(Centro Sul, 11 de março de 1978)
Como
surgiu Barra do Piraí? Eis a pergunta acariciada pelo anseio de uma inspiração
histórica a comover-nos diante do passado.
O
homem civilizado deixa o litoral e sobe a serra, onde, a par das lutas
indígenas, as condições mesológicas impõem sacrifícios e sérios desafios a
determinados destinos, enquanto as margens dos rios "Piraí" e "Paraíba"
eram despidas de suas matas, antes impenetráveis, para dar lugar ao faustoso
período do café que dera, então, ao Brasil, a grandeza prestigiosa e potentada.
Portugueses, fluminenses e mineiros, ao lado dos indígenas, edificaram cidades
sobre o ouro verde.
E
assim, pelos idos de 1853, nesta zona do "Vale do Paraíba", então,
brava e inculta, surgiam das derrubadas incontidas fazendas com imensas
lavouras, a cujos senhores de engenho, a Corte concedia a honra de títulos, que
eram prêmios e estímulos a novos surtos progressistas.
Os
municípios de Valença, Piraí e Vassouras constituíam, no Império, a grande e
rica região cafeeira. A produção agrícola - sempre crescente, graças aos
esforços dos Souza Breves, donos de mais de vinte fazendas, situadas à margem
esquerda do "Piraí", bem como aos de Gonçalves Morais e dos Faro, à
margem direita do "Paraíba" - era animada, então, pelos municípios de
Valença e Vassouras. Os grandes senhores de escravos, desses municípios,
dominavam a região, apesar das dificuldades de transporte, tanto pelo
"Paraíba" como pelo "Piraí".
Face
aos altos interesses com que os titulares encaravam o "encontro"
geográfico dos rios "Piraí" e "Paraíba", como sensível e
inevitável ponto de convergência entre a Corte, São Paulo e Minas Gerais, o 3o
Barão do Rio Bonito, José Pereira de Faro, nascido na fazenda pertencente à
Valença, "Floresta", situada em Ipiabas, assumira, com envergadura e
entusiasmo, a responsabilidade do acordo entre Valença, Vassouras e Piraí, com
o fim de concretizar a idéia da criação de uma nova comuna, com a doação de
terras limítrofes dos três municípios.
Junto
à margem do "Piraí", cujas águas são lançadas no então caudaloso
"Paraíba", anima-se o povoado de Santana, centro comercial nas terras
de Valença, que surgiu com novas esperanças - chave de entroncamento imposto
pelo próprio acidente geográfico, motivado pela junção dos dois rios.
E
era assim, então, o "arraial da Barra", com a sua única rua comprida,
de terra batida, à margem direita do "Piraí", onde existia uma
despretensiosa hospedaria, ao lado de dois entrepostos.
No
dizer do historiador Alberto Lamego: - "De toda a banda lhe
chegavam, torrentes de café. Os velhos "caminhos" coloniais da
descida da serra ameaçam a
esvaziar-se. Surge na cordilheira, uma nova mentalidade. As velhas cidades
aristocráticas focalizam o pequeno arraial centralizado e um nome, então, quase
desconhecido, passa a ser um dos mais pronunciados. Era "Barra do
Piraí", a simples "Barra" dos fazendeiros e dos titulares da
região. É um nome que toma vulto..."
São
ainda de Lamego, as seguintes considerações: - "Barra do
Piraí encabeça a dianteira econômica das povoações de serra-acima. Grandes
casas matrizes de comércio de café, no Rio de Janeiro, erguem ali filiais e
armazéns. É na Barra, que pilhas de mercadorias aguardam tropas de Minas Gerais
e de Goiás. O arraial vive abarrotado e suas ruas formigam de
itinerantes".
De
todo esse movimento resultaram, sem dúvida, a pertinácia e a argúcia do 3o Barão do Rio Bonito, um dos mais prestigiosos
aristocratas de Valença.
A
população aumenta, dia a dia, graças a uma ponte de madeira sobre o
"Paraíba", facilitando o desafogo pelas comunicações bimarginais.
Diante
de certas desavenças que, alguns políticos alimentavam para impedir a criação
de um novo município - a idéia que o 3o Barão esposara com altruísmo
cívico - acirrava a politicagem contra o sonho dos Faro, enquanto, na outra
margem, os barrense assistiam a chegada festiva dos primeiros trens e de novos
imigrantes que se instalavam ao redor da estação férrea, cuja inauguração se
dera a 7 de agosto de 1864. Com a chegada da Estrada de Ferro D. Pedro II, cujo
acontecimento culminou com a construção dos ramais de São Paulo e Minas Gerais,
mais tarde, em 1881, enriquecida com a Estrada de Ferro Santa Isabel do Rio
Preto, no município de Valença, tornando-se assim, Barra do Piraí, o maior
ponto de entroncamento da América do Sul.
Ainda
em 1881, o 3o Barão do Rio Bonito inaugurava, à margem esquerda do
"Paraíba", a bela igreja de Santana, e se instalava, sob sua
iniciativa, no atual beco da Carioca, o primeiro serviço de abastecimento de
água, cujo chafariz data de 1894.
Em
1886, o 3o Barão fundava o afamado "Engenho Central Rio Bonito",
então pertencente à Companhia Lavoura, Indústria e Colonização, em terras de
Valença (Ipiabas), à margem esquerda do "Paraíba".
Na
Assembléia Legislativa, uma forte corrente se opunha aos projetos relativos à
criação do município de Barra do Piraí, efetivada, por fim, pelo Decreto No.
59, de 10 de março de 1890, graças ao espírito combativo do Barão do Rio
Bonito.
Barra
do Piraí foi o primeiro município criado pela República.