
Por
entre as rugosidades das terras barrenses, passeia o nosso pensamento, ora
acariciado pela inspiração destas montanhas e destes vales, ora seduzido pela
histórica pergunta que fazemos ao Passado: "Como surgiu Barra do
Piraí?"
Exmo.
Sr. Prefeito Dr. Guilherme Milward,
Exmo.
Sr. Presidente do Rotary Club de Barra do Piraí,
Senhores
e Senhoras:
Quiseram
a bondade e o cavalheirismo da Diretoria do Rotary Club de Barra do Piraí que,
ao comemorar-se o transcurso da fundação deste município, fosse eu, nesta noite
de alta simpatia histórico-cultural, o evocador de sua emancipação política.
Não
sei se fiz bem em aceitar tão honroso convite, quando em minha consciência se
refletem, ante a pobreza da minha cultura, valores outros que aqui deveriam
pontificar nesta noite de tanta evocação histórica. Mas, como a grande riqueza
do meu coração, é acatar as decisões que se traduzem em considerações de um
imperativo social, digo-vos, meus prezados amigos, que aqui venho, trazido ao
vosso convívio, pelo mesmo ardor cívico com que dignamente festejais a
inolvidável data de 10 de março.
Se
estendermos nossas vistas até às profundezas de nosso passado histórico,
veremos como se processara antes, a penetração do vale fluminense do Paraíba,
influenciada pelo determinismo geológico que atraíra, deste modo, as bandeiras,
nas arrancadas destemidas em busca da riqueza e da Civilização.
O
homem, atraído pela volúpia das conquistas e ambicionando as fortunas, deixa o
litoral e galga a serra do Mar, onde as condições mesológicas impõem
sacrifícios e desafiantes iniciativas na ânsia de determinados rumos.
Vindo
da Baixada, onde a fundação de engenhos de cana de açúcar e a pecuária se
preconizavam em auroras de vislumbres econômicos, o espírito paulista se
projetava em idealizações, atiçado pelas aventuras dos corajosos portugueses
que, por outro lado, se dirigiam para a Mantiqueira, por detrás da qual, se
escondia o ambicionado ouro.
Com
o progresso das regiões piratiningas, graças a moral dos bandeirantes, e com a
exploração das Minas Gerais, a serra que, há duzentos anos, era apenas uma
picada, se tornara povoada de núcleos esparsos. Enquanto isso, as margens do
Paraíba eram despidas de suas matas quase impenetráveis e, em lugar delas,
implantadas as estacas de novos cometimentos, e os cidadãos da Guanabara,
dominando a serra, inauguravam no interior fluminense, o período áureo do café
que deu ao Brasil a grande família da nobreza prestigiosa e potentada.
A Corte precisava controlar as zonas de
mineração, pois o contrabando de ouro desafiava os altos interesses da
Guanabara. Era preciso que, o Rio se tornasse o centro das comunicações e que
se incentivassem, nas margens fluminenses do Paraíba, a agricultura e a
pecuária - motivos imediatos de inarredável contato com o interior.
E
assim, nesta zona do vale do Paraíba, mais próxima do Rio, brava e inculta,
surgiam das derrubadas incontidas, grandes fazendas e imensas lavouras, a cujos
senhores de engenho a Corte concedia a honra de títulos que eram prêmios e
estímulos a novos surtos de progresso econômico e de evolução social.
Na
serra, erguem-se cidades assentadas em alicerces feitos de ouro verde. A
lavoura e a pecuária fabricam barões, viscondes e marqueses. Resende, Paraíba
do Sul, Valença, Vassouras, Barra Mansa e Piraí são os potentados do café na
Província.
Portugueses,
fluminenses e mineiros se intrometem e se instalam nas matas e as transformam
em cidades do café. Fazem-nas progredir e dão-lhes a Civilização.
Os
dois maiores centros cafeeiros de Valença e Vassouras têm a necessidade de sua
expansão e a travessia do Paraíba dificulta os transportes. Era inadiável o
aproveitamento da Serra do Mar para a aproximação dos interesses da Corte. A
idéia da ferrovia subindo a Serra do Mar, uma vez realizada, asseguraria a efetivação
dos grandes mercados. Os caminhos e os transportes fluvial e animal, já não
comportavam as cargas da produção.
Por
toda a bacia do Vale do Paraíba¸ o ciclo do café tomava vulto e o território
fluminense enriquecia as novas ondulações verdejantes com que as zonas de
Resende e São João Marcos testemunhavam a grandeza das expansões cafezistas.
Resende,
o maior centro exportador, era um grande orgulho. "O seu
café - segundo Alberto Lamego - não descia para
Mangaratiba; por via fluvial, ganhava Barra do Piraí, a caminho do Rio de
Janeiro. Havia lá, nove grandes armazéns e cinco em Itatiaia. Algumas casas
exportadoras, exportavam 200.000 arrobas cada uma. Oitenta barcos de grande
porte faziam o serviço entre Resende e Barra, e podendo cada qual, transportar
700 arrobas de uma só vez."
Escreve
ainda o historiador Lamego: "Com a sua exportação excedendo a
600.000 arrobas anuais, vemos que poucos decênios bastaram para uma total
transformação da mentalidade econômica desta zona. Nada mais foi necessário que
a presença do café, como novo estimulante agrícola, para que todos os
fundamentos fossem deslocados".
Resende,
Valença, Vassouras e Piraí centralizavam as atenções do Império e, em face do
imperativo de uma nova paisagem econômica do trabalho agrícola que o seu
progresso despertara, toda essa zona se agita e cresce em atividades
comerciais.
Junto
à barra do rio Piraí, cujas águas recolhe o então caudaloso Paraíba, anima-se a
evolução de um novo centro comercial. É o arraial de Barra do Piraí que orienta
e distribui para os centros consumidores, os produtos da lavoura abundante e
ambicionada. É o arraial de Barra do Piraí que se esplende e se torna alvo das
maiores cogitações agro-pecuárias. É o arraial barrense que, com a sua
despretensiosa hospedaria e seus dois simples entrepostos, se tornara atraente
e, como ponto de apoio, o homem civilizado nele localizava as vastidões de
Minas à cata do ouro e pedrarias.
O
povoado de Barra do Piraí é o sítio de novas esperanças para o sul fluminense,
como é a chave de entroncamento imposto pela própria natureza geográfica. Uma
rua comprida, de terra batida, banhada pelo Piraí que, despeja suas águas no
Paraíba, de cuja união nos vem a lição de confraternização que nos dá a
Natureza sábia e dadivosa.
No
arraial de Barra do Piraí, é o mercado, são as negociações, são os transportes
a barcos que marcam época de atividades indormidas e escrevem nas páginas do
tempo, a idéia marcante da fundação de uma cidade que viria honrar a terra
fluminense.
Na
junção das terras dos municípios de Valença, Vassouras e Piraí, movimentava-se
o sentimento de autonomia de um núcleo humano, vivificante e já vitorioso.
Descarregam-se aqui as mercadorias, e as partidas de café se avolumam e são
recolhidas nos barcos que, pesadamente carregados, são impelidos à vara, até ao
mar. Do outro lado do Paraíba, na sua margem esquerda, em terras valencianas,
os sinos da pequenina e artística igreja de Sant'Anna enchem, de alegria
cristã, os futuros céus barrenses e prenunciam a emancipação. Na margem direita
desse mesmo rio, agora em terra de Vassouras, a antiga estrada de ferro D.
Pedro II estendia seus trilhos, depois de haver transposto a Serra do Mar. À
margem direita do Piraí, em terras do município do mesmo nome, o passado se
ostentava com a presença de casas esparsas que a colonização portuguesa aí
lançara antes.
Do
lado de Valença, pontificam os barões do Rio Bonito - esses senhores de engenho
que tinham o seu nome intimamente ligado à Corte de onde lhes vinha o prestígio
e a autoridade; do lado de Vassouras, os barões de Vassouras e Cananéia
formavam o centro da gravitação política; e finalmente, do lado de Piraí, os
Souza Breves, donos de mais de vinte fazendas, faziam ecoar por toda a parte, o
êxito de suas grandiosas transações agrícolas e industriais. E, com esse
triângulo de titulares que o Império prestigiava, traçara-se o encontro de suas
idealizações, convergindo-se para um centro único, os interesses econômicos na
focalização do povoado de Barra do Piraí - destino dos mais gloriosos de uma
luta que se ia travar em prol da autonomia justa e oportuna, compreendida e
defendida pelos que sonhavam o bem coletivo.
Com
o desenrolar dos acontecimentos e das iniciativas vitais da região, nascia a
idéia de tornar o povoado, um município autônomo. Mas, essa autonomia dependia
dos três municípios em conjunto. Foi quando José Pereira de Faro, o barão
destemido, assumira, com envergadura e entusiasmo, a responsabilidade do acordo
entre Valença, Vassouras e Piraí, com o fim de concretizar a idéia da criação
de uma nova comuna, assentada a doação de terras limítrofes dos três municípios
- doação que se firmara pelo alto interesse econômico com que os titulares
encaravam o entroncamento de Barra do Piraí, como sensível e inevitável ponto
de convergência entre a Corte, São Paulo e Minas.
Por
que não dar ao povoado, um lugar condigno na comunhão fluminense, se por Barra
do Piraí, desfilava toda a cultura mineira e os milhões de arrobas de café das
fazendas de rio-acima? Com a chegada dos trilhos da Pedro II, agita-se e
avoluma-se o comércio e o embrionário povoado cresce e se expande
economicamente.
No dizer do historiador: "Em
barcos, em tropas, em carros de bois, o grosso da produção de café da vasta
zona começa a ser dirigida para um novo centro de expedição. Funda-se uma
companhia de transportes fluviais - a de Miguel Simões - que navega pelas águas
do Piraí e do Paraíba, indo neste, à Pinheiral, Barra Mansa e às proximidades
de Resende, no Tombo Grande.
De toda a banda lhe chegam torrentes de
café. Os velhos caminhos coloniais da descida da Serra, começam a esvaziar-se.
Surge na cordilheira uma nova mentalidade. As velhas cidades aristocráticas
focalizam o pequeno arraial, centralizado e, um nome, então, quase
desconhecido, passa a ser um dos mais pronunciados. Era Barra do Piraí - a
simples Barra dos fazendeiros e dos titulares. É um nome que toma vulto.
Fala-se dele, com entusiasmo, em todos os centros mineiros". E Lamego,
continuando sobre Barra do Piraí, escreve: "O alvo
final, após centenas de léguas, já não são mais os pontos da Estrela, de
Inhomirim, do Pilar, de Angra dos Reis ou do Rio de Janeiro. É a Barra.
Barra do Piraí encabeça a dianteira
econômica das povoações de serra-acima. Grandes casas matrizes do comércio de
café no Rio de Janeiro, erguem ali filiais e armazéns. É na Barra que pilhas de
mercadorias aguardam as tropas de Minas e
Goiás. O arraial vive abarrotado e suas ruas formigam de
itinerantes."
E
todo esse movimento resultava, sem dúvida, da pertinácia e argúcia do 3o
Barão do Rio Bonito, um dos mais prestigiosos aristocratas da terra fluminense.
De
dia aumenta a população de cada margem do Paraíba, e o povoado se alastra em
suaves ondulações, graças a uma ponte que torna possível o desafogo, e
ininterruptas as comunicações bimarginais. De um lado, isto é - à esquerda - o
3o Barão do Rio Bonito constrói a sua igreja de Sant'Anna, onde o
espírito enraizado da nobreza rural valenciana cria uma classe de pioneiros
desapegados, apesar das desavenças que os políticos de Valença e Vassouras
aproveitam para impedir a criação de um novo município - idéia que José Pereira
de Faro esposara com entusiasmo e idealismo cívico. Acirra-se a politicagem
contra o sonho do 3o Barão do Rio Bonito, enquanto, na outra margem,
os barrenses assistem à chegada dos primeiros trens e de novos imigrantes que
se instalam ao redor da estação.
Lutas
políticas e bate-bocas de arraial não amedrontavam o 3o Barão do Rio
Bonito. Pelo contrário, mais o estimulavam em favor da idéia da emancipação
política do núcleo barrense. Enquanto que, mesquinhas pendências perturbavam o
desenvolvimento econômico do arraial, a idéia do Barão tomava vulto e novos
adeptos cerravam fileiras contra as querelas políticas e religiosas com que se
exteriorizava o espírito urbano e a austeridade rural em entrechoques de
classes.
Prosseguia
a luta intensa e ardorosa, coesa e irredutível. Era preciso manter o fogo de
autonomia entre aqueles que estavam fiéis à idéia do Barão do Rio Bonito,
apesar das marchas e contramarchas e, apesar do desalento rural que provocava o
anunciado abolicionismo.
Na
Assembléia, uma corrente se opunha a vitória dos projetos de lei, relativos
à criação do município de Barra do
Piraí, cujo movimento, por várias vezes, periclitara. Apesar do ambiente de
pessimismo e de inquietações perturbantes provocados pela prometida mudança do
regime rural, a idéia de emancipação, cada vez mais irredutível, se alastrava
em todos os setores e sacudia todos os espíritos.
Município
de Barra do Piraí! Cidade de Barra do Piraí!
- era o brado de todos os corações presos ao destino deste futuroso
rincão.
A
batalha da autonomia prosseguia e os idealistas iam vencendo obstáculos. E não
tardou que, para honra e glória da República, a população barrense agradecia,
um dia, ao Governador Francisco Portela que, pelo Decreto 59, de 10 de março de
1890, consagrou em lei a criação do município de Barra do Piraí.
O
povo exultou de contentamento. Barra do Piraí era o primeiro município criado
pela República.
A
idéia do 3o Barão do Rio Bonito estava vitoriosa e, nos corações
barrenses, a alegria transbordava pelo acontecimento histórico, pelo
acontecimento triunfante!
Engalanaram-se os
espíritos e, em festas, toda a cidade da Barra, vivendo o seu maior dia,
escrevia nas páginas da história política fluminense, o nome do seu criador,
o 3o Barão
do Rio Bonito.