Valença de Ontem e de Hoje

GALERIA VALENCIANA

PEREIRA DA SILVA

— Luiz José Pereira da Silva nasceu em Valença (na freguesia de Ipiabas), Estado do Rio, a 1 de janeiro de 1837, e depois de sólidos estudos de humanidades, dedicou-se ao magistério, começando como professor de línguas, em Valença, Vassouras, Turvo e, finalmente, na Capital Federal, onde se impôs, merecidamente, nos mais elevados meios intelectuais. Em seu clássico “Dicionário Bibliográfico Brasileiro”, assim a êle se refere Sacramento Black: —“E’ um distintíssimo poeta e literato, de quem sinto não poder dar notícia completa. De suas obras foram publicadas diversas na revista mensal da sociedade “Ensaios Literários”, na “Marmota”, célebre publicação de Paula Brito, no “Correio Mercantil”, no “Jornal do Comércio”, no “Rio de Janeiro”, no “O País”, no “Conservador” e em outros periódicos”. Era muito amigo de Antônio Pereira Leitão e de Joviano Aires, e deixou entre os seus companheiros de jornal muitas saudades.

João Luso, nas “Dominicaís” do “Jornal do Comércio”, escreveu linda crônica sôbre êsse poeta valenciano, da qual extraímos os seguintes trechos:

“Morreu o poeta Luiz José Pereira da Silva. As edições das suas obras estão esgotadas e livreiro algum se lembra de ressuscitar êsses velhos poemas, revelando-o à nova geração; andava há muito afastado dos centros literários, onde se julgava hostilizado pela futilidade e irreverência dos rimadores da avenida Central; e si versos ainda fazia, lia-os a um ou outro amigo e guardava-os depois, na gaveta dos papéis velhos e íntimos, que, de vez em quando, lhe aprazia recordar.

“Assim, como poeta e grande poeta que fôra, deixava-se tímida e desoladamente esquecer; só os homens do seu tempo conheciam os seus livros e mantinham a admiração devida a tão alta inspiração e tão bela arte; e como êsses homens iam morrendo e passando, com êles se ia apagando gradualmente a fama do poeta que prezavam... Entretanto, Pereira da Silva conquistou na literatura do seu país, uma glória das mais radiosas e duradouras; o seu renome popular pertenceu, talvez, apenas a uma época, mas a sua obra ficou, para os estudiosos, os eruditos, os investigadores e rememoradores de todos os tempos... Falava-se do “Riachuelo” como de um assombro de repentismo poético, um fenômeno de velocidade literária, a que hoje se chamaria record, e não foi essa, talvez, a circunstância que menos contribuiu para que do poema se esgotassem sucessivamente três largas edições. Os críticos, porém, e todos aquêles que, por saberem a arte, devidamente a estimavam, rendiam a Pereira da Silva preito mais alto e significativo... E outro pobre poeta, Castilho, se não me engano, enviou ao autor de “Riachuelo” uma carta, que era uma consagração e terminava por citar algumas estrofes, ajuntando-lhes em comentário estas palavras sinceras: — “Si isto não é sublime, nada entendo do que seja sublimidade”. Tais eram os fóros adquiridos por Pereira da Silva, de quem nem a Academia de Letras se lembrou, porque, ao formar-se, já êle, pelo retraimento da sua excessiva modéstia, se apagara na memória dos próprios homens de letras, dos próprios homens de ideal e de arte. Estas injustiças, estas desconsiderações — de nada serviria negá-lo — magoavam-no profundamente... Agora é o grande sono, mudo, profundo, tumular, através dos tempos ingratos e da indiferença das gerações. Consolemo-nos, porém, com a idéia de terem ficado no “Riachuelo” alguns fragmentos da história pátria, que um dia hão de ser novamente lembrados e então, para sempre fixados na memória dos pósteros — estrofes que celebraram imortais heroismo, de maneira a conquistar a mesma imortalidade.

“Foi essa epopéia, traçada com patriótica inspiração e todo o ardor, tôda a pujança de uma mocidade cheia de entusiasmo, que o seu talento, em arrancos de águia soberba, se librou às alturas supremas e atingiu a suprema glória. Ainda os soldados brasileiros se batiam, ao longe, nas últimas refregas que iam decidir da sorte da Pátria e já êle, cantor ansioso e sôfrego, celebrava em cada estrofe as feitos dos seus irmãos distantes. Quando a guerra acabou, estava o poema quase acabado; e assim o Brasil se pôde quase simultâneamente orgulhar de seus generais e do seu poeta, que o mesmo sentimento guiava e o mesmo triunfo coroava...

Eu canto os bravos da brasileira armada

Que de havê-los por prole a pátria exulta

Por êstes negra afronta foi vingada

Em paga dando a vida a gente estulta.

Ainda rola e desce ensanguentada

     Do rio a onda, em cuja riba inculta

Da pugna horrível os destroços restam

Que o seu valor ao mundo, claro, atestam.

 

Erga-se altivo o coração no peito,

São os seus louros que o Brasil conquista!

Erga-se altiva, pois tamanho feito

Nem dos gregos heróicos mesmo dista;

E no mundo achará talvez conceito

Que descrito bem pôde ser na lista

Onde Roma vetusta as tradições

Orgulhosa gravou dos Scipiões!

De entusiasmo nobre, ardentes fIamas

De interna e clara luz, vêm tu, sagrado

Amor da pátria, que minhalma inflamas

E inspira-me; direi porque assombrado

    O mundo pasma, vendo à luz das chamas

Dessa glória sumir-se, de ofuscado,

O gigante clarão, que se amortece,

Da história do passado que o engrandece...

“Pereira da Silva conservou, até há pouco, — continua João Luso — uma vivacidade de espírito, um feitio jovial e comunicativo, que atraíam à sua velhice respeitável, os mais moços de nós, e entre todos nós e êle estabeleciam uma simpatia íntima e fraternal, a maior liberdade no trato, a mais ampla sencerimônia nos desacôrdos e discussões. Discutir qualquer coisa, literatura, política, fosse o que fosse, constituia, aliás um dos seus grandes prazeres. Pertencia, nêsse terreno de combate de idéias, ao número daquêles, de quem se diz que “compram brigas” quando estás natural e casualmente se lhes não deparam. Da sua mesa, curvado sôbre os Jornais franceses, não perdia polêmica, por mais ligeira e comedida, que na sala se travasse; mal os primeiros argumentos se trocavam, erguia a cabeça, arredava o jornal, vinha de lá, tirando os óculos, já excitado verboso e convicto, e adotando um dos partidos, quando não divergia de todos, para lançar uma doutrina original, paradoxal, exótica, que só êle sustentaria, arremessava-se como um leão disposto a pôr em fuga ou estraçalhar os contendores.

“Entretanto, a tolerância e a cordura dêsse implacável discutidor eram, ao mesmo tempo, evangélicas. A controvérsia arrebatava-o, punha-o fora de si; nunca, porém, tomava como ofensa pessoal o ataque ou o remoque dirigido às suas idéias, nem sabia guardar qualquer espécie de ressentimento. Um dia, Vasco Abreu foi às do cabo, respondendo à sua costumeira catilinária na “nefelibatice moderna”, com a mais destemperada diatribe contra todos os trovadores da velha guarda, seus padroeiros nessa campanha infindável. Chegada a vez de Gonçalves Dias, não houve extravagância nem blasfêmia que o monstro não arrojasse contra êsse monumento sagrado que é a obra do autor dos “Tymbíras”... Pereira da Silva empalidecia de cólera. Nisto, outro colega, acercando-se disfarçadamente do atassalhador de Gonçalves Dias, soprou-lhe ao ouvido: fala-lhe do “Ninho da Floresta”... Julgando tratar-se do título de alguma poesia, como a “Minha terra tem palmeiras”, da qual acabava de dizer horrores, o malvado recomeçou: — Gonçalves Dias, êsse medíocre, êsse nulo, entre cujas melhores obras está essa mortal sensaboria, o “Ninho da Floresta.

“Pereira da Silva deu um pulo formidável: no mesmo momento, porém, desatou a rir, divertidissimo:

 

-“Perdôo-te, desgraçado, porque não sabes o que dizes. O “Ninho da floresta” é meu!

 

“Vasco abraçou-o, vexadíssimo. E soube, então, tratar-se de uma comédia em versos, representada no Recreio Dramático, antes de sua chegada ao Rio.

“Ultimamente, Pereira sofria, a velhice precipitava-se cruelmente, com o seu cortejo de fadiga, desilusão e moléstia. Embotava-se lamentàvelmente a bóssa da palestra e da polêmica. E era tal da parte dos companheiros o cuidado em o não contrariar, em o não exaltar, que o bom velho por vezes chegava a queixar-se, com verdadeira amargura:

 

-“Que demônio, ninguém bole comigo: ninguém puxa pela minha rabugice: desprezam-me, deitam-me à margem... Estou pronto!

 

“E quando jogava uma pilhéria contra um colega e êste lh’a não pagava na mesma moeda, chegava a zangar-se. Lembro-me de uma noite em que, já vestido para o teatro, entrei na redação, para rabiscar, à pressa, uma notícia. Pereira ia sair, parou diante da minha mesa e começou a gabar-me irônicamente a elegância; reparou, depois, no alto colarinho que eu trazia, e desatou numa série de epigramas à Tolentino, interminável. Atarefado com a notícia, não lhe respondi palavra: dali a nada, dizia-me despropósitos, injuriava-me: e, ao ir-se embora, declarava-se de mal comigo:

- “Não preciso das suas relações: não me torne a estender a mão! Que tal está!  Desafôro!

 

“E ficou realmente de mal comigo dois dias.

 

“Adorável espírito, delicioso coração: aqui te venho, mais uma vez, pedir perdão, amigo, dessa afronta, a única razão de queixa, suponho eu, que te não soube evitar aquêle que, sempre, com amaríssima saudade e gratidão comovida, se lembrará de ti”.

 

De sua larga bibliografia, pudemos apurar o seguinte: Poesia e Arte — 1857 — estudo, na “Marmota”; Artur Napoleão — 1862 — idem, no “Correio Mercantil”; Os Desterrados — 1854 — novela, 40 páginas; Cenas do Interior — 1865 — romance, 208 páginas; Olmárcia — 1871, poema-romance; Panças e Finanças — 1878, panfleto político em versos, sátiras e críticas; Floriano Peixoto — 1894, traços biográficos: Um pecado santo — comédia-drama, em 3 atos, representada no teatro “Ginásio Dramático”: O livrinho vermelho — versão da comédia francesa Marie Simon; Um ninho na floresta — comédia em verso, em 1 ato, com música, original do famoso Assis Pacheco, representada pela primeira vez em 1888. E, finalmente, Riachuelo — 1868, poema épico, 141 páginas. E’ a sua obra prima, sôbre a qual diz ainda Sacramento Blacke: “E’ o seu mais importante trabalho, em que, com elegância e fidelidade, comemora a memorável batalha do Riachuelo, na campanha do Paraguai. Êste poema teve mais edições, sendo a terceira de 1883, no Rio de Janeiro, e antes da sua publicação completa, foi editada uma parte, isto é, os dois primeiros cantos, no Rio de Janeiro, em 1865. A “Gazeta de Notícias” também reproduziu dêle alguns trechos dos cantos 4o e 5o, como o que se refere à abordagem do Parnahyba”.

Era um poeta de largo fôlego, cujas obras, como se vê, não morreram nas primeiras edições, e que, combatido ou elogiado, não se lhe pode negar o seu lugar nos grandes estudos e antologias.

 

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