Estudo do Sangue                                                              

 

Introdução e Objectivos

 

·      O sangue é constituído pelo plasma e pelas células sanguíneas que flutuam no plasma. O plasma contém 90% de água e várias substâncias dissolvidas, entre elas, albumina (4,5%), globulinas (2%), fibrinogénio (0,3%), glicose (0,1%) e outras substâncias em menor concentração (aminoácidos, hormonas, enzimas, Na+, PO4H2-, HCO3-, Ureia, etc.). Os elementos celulares do sangue são: Os glóbulos vermelhos (eritrócitos), os glóbulos brancos (leucócitos) e as plaquetas sanguíneas (Fig.1).

Figura 1 - Componentes celulares do sangue

 

 

            Qualquer alteração no número normal de células sanguíneas é de importância clínica pois pode indicar que certas alterações fisiológicas estão a ocorrer no organismo.

            Os objectivos  destas experiências são os seguintes:

1.   Determinação do número de glóbulos vermelhos e  brancos do sangue.

2.   Identificação e contagem diferencial dos glóbulos brancos.

3.   Determinação do hematocrito e da concentração de hemoglobina no sangue.

4.   Determinação dos grupos sanguíneos.

5.   Determinação do tempo de coagulação.

·      O conjunto de dados obtidos, quando comparados com os seus valores normais, permite uma avaliação do estado fisiológico geral do organismo.

 

 

PARTE EXPERIMENTAL

 

Glóbulos Brancos

 

Preparação de um esfregaço de sangue.

 

            A identificação de vários tipos de glóbulos brancos, incluindo  neutrófilos, eosinófilos, basófilos, linfócitos e monócitos é normalmente feita num esfregaço de sangue (Fig.3).

 

·      O núcleo e o citoplasma destas células coram selectivamente na presença de um corante, o corante de Wright. Este reagente é uma mistura de um corante básico, o azul de metileno, com um corante ácido, a eosina, e álcool metílico como fixador das células. Assim, algumas células reagem com corantes básicos, outras com corantes ácidos e outras com uma combinação de corantes.

 

Procedimento

 

1.   Limpar a ponta de um dedo com álcool e fazer uma picada com auxílio de uma agulha ou lanceta esterilizadas.  Apertar o dedo de modo a obter uma gota de sangue. Limpar esta  primeira gota de sangue e obter uma segunda  gota que é colocada  numa lâmina de microscópio, bem limpa com álcool.

2.   Para obter um esfregaço de sangue  proceder como se descreve na Fig. 2.

 


Figura 2 - Preparação de um esfregaço de sangue.

 

A. Colocar uma  gota de sangue a cerca de 1 cm da extremidade de uma lâmina de vidro colocada horizontalmente sobre a mesa.

B. Com uma segunda lâmina de bordos esmerilados tocar na gota de sangue permitindo que este se espalhe  horizontalmente no bordo da lâmina.

C. Mantendo a lâmina 2 com uma  inclinação de cerca de  45º, fazer deslizá-la ao longo da lâmina 1, de modo a espalhar o sangue numa fina camada uniforme.

 

3.   Secar o esfregaço agitando a lâmina no ar.

4.   Colocar a lâmina sobre um  suporte, cobri-la com corante de Wright (5 gotas). Deixar actuar durante 2-3 min. (este tempo deve ser determinado para cada remessa de corante, de modo a obter a coloração óptima).

5.   Adicionar igual quantidade de água destilada (5 gotas) e misturar. Deixar actuar mais 4 min.

6.   Escorrer o corante e lavar com água destilada até obter uma coloração rósea. Remover o excesso de água encostando à margem da lâmina papel absorvente. Deixar secar ao ar.

7.   Examinar ao microscópio, primeiro em pequena ampliação, para escolher  a zona mais uniforme do esfregaço. Observar em grande ampliação ou com objectiva  de imersão, se necessário, para distinguir os vários tipos de glóbulos brancos.

8.   Para obter uma preparação definitiva, colocar sobre o esfregaço uma gota de euparal, cobrir com uma lamela e deixar secar durante alguns dias.

 

Contagem diferencial dos glóbulos brancos

 

            A contagem diferencial dos glóbulos brancos consiste em contar cada  tipo de glóbulos  brancos encontrado numa dada área de um esfregaço de  sangue e expressar esse número em percentagem do total dos  glóbulos brancos contados. Deve contar-se um total  de pelo menos 100-200 glóbulos (Fig.3). Para identificação correcta dos vários tipos, consultar livros de texto apropriados, por exemplo, Histologia Básica de Junqueiro e Carneiro.


 
Figura 3 - Diferentes tipos de Glóbulos.

 

Apresentação dos resultados

 

1.   Procurar identificar os cinco tipos de glóbulos brancos e fazer um desenho esquemático de cada um deles. Procurar usar as cores que os glóbulos apresentam no esfregaço de sangue.

2.   Contar os vários tipos de glóbulos brancos encontrados no esfregaço. Pode utilizar a sequência de contagem conforme se indica a seguir, de modo a evitar contar o mesmo glóbulo duas vezes.


 

 


3.   Apontar o número de glóbulos brancos de cada tipo encontrados até um total de 100-200 e expressar os resultados em % do total (Tabela III).

 

 

 

 

Tabela I. Contagem Diferencial dos Glóbulos Brancos

 

Glóbulos Brancos

%

Número de neutrófilos

 

 

Número de eosinófilos

 

 

Número de basófilos

 

 

Número de linfócitos

 

 

Número de monócitos

 

 

TOTAL

 

100

 

 

 

 

4.   Comparar os valores obtidos com os valores normais (Tabela II) e discutir as possíveis diferenças.

 

 

 

 

Tabela II. Componentes Celulares do Sangue

 

Células

Células / mm3 Sangue

Glóbulo Brancos (%)

Função

Eritrócitos Homem

5,6 x106

-

Transporte de O2 e CO2

Eritrócitos Mulher

4,8 x106

-

Transporte de O2 e CO2

Leocócitos

5.000 - 10.000

100

 

Neutrófilos

5 - 500

50 - 70

Fagocitose

Eosinófilos

300

1 - 4

Fagocitose

Basófilos

50

0,1

 

Linfócitos

2.800

20 - 40

Formação de anticorpos

Monócitos

550

2 - 8

Fagocitose

Plaquetas

3 x 105

-

Coagulação sanguínea

 

 

 

GRUPOS SANGUÍNEOS

 

            Em 1901, Karl Landsteiner descobriu que há vários tipos de sangue e, portanto, não se podem fazer transfusões de sangue indiscriminadamente entre diferentes pessoas. Landsteiner obteve sangue de um grande número de pessoas e separou as células sanguíneas do plasma. Fez depois todas as combinações possíveis entre o plasma e glóbulos vermelhos dos vários sangues.  Observou que em alguns casos, depois de misturados, os glóbulos se mantinham em suspensão no plasma em que tinham sido colocados, mas noutros os  glóbulos vermelhos agregavam-se em aglutinados enormes que sedimentavam imediatamente  no fundo do tubo  de ensaio. Com base nestes resultados, foi possível considerar três grupos sanguíneos que Landsteiner denominou A, B, e O. Mais tarde reconheceu a existência de um quarto grupo, AB. A partir desta descoberta inicial dos grupos sanguíneos, pelo menos mais nove grupos foram reconhecidos no sangue humano, alguns deles com subdivisões.

 

A  causa da aglutinação observada por  Landsteiner é a ocorrência de uma reacção antigénio-anticorpo. Assim, os antigénios (ou aglutinogénios ) que caracterizam os grupos sanguíneos são glicoproteínas específicas localizadas na membrana plasmática dos  glóbulos vermelhos e os anticorpos (ou  aglutininas), que reagem especificamente com os aglutinogénios, são     y-globulinas e encontram-se dissolvidos no plasma. Na reacção antigénio-anticorpo, a molécula do anticorpo  tem dois locais de ligação e pode formar uma ponte entre dois  eritrócitos, que por sua vez se ligam a outros eritrócitos, produzindo a aglutinação (Fig. 4).

 

Mais tarde, em 1940, Landsteiner e Weiner descobriram a existência de um outro antigénio no sangue humano, o factor  Rh, que pode dar reacções  de incompatibilidade sanguínea muito violentas. Na realidade este factor é um conjunto de factores, daí a designação de Sistema Rh, dos quais o mais antigénico é o antigénio D. As pessoas que contêm o factor Rh, designam-se Rh positivas e as que não contêm este factor são Rh negativas.

 

 

 


Figura 4 - representação esquemática da reacção anticorpo-antigénio que ocorre quando glóbulos vermelhos contendo antigénio A são colocados na presença de aglutininas anti-A, com a consequente aglutinação dos glóbulos vermelhos.

 



Uma vez que as reacções de aglutinação ocorrem rapidamente mesmo à temperatura ambiente, é possível determinar o grupo sanguíneo misturando uma pequena gota de sangue com vários soros contendo aglutininas específicas (anti-A, anti-B, ou anti-Rh) e observar se há ou não aglutinação. Os resultados possíveis encontram-se esquematizados na Fig. 5.

 

 


Figura 5 - Resultados possíveis na determinação ddos grupos sanguíneos.

 

 

 

 

Determinação dos grupos sanguíneos

 

Materiais  necessários

 

                        Lâminas de vidro

                        Marcadores

                        Soros anti-A, anti-B e anti-Rh

                        Palitos de madeira

                        Lanceta

                        Algodão

                        Álcool

 

Procedimento

 

1.   Obter duas lâminas de vidro bem limpas e marcá-las com caneta de acetato. Numa delas escrever Anti-A numa extremidade e Anti-B noutra. Na outra lâmina escrever Anti-Rh.

2.   Obter uma gota de sangue da ponta de um dedo pelo processo usual e tocar com ela em cada um dos locais marcados nas lâminas.

3.   Juntar uma gota de soro anti-A, outra de soro anti-B e outra de anti-Rh nos locais apropriados e misturar com a gota de sangue, usando palitos de madeira.

4.   Esperar alguns minutos e observar se houver ou não aglutinação. A aglutinação pode observar-se melhor se a lâmina for colocada sobre uma luz. O calor da luz também acelera a reacção.

5.   Com o auxílio da Fig.5 determinar o grupo sanguíneo a que pertence o dador de sangue para a experiência e indicar quais os tipos de sangue que ele pode receber e para que grupos pode ser dador (Tabela III).

 

Apresentação dos resultados

 

Tabela III

 

Grupo sanguíneo do dador

Pode receber sangue dos grupos:

Pode dar sangue aos grupos:

 

 

 

 

PLAQUETAS SANGUÍNEAS

 

As plaquetas sanguíneas são formadas a partir de células da medula óssea, os megacariócitos, que emitem prolongamentos periféricos que se desprendem e passam para o sangue, formando as plaquetas  sanguíneas. Um adulto normal tem cerca de 150.000 - 300.000 plaquetas por mm3 de sangue (Tabela II), que desempenham um papel primordial na coagulação sanguínea. Quando ocorre corte ou traumatismo de um vaso sanguíneo, o sangue sai para o exterior e a coagulação ocorre dentro de 3 a 5 minutos, impedindo a perda de sangue.

 

Nesta experiência determina-se o tempo de coagulação do sangue retirado da ponta de um dedo.

 

 

            Determinação do tempo de coagulação ( método do tubo capilar )

 

            Procedimento

 

1.   Limpar a ponta de um dedo com um algodão embebido em álcool a 70% e picar  em seguida com uma lanceta esterilizada. Limpar a primeira gota de sangue e obter rapidamente uma segunda gota. Começar a contar o tempo com um cronómetro.

2.   Encostar à gota de sangue um tubo capilar de vidro com cerca de 10 cm de comprimento e enchê-lo de sangue.

3.   Ao fim de 1 minuto começar a partir pedaços (0,5 cm) do tubo de 30 em 30 segundos. Quando se tiver formado a fibrina, que dá origem ao coágulo, as fibras da fibrina tendem a unir os bocados do tubo capilar que se partem (Fig.6).

Figura 6 - Determinação do tempo de coagulação pelo método capilar.

 

Resultados

 

1.   Qual o tempo de coagulação ? ______________________ min.

2.   Como se compara este tempo com os valores normais ?

 _____________________________________________________________________

3.   Descreva esquematicamente as duas vias (intrínseca e extrínseca) que conduzem à coagulação sanguínea (consulte um livro de texto *).

 

 

(*) BIBLIOGRAFIA :

 

1.   Crouch, J. E. and M. H. Carr (1977). A Laboratory Manual.

     Anatomy and Physiology. Mayfield Publishing Company,

      Palo Alto, California.

2.   Vander, A. J., J. H. Sherman and D. S. Luciano (1981).

      Fisiologia Humana. McGraw-Hill do Brasil, Rio de Janeiro.

3.   Guyton, A. C. (1976). Fisiologia Humana.

Interamericana, Lda., Rio de Janeiro.

 


© Leonel Pereira

Texto baseado no Kit Didáctico: Componentes do Sangue

Uma Edição da

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