Valença de Ontem e de Hoje

GALERIA VALENCIANA

MANOEL QUINTÃO

   

  Manoel Justiniano Quintão, nascido em Quirino, 2o distrito do município de Valença, Estado do Rio de Janeiro, aos 28 de maio de 1874, é filho de Antônio Gomes de Freitas Quintão e de D. Maria Amélia Justiniano Quintão. Até aos 14 anos de idade, residiu em Santa Izabel do Rio Prêto, onde frequentou a escola de primeiras letras e onde precocemente revelou seus pendores literários, improvisando um pequeno jornal manuscrito, acolhido com escândalo.

Não teve curso de instrução superior. Impossibilitado, econômicamente, de matricular-se na Escola Naval, para o que procurava estudar consigo e por si mesmo — pois que era êsse o seu ideal — teve de optar pela carreira comercial, nela grangeando a melhor reputação como guarda-livros. Sem embargo de arduíssimos labores, não havia como iludir a inata vocação e assim entrou a colaborar, sob pseudônimo, em vários jornais do Rio, especialmente no “O País” onde, ao tempo, fulguravam as penas de Quintino, Salamonde, etc. Foi aí que o saudoso Artur Azevedo acolheu os seus primeiros versos, estimulando-o a espalhá-los na “Revista da Semana”, “O Malho”, e outras publicações tanto da Capital Federal como interior dos Estados.

 

Em Vassouras, onde constituiu família, teve Manoel Quintão o seu período máximo de atividade literária, colaborando n´“O Município”, semanário que fez época na imprensa fluminense, graças à colaboração de Raimundo Corrêa, Alberto de Oliveira, Jorge Pinto e Padre Olímpio de Castro. Aí teve a máxima consagração do Príncipe do jornalismo, o impoluto Quintino Bocaiuva, então presidente do Estado do Rio, Manoel Quintão não quis, entretanto, fazer política, onde poderia realçar, mas que sempre julgou ingrata, e voltou ao comércio, conquistando a sua relativa e modesta independência, e pôde, finalmente, devotar-se à propaganda da sua fé espírita. Precisamente, nêsse campo filosófico, é que a sua pena se vem revelando multifàriamente fecunda há cêrca de quarenta anos. Presidente da Federação Espírita Brasileira, em diversos períodos, diretor da revista “O Reformador”, os seus trabalhos em prosa e verso dariam vários volumes, além das muitas traduções de obras estrangeiras, apreciadas pela casticidade do seu estilo.

Passemos, agora, a sentir Quintão na sua bela arte do verso:

AD VITAM AETERNAM

Num doce, estranho e amoroso rito,

noivaram-se afinal,

Êle — baixando meigo do infinito,

Ela — subindo exul de um lodaçal.

Por prevenir os esponsais, um grito

De amor percorre o universo inteiro,

circunscreve-se o mal...

 

Toucam-se os astros de um fulgor faceiro

E há por montes e vales um bendito

sorriso triunfal

 

No seu covil, esconde-se o chacal,

a veiga é tôda em flor;

Freme no bójo mudo a própria argila,

E o verme, e a flor, e a estrêla que cintila,

tudo ressumbra Amor!

 

De em tôrno à Terra, menestréis alados

Descem, hosanas conclamando e a cada

Beijo do Céu, a terra fecundada

proclama o seu Senhor!

 Ei-los no Templo, enfim: Ela, criança,

sorrindo ao seu olhar...

Êle, no olhar levando-lhe a esperança

de um futuro melhor.

E nunca mais, oh! nunca, o Tempo há-de

Separá-los na senda da Verdade.

que o consorcio traduz...

............................................................................

Chama-se a noiva humilde — Humanidade,

chama-se êle — Jesus!

 

HOMEM-VERME

Quem te deu, homem-verme, êsse corpo de lama,

Que te orgulha no mundo e te anula o saber?

    O saber que não sabe o que seja, na trama

Da vida, o que perfaz a essência do teu ser.

O gênio e a glória, o enrêdo do teu drama,

Que no tempo se estilha e supões compreender,

Não extinguem, confessa, a voragem da chama,

Que a razão te consomem, a viver por morrer.

 

Sabes tu, por acaso, oh! Cenobita inerme

Como foi que esplodiu o primitivo germe

De tudo quanto vês e de ver não te eximes?

 

Estulto microzoário, pólem do Universo.

Escarninho e revel, eis-te em sombras imerso,

Sem saber que em ti mesmo, tudo e nada exprimes.

 

REALISMO

Primoroso, pompas, graças peregrinas,

Tudo que prende, que seduz e encanta,

O mundo em ti proclama com divinas

Falas, e até dizem- te pura e santa.

Concordo: és bela; mas, repara quanta,

Quanta tristeza em ver-te me propinas,

Porque a beleza o orgulho teu quebranta,

E os dotes dalma esqueces e assassinas.

 

Entretanto eu me lembro: tu pedias

Que te cantasse as graças num soneto,

Filigranando o amôr e... fantasias...

E eu, porque a vida nossa é passageira,

Fico a pensar na forma do esqueleto

Do teu corpo, ao sorrir de uma caveira...

 

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