GARCIA JUNIOR

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Manoel da Rosa Garcia Junior, natural da cidade de Valença, Estado do Rio de
Janeiro, nasceu em 5 de março de 1875 e era filho de Manoel da Rosa Garcia e de
D. Sofia Madalena Ferreira Garcia. Frequentou, aos sete anos de
idade, a Escola Freitas, à rua Silveira Vargas, em Valença, indo, depois, para
a Escola Marinoni, na mesma cidade.
Demonstrou
sempre um gênio irrascivel e um temperamento voluntarioso. Daí os inúmeros
castigos que sofria nas escolas, e, nos quais, por vezes,
tinha
de permanecer até amarrado para não evadir-se.
De
Valença, seguiu, em companhia de seus irmãos, para o Colégio de S. João del
Rei (estabelecimento dirigido por padres). Por volta de 1895, transferiu-se para
o Rio, onde frequentou aulas durante dois ou três anos, mas frequentando, em
verdade, muito mais, as rodas literárias da época, fazia vários amigos, a par
de uma boemia decidida, sustentadas pelas grossas mesadas que desfrutava da boa
vontade paternal. Começou, a êsse tempo, ser grande cultor da língua, e
sustentou, por isso, inúmeras polêmicas pela imprensa carioca. Ficou célebre
a polêmica que manteve por algum tempo com Osório Duque Estrada, publicando-a
em folheto sob o título Critico das dúzias”.
Mais
tarde, voltando a Valença, chegou a administrar a fazenda do “Quilombo”, de
propriedade de seu pai; mas, seu temperamento irrequieto fé-lo retornar ao Rio
de Janeiro, onde passou a escrever para o “Jornal do Brasil”, “O País”
e “Gazeta de Notícias”, privando intimamente com Bilac, Alberto de
Oliveira, Aluízio de Azevedo, Coelho Neto e Raimundo Corrêa (então Juiz de
Direito da Comarca de Vassouras), com quem muitas vezes visitou Valença. Era
também companheiro inseparável do poeta valenciano Hermano Bruner.
Por
artigo que escrevia, pagavam-lhe Cr$ 50,00, o que era, para Garcia Junior,
motivo de tremendas descomposturas sôbre os que lhe solicitavam suas colaborações.
Sua independência tocava às raias do absurdo. Garcia Junior
nunca se sujeitou a qualquer espécie de mando. Desprezava os empregos com o
maior indiferentismo. Por morte de seus pais, e tocando-lhe em partilha a chácara
da antiga rua
Palha,
na cidade de Valença, para lá mudou-se, transportando a sua então notável
biblioteca.
Da
sua preciosa bagagem literária destacam-se as seguintes obras publicadas:
“Espumas”— versos, Livraria Jacinto, Rio — 1896;“Livro de Hilda” —
versos; “Fosforescências” —versos;“Momentos”— prosa — Laemmert
& Cia., editores — Rio; “Critico das dúzias” (combate à crítica de
Osório Duque Estrada — discussão literária) — tip. do “Correio de Valença”;
e “Inutilidade da Prece”-— poemeto, tip. do “Corteio de Valença” —
1911.
Conheçamos
Garcia Junior num dos seus sonetos, intitulado:
Não
sei que faça, que desejos tenha;
Qual
seja o meu porvir, a vida minha;
Si
a deusa sois, a mágica rainha.
Que
a fantasia em sonhos me desenha!
Em
que trevas não sei em que se embrenha
Esta
minhalma triste; o que adivinha
Meu
triste coração, e que mesquinha
Visão
vem segredar-me em voz rouquenha:
Porque
sorrio, e choro ao mesmo tempo:
Que
seja êste penoso contratempo
Que
de cuidados enche esta minhalma!
Só vós podeis mostrar a solução
Dêste
problema... Dai-me um “sim”, um «não
Que
sim, ou não, talvez eu tenha calma!
Na
sua vida de boêmio, aproveitava as oportunidades para praticar o bom humor.
Conta-se que, certa vez, Garcia Junior, trabalhando, de enxada na mão, no
quintal de sua residência, em Valença, no preparo de hortaliça, que muito
apreciava, quando foi procurado por um cavalheiro, que mais tarde se soube
tratar-se de um ilustre escritor carioca, que desejava conhecer pessoalmente o
vate valenciano. Garcia Junior, que se achava descalço, de calças, arregaçadas,
de braços nús e tendo à cabeça um vasto chapéu de palha, veio ao portão
para receber o visitante desconhecido.
— E’ aqui onde mora o senhor Garcia Junior? — indaga o visitante.
— Sim, é aqui mesmo. Faça o favor de entrar pela porta da sala — respondeu Garcia, sem darse a conhecer, dando volta pelos fundos da casa, para ir recebê-lo à porta da sala.
O visitante senta-se a convite de Garcia Junior, enquanto que êste se refastela na sua velha e carcomida cadeira de balanço.
Passaram-se vinte minutos. Ambos em silêncio. Silêncio absoluto. Mas, o escritor carioca estava ansioso por conhecer o poeta da rua da Palha... E não se contendo, já impaciente, perguntou:
—
Onde está o senhor Garcia Junior? Desejo falar-lhe.
E Garcia, calmamente, levantando-se, com a maior naturalidade dêste mundo, respondeu:
—
Um seu criado, para servi-lo.
Passado
o instante de estupefação em que se mergulhara o jornalista visitante, era
natural que demorada e interessante fosse a palestra ali desenrolada entre os
dois intelectuais... Assuntos de literatura, latim, grego, poesia e gramática
foram discutidos e desenvolvidos pelo poeta de Valença.
Garcia
Júnior tinha as suas excentricidades. Gostava de decepcionar. Não foi com
muita cerimônia que o vate valenciano, prefaciando êle mesmo um livro seu,
subscreveu a seguinte frase: “Antes
só que mal acompanhado”.
De
outra feita, o excêntrico poeta, que tinha por hábito usar trajes esquisitos,
relembrando aquelas figuras antigas de chapéu alto, em forma de chaminé e com
aquêle paletó à maneira de casaca, de larga roda, exibiu-se, um dia, nas ruas
centrais do Rio de Janeiro, envergando, virada pelo avêsso, uma sobrecasaca sem
gola. Com efeito, o escândalo e a hilaridade não se fizeram esperar... E o
sucesso foi enorme entre os seus amigos da Avenida Central.
Apreciava
e usava largas gravatas, de laço à borboleta, que êle mesmo confeccionava em
casa. E preferia as de uma tal fazenda de xadrezinho.
Garcia
Junior faleceu, na cidade de Valença, aos 5 de janeiro de 1912, deixando viúva
e seis filhos.