AGNELO FRANÇA

Animado
e estimulado pelos seus conterrâneos, Agnelo França foi colocado no lugar de
diretor da banda da “Sociedade Musical Sete de Setembro”. Com a idade de 22
anos, seguiu para o Rio de Janeiro, onde ingressou no Instituto Nacional de Música,
a fim de aperfeiçoar-se na arte musical, aí permanecendo durante sete anos.
Foi, logo depois de haver terminado o curso de música, nomeado professor catedrático
da cadeira de Harmonia, no referido Instituto, cargo que exerceu durante 36 anos
consecutivos. Com o advento da República Nova, e criada a “Organização
Universitária do Brasil”, a congregação do Instituto Nacional de Música
elegeu Agnelo França membro do seu Conselho Técnico Administrativo. Por fôrça
de seu cargo e por determinação do regimento da Universidade, ficou sendo o
substituto legal do Diretor.
Nestas
condições tem assumido, por várias vezes, a direção da Escola Nacional de Música,
no impedimento de seus diretores.
O
professor Pedro de Assis, escrevendo no “Correio da Manhã”, assim
se
refere a Agnelo França: —
“O jovem artista valenciano, muito querido e estimado nas rodas familiares de
sua terra natal, ambicionando sempre o aperfeiçoamento dos seus estudos
musicais, conseguiu depois de muita relutância, alcançar o consentimento de
seus pais, a fim de vir aperfeiçoar-se na Capital Federal, no antigo Instituto
Nacional de Música. Agnelo França, antes de matricular-se no Instituto, já
compunha para orquestra e banda, fazendo as instrumentações com elevada perícia.
Foi, precisamente, por mera casualidade, que Agnelo França, antes de
matricular-se no Instituto, se defrontou com o modesto autor desta crônica que
também ali estudava teoria musical e flauta, e, depois da apresentação feita
por um condiscípulo, vinculou-se em nossas pessoas uma amizade tão íntima e
afetuosa que até à presente data é mantida, sem que fosse estremecida por
qualquer divergência de opiniões. Com os conhecimentos musicais adquiridos em
Valença, Agnelo França prestou tão brilhante exame vestibular de harmonia,
que, no decorrer do ano escolar, já era considerado o primeiro aluno da classe,
dirigida naquêle tempo pelo eminente e saudoso professor Frederico do
Nascimento. Terminado o curso de Harmonia com desusado brilhantismo, prosseguiu
o talentoso moço valenciano nos seus estudos de contraponto e fuga, sendo então
surpreendido pela sua nomeação para professor catedrático de Harmonia daquêle
Instituto, em setembro de 1904, começando naquela data a sua carreira brilhante
e gloriosa de emérito lente da matéria, na qual ninguém lhe ultrapassou os
profundos conhecimentos. É enorme o número de alunos, que Agnelo França tem
preparado na disciplina de Harmonia, no decurso aproximado de quatro décadas de
ensino porfiado, sem jamais demonstrar tibieza ou fadiga pela sua incessante
aplicação no transmitir as inúmeras regras da matéria em que êle é
realmente um abalizado mestre. Dentre os ex-alunos de Agnelo França alguns
ocupam presentemente os mais destacados postos no magistério aqui no Rio de
Janeiro e em vários Estados do Brasil, impondo-se todos êles pelos vastos
conhecimentos que possuem não sòmente em Harmonia, com também da música em
geral. Na Escola Nacional de Música, Agnelo França ostenta o seu troféu de glórias,
na qual exercem cargos de professores catedráticos, alguns dos seus ex-alunos,
citando-se entre outros o ilustre doutor e professor José Paulo da Silva, Antônio
de Assis Republicano, Domingos Raimundo, Alvibar Nelson de Vasconcelos, João
Lambert Ribeiro, Rosa Braga, Maria Luiza Priolli, etc. Cintilante é uma outra
faceta do talento de Agnelo Franga como compositor emérito, possuindo uma
volumosa bagagem de produções em vários gêneros, como seja a ópera, a
cantata, a sinfonia, o poema sinfônico, música de câmara, música sacra, etc.
E
assim termina o articulista:
“E’
sem dúvida alguma um mestre valoroso, o decano dos professores de Harmonia
Superior da Escola Nacional de Música, pela sua elevada cultura e constante
devotamento ao ensino, confirmando-se, por assim dizer, o prognóstico de
Alberto Nepomuceno acêrca da carreira brilhante que antevia no seu discípulo
predileto Agnelo França. De várias gerações de musicistas que têm saido da
Escola Nacional de Música, diplomados em Harmonia, a grande maioria recebeu os
ensinamentos do eminente mestre que é Agnelo França, verdadeiro ornamento da
arte musical no Brasil”.
Agnelo
França foi sempre muito modesto. Foge, com muita sinceridade, às exibições.
O crítico Luiz Heitor, em uma de suas crônicas, escrevendo a respeito do
artista valenciano, teve ocasião de assim se referir: —
“Há uma classe de artistas excessivamente modestos que um natural
retraimento, um temperamento fundamentalmente honesto, avêsso ao charlatanismo
e ao exibicionismo, mantém afastado das gloríolas públicas, dessa
popularidade nem sempre benéfica, que infla os soberbos e acorrenta a orientação
individual dos mais fracos. Quando a essa atitude humilde se juntam as preocupações
do ensino encarado como um sacerdócio, com seriedade e abnegação, temos, então,
êsses criadores que, esquecidos, pelo mundo, pode-se afirmar, são os primeiros
a se esquecerem a si mesmos. Agnelo França pertence a tal grupo de artistas:
sou tentado a escrever: — a tão privilegiada classe de homens de bem. Músico
de
raça, por intuição, antes de qualquer estudo, de qualquer treinamento técnico
(que para êle só veio confirmar, em nome das grandes tradições da arte, o
que seu gênio já adivinhara, o que seu ouvido sutilíssimo já lhe ditara),
Agnelo França tem consumido a vida na sua cátedra da Escola Nacional de
Musica, desvendando os horizontes da arte às várias gerações de músicos que
trabalharam sob sua direção. Nomes dos maiores, em vários setores da nossa
arte, receberam de suas lições a ciência dar combinações harmônicas; no
momento, um compositor como Vila Lobos, um regente como Burle Marx, um pedagogo
e tratadista como Paulo Silva”.
Apenas
suas modernas lições de Harmonia chegaram ao conhecimento da Congregação do
Conservatório de Lisboa. Viana da Mota, seu antigo diretor, não sòmente propôs
um voto de louvor e grande admiração que foi unânimemente aceito, como
solicitou da embaixador português, junto ao Brasil, dr. Nobre de Meio,
insistisse junto a êsse ilustre valenciano para reger, durante três anos, um
curso de aperfeiçoamento de Harmonia, no referido Conservatório, convite êsse
que não aceitou, ocultando-o de tôdas as rodas artísticas do Rio.
Agnelo
França — assim registra a critica — por ser tão simples e tão modesto, é
tratado entre os seus íntimos como sendo a rnodéstia
vestida de terno de brim.
As
suas produções são inúmeras, das quais citaremos: uma “suite”, com três
números; “Réverie” (berceuse) — “Minueto” e “Reminicência”, que
alcançaram grande sucesso no segundo concêrto da Academia Brasileira de Música,
em 1933, tendo-se êle furtado aos aplausos. A sua fantasia “Degli angeli l’amore”
(O amor dos anjos”) alcançou enorme sucesso, no Rio. A sua severa e elevada
“Ave Maria” é outra peça fulgurente que êle regeu, pessoalmente, com o
professor Fritz Barth. Essa peça foi editada em 1938, pelo Ministério da Educação.
Inédita, conserva Agnelo França uma ópera intitulada "As parasitas",
em um ato, libreto de Albino Gonçalves, dela se destacando o minueto “Saudação
de Edmundo a Edméa”. E’ de sua autoria a grande “Missa N. S. da
Aparecida”, padroeira do Brasil, obra de alto fôlego, em que demonstra a sua
segurança na técnica da música sacra; também, escreveu um livro escolar,
para a letra de Arnaldo Nunes, a pedido do govêrno fluminense e muitas outras
peças, frequentemente incluidas nos programas sinfônicos e recitais de arte.
Publicou,
em 1944, a sua importante obra intitulada “Arte de modular” — tratado de
Harmonia, que chegou a ser traduzido para o francês, para ser submetido à crítica
do Instituto de Música de Paris, o que não pôde realizar, em virtude da última
conflagração européia. A pedido do dr. Moncorvo Filho, a banda de música do
10o Batalhão de Infantaria do Exército executou, com brilhantismo,
o “Hino da Infância”, que o maestro Agnelo França compôs especialmente
para a posse da diretoria do Instituto de Assistência à Infância, do Rio,
realizada em 17 de dezembro de 1906.
Em
1944, o maestro França, desejando prestar uma homenagem de coração e de fé
à Padroeira de sua terra natal — Nossa Senhora da Glória de Valença, —
compôs magnífica Missa Pontifical, a duas vozes, para orquestra, a qual, sob
sua própria regência, foi executada, nêsse ano, com grande êxito, na
Catedral de Valença, em 15 de agôsto, pela primeira vez, com o concurso do
corpo coral dos meninos do “Lar José Fonseca”, dirigido pelo frei Paulo
Brener. Essa missa, que foi aprovada pelo sr. Bispo Diocesano, é oficial da Ven.
Irmandade N. S. da Glória de Valença e vem sendo rigorosamente executada no
dia da Padoreira dos valencianos.
Em
suma, em luxuosa biografia, sob o título “Agnelo França -— poeta dos
acordes”, mandada editar pela Sociedade Amigos de Valença, em 1946, o seu
autor, poeta Arnaldo Nunes, assim se refere ao grande músico:
“Como
ficou dito em outro capítulo, catedrático de Harmonia da Escola Nacional de Música,
a jubilação foi encontrá-lo, em 1943, no pôsto de Diretor dêsse tradicional
estabelecimento, que é a expressão máxima da cultura musical em nosso país.
A jubilação encerra a atividade profissional, é o término burocrático, uma
recompensa material do Estado ao seu servidor. Agnelo França, porém, não
ficou aí. A sua carreira funcional culminou com o título de Professor
Emérito, concedido pelo voto unânime da congregação da Escola Nacional
de Música, sancionado pelo Conselho Universitário e entregue pelo Ministro da
Educação, Souza Campos, em solenidade pública de 25 de junho de 1946, no
auditório dêsse Ministério”.
Depois
de dizer que o Maestro, “apesar
do seu coração de apóstolo, incapaz de pecar mesmo em pensamento”,
não
foi poupado de aborrecimentos, conclui um dos seus fulgurantes
capítulos:
“Agnelo
França desceu dos píncaros geográficos e ideais do seu torrão natal, para
escalar as cumíadas do sonho. Era o predestino das alturas. Não há dúvida de
que essas regiões têm os seus inconvenientes. Estão mais à vista e mais
expostas ao perigo. Até na planície as árvores, por serem mais altas, são as
preferidas do ráio”.