OSVALDO TERRA

—
Osvaldo Augusto Terra nasceu em Ipiabas, antigo 4o distrito do município
de Valença, Estado do Rio de Janeiro, em 10 de dezembro de 1891. Era filho de
Adelino Augusto Terra e de D. Satira de Souza Terra, ambos antigos professores públicos.
Fez
seus primeiros estudos em Ipiabas e os preparatórios no Colégio Pedro II, no
Rio. Em 1907 a 1908, Osvaldo Terra, quando ainda estudante, trabalhou na
imprensa carioca, militando no jornal “A Época”, e de 1909 a 1910, no “Diário
de Notícias”. Diplomou-se em farmácia, em 1910, pela Faculdade de Farmácia
e Medicina do Rio de Janeiro. Em 1911, exerceu a profissão de farmacêutico
como sócio de uma farmácia no Alto da Serra, em Petrópolis. Mais tarde,
adquiriu uma farmácia em Conservatória, onde permaneceu até 1914, data em que
se transferiu para a cidade de Valença, aí se instalando definitivamente, como
proprietário da Farmácia Terra. Tornou-se, então, pelo carinho é zêlo
devotados à profissão, o farmacêutico da inteira confiança da cidade. Foi um
benfeitor da gente pobre. Seu nome, acatado e benquisto, se impôs à estima pública,
pelo seu alto espírito de caridade. Com uma fôrça de vontade invejável,
Osvaldo Terra conseguiu formar-se em medicina, em 1934, pela Faculdade
Fluminense de Medicina, de Niterói.
Mas,
a política seduzia-o. À custa do seu prestígio pessoal, ascendeu a vários
postos na administraçáo pública de Valença. Além dos cargos de secretário
e de vereador à Câmara Municipal, foi também prefeito de Valença em 1929.
Eleito, em campanha memorável, novamente para o cargo de prefeito, exerceu-o
desde agôsto de 1936 até junho de 1939.
Era
um cidadão de atitudes serenas. Dificilmente se contrariava. Não sabia
pronunciar uma queixa. Nunca demonstrava irritação. Calmo, o seu bom humor
conquistava simpatias e amizades. Mas, Osvaldo Terra sofria, últimamente, sem
que a sua dôr íntima se lhe esboçasse no semblante. E quem poderia supor ou
pensar que, no fatal domingo de 24 de junho de 1939, ainda exercendo as funções
de prefeito municipal, cheio de mocidade vigorosa, numa manhã clara e alegre,
viesse de, no silêncio do seu próprio consultório, pôr têrmo à vida..
E
um crepe negro desceu pesadamente sôbre os corações valencianos estarrecidos,
naquela manhã dolorosa...
O
jornalista J. E. de Macedo Soares, sôbre Osvaldo Terra, escreveu no “Diário
Carioca”, da 27 de junho de 1939, — “O
Sacrificado”. Ei-lo:
"O dr. Osvaldo Terra, prefeito de Valença, anteontem sacrificado no seu pôsto, era verdadeiramente o tipo tradicional, na nossa província fluminense, dos chefes das famílias municipais.
Filho do lugar, fundou por sua vez, um lar, criou descendência, sempre rodeado da estima e do respeito dos seus concidadãos. Farmacêutico e médico, exercia os mistéres dessas profissões com bondade, dedicação e desinterêsse. Inteligente, culto e estudioso, acompanhava atentamente a vida do país e do Estado. Tinha para o seu município e a cidade de Valença, o carinho e o entusiasmo de filho amantíssimo.
A política não sabia ao dr. Osvaldo Terra com o travo das paixões desordenadas e das ambições pessoais. A participação na vida política fluminense antes lhe parecia o cumprimento de um dever cívico, a obrigação de servir à pequena comunidade do torrão natal, dando o seu tempo, aceitando os incômodos, as preocupações, as responsabilidades que o trato dos negócios públicos impõe aos que assumem seus encargos.
A única eleição municipal do regime revolucionário deu-lhe por esmagadora maioria a Prefeitura de Valença. Pelo consenso unânime dos seus conterrâneos, foi mantido no cargo quando reinstalou-se o regime da intervenção federal. Nunca desmereceu um átomo, conservou até o derradeiro instante, o respeito e a estima da sua cidade. Mas, anteontem, caiu sacrificado. Viu uma afronta iníqua e absurda pelos vidros de aumento dos mexericos e malquerenças do fundo de província. Exagerou tràgicamcnte um arrôto sem importância. Decidiu uma enormidade comovente, caiu de pé, fechou atrás de si as portas da morte.
Silenciosamente,
com o esfôrço e a dedicação dos idealistas da roça, que sentem o Brasil
como a casa paterna, desinteressadamente, religiosamente, — o dr. Osvaldo
Terra aplaudiu, apoiou e serviu tôdas as fases da política revolucionária do
presidente Getúlio Vargas. Serviu contra o separatismo paulista em 1932, srrviu
contra a agressão moscovita em 1935, serviu contra a tentativa de usurpação
integralista em 1938. O sacrificado e seus amigos nunca vacilaram. Correspondiam
no rincão de Valença aos sentimentos de fidelidade e constância dos
fluminenses. Não teve um deslise, uma errata, um remendo. Afinal, caiu no seu pósto,
atormentado por um julgamento injusto e odioso.
A arrecadação das rendas municipais verifica-se em épocas marcadas em lei. Os municípios não emitem e nem fazem operações de crédito por antecipação de receita. Assim, no primeiro trimestre do exercício, os prefeitos remedeiam, pagando as fôlhas dos trabalhadores com vales ou cheques que depois resgatam na entrada dos impostos. Mas, os fornecedores dos pobres não esperam. O desconto dos vales dará lugar a botes da agiotagem. Caberia ao govêrno estadual sanar o inconveniente em que é useiro e veseiro, pagando em vales de fornecedores turmas de trabalhadores, operários de obras, até empregados e funcionários de repartições no interior.
Não há dúvida que o poder público exercido por abalisados estadistas metropolitanos pode ser útil às populações aborígenes. Mas devem cuidar que não lhe falte um sentido de justiça severo, porém generoso e humano.
Enfim,
lá estão, em Valença, ajoelhados em tôrno de uma sepultura: a espôsa
desolada e quatro órfãos. Êsse é o fato material na sua triste fatalidade.
Que destino terá amanhã esta cova rasa ? Um altar ? Uma tribuna? Um pelourinho
?”