Valença de Ontem e de Hoje

GALERIA VALENCIANA

NUNO PEREIRA

— Nasceu o dr. Nuno Alvaro Pereira em lpiabas, no município de Valença, Estado do Rio de Janeiro, aos 12 de setembro de 1868 e era filho de Antônio Marques Pereira e de D. Teresa da Silva Pereira, cunhada do Barão de Souza Lima. Fez seus primeiros estudos na cidade de Valença; mais tarde, seguiu para o Colégio de Itú, em São Paulo, estabelecimento dirigido por padres, onde fez o curso ginasial.

Nuno Pereira matriculou-se na Faculdade de Direito de S. Paulo, onde um incidente curioso motivou a sua suspensão por dois anos, segundo nos relata Spencer Vampré, professor daquela Faculdade, nas suas “Memórias para a história da Academia de S. Paulo” (1924). E assim nos relata Spencer em seu livro, às págs. 506 e 507:

 

“Nuno Álvaro Pereira, estudante do primeiro ano, escrevendo uma prova escrita sôbre direito de propriedade, perante a banca examinadora, composta de Dino Bueno e Dutra Rodrigues, assim terminou: -— “Com o fim de amenizar estas linhas e torná-las (permitam-me a expressão) mais tragáveis, apresento ao juízo supremo dos meus lentes, uns alexandrinos compostos em honra e louvor dos mesmos. Peço para êles tôda a atenção, pedindo-vos, ao mesmo tempo, desculpas mil se acaso, o que aliás é fácil dar-se, encontrardes nêles um ou outro senão de metrificação. O fundo, o substractum, seja-me relevado o dizer, não é meu, e, portanto, posso, desde já, deduzir que a composição é boa, visto que a forma pouco influi no mérito de uma criação.

“Dado êste cavaco, passemos ao que prometemos:

 

Que triste posição a minha nêste instante,

si aqui é o Calvário horrendo do estudante:

si aqui terá a decisão severa!

Um outro Waterloo não seja,

Santos Céus, esta pugna p’ra mim!

Que eu vença os escarcéus dêste revôlto mar onde a paixão impera.

Castelos juvenis dos sonhos os mais puros,

baqueiam nesta sala, ao sôpro dos escuros desenganos!

A mão se perde, muita vez, de uma priminha airosa,

à vista da sentença, estúpida e boçal:

e sáfara e imensa, dessa trindade vil de inata estupidez!

O meigo Nazareno, o célico Jesus não devia morrer,

pregado numa cruz, si queria salvar a velha humanidade.

Sim, isso não bastou.

“O Júpiter-Tonante queria que fizessem dêle um estudante,

e o metessem aqui na podre Faculdade.

Mas... vou já terminar:

— entanto, um só pedido pretendo inda fazer.

Espero que atendido serei, mestres, por vós.

E’ muito natural a súplica gentil, que nêste instante faço:

tereis, então, em paga, um apertado abraço de mim,

meus maganões, que não vos quero mal.

Vos peço, sábios Mestres, — Crésos da Ciência,

— que não descarregueis em mim a onipotência de vossas patas vis.

Será grande pesar levar sempre comigo,

eternos, permanentes, os pútridos sinais dos cravos reluzentes,

que circundam gentis a ferradura alvar.

“E agora perdoai minha franqueza rude,

mas deve ser leal o tímido alaúde,

e grande como Deus, e forte como o mar.

Ah! Não me reproveis, renovo meu pedido:

sinão martírio atroz, cruel, enegrecido, cairá sôbre mim:

— e faço-me castrar.”

A banca examinadora escreveu êste julgamento: — “A prova está má, na parte em que ocupou­se do ponto, mas, à vista da sua última parte, entendemos não poder simplesmente qualificá-la, deven­do ser remetida ao Exmo. Sr. Cons. Diretor, para proceder como fôr de direito. S. Paulo, 28 de outubro de 1886. (aa.) F. Dutra Rodrigues — A. Dino”. Leôncio de Carvalho, que também fazia parte da banca, pôs a seguinte nota: — “Má, revelando desarranjo mental”. Terminado o processo, reune-se a Congregação da Faculdade e condena o estudante Nuno Pereira à suspensão, por dois anos, contra o voto de Leôncio de Carvalho, porque, de acôrdo com a nota que lançara na prova escrita do dito estudante, continuava a considerá-lo idiota, e, portanto, sem imputabilidade”.

 

Não sofreu Nuno Pereira todos os rigores da pena, que lhe foi perdoada, depois de tantos apêlos à Imperatriz, por Decreto de 3 de novembro de 1887. Entretanto, o nosso biografado fez questão de cumpri-la integralmente, assim lh’o exigia o orgulho dos seus dezoito anos de idade. Resolveu continuar seus estudos na Faculdade de Direito de Recife, tendo seguido logo para Pernambuco.

 

Mais tarde, voltou a S. Paulo, onde se bacharelou, em 1891, na Faculdade de S. Paulo, em cujos bancos desenvolveu uma vida acadêmica verdadeiramente notável, como nos falam as crônicas da época. Nuno Pereira teve como companheiros de turma, na Faculdade de Direito de S. Paulo, vultos eminentes como Wencesiau Braz, Afrânio de Melo Franco, Otaviano Vieira, Alfredo Pujol, Carvalho Mourão, Delfim Moreira e Mendes Pimentel. Na vida prática, Nuno Pereira absorveu-se inteiramente nos deveres do ministério público, no Estado de Minas, honrando as funções de promotor de Justiça em São Paulo do Muriaé. Decorrido algum tempo, passou a residir no interior de São Paulo, onde, especialmente em S. Carlos, advogou com brilho e proficiêncía. Em S. João Marcos, no Estado do Rio, foi promotor, depois de ter advogado em Valença, desde 1894 a 1914.

 

De S. Paulo, voltando, em 1918, a Valença, exerceu aí as funções de promotor de Justiça e de delegado de polícia do município. Nos autos, seus magníficos arrazoados forenses, além de fino estilo, tinham o sabor do senso, que tanto o caracterizava em suas defesas ou acusações. Numa simples carta ou num mero bilhete, Nuno Pereira se revelava o amante da linguagem limpa e elegante. A sua espontânea preocupação era a simplicidade.

 

Êsse espírito sarcástico, que madrugara no estro de Nuno Pereira, teria que o acompanhar pela vida em fora, para estuar em manifestações de indignação e revolta, contra o êrro e a injustiça. E foi, por certo, animado dêsse sentimento que, numa sátira memorável, estigmatizou êle, em 1916, a decisão de um Tribunal que, esquecido de sua missão, falseou a Verdade, para servir aos poderosos do dia. Êsses versos, dedicados à vítima do aresto iníquo, merecem ser transcritos:

 

Si p’ra vencer-te a resistência intrépida

preciso foi que um Tribunal mentisse;

si foi preciso que êle assim se visse

na contingência de esmagar a lei:

Ábaco, — então, não foste tu a vítima

dêsse hediondo Tribunal nefando,

nem êsse aresto corrompido e infando

pode ferir-te a dedicada grei...

 

Quando um Ministro se converte em rábula

e troca do Direito a estrada plana,

pela vereda escusa da Chicana

e do torpe Sofisma sem pudor:

é pela Lei, pela Justiça imácula,

que ficam carregadas de negrumes,

  que devemos erguer nossos queixumes,

que devemos soltar nosso clamor!

 

Pela moral — e não pelo indivíduo —

é que deve surgir todo o protesto,

por isso que — um semelhante aresto

não fere só a um simples cidadão!

conspurca a Lei; mancha a Justiça emérita;

tisna a Razão; ofende a Sociedade

bate em cheio na face da Verdade,

revolta e afronta a tôda a comunhão!

Quando é assim que um Tribunal sacrílego

Decide um pleito que lhe é presente;

quando é assim que, deslavadamente,

proclama êle a sua decisão:

    tal decisão não desafia a crítica;

é tão baixa, tão vil e tão infame

que não merece estudo nem exame:

só desprêzo merece e maldição!

 

Maldito, pois, ó Tribunal Egrégio,

que apunhalaste, na sagrada liça,

a mimosa figura da Justiça.

    êsse nosso ideal e nosso bem!

maldito sejas, Tribunal iníquo,

com tuas decisões interesseiras:

    EGRÉGIO TRIBUNAL DE BANDALHEIRAS,

digno de asco e digno de desdém!...

Atuou como mentor de partido político, por muito tempo, em Valença. Chegou a rejeitar uma cadeira de deputado estadual. Pobre embora, tinha prestigio bastante para conquistar posições. Por exagerada modéstia, não aproveitara o seu talento de escol que estava mais ao serviço de outrem que mesmo de si próprio. Foi um líder respeitável e temível nas lutas partidárias de Valença. Na imprensa local, foi irônico e venenoso, e as suas crônicas tinham larga repercussão. Seduzia-o o jornalismo provinciano. Sob a bandeira de Nilo Peçanha, sua astúcia preocupava os adversários políticos.

Foi o mais elegante poeta do seu tempo, na terra valenciana. Seus versos, rigorosamente metrificados e rimados, eram espontâneos e de profunda sensibilidade.

Recordemos Nuno Pereira, num dos seus mimosos discursos em versos, pronunciado num casamento:

NUM BANQUETE DE NÚPCIAS

Noivos l

Que seja para vós a vida

calma e tranquila como um lago ameno!

 Que ela deslise triunfal, suave,

como o vôo sereno de uma ave

cortando os ares sob o azul sereno!

E que nunca uma gota dolorosa

de pranto, pela Sorte provocado,

possa manchar a face setinosa

e a maciez do melindroso arminho

com que foi, tão cuidoso, fabricado

 o vosso brando e confortável ninho!

 Que não desponte nunca a vez primeira

de encrespar a tormenta a face lisa

da deleitosa linfa prazenteira

dêsse viver que, plácido, deslisa!

Nem brotem no vergel de vossa vida

os espinhos agudos, os abrolhos,

e nem haja uma lágrima sentida

 jamais chorada pelos vossos olhos!!

 

Noivos!

Que corra para vós a vida,

Sem uma estilha de ligeiras máguas,

como, ao soprar de viração querida,

corre um bateI sôbre tranquilas águas!

E como êsse batel — de venturoso —

há de alcançar o pôrto, o mais seguro,

assim também o bergantim mimoso

de vossa vida, — que vos leve, airoso,

ao remanso encantado do Futuro!

 

Sêde felizes na existência inteira!

Felizes sêde pela vida afora,

vida que se ia, sob eterna aurora,

    sorridente, mimosa, prazenteira —

como um jardim fantástico de Flora

em que espinhos não haja; e em que sômente

para lembrar os esponsais de agora,

de uma frisante e típica maneira —

alvejem, soa. — o lírio alvinitente,

o  cravo branco, a rosa alabastrina,

a cândida açucena peregrina

e a cubiçada flor de laranjeira!

Sêde felizes na existência inteira!

Que a saúde, a fortuna, o bem terreno,

tôda a sorte de dons celestiais,

poisem sôbre o vosso lar sereno

entre as mais gratas alegrias francas,

como poisa no encanto dos pombais,

em graciosas curvas, aos casais,

um bando todo de pombinhas brancas!

Eia, convivas! Pela eternidade

desta data feliz; pela ventura

eterna dessa dupla mocidade,

que sempiternos gozos se assegura;

Convivas! eia: levantai as taças!

 E vossos votos ajustando aos meus,

para os noivos, pedi — tôdas as graças.

tôdas as bênçãos, todo o amor de Deus!

Vejamos, agora, o poeta valenciano, o seu poema intitulado:

A CHEIA

A chuva tomba a cântaros:

no vale, o rio engrossa,

cresce, recresce, e a roca

inunda, ao lavrador,

E na carreira célere,

investe contra os troncos,

    com mil embates brancos,

rugindo com furor!

 

Por sôbre o leito túmido,

rolam as águas turvas..

Nas apertadas curvas,

torcem-se em convulsões.

Depois — o rio impávido

despenha-se da altura,

e, em baixo, a vaga escura

referve aos borbotôes...

 

A essas águas rábidas um outro rio,

às essas vem ajuntar, e as duas

lá vão — a galopar!

 Já na planície, alargam-se,

de força tal, que o rio,

intérmino e bravio,

já não é rio — é mar!

Mas a planície estreita-se...

No vai, que se acentua,

de nova tumultua

o rio, com fragor.

Aumenta o precipício:

e agora, — lá, bem fundas,

as águas furibundas

redobram de rancor !

 

Atiram-se coléricas

de encontro à rocha viva,

na ardente tentativa

inútil, de a abalar!

E a cada embate isócrono,

responde, enfurecido,

o ronco de um bramido,

como o bramir do mar!

Liberta, enfim, do báratro,

do abismo, que a premia,

 reponta à luz do dia,

incólume, a caudal!

E abrindo as águas múrmuras

ao longo do seu curso,

prossegue em seu percurso,

ovante e triunfal!

 

Não muito além, de súbito,

uma barreira ingente

opõe-se, frente à frente,

à sua marcha audaz.

E o rio, — águas em circulo —

O seu poder gradua.

Concentra-se, recua,

e avança para trás.

 

Quando, de novo, indômito,

retorna na carreira,

-— já galga a cordilheira,

num ímpeto imortal!

E dêsse salto intrépido,

o ronco, que reboa.

    ao longe, ao longe, ecoa

como um trovão brutal!

E a cada ronco tétrico,

sucede um outro ronco,

soturno, cavo, bronco,

de cólera ou de dor!

Perante a fúria trágica

das águas, que assim fremem,

os seres, todos, tremem,

transidos de pavor!

Por fim nas águas túrgidas,

que, infrenes e revôltas,

como animais, as sôltas,

em disparada vão,

         -— passam destroços rústicos;

tudo o que o pobre tinha:

os trastes, a casinha

e a roça e a criação...

Como supremo escárneo,

como sarcasmo extremo,

passa também, um remo

da correnteza, à flor.

Remo, talvez de um náufrago,

que, ora, lutando esteja.

Acode-lhe, Senhor!...

Senhor! Misericórdia!

Infunde-lhe coragem,

e arranca da voragem,

o filho do sertão!

Talvez que agora, súplices,

uns meigos pobrezinhos

o gritem, dos caminhos...

Em vão! Senhor! Em vão!

Que ao sertanejo exânime

a tua mão, tão boa.

governe-lhe a canoa,

que, sem govêrno, vai...

Permite que êsse mísero

a salvamento vogue...

— Nem deixes que se afogue

um filho teu que é pai!

 

O que foi Nuno Pereira, no lar, dizem, com aquela eloquência comovedora, os seus

aprimorados versos:

NINANDO...

Filhinha, vem, vem a meu braço,

Vem descançar de teu recreio.

Dorme teu sono em meu regaço,

sonha feliz, junto a meu seio.

Os Anjos vão, nos Céu, agora,

sonhar um sonho alegre e lindo!

Já os ninou Nossa Senhora,

e êles estão todos dormindo!

Anjo também és tu, filhinha,

anjo do Céu, que Deus me deu!

Dorme também. Tua caminha,

a fiz, assim que anoiteceu - . -

Dorme, fi!hinha: os passarinhos

estão dormindo no arvoredo.

 E deixarão seus fôfos ninhos

só amanhã, de manhã cêdo.

 

Tu és também um passarinho,

um beija-flor que Deus me deu!

E o meu regaço é um brando ninho,

E foi Jesus quem o teceu...

Dorme, filhinha! Adormecidas,

pendem na haste, as florezinhas.

Deu-lhes o sol côres garridas:

sonham com êle as pobrezinhas.

 

Tu és também mimosa. flor:

    lírio ideal que Deus me deu,

que, um dia, ao sol do meu amor,

No coração me floresceu!

                                                                     

    A flor e o anjo estão sonhando,

O passarinho está dormindo:

    — dorme, também, teu sono brando:

    sonha também teu sonho lindo.. –

Muitas e belíssimas poesias brotaram do estro admirável de Nuno Pereira, algumas publicadas pela imprensa, maioria delas ainda inédita. As suas produções literárias não se limitaram, porém, à poesia, pois escreveu êle vários trabalhos jurídicos e discursos que se tornaram dignos, pela beleza do estilo e pela clareza e correção da linguagem.

Nuno Pereira, cercado dos carinhos de sua espôsa e filhos, faleceu, em Barra do Piraí, aos 27 de outubro de 1929.

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