EM GALAS, A TERRA BARRENSE   

 

 

 

 

 

    (Correio da Barra, edição de março de 1962)

 

A cidade em festas, vibra de entusiasmo pelo transcurso de sua emancipação político-administrativa. O 10 de março é uma data de júbilo, uma data que pertence, em essência histórica, aos barrenses que a guardam nos refolhos de sua alma cívica.

 

Rememorar a efeméride é reerguer bem alto o nome de Rio Bonito - esse notável Barão que foi um austero lutador, um decidido pelejador de idéias construtivas, ao servir a causa de um povoado nascente que, então, se formara por força de situações geográficas e de fatores inarredáveis, convertidos, mais tarde, no mais vivo traço de união entre o Rio de Janeiro e os de Minas Gerais e São Paulo - ponto culminante de um entroncamento, que se imporia, um dia, pelas suas conseqüentes resultantes econômicas, enriquecendo uma região de progresso, graças a evolução da lavoura que precisava desembaraçar-se de seus produtos, dando-lhes destinos mais compensadores...

 

A força da política rural prestigiava as Casas Grandes e tudo, no Brasil, girava em torno dos titulares que sustentavam a Corte, a troco de honrarias e comendas, méritos que aguçavam a vaidade dos grandes senhores, essa natural vaidade que disciplinava uma época, estimulando o aperfeiçoamento das tendências e sentimentos políticos e sociais.

 

Havia, na época, o ideal de expansão que era animado para o bem geral das populações rurais, ansiosas por novas adaptações. Não se pensava somente no desenvolvimento da riqueza individual, mas, também se cuidava das coletividades com espírito de fraternidade. Assim pensava, assim realizava, assim agia o Barão do Rio Bonito - o humaníssimo senhor de grandes terras e de saudável espírito, o qual, herdando de seus pais, uma força moral impecável, soubera honrar as tradições político-econômicas da legendária Valença, onde o nome dos Faros constituía um marco inabalável do progresso agropecuário.

 

Rio Bonito - o criador de Barra do Piraí - era dono de um grande prestígio nas terras valencianas, onde se tornara o precursor de alevantadas idéias. Contudo o seu anseio de emancipação não encontrara, de imediato, decisiva acolhida por parte dos que pontificavam em Valença, Vassouras e Piraí.

 

A luta de Rio Bonito se definia pelo seu lema ante os entraves surgidos das incompreensões por parte de alguns fazendeiros daqueles municípios, os quais, relutavam contra a cessão de terras de cada um deles, para a formação de um novo município que, um dia, se chamaria "Barra do Piraí". A doação de terras era o ponto alto das lutas intermunicipais.

 

Mas, o Barão do Rio Bonito, que era o terceiro da família Faro, tinha o singular poder de convencer, e conseguira, enfim, após exaltar com suas palavras convincentes e sua bandeira de fé, reunir poderoso número de adeptos, também de expressiva visão econômica, os quais, por sua vez, se interessavam pela prosperidade da região, cujos produtos não podiam ficar restritos à fonte originária, por falta de escoamento, considerado, na ocasião, um fato de vida ou de morte.

 

José Ferreira de Faro não tivera momentos de desânimo em toda a sua campanha municipalista e jamais pensara em recuar ante as maiores dificuldades e decepções, pois a idéia que provocara tantas celeumas, por sua importância política, não podia perecer e ela se tornara mais acesa, mais viva, até que, por fim, se coroou de pleno êxito pela vigorosa decisão dos que formaram a forte corrente pró-município de Barra do Piraí.

 

Em 10 de março de 1890, pelo Decreto No. 59, o governador Francisco Portela decretava a emancipação político-administrativa do município de Barra do Piraí, criando-o com a constituição de quatro distritos de paz.

 

Estava assim, concretizado o maior sonho do 3o Barão do Rio Bonito.

 

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Nesta hora incerta em que vivemos, a política e os desentendimentos se confundem, e o Brasil marcha, indeciso, lentamente, para o desconhecido, para o inesperado. As irresponsabilidades tomam corpo e ninguém pensa nos destinos da Pátria. A ganância, dominando os interesses coletivos, põe em perigo a magnificência e a honra cívica do voto, enquanto que as urnas recebem e se enchem de nomes abstratos, nomes que desvirtuam nossa formação política.

 

Mas, apesar dos descalabros político-administrativos em que nos mergulhamos, há sempre alguma coisa a nos acenar com a bandeira da Esperança. É de se acreditar que, no Brasil, nem tudo está perdido...

 

Agora, que Barra do Piraí se põe de pé para as lutas eleitorais que se avizinham, é forçoso que olhemos para o passado e, com ele, usemos alguns instantes para meditação cívica.  A hora rememora, sem dúvida, o grande feito do Barão do Rio Bonito que, nos seus exemplos de trabalho e desprendimento, se revelou um verdadeiro condutor de homens, e cuja nobre disposição de realizador, nos honra à sombra da grandeza de um cometimento, hoje tornado o mais belo monumento histórico e o mais sensível orgulho dos barrenses.

 

Sigam os nossos homens públicos a mesma trilha de Rio Bonito, e tenham, na memória de sua exemplar conduta cívica, o estímulo patriótico que os há de fazer dignos do povo de Barra do Piraí.

 

 

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