Valença de Ontem e de Hoje

GALERIA VALENCIANA

DEOCLIDES DE CARVALHO

— Deoclides Batista d Carvalho nasceu no município de Valença, Estado do Rio de Janeiro. Êle próprio, dirimindo controvérsias acêrca do lugar de seu nascimento, dizia, em carta, aí por volta de 1902, ao seu amigo Francisco Tiago: — “nasci na fazenda do “Travessão do Meio”, hoje pertencente ao município de Santa Teresa”. Nasceu no tempo do Império, antes, portanto, do desmembramento de Santa Teresa do município de Valença. Daquela fazenda, Deoclides de Carvalho foi levado, ainda menino, para Rio Prêto, no Estado de Minas, onde o pai passou a exercer a então desprezível e odiada função de meirinho. Aí, Deoclides aprendeu as primeiras letras, do que não passou.

 

Anos depois, morto o pai, Deoclides de Carvalho rumava, com a sua progenitora, para Desengano, onde passou a morar e onde trabalhava um seu irmão mais velho, telegrafista da Central do Brasil. Deoclides, aos quinze anos de idade, exercia a atividade de ganhar os primeiros níqueis, à chegada dos trens, fazendo carretos. Era “pegador de malas”, na baldeação de passageiros.

 

Rapazola vivo e inteligente, possuidor de belíssima caligrafia, o engenheiro residente Vieira Cortez levou-o para o seu escritório, pagando-lhe um salário de trabalhador de linha. Era o que se denominava um trabalhador de casaca. Nessa ocasião, aprendeu telegrafia com seu irmão e foi aproveitado para o quadro dessa especialidade. Mais tarde, passou Deoclides de Carvalho para o corpo administrativo, no cargo de escriturário, em que se conservou até morrer.

 

Magro, alto, de tão alto um tanto curvo para a frente, elegante no vestir e de gestos largos. Deoclides era moreno e pernóstico, como todo mestiço, e amava o fraque e não desprezava as polâinas, quase sempre brancas. Era uma figura que se destacava diàriamente na rua do Ouvidor e na gare da D. Pedro II, à chegada, pela manhã, ou de volta, à tarde, para Nova Iguaçú, onde então residia, nos últimos tempos. Bengala de junco ao braço e sobraçando livros e jornais, à distância provocava precaução, mas de perto era um irresistível conquistador de boas amizades, tão fino no trato e tão cordial nas atitudes se mostrava para com todos, indistintamente.

 

Empolgado pelo jornalismo, onde se destacou, Deoclides de Carvalho militou na imprensa ao lado de Vitor da Silveira, Xavier Pinheiro, Marques Pinheiro e outros, entre es quais se destacou na poesia. Sua atuação literária foi de muito brilho, embora fosse de curta duração. Seus primeiros versos -— houve dêles vários livros — foram todos inspirados pela primeira espôsa da sociedade de Nova lguaçú, e pelas suas duas interessantes filhinhas, que eram o encanto do seu lar feliz.

 

No seu livro — “Nublados”, encontram-se êstes versos:

 

 

“TEU SORRISO”

À minha filha Aspásia.

 

I

Vejo que vou ao páramo celeste

Quando sorris, ó minha filha amada

Foste tu que vieste

Bordar de sonho as horas tormentosas

De minha vida sempre amargurada,

Sem lírios e sem rosas!...

 

II

Quando sorris, escuto os violinos

De uma música estranha,

Cheia de sons e de suaves hinos.

Que ventura tamanha!...

 

No seu primeiro livro de versos, encontram-se, como que em escrínio de jóias raras, os versos que dedicou à terra natal:.

 

“Oh ! minha terra.

Minha,

E da Beleza,

Do Gênio e da Riqueza

E’s a Rainha!

Com teu manto de turquesa

Azul e ouro,

Polido e do último quilate,

E’s um tesouro!...

E nada nos destrona e nada nos abate!

 

Deoclides de Carvalho foi um poeta, êsse poeta do coração. Seus versos perderam-se, seus livros esgotaram-se e já não mais se encontram, senão talvez guardados avaramente em alguma gaveta ou rara biblioteca.

 

Mais tarde, viúvo, Deoclides de Carvalho voltou a refazer o lar feliz, partilhando-o, então, com uma conterrânea que conhecera no Rio de Janeiro — a senhora Aurora de Carvalho. Num esfórço titânico, bacharelou-se, a par de uma boa vontade incomum, em Direito. Não teve tempo para exercer a sua profissão, pois, em 1930, ainda relativamente moço, entregava sua alma a Deus.

                

Quantas lutas, quantas esperanças, quantos dissabores teve êsse poeta que sempre teve na retina e no coração as rústicas e belas paisagens do rincão onde ensaiara os primeiros passos, ouvira os primeiros gorgeios, aprendera as primeiras letras.

 

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