DULCINA DE MORAIS

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A atriz Dulcina de Morais nasceu na cidade de Valença, Estado do Rio de
Janeiro, em 3 de fevereiro de 1907, no velho edifício onde funciona,
atualmente, o Pálace Hotel Vista Alegre.
E’
filha dos velhos e consagrados atores Átila Galaor de Morais, natural também
de Valença e falecido em 24-2-1948, e de D. Conchita AIvares
Bernard, cubana, casados em Dôres do Guaxupé, em Minas. Seus pais eram
elementos destacados da afamada Companhia Dramática “Francisco Santos” que,
com cêrca de 40 figuras, fazia, naquêle ano, a sua temporada em Valença.
Instalados
no andar superior do prédio que pertenceu à Baronesa da Vista Alegre, sito à
rua Nilo Peçanha, foi aí que, numa linda manhã, aos sorrisos de um sol
imponente, às 9 horas e trinta minutos, veio ao mundo Dulcina de Morais, no seu
destino já traçado de artista que, um dia, teria o orgulho nacional. Dulcina
teve o seu primeiro contacto com o público
aos três meses de idade. Foi no drama de Marcelino Mesquita, intitulado — “Dor
Suprema”. Entrava e saia ao colo de sua mãe,
numa das cenas do drama.
Aos
cinco anos de idade tomou parte no drama “A
Filha do Mar”. Foi educada num internato. Estava ela destinada pelos pais
a ser empregada no comércio.
Teatro?
Arte? Nem por sonho, menina — replicavam êles.
Ela
deveria estudar. O teatro não tem futuro — pensavam êles. E, assim, dentro
desse critério, educaram-na, sem medir sacrifícios.
Dulcina
matriculou-se nuns curso de datilografia e contabilidade mercantil, no Rio,
tomando lições de inglês. Diplomada, foi à procura de emprêgo, que leu num
anúncio de jornal. No escritório da rua Santa Luzia, entre outros candidatos,
Dulcina se submetera à prova de habilitção. Inquieta, espírito ágil e
nervoso, tão logo, concluiu, pois que, para ela, aquilo seria um martírio.
Ao
chegar a sua vez, errou propositalmente as provas, para ser desclassificada,
porque não gostava de escritórios e tinha horror à máquina de escrever. De
fato, Dulcina tinha aversão à correspondência. Jamais escreve às suas amigas
e a parentes.
Em
1922, porém, o nome de Dulcina de Morais surgia nos cartazes do “Trianon”,
na comédia “Querida Vovó”. Em
1927, Leopoldo Fróis, que estava no Carlos Gomes a braços com a falta de
atrizes, convenceu Átíla de Morais a deixar sua filha ingressar no elenco e
ela estreou, efetivamente, na comédia “Lua
Cheia’, ocupando, desde logo, o lugar de estrêIa.
Foi
a Buenos Aires com a Companhia de Leopoldo Fróis, e lá os críticos
apelidaram-na de la Chica de Fróis. A
preocupação máxima de Dulcína é o teatro, como sempre o foi, evidentemente.
Na sua biblioteca encontram-se obras teatrais, sobretudo em inglês e francês.
Não
gosta de reuniões sociais. Não come fora de casa e tem, diàriamente, o seu
professor de ginástica. Dulcina é tenista, sabe nadar e anda, em casa, de
short. Ela já disse, um dia, a um reporter:
“Minha
filosofia tem algo de asiática.
Quando algo de máu me acontece, quando eu recebo um golpe,
o
primeiro que faço é perguntar: E se
tivesse sido pior ? Daí o meu constante otimismo.”
Em
30 de outubro de 1937, um cronista do “Fon-Fon” assim se exprimia a respeito
de Dulcina:
“O
teatro brasileiro vive uma hora culminante com a glória de Dulcina de Morais.
Artista da maior expressão criacionista, Dulcina reagiu contra o meio, impondo
a sua personalidade. O clima teatral brasileiro é, por assim dizer, um produto
seu. Só os gênios têm essa fôrça: vivem e sobrevivem a despeito de tudo.
Dulcina trouxe para a cena nacional tôda uma civilização: é um índice.
Definindo-se, define a arte: manifestando, resume os talentos, as inquietações,
a ânsia de verdade e de beleza, que exaltam o espírito e o glorificam. Nesta
temporada do Rival-Teatro, a incomparável artista vem superando-se a si mesma.
De ascenção em ascenção, a sua alma expande-se em fulgor estelar. Aos
pessimistas, aos demolidores, aos indiferentes abriu-se à cena do Rival, num
espetáculo de fôrça surpreendente. Já não é possível negar o teatro
brasileiro. Dulcina aí está na glória da sua mocidade e de sua elegância,
realizando o milagre de uma óptima floração em pleno deserto. Sortilégio ou
talento, predestinação ou gênio, o teatro vive no Brasil. Ave, Dulcina!”
Dulcina
de Morais é casada com o ator Odilon Azevedo, bacharel e escritor. Há bem
pouco tempo, Dulcina, entrevistada por um jornalista carioca, falando sôbre o
seu passado, declarou:
“Sou
fluminense.
Nasci em Valença. E já que você foi tão gentil em não fazer perguntas
indiscretas, vou lhe fazer uma revelação sensacional. Nasci em Valença e
alguns dias depois saí de minha terra e até hoje não voltei. Com meu pai
sucedeu o mesmo. Nasceu lá e dias depois saiu. Muitos anos mais tarde, quando
voltou, já casado, à sua terra natal, nasceu a primeira filha, que sou eu.
—
E’
esta a nova sensacional?
—
Então,
não compreendeu ? quando eu visitar a minha terra, tenho certeza de que a
Cegonha há de me fazer uma visita. Que tal?
—
Formidável. E’ mesmo sensacional.
—
Sensacional será o menino que ela me trará.