Valença de Ontem e de Hoje

CAPÍTULO 4 

VALENÇA CIDADE 

(1857-1952)

PARTE 2

  Clicar sobre os títulos a seguir para ir direto ao assunto:

Valença-Cidade

Como Ribeyrolles descreve Valença

Desenvolvimento da Freguesia de N.S. da Glória

Os Tropeiros e a Rua dos Mineiros

Valença na Guerra do Paraguai

A Propaganda Republicana em Valença

Glaziou e o Urbanismo em Valença

 

VALENÇA-CIDADE

A vila de Valença foi elevada à categoria de cidade pela lei n. 961, de 29 de setembro de 1857, cujos termos são os seguintes:  

“O Comendador Francisco José Cardoso, presidente da Assembléa Legislativa Provincial do Rio de Janeiro. Faço saber a todos os seus habitantes que a mesma Assembléa Legislativa Provincial decretou a lei seguinte:

Art. 1o  Ficão elevadas á categoria de cidade as vilas de Valença e Vassouras e a povoação de Petropolis. Art. 2o  Anexe-se o segundo distrito da freguezía de S. José do Rio Preto ao novo municipio de Petropólis, de que o presidente da Provincia designará os limites. Art. 3o  São revogadas as disposições em contrario.  

E porque o presidente da Provincia recusou sancional-a, em conformidade do art. 19, da carta de lei constitucional de 12 de agosto de 1834, manda a Assembléa Legislativa Provincial a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da referida lei pertencer, que a cumprão e fação cumprir tão inteiramente como nella se contem. O secretario desta Provincia a faça imprimir, publicar e correr. Dado no Paço da Assembiéa Legislativa Provincial do Rio de Janeiro, aos 29 de setembro de 1857, 36o. da Independencia e do Imperio. (a) Francisco José Car­doso, presidente. Selada e publicada na secretaria do governo da Provincia, em 29 de setembro de 1857. (a.) José Francisco Cardoso, secretario da Provincia. Registrado a fls. 79, do liv. .50, da legislação provincial. Secretaria da pre­sidencia da Provincia do Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1857. (a.) José Jorge de Mello”.

 

COMO RIBEYROLES DESCREVE VALENÇA

 

O escritor francês Charles Ribeyrolles, visitando Valença, em 1859, teve ocasião de escrever as mais interessantes páginas sobre a velha cidade fluminense. (Brasil Pitoresco, vol. 1 págs. 192 / 7)  

   Vista parcial de Marquês de Valença - 1950

 

“Valença comenta o cientista francês -— é uma das pequenas cidades mais encantadoras da Provincia do Rio. Assentada num plano onde as colinas ondulam, vê-se-lhes a casaria desgarrada, alinhada em platôs, escalavrada nos declives; e, aqui e alli, edificios burguezes de dois andares ou, em contraste, alguns palacetes por acabar.

 

O hospital da Mísericordia, a Camara Municipal, a Matriz são os monumentos publicos. A ultima não tem torres. O sino vigilante vae tocando vesperas numa guarita, no chão, como uma sentinella.

Conquanto Valença eleja deputado, mantem a sua legião da Guarda Nacional, o seu lugar no Conselho da Provincia, não se dá ares de cidade banqueira. E’ modesta, ativa, commerciante. Está mais em relação com as suas fazendas do que as outras cabeças de municipio. Sente-se que os negócios são sua alma, sua vida. Ha alli todas as industrias necessarias. Possue até um collegio, coisa tão rara nos paizes novos, de aluvião portugueza.

Uma venda em primeiro lugar, senão duas, uma igreja no meio de algumas cabanas, eis o esboço dessas cidades. Como na Inglaterra, onde o public house se instala sempre antes do templo, e a escola vem depois do mercado, O “Collegio de Valença”, dirigido pelo dr. Nogueira de Barros, está admiravelmente situado numa elevação que fecha a cidade a leste. E’ arejado, com vastas sallas e bellas paysagens. O programa annuncia serios estudos preparatorios. Por que não tem concorrencia? Por que tantos espaços vasios? Ah ! vós que queimaes as terras para desembaraçal-as, não deixeis que a sarça atinja os muros de vossa casa.

 

Valença, com os seus suburbios, encerra mais ou menos cinco mil habitantes de todas as classes, de todas as cores, e a população do Municipio, um dos mais ricos em terras novas da Provincia do Rio, avalia-se em quarenta mil, entre livres e escravos.

 

Como todas as metropoles, Valença tem a sua Camara Municipal, organizada por eleição, composta de nove vereadores. Como attribuições, confiam-se-lhe a policia local, as reformas, os melhoramentos materiaes, todo o programma das cidades comunaes. Não exerce funções politicas, e os municipios, no Brasil, têm perdido muito a este respeito.

 

O circulo de Valença comprehende cinco freguezias, ou paroquias, que são: N. S. da Gloria, S. Antonio do Rio Bonito, Santa Izabel do Rio Preto, Nossa Senhora da Piedade das Ipiabas e Santa Theresa.

 

Cada paroquia dispõe de pessoal administrativo, sua pequena familia oficial. E’, antes do mais, um vigario sobre o qual recaem os encargos e deveres do culto. Em segundo lugar, o juiz de paz, magistrado de eleição popular, que resolve pequenas causas não excedentes a cinquenta mil réis, Nas contestações e nos litigios, onde ha valor maior, elle tenta a conciliação, independente de julgamento.

 

O primeiro juiz de paz eleito nas comunas ou paroquias de municipio desempenha outras funcções importantes como sejam as de presidente das eleições primarias, e seus colegas, por ordem de votação, exercem depois delle o mandato de um anno cada um. Ha mais um sub-delegado de policia, encarregado da vigilancia e das capturas, alem de salvaguardar as propriedades e as pessoas. E’ nomeado pelo presidente da Provincia e obedece diretamente ao delegado, o qual, por sua vez, está sob as ordens do chefe de policia. Tal é a hierarquia do poder.

 

Sobre a administração de justiça, quanto ao contencioso, ha no municipio ou termo um juiz de direito e de orphãos a quem tambem se outorgam algumas atribuições policiaes.

 

Este magistrado julga em processos civis, comerciaes e tudo o que diz respeito aos orphãos. Quanto aos processos ordinarios, dependendo de conselho de jurados (juizes de fato), nomeados pelo povo, que funcciona duas vezes por anno, sob a presidencia do juiz de direito da Comarca. Em materia eclesíastica, é o vigario da freguezia que conduz a formação de processo, limites das suas attribuições.

 

As rendas publicas, formadas dos impostos do municipio, dividem-se em trez partes. Uma, que tem o nome de taxas geraes, está afeta ao serviço publico e diretamente percebida por um coletor, em proveito do Estado. Outra, dita provincial, confiada ao mesmo funccionario, vae para os cofres da Provincia. A ultima (municipal) fica para a Camara do municipio. Sobre esta divisão, em Valença, revertem ao Estado de quinze a vinte contos de réis, á Provincia de vinte a trinta e ao municipio de dez a quinze. O que é pouco.

 

Estas classificações são as mesmas por toda a parte. Se as sommas recolhidas variam de provincia a provincia, de municipio a municipio, isso turba a organização.”

Relativamente ao progresso da cidade — Ribeyrolles escreveu:

“Graças á energia dos primeiros colonos, á fecundidade das terras e aos estrangeiros ahi estabelecidos, Valença tem prosperado. Villa, desde 1823, ella progride sobre a matta virgem que ainda circunda do lado do cemiterio. Suas estradas são bellas e a ligam a outros pontos da Provincia. Em sessenta annos, o pequeno burgo fez-se uma cidade.

 

Valença não dispõe apenas de instrumento municipal, da atividade commercial e do espirito de negocios. Ella comprehende e sabe praticar a vida politica. Não se deixa subjugar nem pelo Banco nem pelos ricos proprietarios. Procura a idéa pelo candidato, a coisa pelo nome, e suas eleições municipaes são por vezes agitadas, embora sem sedição nem desordem. Alguns, que se dizem homens de Estado, costumam condenar esses animados escrutinios. Veem em todos os movimentos uma doença. E quer se trate de um povoado nacional ou das metropoles revolucionarias, elles proclamam o anátema, desde que pressintam a alma das multidões e o sopro das idéas. Seu somno se perturba ao menor vento das ruas. Receiam e deploram o espirito democrático, esses dignos consulares.

 

Os pequenos deuses querem dormir.

 

Não fui educado nessa escola do orgulho e da materia. Aprecio em Valença, como em Londres, a pratica desassombrada do direito pelo simples, sem violencia e sem desanimo. E’ assim que se formam os costumes publicos e se temperam os caracteres. Sobrevenha uma crise, e as massas se levantam, e os legionários, ás vezes obscuros, sahem das fileiras pela palavra ou pela espada.

 

Que não sacrifique aos temores. Que conserve vigilancia e sua liberdade. Para as instituições e para os povos, está nisso a lei da vida.

 

Seria opportuno esclarecer neste momento as successivas formações deste municipio, suas primeiras luctas contra os selvagens, as angustias dos desbravamentos, as implantações de suas culturas e riquezas naturaes. Mas não se encontra nos registros da municipalidade, uma só página histórica, um apontamento, um detalhe. As camaras, erigidas em pleno seculo XIX, emudecem quando se lhes interrogam as origens, seus compromissos e desenvolvimentos, como nascidas do feudo, nas trevas da Idade-Media.

 

Em França, na Inglaterra, na Allemanha, na propria Itália, terra do esbirro e da sombra, existem em cada provincia, municipio ou distrito, sociedade de geologia, historia e botanica, onde, segundo a especialidade, cada qual estuda a planta, a ruma, o sólo, a flor, o monumento. Ora, em todo o universo, qual o paiz que poderia oferecer mais completo inventário de historia natural, como o Brasil?

 

No Rio, comprehendeu-se o interesse poderoso de semelhante obra e nomeou-se uma commissão que deve, de accordo com o programma estabelecido, iniciar e seguir o grande estudo do territorio. Todavia, fosse essa commissão composta dos Humboldts e dos Aragos, era tarefa para mais de um seculo. Era mistér, ao mesmo tempo, a divisão das especialidades e dos terrenos. Em cada municipio, haveria homens, dotados de noções essenciaes, que pudessem agrupar, estudar, classificar sem despesas e sem prejuizos? Será que Vassouras, Valença, Campos não comprehendem que hão de ser um dia, se não abandonarem a si mesmas, grandes cidades ao redor da metropole? Na America do Norte, Baltimore, Nova Orleans, New York e Filadelfia attenderão, para a pesquisa e para a descoberta, ao programma e ao commando de Washington?

 

Ah! não tendes avoengos, nem historiadores, como Roma ou Pariz. Não possuis ruínas como Nínive ou Palmira. O que existe, sob vossos pés, em vossa sombra, sobre vossas cabeças, são árvores, flôres e plantas que valem todos os muzeus de Napoles e são ainda o segredo de Deus.

 

Explorae vossa mina de ouro, que é a terra. Estudae os calices das flores que valem mais que camafeus. Lembrae-vos que em toda a terra, reino ou republica, se os municípios nada conseguem, o Estado menos conseguirá.

 

Não são homens que faltam em Valença, onde o espírito geral é de boa altivez burgueza. Lá encontrareis cultivadas intelligencias. O deputado da Provincia, Saldanha Marinho, occuparía dignamente seu lugar nas melhores assembléas da Europa. Eloquencia e disinteresse, estudos profundos, probidade severa não são qualidades communs, mesmo no Brasil. Que os pequenos nucleos, como Valença, não confiem ao Rio toda a iniciativa. Elles representam muito para o paiz. E fiquem sabendo que, de uma cidadesinha na Allemanha, como Heidelberg, tem partido idéas mais arrojadas do quê das mais orgulhosas capitaes do mundo.

O berço tem suas forças”.

 

DESENVOLVIMENTO DA FREGUESIA DE N. S. DA GLÓRIA

O aldeiamento das localidades além do rio Paraíba muito contribuiu para o desenvolvimento da freguesia de N. S. da Glória de Valença, bem como das terras que se lhe seguiam para além da margem do rio Prêto, na capitania de Minas Gerais. A cidade de Valença era a passagem forçada das tropas mineiras, em demanda à Côrte do Rio de Janeiro.

 

O escritor fluminense José Matoso Maia Forte escreveu: “Era o curso do ribeirão das Mortes que orientava as tropas vindas da freguesia de N. S. da Glória de Valença para Sacra Família, ganhando daí, ou as estradas, na direcão de Iguassu, ou o atalho, que já começava a ser trilhado para o rancho dos “Mendes” e Rodêio, na direção da serra dos Macacos, para se dirigirem, já na planície, rumo de Itaguaí.

 

Vinham, por êsse lado, viajantes e tropas das zonas mineiras, na direção das proximidades de Juparanã (antiga estação do Desengano) para fazerem, rio acima, a travessia para a margem direita do rio Paraíba, indo ter às vizinhanças do ribeirão das Mortes, na atual estação de Barão de Vassouras, evitando o percurso mais longo que lhes oferecia o caminho de Comércio. A travessia de uma para outra margem do Paraíba fazia-se lentamente, em improvisadas, barcas de passagem, espécie de balsas ou jangadas carregadas de mercadorias e de animais que não atravessavam a nado, e em canoas”

 

Relativamente às tropas fluminenses e mineiras, comenta Calógeras — “Cada lote contava sete, nove ou doze bestas; os de sete eram mais comuns na antiga provincia do Rio de Janeiro; os de nove, em geral, caracterizavam a tropa mineira; os de onze, a tropa goiana. O “arneiro”, usualmente, ia montado, e os camaradas a pé. Quando vários grupos se juntavam, costumava haver um capataz. Cada grupo de muares tinha “madrinha”, que é ou um cavalo ou uma besta, mais segura, a servir de guia, na marcha, e centro de reunião dos animais no apascentar noturno”.  

    E pelos montes e vales, a tropa mineira demandava a Corte, passando pelos caminhos de Valença.

(Des. de Joaquim Alves)

 

“O tropeiro era a figura sempre benvinda e alviçareira. “No conjunto dos sistemas de veiculação — carros de bois, barcos, muares — o tropeiro e seus auxiliares representavam uma aristocracia.

                     

Não viajava com seus animais: o capataz de confiança, escravo por vezes, guiava e cuidava dos lotes, enquanto o dono, com uma “comitiva” escolhida de bestas de estimação, com numerosas mudas à dextra, arreios faiscantes de prataria ­ e mesmo com peças de ouro, partia dias ou semanas depois, e seguindo mais rapidamente, ia alcançar os primeiros já próximos ao seu destino...”

 

O tropeiro era o “mensageiro da civilizacão”. Era o homem que havia ido à Côrte, ou, pelo menos, a lugares, nos quais se tinha notícia do que se passava na capital do Império... Naqueles tempos não havia casa bancária, nem meios de remessa de dinheiro senão por “positivos”, próprios portadores ou mensageiros especiais. Era o tropeiro o intermediário de tais operações de confiança. Hóspede nas fazendas, querido e ansiosamente esperado, trazia as novidades, aviava as encomendas femininas, geria interêsses financeiros do chefe da casa. As donzelas tinham o coração a saltar ao anunciar-se a chegada do tropeiro. Todos lhe votavam amizade; até os escravos, os quais o recompensavam por pequenos serviços prestados.  

                            Beco da Mangueira, antigo ponto de estacionamento dos tropeiros

                                                    mineiros que se destinavam à Corte.

 

A missão progressista do tropeiro era aproximar os povos. Pioneiro da civilização, desempenhava funções de relêvo, e “não há a extranhar com que, na literatura da época, são descritos pelos melhores romancistas, como Bernardo Guimarães, entre outros.

 

Tropas de mulas! Nessas tropas revive tôda a poesia do Brasil colonial. Os tropeiros são os verdadeiros reis das estradas. Transportam as mercadorias de tôda a espécie e propagam as novidades, levam e trazem recados e formam assim o elo de ligação com o mundo desconhecido. A caravana, uma infinidade de coisas. Nos grandes cestos, que balançavam aos flancos das mulas, havia carregamentos diversos: farinha, milho, querozene, etc. E transportava a caravana mais de uma tonelada de mercadorias... À frente dela ia uma mula com um pequeno sino dependurado ao pescoço. Carrega os utensílios necessários à vida de todos: objetos de acampamentos, tais como cobertores, panelas, tripé de ferro, etc. Os tropeiros usam botas de couro macio, calças de couro e camisas de lã. Por sôbre o corpo desce o ponche, uma coberta simples, com um orifício para a entrada da cabeça, no centro.

 

Ao longe, o chiar de um carro de bois. Nunca lhe engraxavam os eixos para que o carro chiasse. Era o “chic” dos carreiros essa melodia melancólica, que se adaptava perfeitamente à paisagem rural. Como desviar a tropa do carro de bois, e vice-versa? Não há possibilidade de abrir caminho. Mas quando o carro se aproxima, os muares trepam pela encosta das ribanceiras, e as mulas passam, uma a uma, pelos bois, com agilidade espantosa. E começa um virar e balançar, um recuar e avançar tão forte, que os grandes cestos parecem atirar fora, por terra, tôda a mercadoria. O carro passa, o barulho do saculejar das mercadorias perde-se nas distâncias, e a tropa segue o seu caminho. A estrada se alarga, raramente, mas, de repente, a caravana pára. Difícil a pasagem, novamente. A estrada está transformada em grande lago. Os tropeiros não se incomodam e deixam aos animais o cuidado de encontrarem o caminho seguro. A mula, que conduz a caravana, pára e volta a cabeça, hesita, como si compreendesse a situação e atira-se de repente ao lamaçal, num passo lento e seguro. Tôda a caravana segue-a. E os animais, calmamente, e com segurança, atravessam a lama, sem tropeços, afundando-se, por vezes, até a barriga.

 

Acampamento. Descarregam as mercadorias, e cuidam dos animais, imediatamente. Em fila, as mulas esperam as suas rações. Cada qual recebe um bornal com milho. O chefe da caravana prepara o café, depois de ter fincado no chão o tripé de ferro”.

OS TROPEIROS E A RUA DOS MINEIROS

E os tropeiros mineiros, na sua árdua missão, entravam, assim, triunfalmente, na velha cidade de Valença, cuja população, transbordante de alegria imensa, os recebia com festas e aplausos. Que dia magnífico para a cidade. E, ali, no coração de Valença, as tropas, com suas mulas enfeitadas de fitas de variadas côres e bandeirolas coloridas nas extremidades de hastes a prumo, pousavam e descansavam para, no dia seguinte, seguirem rumo à Côrte, que elas iam abastecer.  

 

                         

            Rua Saldanha Marinho (antiga rua dos Mineiros), vendo-se ao fundo a Catedral - 1925.

 

No canto da rua dos Mineiros, esquina da Nilo Peçanha, precisamente no local onde se ergue o edifício da extinta e tradicional Casa Sampaio, (atualmente um bar), um grande rancho se levantava à maneira de mercado, e aí os mineiros pousavam, tanto na ida como na volta.

 

                               Rua Saldanha Marinho (antiga rua dos Mineiros), vendo-se, ao fundo,

                                   a Catedral, e à direita, o então, grupo escolar de três andares que

                                                   se incendiou na noite de São Pedro, em 1901.

                                                            

Rua dos Mineiros! Reflexo vivo da antiga Valença sonhadora. Ei-la, na sua tradição histórica, revivendo uma época, um passado, que é a sua própria vida. Em homenagem aos tropeiros de Minas, os valencianos a batizaram, em 1838, com esse nome, que nunca morreu. Marco de progresso, aí está a rua dos Mineiros, o então caminho para a Corte do Rio de Janeiro, subindo a Serra Velha ou do Mascate. Tornou-se, consequentemente, a artéria principal da cidade. E’ a preferida pelo comércio, a mais freqüentada, a mais limpa e a mais colonial. Com os seus velhos casarões entre edifícios, uns assobradados, outros acachapados e poucos de construção moderna, a rua dos mineiros mergulha-se na tristeza de sua pobre arquitetura, suportando o imenso peso das telhas de canal, com suas janelas a devassarem o interior das residências. Nela palpitam o comércio, a industria e a sociedade. Trânsito obrigatório dos que entram e saem, e dos que vêm dos arrabaldes. Ponto de reuniões de toda espécie, a velha rua dos Mineiros guarda ainda as reminiscências dos colonos portugueses e dos mineiros, que ali animaram o comércio e a indústria, deixando a prova irrefutável do seu espírito progressista. Antigamente, a rua dos Mineiros se estendia desde a atual praça Visconde do Rio Preto até às fraldas da Serra Velha, passando pela antiga rua da Polícia, a denominada Domingos Mariano.

  

                        

                                   Vista da rua dos Mineiros em foto da década de 1950

Rua dos Mineiros! Quem não lhe quer bem? Sedutora na política de outras épocas, nas futilidades mundanas, nos “flirts“, nas intrigas e nos mexericos de todos os tempos, ei-la agasalhando carinhosamente um passado, que nela é a própria alma da cidade. Lutas e conquistas, empreendimentos e ideais foram alí as vozes de épocas memoráveis. Rua dos Mineiros de ontem e de hoje!...

 

Por ela passa a meninice gorgeante e também passa a mocidade sonhadora, como por ela passaram e vão passando os anciãos cheios de saudade!... Trabalhando ou cantando, por ela passa o provinciano, que a revê diariamente na sua atração instintiva. Rua dos Mineiros — a velha amiga dos velhos de olhos cansados, mas que não se cansam de olhá-­la e de sentí-la como outrora. E’ por ela que o recém-nascido é conduzido à igreja da colina para receber o batismo; por ela passam velozes os noivos ridentes, que se vão unir ao pé do altar da Padroeira; e por ela o cortejo fúnebre se movimenta, deixando para os que ficam as saudades dos que se foram.

 

“Saldanha Marinho” — foi o nome com que mais tarde a denominaram oficialmente, em honra do grande tribuno do Império — dr. Joaquim Saldanha Marinho, grande amigo de Valença.

 

   Saldanha Marinho

De 1861 a 1873 não houve nome mais conhecido nas lutas políticas do Brasil. Nenhum político — dizem as crônicas da época — o excedeu na bravura, na intrepidez, na impetuosidade e na veemência, quando defendia as suas idéas. Natural de Pernambuco, onde nasceu a 4 de maio de 1816, bacharelou-se em direito aos 21 anos de idade. Senador pelo Ceará, Saldanha Marinho mostrou grande versatilidade de talento, mesmo diante dos seus rivais de então — Justiniano José da Rocha e F. Otaviano, entre outros.

     Tendo-se dissolvido, em 1849, a Câmara dos Deputados, os acontecimentos da época o impossibilitaram de seguir para o Norte. Estabeleceu-se, então, Saldanha Marinho, em Valença onde, durante doze anos consecutivos, exerceu advocacia, não esquecendo todavia os interesses municipais de Valença, de que era ardoroso defensor e grande entusiasta. A cidade muito deve ao seu prestígio. Grande tribuno e jornalista que foi, Saldanha Marinho, na Corte, propugnava pelas coisas da política valenciana. Pelos seus serviços prestados à coletividade, a cidade, agradecida, gravou-lhe numa das ruas o seu nome — a histórica ruas dos Mineiros que ele também amou.

 

VALENÇA NA GUERRA DO PARAGUAI

Em trabalho de larga repercussão, publicado em La Nacion, de Buenos Aires, a 7 de outubro de 1928, diz Manuel Galvez: — “Lopez, segundo conta Varela, estava um tanto espiritualizado, com animo alegre, os olhos brilhantes, a palavra facil, a inteligência à flor da pele, situação pouco distante da embriaguez. (...) Que faltava, pois, para que a guerra estalasse ? Um pretexto qualquer, como disse Lopez a Varela. E o pretexto apareceu”.

 

Nas “Efemérides Brasileiras”, na data de 26 de janeiro de 1865, informa o Barão do Rio Branco: — “Circular-manifesto, dirigida ao ministro das Relações Exteriores da República Argentina e ao corpo diplomático residente em Buenos Aires pelo enviado brasileiro, em missão especial, conselheiro Paranhos (depois Visconde do Rio Branco), anunciando que, em consequencia do aprisionamento do vapor Marquez de Olinda e da invasão de Mato Grosso, pelos paraguaíos, o Brasil aceitava a guerra, começada sem prévia declaração pelo ditador Solano Lopez:

 

 “Á vista de tantos atos de provocação, a responsabilidade da guerra sobrevinda entre o Brasil e a República do Paraguai pesara exclusivamente sôbre o Governo de Assunção. O Governo de Sua Magestade repelira pela força o agressor; mas, ressalvando, com a dignidade do Imperio, os seus legitimos direitos, não confundirá a nação paraguaia com o Governo que assim se expõe aos azares de uma guerra injusta, e saberá manter-se, como beligerante, dentro dos limites que lhe marcam a sua propria civilização e seus compromissos internacionaes”.

 

O aprisionamento do vapor brasileiro Marquez de Olínda foi o primeiro ato de selvageria do ditador Solano Lopez. Ocorreu a 14 de novembro de 1864, de surpresa e contra todas as regras do direito e da decência, quando de passagem pelo porto de Assunção, onde entrara na tarde do dia anterior, em demanda de Mato Grosso. Levava a seu bordo o ilustre Coronel Frederico Carneiro de Campos, engenheiro militar, de relevantes serviços à pátria, que seguia para aquela província a fim de assumir o posto de governador. Todos sabemos os insultos e humilhações, relho e fachina, fome e sêde, grilhões e martírio, que padeceram os nossos patrícios. Um a um, foram morrendo todos, à força de incríveis maltratos; Carneiro de Campos foi dos últimos. Sobraram apenas dois, milagrosamente, para relatar aquela odisséia.

 

Carneiro de Campos era conhecido e estimado em Valença; a êle se deve a primeira carta urbana da cidade, datada de 1836.

 

Este fato deve, de certo modo, ter excitado ainda mais o patriotismo de toda a população do município. Na sessão da Câmara Municipal, de 18 de dezembro de 1866, foi apresentada uma relação circunstanciada de tôdas as pessoas que auxiliaram o governo, até àquela data, com serviços de toda ordem, donativos e conquista de voluntários.

 

Dêsse documento extraimos o que se segue:

 

“Pessoas que, além dos seus relevantes serviços, concorreram com donativos para o Govêrno do Estado: Coronel Peregrino José da América Pinheiro - 1:000$ de réis, Coronel Manoel Jacintho Carneiro Nogueira da Gama - 1:000$ de réis, Joaquim Gomes Pimentel  - 500$ réis, Tenente Coronel Nicoláu Carneiro Nogueira da Gama - 500$ réis, Capitão Manoel Pereira de Souza Barros - 500$ réis, Jacintho Martins Pimentel - 550$ réis, Major Antonio Carlos Ferreira - 200$, Major Herculano Furtado de Mendonça - 200$ réis, Manoel Antonio de Andrade - 200$ réis, João Gualberto da Silva - 200$ réis, Dr. Francisco Antonio de Souza Nunes - 200$ réis, Joaquim Diniz Costa Guimarães - 200$ réis, Sebastião Soares Leite - 200$ réis, Anastácio José Gonçalves Figueira (portuguez) - 100$ réis, José da Silva Souza Brandão - 100$ réis, Capitão Antonio da Silveiraa Vargas - 100$ réis, Major João Damasceno Ferreira - 100$ réis, Pedro Moreno de Alagão - 100$ réis, Augusto Luiz Machado - 100$ réis, Custódio Alves de Souza Machado - 100$ réis, Dr. Manuel Antonio Fernandes - 100$ réis, Lucio José Cardoso - 30$ réis, Manuel Valerio de Souza Lobo - 30$ réis, Fernando Pinheiro da Silva Morais - 30$ réis.

A importância desta subscripção, que orçou em 6.040$000 réis foi entregue pelo thesoureiro da mesma, dr. Manuel Antonio Fernandes ao Thesoureiro da Comissão Central, o Exmo. Barão de Mauá.

 

Freguezia de Santo Antonio do Rio Bonito - concorreram a bem da defesa do Estado os senhores: - Tenente Coronel Francisco Leite Ribeiro com 500$ réis, Tenente Custódio Ferreira Leite - 300$ réis.

 

Freguezia de Santa Thereza —concorreram os senhores: - Barão do Rio Preto - 1:000$ de réis, Conde Baependy - 600$ réis, Tenente Coronel José Vieira Machado da Cunha - 400$ réis, Dona Maria Izabel de Jesus Vieira - 250$ réis, Major João Vieira Machado da Cunha - 250$ réis, José Rodrigues Alves Barbosa - 250$ réis, José Luiz Garcia - 200$ réis, Capitão Ignácio Pinheiro dee Souza Werneck - 200$ réis, Francisco Carlos Correa Lemos - 200$ réis. José Gonçalves Portugal - 200$ réis, Eleuterio Gonçalves de Oliveira - 150$ réis, José Vicente Cesar - 100$ réis, Dr. Manuel Jacintho Nogueira da Gama - 100$ réis, Silverio dos Santos Paiva - 100$ réis, Matheus Gomes do Val - 100$ réis, João Venancio de Carvalho (fallecido) - 100$ réis, Manoel Antonio da Silva - 1100$ réis, Dr. João Baptista Soares de Meirelles - 100$ réis, Francisco Gonçalves Portugal - 100$ réis, João José Vieira - 100$ réis, Estevão de Souza Pimenta - 70$ réis, José Borges de Carvalho - 50$ réis, Joaquim Sebastião Jorge - 50$ réis, Joaquim Ribeiro do Vai - 50$ réis, Antonio Gomes Cardoso - 50$ réis, Manoel Correa de Amorim - 50$ réis, Joaquim Militão Cesar - 50$ réis, Manoel José da Costa (portuguez) - 50$ réis, Genuino Julio do Nascimento - 50$ réis, e Manoel de Souza e Silva - 50$ e outros muitos subscriptores de ttrinta mil réis e quantias menores”.

 

Também concorreram com donativos: João Maximiano de Azevedo - 500$ e Gabriel Ribeiro do Vale - 500$.

 

“Pessoas que contribuiram para o Asilo de Inválidos da Pátria: Barão do Rio Prêto - 4.000$, Tenente-coronel José Vieira Machado da Cunha - 200$, José Luiz Garcia - 200$, Silverio dos Santos Paiva - 100$$, Matheus Gomes do Val - 100$, Maria Izabel de Jesus Vieira - 50$, João José Vieira - 50$, José Rodrigues Alves Barbosa - 50$, Manoel de Souza e Silva — 50$, Josué Borges de Carvalho - 50$, dr. João Batista Soares de Meirelles - 40$ e outros subscritores de quantias inferiores a 30$. Os súditos portugueses, residentes na antiga freguesia de N. S. da Glória angariaram 1.920$ para o referido Asilo. Também prestaram seu auxílio os cidadãos João Maximiano de Azevedo — com 100$ e Domiciano José Alves — com 200$.”

 

Quanto ao voluntariado obtido no município, vale destacar os seguintes tópicos extraídos da “História de Valença” (pág. 262), de Luiz Damasceno:

 

“Durante a guerra com a República do Paraguay que excitou o patriotismo de tôda a população d’este municipio sobresahio-se no começo do movimento de voluntários o Dr. Joaquim José do Amaral, então Delegado de Policia d’este Termo, promovendo o alistamento de voluntarios, aquartelando-os e dando-lhes sustento, seguindo-se depois o 1o Substituto do mesmo Delegado, o Commendador João Baptista de Araujo Leite, que quasi sempre tinha estado em exercicio. prestou relevantes serviços á causa publica, enviando, em poucos mezes, grande numero de recrutas e de voluntarios.

 

“No desempenho de seus deveres o Commendador Araujo Leite houve-se com prudencia, zelo e muita dedicação, sendo coadjuvado por muitos cidadãos d’esta freguezia, em cujo numero estava o Dr. Joaquim José do Amaral, Juiz Municipal do Termo, que prestou-lhe auxilio valioso”.

 

“O Coronel Manoel Jacintho Carneiro da Gama, Commandante Superior da Guarda Nacional do Municipio, provou, exuberantemente, o seu reconhecido patriotismo, prestando serviços importantissimos á causa nacional”.

 

“Logo no começo da guerra nomeou uma comissão militar, para angariar voluntarios da patria, e no fim de poucos dias essa commissão apresentou-lhe trinta voluntarios, sendo alguns por elle proprio obtidos”.

 

“Essa Commissão era composta do Dr. Luiz Alves de Souza Lobo, Major Herculano Furtado de Mendonça e Major Custodio da Silveira Vargas”.

 

“Foi incansavel essa commissão na obtenção de voluntarios, aquartelando-os e vestindo-os, cujas despesas recusou receber do digno Commandante Superior, que as havia authorisado”.

 

“Esses trinta voluntarios foram conduzidos com os angariados pela Camara Municipal, a Capital da Provincia pelo Tenente Coronel Francisco Nicoláu Carneiro Nogueira da Gama”.

 

“O Tenente Coronel Francisco Leite Ribeiro, auxiliado pelos cidadãos Joaquim Leite Ribeiro, Dr. Joaquim Alexandre de Siqueira, Capitão João Ferreira Leite, Tenente José de Souza Pires e Custodio Ferreira Leite, angariou cincoenta e quatro voluntarios, que, sendo gratificados e aquartelados por todos estes senhores, foram conduzidos para a Corte pelo referido tenente Coronel Leite Ribeiro”.

 

“Além d’estes serviços o Tenente Coronel Francisco Leite Ribeiro prestou outros importantes como Commandante do Corpo de Infantaria da Guarda Nacional na designação e prisão dos Guardas remissos”.

 

“O Conde de Baependy, antigo e incansavel servidor do Estado, não quiz deixar de, nessa occasião, dar mais uma prova do seu acrysolado patriotismo, unindo-se ao Barão do Rio Preto, Domingos Theodoro de Azevedo Junior, José Luíz Garcia, Tenente Coronel José Vieira Machado da Cunha e ao prestante cidadão Subdelegado de Policia da Freguezia de Santa Thereza, Joaquim Sebastião Jorge, contribuindo com trinta e dois voluntarios, que foram pelos mesmos senhores gratificados e remetidos para a Corte”.

 

“O Major Antonio Carlos Ferreira libertou um escravo seu e o apresentou á Camara Municipal, como voluntário da Patria e deu mais um voluntario. João Maximiano de Azevedo apresentou dois voluntarios, fazendo-lhes as despesas até a Côrte. O alferes Marcelino Rodrigues de Avelar Barbosa deu dois voluntarios e prestou relevantes serviços, não só na obtenção de voluntarios, como tambem na designação de guardas e na prisão que efetuou, com risco da propria vida, daqueles que não se apresentaram depois de designados”.

 

“A Camara Municipal agenciou, gratificou, aquartelou e fez seguir para a Capital da Provincia do Rio de Janeiro 12 voluntarios, fornecendo-lhes cavalgaduras até á Estação do Rodeio da Estrada de Ferro Dom Pedro II”.

“O Vereador Simeão Gomes de Assumpção, além dos serviços, acima mencionados, apresentou mais um voluntário para a Armada, que foi remettido pelo Delegado Araujo Leite”.

“O Dr. Guilherme de Almeida Magalhães, além dos serviços supra mencionados, como Vereador, prestou outros muito importantes, como fosse o de convocar a Camara em sessões extraordinarias, com o fim exclusivo de obter-se voluntarios, espalhando proclamações ao povo do município, etc”.

 

“O Vereador Manoel Antonio de Andrade, além dos serviços prestados, deu mais um voluntario. A Camara Municipal nomeou uma commissão composta dos senhores, Dr. Luiz Alves de Souza Lobo, João Vieira das Chagas Werneck e José Francisco de Araujo Silva, para receber e aquartelar os voluntarios, que por esta cidade passassem, cuja commissão teve occasião de exercer seu encargo, recebendo e tratando com a decencia compativel com o logar os voluntarios mandados do Rio Preto”.

 

“Antonio Norberto de Azevedo deu um voluntario e fez-lhe as despesas até á Côrte. José Pinheiro de Souza, 1o Juiz de Paz da freguezia da Gloria, agenciou e remetteu por intermédio do Delegado de Policia quatro voluntarios para o Exercito”.

 

“O Capitão Manoel Pereira de Souza Barros deu quatro voluntarios e o Tenente José Antonio Cortines Laxe, secretario d’esta Camara e Subdelegado de Policia da freguezia da Gloria prestou relevantes serviços.”

 

São igualmente assinaláveis os seguintes fatos constantes do aludido documento: — “Auxiliaram ao Governo por diversos modos os senhores: — Dr. Jorge Antonio de Souza Lima, Coronel Peregrino José de America Pinheiro, Antonio de Abreu e Silva, Jeronymo Francisco Ferreira, Francisco José Ferreira Braga, Simeão Gomes de Assumpção, José Ignacio Machado, Camilo da Silva Ferreira, Fernando Pinheiro de Souza, Dr. Joaquim de Almeida Ramos, Padre Luiz Alves dos Santos, José Francisco de Araujo Silva, Vigario Custodio Gomes Carneiro, Antonio Leite Pinto, José Theotonio Sayão de Miranda Ribeiro, Capitão Floriano Lei­te Ribeiro, Tenente Antonio José da Costa Machado, Vicente de Paula Seabra, Francisco Olympio do Carmo, Dezembargador Antonio Joaquim Fortes de Bustamante, Antonio Teixeira da Nobrega, Francisco Carlos Correa Lemos, Vicente José de Araujo e Silva, Manoel Francisco de Carvalho, Matheus Gomes do VaI, José Alves da Cruz, Joaquim Ribeiro do VaI, Duarte Gomes de Assumpção, José Pereira de Faro, José Gonçalves de Moraes e Ignacio Pinheiro de Souza Werneck”.

 

Diz Gustavo Barroso: “Quando Lopez foi justamente linchado à margem do Aquidabanigui, pagou as suas crueldades sem limites, O que êle fez com êsse nobre brasileiro (o respeitável ancião Carneiro de Campos) e com tôdas as outras vítimas de sua fereza tornou-o um indivíduo fora da lei. Não era mais um chefe de Estado, nem um comandante de Exército. Não passava dum bandido feroz e errante, que deveria ser justiçado onde seus perseguidores o encontrassem”. — E Valença se ufana de haver concorrido com a modestia dos seus recursos e a riqueza do seu entusiasmo para a glória das nossas armas e a desafronta à nossa Pátria.

A PROPAGANDA REPUBLICANA EM VALENÇA

A propaganda republicana encontrou em Valença grande número de adeptos, pois as vozes de alguns de seus filhos repercutiram bem alto os seus ideais de liberdade, respondendo aos sentimentos da Nação. No velho Teatro da Glória, que se erguia onde hoje se encontra o moderno Cine Teatro Glória, fez-se, um dia, ouvir uma voz nacionalmente inflamada, numa sessão cívica de grande gala. Era Silva Jardim que se dirigia aos valencianos, falando-lhes sobre os seus ideais republicanos.  

  Silva Jardim

O velho teatro se achava à cunha e vibrava delirantemente. A sua palavra era ouvida entre aplausos e vivas retumbantes. Mas, fora, na praça fronteiriça, um grupo de monarquistas revoltados, munidos de armas e de bombas, ameaçava interromper a conferência do grande republicano. Entre algazarras e vaias, uma bomba estourou próximo à porta do teatro, que regorgitava do que havia de mais seleto. Correrias. Gritos. Populares que se precipitavam para fora, pelas janelas dos fundos do velho casarão... O grupo, cada vez mais exaltado, forçava invadir o teatro, mas, a polícia impedia-o, com energia. Silva Jardim estava impassível. Pedia calma. E finalmente, tudo se resolveu como ele próprio relata, em carta, datada de 22 de julho de 1888, a um seu amigo:

 

“Em Valença, quando falava no salão do teatro, no primeiro andar, interrompem-me em baixo com uma algazarra de vivas contrários. Não me perturbo e exclamo:

— Vêde bem, cidadãos! quão necessitado está o povo da liberdade republicana! Vêde como ele impede a liberdade de pensamento! E’ assim que a monarquia o tem educado! Tinha razão o poeta patriota quando dizia que o povo estava no alto, mas que a multidão estava em baixo! Tenhamos a generosidade de perdoar-lhe, e elevemos a multidão até o Povo.

Aplausos gerais e simpatias, que contêm o tumulto. Peço calma, e continuo. Ao sair, dois libertos se postam ao nosso lado. O comendador Benjamin de Sales Pinheiro, voltando-se para eles:

— Rapazes! Que é isto! Dão licença... Sigamos, doutor. E impelia-os, docemente. Passamos. Nada mais.

João Barcelos estava indignado com o caso, e sabia a quem atribuí-lo. Barcelos era o chefe republicano local; advogado, muito moço, mas de grande mérito, um trabalhador valente pela causa”...

GLAZIOU E O URBANISMO DE VALENÇA  

Cel. João Rufino 

 

Valença é uma das poucas cidades fluminenses que possuem tão grande número de praças. A sua extranha topografia exigia grande esfôrço administrativo para o seu embelezamento. Desaterros e melhoramentos se faziam continuamente. As antigas praças da Câmara e da Constituição, aquela em 1868, e esta em 1869, sofriam radicais transformações. Para o embelezamento urbano muito concorreu o então presidente da Câmara, coronel João Rufino Furtado de Mendonça. que, em sessão de 11 de março de 1884, conseguia autorização para ajardinar as atuais praças Visconde do Rio Preto e D. Pedro II. Um gradil de ferro era, então, colocado em torno à antiga praça da Câmara (atual Visconde do R. Preto).

     

O gradil e o ajardinamento, que datam de 1884, custaram 13:000$000. Mais tarde, isto é, em 1919, desaparecia o gradil, que era então substituído por um passeio feito de cimento que circunda toda a praça. No centro do “jardim de cima”, como um dos seus antigos ornamentos, ergue-se um coreto de ferro fundido, construido em 1916, pela importância de 5:050$000. O jardim da praça Visconde do Rio Preto tem uma área de 8.075 metros quadrados.

 

                               

                                       Fotos do Jardim da Praça Visconde do Rio Preto - Jardim de cima

No ano de 1884, o cidadão Clarimundo Marques Faria firmava contrato para a construção de um gradil de ferro e ajardinamento da praça D. Pedro II, pela quantia de 115:000$000. Nesse mesmo ano, a Câmara providenciava sobre a aquisição de exemplares vegetais para o ajardinamento das praças, graças ao interesse do dr. Oliveira Figueiredo junto ao diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.  

 

                  Trecho da antiga praça do Comércio (atual D. Pedro II), antes de ser ajardinada — 1860  

 

No “Jardim de Baixo” havia um curioso tanque com repuxo, com peixinhos dourados, que a petizada sabia respeitar... Em 1915, desaparecia o tanque, para dar lugar ao busto do construtor comendador Antônio Jannuzzi. As praças Visconde do Rio Preto e D. Pedro II eram arborizadas desde 1865, em seus contornos, por mangueiras, que estão desaparecendo.  

 

O “Jardim de Baixo” — denominação que o povo dera antes — é um dos logradouros mais pitorescos e aprazíveis da cidade. Beleza e majestade, as suas velhas árvores empolgam. Outrora mais fechado por arvoredos e arbustos, o jardim da praça D. Pedro II se apresentava como um parque de irresistível atração urbana. Ainda hoje, conservando traços de sua beleza antiga, desperta, contudo, a curiosidade dos que visitam a cidade. E’ o maior, dentro da maior praça de Valença. Mede cerca de 16.800 metros quadrados.

 

    

 

 

Mosaico de fotos do parque D.Pedro II (Jardim de Baixo). Década de 1940.

   

O traçado desses jardins foi efetuado pelo francês Glaziou, o mesmo que levantou a planta do jardim da Praça da República, antigo Campo de Sant’Ana, no Rio de Janeiro. (*)  

 

(*) “O Jardim de Baixo como o Jardim de Cima foram construídos escreve o jornalista vaIenciano Mário Domingues pelo talvez maior artista europeu de seu gênero na época em que viveu: Augusto Glaziou. Contratado por Dom Pedro II para a construção no Rio de Janeiro dos parques do Campo de Santana e da Quinta da Boa Vista, trouxe, em 1860, uma nova concepção de arte arquitetônico-paisagística. E’ a que os franceses chamam de gênero “grandiose”, jardim “d’agrément”, completamente diferente do jardim de utilidade do Mestre Valentim”. E depois de outros comentários sôbre os jardins de Valença, conclui o jornalista: “Há ainda os acidentes do terreno, que, no nosso Jardim de baíxo, são naturais, e que Glaziou, com tanta inteligência, soube aproveitar quando em 1884 o construiu depois de uma longa permanência de 24 anos rio Brasil, sentindo, nessa época, perfeitamente, a natureza brasileira, o que lhe permitiu fazer, com mais alma, duas grandiosas obras de arte em Valença.” (D’ “O Estado”, de Niterói, em 24-5-50).

 

        

O pequeno jardim da antiga praça Marechal Deodoro, atual Balbina Fonseca, foi construido, em 1912, pelo então presidente da Câmara, coronel Frederico de la Vega. Em 1938, por ocasião das comemorações do centenário da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia, sofreu essa praça completa transformação, graças ao então prefeito dr. Oswaldo Augusto Terra, que fez nele executar, além de ajardinamento, a construção de um tanque com repuxo. Sua área é de 1.875 metros quadrados.

 

O jardim da praça “Dr. Frontin”, nome perpetuado no bronze como gratidão aos benefícios inestimáveis que prestou à cidade o ilustre engenheiro, foi construido, em 1913, pela Estrada de Ferro Central do Brasil, em terrenos foreiros, por ela adquiridos a Anastácia Batista Cardoso e a Izabel das Neves. É circundado por um passeio de cimento. Cedida à Câmara Municipal, a praça onde se encontra esse jardim fronteiriço à estação da Central, a Municipalidade tornou-a logradouro público pela Deliberação N. 141, de 15 de maio de 1913, dando-lhe a denominação de “Praça Dr. Frontin”. Êsse jardim mede cerca de 4.250 metros quadrados e é um dos mais pitorescos recantos da cidade.

 

 

                                                         Vista do "Jardim da Glória" 

O “Jardim da Glória”, em honra à padroeira da cidade, é o mais novo. Em frente à Catedral, e junto ao “Jardim de Baixo”, foi construido em 1923, por iniciativa do então prefeito coronel Manoel Joaquim Cardoso, cujas obras foram suspensas em 23 de agosto desse ano, em virtude do decreto do Interventor federal no Estado, que dissolveu as prefeituras municipais. A sua reconstrução só teve lugar em março de 1924, sob os auspícios do então prefeito interino dr. Fernando de Castro Correia de Azevedo, importando a obra em 35:000$000. O jardim, que está dentro da praça da Bandeira, foi inaugurado a 15 de junho de 1924 e mede 2.750 metros quadrados, mais ou menos.

 

           

 

                                                        

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