HERMANO BRUNER

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Hermano Bruner nasceu em Quirino, no 2o distrito do município de
Valença, Estado do Rio, aos 26 de junho de 1885, e era filho de José Bruner e
de D. Mariana Bruner. Hermano Bruner iniciou seus primeiros estudos
no antigo Colégio Fascioti, na cidade de Valença, e, com explicadores
particulares, conseguiu obter todos os preparatórios. Terminado o curso
ginasial, matriculou-se na Escola Militar, do Rio de Janeiro, onde foi colega de
turma do general Cristóvão Barcelos. Antes, porém, de concluir o curso, foi
Hermano expulso, tantas fez.
Voltou
a Valença, onde permaneceu por algum tempo, seguindo depois para a cidade de
Ouro Prêto, passando aí a frequentar a célebre Escola de Engenharia. Em 1919,
seguiu para Vitória, no Espírito Santo, onde ocupou, de início, o cargo de
engenheiro da Secretaria de Obras. Dentro de pouco tempo, porém, abandonou êsse
cargo, indo para a vila de Alfredo Chaves, dedicando-se aí à agrimensura.
Residiu em outras localidades, para voltar, pouco depois, em virtude de
caprichos íntimos.
Sem
destino, tomou, um dia, o primeiro vapor, e foi dar com os costados no Pará,
onde passou algum tempo trabalhando, para, graças à interferência de amigos,
regressar, novamente, a Vitória e daí
a Alfredo Chaves.
Grande
talento, o de Hermano Bruner. Sensibilidade artística, perfeito conhecedor da
arte de fazer versos, cuja técnica conhecia como um mestre. Hermano Bruner —
pena é dizê-lo — levava uma vida desregrada. Muito boêmio, era inconstante,
e, porisso, sofria intimamente... Na
sua existência atribulada, o poeta valenciano só teve amores infelizes.
Deixou
vasta bagagem literária, trabalhos esparsos, publicados em quase todos os
jornais e revistas do pais, principalmente na imprensa carioca.
Vejamos,
agora, como se refere o poeta Arnaldo
Nunes ao vate de “Contos Modernos”, na crônica intitulada “Um
poeta esquecido”, publicado em “Vida Nova”, de 1944:
“Pela extensão geográfíca do nosso país, pela deficiência de estudos completos e mesmo pela inconsequência dos grupos de elogio mútuo, únicos que proliferam aqui e ali, com eficiente hostilidade a tudo quanto não pertença às respectivas igrejinhas, muita coisa se perde nos vastos recantos provincianos, sem estímulo e sem irradiação alguma.
Bom exemplo têmo-lo em Hermano Bruner, belo poeta fluminense, que viveu até há pouco e que espalhou fartamente pelas nossas revistas e jornais, durante o largo período de algumas décadas, os magníficos frutos do seu másculo talento. E, entretanto, não se lhe vê o nome, mesmo de passagem, em nenhum trabalho de natureza histórica, antológica ou informativa.
Meu conterrâneo, em contemporâneo, em Valença (e, com Francisco de Paula Monteiro de Barros, meu primeiro mestre na arte do verso, que se estudava às direitas naquêles tempos), Hermano ali fez os seus preparatórios, vindo pouco depois para a Escola Militar, de onde foi expulso, por indisciplina.
Mais tarde, engenheiro, transferiu-se para Vitória. Sensível, lealíssimo, bom ao último ponto, mas irrequieto, impulsivo e dado ao álcool, duas vezes foi admitido na Secretaria de Estado e duas vezes, apesar de bastante estimado, abandonou-a, indo viver da agrimensura, no interior capichaba.
Depois de uma vida infernal, cheia de acidentes, às vezes graves, quase sempre em consequência de noivados desfeitos (que os teve, e muitos, desde Valença, sem haver-se casado) êsse inspirado vate, cujas desventuras não raro lembram as de Varela, faleceu, em 1939, em Alfredo Chaves, naquêle Estado, com 54 anos de idade.
Infelizmente,
em livro, só nos deixou “Contos Modernos”, de 208 páginas, editado em Rio
Novo, Minas Gerais, em 1910. Foi uma estréia fraca, embora contendo alguns
quadros da roça, verdadeiros e bem pintados. Aliás, foi muito mais poeta que
prosador, tendo mesmo causado surpresa que estreiasse em prosa. Hábil e
perfeito manejador do verso parnasiano, que o era na forma e às vezes no fundo,
produziu verdadeiras gemas, dignas de antologia. Vejamos êste soneto:
A
M U R A L H A C H I N
E S A
Desafiando
o poder dos séculos, enorme
E
negra, austera e rude, a grandiosa muralha,
Sombra
da antiguidade imorredoura, dorme,
Dorme
na eterna paz que em derredor se espalha.
Tem
rombos de canhão e sulcos de metralha
No
seu dorso sem fim de serpente disforme;
E,
em frente a cada golpe antigo, que a retalha,
Não
há quem do passado
algum sonho não forme!
No
seu longo percurso afronta selvas, onde
A
luz solar não vai além de cada fronde;
Reta,
ou coleando. atinge altos montes sem vida.
E,
dentro da sua ruína, essa muralha imensa,
No
seu leito de olvido e solidão, condensa,
Tôda
a história imortal de uma raça esquecida!...
E’,
como se vê, um parnasiano, neste soneto, na forma e no fundo, mas de alta
inspiração. Agora êstes dois, que, endereçados a uma das muitas noivas,
provocaram o rompimento, em virtude da confissão que revelam:
A
O R A Ç Ã O
I
E’s
feliz, porque
a Deus sabes orar: e, orando,
Na
alma sentes a luz da crença que conforta
Brilhar
como o fulgor incomparável, brando,
De
uma aurora, que vem do oriente abrindo a porta...
Quando
sobem ao céu tuas preces, um bando
De
doçuras sem fim o
espaço imenso corta.
Na
asa da fé sublime, e, em teu seio pousando,
Ressuscita,
quem sabe! uma esperança morta...
E’s
feliz, porque és boa e crente, meiga e pura
E
teu rôgo, subindo à constelada altura,
Num
clarão de alvorada o
paraíso invade!
Ora!
Tua oração é uma essência divina
Que
se transforma em luz radiosq, que ilumina
A
beleza triunfal da tua mocidade!
II
Ah
! se eu pudesse orar e fosse crente! Certo
Seria,
como
tu, ditoso, puro e
nobre,
No
abandono polar dêste hediondo deserto
Que
de perpétua dôr minha existência cobre!
Orar!
mas a oração é um bem celeste! Pobre
Da
fé —
rico, porém, de orgulho — vivo
perto
Dos
sentimentos máus! Não há fôrça que dobre
Meu
rude ceticismo, à iniquidade aberto!
De
que vale a oração eivada de descrença?
Jornais
atinge o
céu e nem calmo dispensa
Ao
descrente que a diz num desespêro mudo!
Não,
eu não devo orar, minha consciência diz-mo:
Da
tristeza e da dôr no congélido abismo,
De
que vale a oração de quem descrê de tudo?...
Após
o dito rompimento, que levou Hermano
a uma série de desatinos, inclusive, com
grande escândalo, sair correndo
pela rua, atrás da ex-noiva, com uma espingarda na mão, fazendo-a, a ex-noiva,
a um disparo para o ar, cair num riacho, veio, serenados os ânimos, êsse belo e
doloroso
A
B A N D O N O
No
abandono glacial, que me cerca e tortura,
Desde
que esbarrondaste o
meu sonho bendito,
Meu
coração tornou-se uma floresta escura
E
descrendo de tudo, em pleno inferno habito.
Blasfemo
contra o céu e contra a vida impura
Numa
agonia insana e fera de precito
E
meu brado sem fim de fremente loucura
Perde-se
na amplidão, esvai-se no infinito.