Valença de Ontem e de Hoje

GALERIA VALENCIANA

ELMANO CARDIM

— Elmano Cardim nasceu na cidade de Valença, Estado do Rio de Janeiro, em 24 de dezembro de 1891. E’ filho de Francisco Eduardo Gomes Cardim e de D. Adélia Figueira Cardim, também valenciana. Elmano Cardim fez seus estudos primáríos no Colégio Faceira, e em outros colégios da cidade de Valença.

 

Em 1902, seu pai era estabelecido com comércio na antiga rua dos Mineiros, em Valença, fazendo parte da firma Oliveira & Cardim. Mudou-se, mais tarde, com sua família, para Juiz de Fora, onde Elmano matriculou-se e cursou a Academia de Comércio. Em 1906, transferiu-se para o Rio e ai Elmano Cardim cursou os colégios D. Pedro II e Alfredo Gomes, realizando o seu curso secundário. Em 1914, bacharelou-se em direito pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro.

Elmano Cardim teve também a sua vida pública. Em 1915, foi nomeado oficial de Gabinete do Ministro da Justiça, dr. Carlos Maximiliano, pôsto em que permaneceu até 1926, servindo com os Ministros, que se seguiram, Urbano dos Santos, Alfredo Pinto, Ferreira Chaves, João Luiz Alves e Afonso Pena Junior. Depois ocupou, no Rio, o cargo de escrivão da 1a Pretoria Cível, de onde passou, mais tarde, a escrivão da 4a Vara Cível.

 

Acima de tudo, Elmano Cardim tornou-se jornalista. Desde muito criança compreendeu sempre a imprensa na sua alta finalidade orientadora, nela militando com independência e altivez.

 

O grande jornalista patrício Brida Filho, diretor do antigo jornal “O Século”, do Rio, referindo-se a Cardim, em uma crônica publicada no “Correio da Manhã”, de janeiro de 1941, escreveu:

 

“Em meiados de março de 1908, antes do meio-dia, entrou pela redação uma criança, de 17 anos incompletos, trazendo-me uma carta de recomendação do conceituado negociante Joâo Borges, pai do dr. João Borges Filho, vice-presidente do Jóquei-Clube Brasileiro (cá venho eu - com a minha mania de incorrigível turfman). Gostei da figura insinuante do adolescente e da simpatia, que irradiava. Perguntei se já tinha trabalhado em jornal. Não, respondeu. Bem, não importa, obtemperei, não faz mal, é um foca que vai agir, considere-se admitido, sente e espere pela volta dos rapazes, que andam por aí na colheita de notícias, para ser então combinada a tarefa que vai desempenhar. Nisto, subiu esbaforido, a escadaria, um repórter-amador ou um carioca-repórter — já nessa ocasião os havia, embora não remunerados, — e arrumou com esta nova: — “um assassinato na Avenida, esquina de uma das ruas transversais”, Ninguém estava disponível para essa reportagem de polícia. Virei-me para o Cardim e disse: — “Tem você oportunidade para estrear; vá, tome as notas e as traga para serem redigidas; lembre-se, sobretudo, de que precisa andar depressa; o jornal da tarde é feito aos arrancos, aos sopapos, aos solavancos”. E o Cardim partiu. E dentro em breve voltava com os apontamentos. A ocupação era geral. O Germano de Oliveira, o Germanínho, como o chamávamos, destrinçava os telegramas: o Osório de Brito elaborava um tópico, o Antônio Sales preparava um dos humorísticos sonetos com que embelezava a secção Agulhas e Alfinetes, o Mário Cataruzza bordava a secção Novidades, e eu, a passear de um lado para outro, ditava, como de hábito, o artigo de fundo. Lá de baixo, o Lima, o Metodista, sucessor do Cláudio Toussaint, o paginador, gritou: —— “originais: mandem originais”. Era uma atrapalhação dos diabos. Foi quando tomei a resolução de me aproximar do recomendado do comerciante, para exclamar: “Menino, não há remédio, faca você mesmo a notícia; não se estenda muito porque às duas horas a máquina deve rodar”. E o Cardim ocupou uma das mesas e encheu os linguados, desempenhando-se da fâina como podia. A narração do crime estava bem feita. As passagens principais estavam corretamente concatenadas. Passei os olhos pelas tiras de papel e fiquei satisfeito. Foi uma verdadeira revelação. “Você vai dar para a coisa, vai longe”, acrescentei. E na hora do costume movimentava-se a Marinoni, trazendo a produção do periodista incipiente. Ficou, portanto, incorporado ao grupo dos moços, que a meu lado mourejavam, dos quais com saudade e reconhecimento me recordo. Poucos dias eram passados quando se deu uma ocorrência merecedora da ação dos trabalhadores do prelo, Franklin Drumond, dono do Jardim Zoológico, meteu-se a brincar com uma da feras de sua interessante fauna e o animal, enfurecido, ferrou-lhe os dentes na mão e no ante-braço esquerdos. Encarreguei o novato de fazer o serviço. Saiu-se cabalmente da incumbência. E a narrativa foi publicada com os detalhes necessários, aparecendo até o cliché da jaula em cujo interior se encontrava o herói da agressão, o rei das selvas, o leão Romeu, ao lado de sua querida Julieta, iniciativa rara naquela quadra em que quase não havia a intervenção do fotógrafo, com o estouro do magnésio. O Cardim, como se vê, despontou na minha falange com elementos para ascender, para ascender bastante, para chegar à culminância jornalística, rodeado da consideração pública, respeitado pelo critério, precocemente revelado, distinguido pela ponderação com que se pronuncia, acatado pela demonstração de um talento fulgurante. Não me tirem a glória de haver sido o seu introdutor no jornalismo. Elevem-no, engrandeçam-no, louvem-no, mas não atirem ao esquecimento aquêle que o viu nascer na imprensa. Exaltem-no, glorifiquem-no, mas não se esqueçam de dizer que foi comigo que começou.

 

Ao mesmo tempo em que militava na redação d’“O Século”, exercia as funções de revisor do “Diário do Comércio”, do Rio. Em 1909, ingressou Elmano Cardim no “Jornal do Comércio”, da Capital Federal, continuando aí a sua luta de repórter e aperfeiçoando-se na revisão. A sua carreira, no “Jornal do Comércio”, foi das mais brilhantes: não tardou a passar a redator, a diretor, para, finalmente, ser, em 1941, co-proprietário do grande órgão da imprensa brasileira.

 

E’ — como dizia Quintino Bocaiuva — “jornalista desde a cozinha à sala de Visitas do jornal”. Como literato, Elmano Cardim, além de orador, publicou inúmeros trabalhos de merecimento, destacando-se: “As conferências do Prof. Sarric” — edição do “Jornal do Comércio” — 1934; “José Maria Cantilo” — conferência — ed. do “Jornal do Comércio” — 1938; ‘Rui Barbosa, jornalista”, conferência no “Jornal do Comércio”; “Machado de Assis, jornalista” — conferência — “Jornal do Comércio”; e “General Santander, libertador da Colômbia” — conferência — “Jornal do Comércio”.

 

Em princípio de 1947, quando Elmano Cardim se encontrava em Nova York, em viagem de recreio, foi êle designado pelas Nações Unidas para membro do Comité dos Perítos sôbre a disseminação de informações públicas, o qual era constituido de 14 membros.

 

Em 1951 foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras.

 

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