira Leite, dr. Edmundo de Lacerda, Martinho Nóbrega, Bernardino Correia de Mattos." (34)
Ano
de 1899.
Claridade
frouxa, na tarde em agonia. O sol, então radiante, despede-se agora, deixando
atrás a lembrança pálida e morna do dia cheio de luz.
O
sol se põe.
Tudo
está mergulhado na tristeza da noite sem estrelas. A noite tornou-se profunda.
O frio e o silêncio torturam as almas. É a treva que ronda a Esperança.
Cada
vez mais denso, é o manto negro da noite. É a melancolia da solidão que
invade o coração na agonia da vida.
E,
no mergulho ilusório do astro-rei, no espaço infindo, sentimos a saudade
palpitando na glória que não morreu...
Barra
do Piraí, em preces, vela pela saúde do seu maior benfeitor, do seu titular,
do herói da sua fundação.
Rio
Bonito, em seu leito de dor, sob os céus da formosa Nova Friburgo, sofre, com a
alegria no peito, porque sonha com a sua querida Barra, cada vez mais bela, cada
vez mais radiosa, cada vez mais triunfante.
Faro,
agora, estava longe de seus companheiros de campanha, não lutava mais. Estava
porém, ganha a partida, com a maioridade da Barra.
Que
importa o mal insidioso que lhe escavava o organismo, se a vitória da sua
grande causa era a sua própria consolação e o triunfo e glória do povo que
ele tanto amara!
Faro
era o sol que se despedia da Vida. E, no aconchego dos seus parentes, apesar da
dedicada assistência dos seus médicos, ia, aos poucos, perdendo a vivacidade
de seus gestos e o timbre suave de sua voz, que se enfraquecia lentamente. Aos
poucos, ia-se-lhe o brilho do olhar. Ele sente a saudade daquela batalha que
dirigiu por muitos anos, às margens dos rios Paraíba e Piraí - a batalha
renhida que ele ganhara, embora, ausente do campo de lutas, com a serena adesão
e inabalável fé cívica dos cidadãos barrenses. Ante a Morte, era o seu
imensurável consolo, a vitória da autonomia.
Compreendia-se
no seu olhar, o santo regozijo íntimo, que era o seu merecido prêmio, pelo que
fizera por aquela gente que, à "barra do Piraí", exaltara-o e
proclamara-o seu criador.
Rio
Bonito podia morrer tranqüilo: o seu maior sonho estava concretizado!
Passaram-se
alguns anos. Faro continuava se definhando. E sensível a perda de suas resistências.
O desequilíbrio orgânico se acentua. A família passa noites e noites indormidas. Começo do fim implacável.
O
ano de 1899 assiste ao ocaso da vida de um grande barão. Era o sol poente que
tombava para esconder-se no infinito Mistério.
Dia
1o de fevereiro de 1899 - dia do Fim!
Rio
Bonito morreu. É o crepúsculo melancólico do astro-rei que desaparece para não
mais levantar.
Os
sinos de Friburgo, em dobre de finados, tangem dolorosamente, enquanto a família,
ante o esquife do seu morto, se debulha em prantos pela perda de seu querido
chefe.
Barra
do Piraí, abalada com a notícia, cobre-se de luto e, em preces, se ergue,
cheia de fé, para confiar ao espírito que parte, os seus destinos e o seu
futuro promissor. Que do além venham, sobre os que a dirigem, as bênçãos da
inspiração e do estímulo, para novos surtos e novas arrancadas.
O
fundador e chefe da emancipação política de Barra do Piraí não é mais o
Barão do Rio Bonito, dirigindo a imensidade de suas famosas fazendas e pondo e
prática, em outros setores, as suas fecundas idéias; nem o intrépido
realizador de uma bela cidade e de um próspero município; nem a imobilidade
serena e absoluta na frieza distante da eterna ausência. Faro passou a ser,
ainda agora como sempre, presente, palpitante, inspirador - um grande pensamento
para a Eternidade!
Rio
Bonito, o homem, é a eterna paralisação de tão útil atividade. Da sua nobre
ação, porém, ficaram os revérberos que culminam as novas conquistas de
grandeza e progresso para a terra de Barra do Piraí.
Os
sóis não morrem. Deixam sempre o seu aquecimento para a vida dos seres. Passam
a ser a luz eterna. Transformam-se em símbolos.
Rio Bonito não morreu. Da sua passagem pela terra barrense, ficou a luminosidade de sua ação precursora, que é a luz a iluminar os novos destinos da formosa "Veneza Fluminense", como a chamou, um dia, Clodomiro Vasconcelos. E pensando no que Barra do Piraí tem sido e no que será, exultamos pensar com o poeta Carlos Nazaré, em seu belo soneto:
"Rincão Querido"
"Barra!
Quadra sutil da natureza,
Súbita
inspiração do Criador,
Teus
traços simples dizem da beleza
Que
Deus, purificando, pôs no Amor.
Barra!
Chamam-te pérola e Veneza,
Do
vale paraibano, a meiga flor
Gleba
fecunda, sonho, realeza
Que
tudo não define o teu valor.
Barra
do meu passado comovido,
Das
tardes melancólicas de paz,
Do
ocaso luminoso e colorido;
Ufano-me
de ti entre as demais!
Orgulha-me, torrão, o que tens sido,
Exalta-me
pensar no que serás."
José
Pereira de Faro, o criador do município de Barra do Piraí, faleceu em Nova
Friburgo, em 1o de fevereiro de 1899, sendo inumado no Cemitério da
Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo (Cemitério do
Caju), no Rio de Janeiro.

Túmulo do Terceiro Barão do Rio Bonito, no Cemitério do Caju, Rio de Janeiro.
Sobre
a sua sepultura, que tem o No. 371, encontram-se as seguintes inscrições,
transcritas na seqüência:
|
Túmulo
do 3o Barão do Rio Bonito,
no Cemitério do Caju – Rio José
Pereira de Faro
Barão
do Rio Bonito
Nasceu
a 6 de março de 1832 Faleceu
a 1 de fevereiro de 1899
Francisca
Romana Darrigue de Faro
Baroneza
do Rio Bonito
25-7-1838 3-12-1926
|
Ao
falecer, o 3o Barão do Rio Bonito estava reduzido a poucos recursos.
Morreu pobre, porque sua bolsa sempre esteve a serviço do bem público e das
iniciativas filantrópicas.
Sobre
o Barão do Rio Bonito, outro poeta valenciano, Arnaldo Nunes, mais tarde,
membro da Academia Fluminense de Letras, homenageia o espírito daquele inesquecível
titular com este altiloqüente e lapidar poemeto:
Barão
do Rio Bonito
Tal
como o cedro, cujo olhar se alteia
sôbre
a distância indefinida e cheia
das
nuvens do horizonte semi-escuro:
-
Na audácia milagrosa de vidente
pairaste
muito acima do presente,
circunvagando
as obras do futuro!
"Aos
problemas vitais do nosso povo
tentaste
inocular o sangue novo
que
devia imperar de sul a norte:
-
Saímos logo da monocultura
para
um campo de mais envergadura,
na
indústria, na lavoura, no transporte.
"E
não ficaste apenas na teoria,
mas,
na prática entraras, com energia,
que
o exemplo sempre fora o teu processo:
-
Criador de fazendas afamadas,
de
indústrias ricas e também de estradas,
gigante
do trabalho e do progresso!
"Tinhas
um sonho: E ergueste, é bem verdade,
Santana.
Mas do fim - tua cidade
pompeando
- só no leito algo soubeste...
Fruto,
porém, da tua idéia justa,
ei-la
que aí está, esplêndida e robusta,
a
bendizer-te na amplidão celeste!
"Tal
como o cedro, cujo olhar se alteia
sôbre
a distância indefinida e cheia
das
nuvens do horizonte semi-escuro:
-
Na audácia milagrosa de vidente,
pairaste
muito acima do presente,
sonhando
os resplendores do futuro!
Barra
do Piraí, 10 de março de 1910.
Arnaldo
Nunes
E ainda, sobre a respeitável figura do inesquecível titular, fala-nos o príncipe dos poetas da Barra do Piraí - Waldemiro Portugal - neste edificante soneto:
BARÃO DO
RIO BONIT
Casa
por casa, aos poucos se formando,
A
cidade nasceu de uma fazenda,
E
progrediu, cresceu, foi aumentando,
Abrindo
em seu progresso nova senda.
E
gente estranha, aos poucos, foi chegando,
E
aqui, ali, além, outra vivenda
Foi
no solo da Barra edificando,
Para
um porvir de sonho e de legenda.
Rio
Bonito - o grande destas terras,
Propagou
pelos vales, pelas serras,
A
idéia nobre da emancipação.
E,
para a Barra se tornou, dest'arte,
O
condutor soberbo do estandarte
Da
sua liberdade e redenção!
1948
- Waldemiro Portugal