A Música Vocal
na Renascença
Na música renascentista, como continuidade histórico e artístico que vinha se elaborando principalmente nos três últimos séculos da Idade Média, atingiu seu apogeu o estilo coral polifônico a capella isto é, o canto de várias vozes, interpretado por solistas, ou por um ou mais coros, sem acompanhamento instrumental. Essa música se corporificou, mediante As técnicas de contraponto, aperfeiçoadas pelas escolas dos Países Baixos e através da influência franco-flamenga difundida por toda a Europa.
Na primeira fase da Renascença musical, destacou-se, de modo especial, Josquin des Près (1440-1521), aluno de Ockeguem, chamado "o Príncipe dos Compositores" e "luz da escola flamenga", considerado pelos estudiosos "a encarnação da música renascentista".
Segundo uma observação de Lutero sobre Josquin, citada por Kiefer, em sua obra História e Significado das Formas Musicais, "as notas tinham de sujeitar-se à sua vontade", pois ele não era como outros mestres do canto que tinham de se submeter à determinação das notas. Tal comentário se faz pertinente, pelo fato de que muitos compositores permitiram que os artifícios técnicos do contraponto escravizassem a expressão musical. Havia em Josquin uma preocupação muito clara em traduzir musicalmente o sentido das palavras do texto e ele o fazia, de modo profundamente expressivo, tendo usado a imitação canônica com autêntica maestria.
Após a morte de Josquin, considerado fundador da escola franco-flamenga, seus discípulos se espalharam pela Europa, difundindo as avançadas conquistas da técnica contrapontística concretizada pelos mestres dos Países Baixos.
Assim, de acordo com o estilo musical da época, os compositores, com liberdade determinada e precisão científica, teciam teias de diversas melodias, que soavam independentes, num sentido horizontal, embora entrelaçadas simultaneamente, explorando, numa trama musical, todos os recursos da imitação vocal. Esta é a chamada textura polifônica, que contrasta com a monofônica, dotada de uma única linha melódica, própria, por exemplo, do cantochão medieval. Difere-se também da homofônica ou acordal que utiliza, com freqüência, para todas as vozes, o mesmo ritmo, geralmente predominando uma linha vocal mais aguda sobre as outras que, como blocos verticais, têm a função de acompanhamento. Nas principais formas musicais da Renascença afirmou-se a cerrada textura polifônica, em que são concebidas as vozes horizontalmente. A escrita em acordes foi mais utilizada em canções profa-nas que se ligavam, de modo especial, ao ritmo bem marcado da dança ou da poesia.
Tudo isto ocorria ainda dentro da linguagem modal. No entanto, através da chamada musica ficta ou falsa, haviam sido muito ampliadas, desde o século XIV, as perspectivas de invenção melódica. A musica ficta consistia na possibilidade de emprego alternativo de notas "estranhas" aos modos ou escalas básicos, mediante "acidentes" indicados no texto musical. Surgiu também, no Renascimento, uma tendência no sentido de valorizar o uso de mais dois outros modos ou escalas: o j8nico (de dó a dó), que, posteriormente, seria chamado maior e o eólio (lá a lá), hoje denominado "menor natural".
Durante a Renascença, o compositor trabalhava a imitação de forma diferente do compositor medieval. Na Idade Média, as vozes eram linhas melódicas, distintas e independentes entre si, uma "contra a outra". Na música renascentista, as imitações de cada "antecedente" - trecho melódico a ser repetido, de forma regular ou irregular, pelas demais vozes - fluíam, com continuidade muito natural, em todo o tecido musical, geralmente sem cisões, na passagem de uma secção à outra, mesmo quando, após a imitação de um fragmento melódico por todas as vozes, era introduzido novo antecedente que seria tratado da mesma forma.
O interesse pela música profana era intenso. A canção polifônica francesa apresentava-se freqüentemente naturalista, empregando, por vezes, com o intuito de descrição, efeitos onomatopaicos e eventualmente, a métrica greco-latina, em que a poesia condicionava o ritmo da música. Os escritores e músicos do grupo La Pléiade, chefiados pelo poeta Ronsard sonharam em realizar uma música á maneira greco-romana, submetida á antiga métrica rítmica.
Dentre as mais grandiosas e expressivas obras da Renascença, ressaltam-se aquelas compostas para a Igreja Católica, sobe as formas de moteto e missa.
Ao lado da música vocal, desenvolveu-se, gradativamente, a música instrumental. Começou-se por reduzir para órgão ou transpor para instrumentos de corda as melodias vocais das canções polifônicas. Depois surgiram formas típicas como: prelúdios de livre invenção, diálogos instrumentais, tocatas, ricercari, suites, variações, fantasias e sonatas (par suonare).
Dentre as formas de música instrumental má elaboradas, especialmente ressaltaram-se:
- suites ou coleções de danças, como pavanas e galhardas, dentre outras;
- fantasias, utilizando com criatividade os recursos contrapontísticos;
- variações, em que uma melodia principal -geralmente apreciada - era várias vezes repetida, sucessivamente, de modo sempre variado;
- baixo ostinato (em que uma
melodia insistia continuamente no baixo, enquanto ocorriam variações nas vozes
superiores);
- tocatas ("para tocar" em teclados, geralmente de órgão e
cravo);
- canzonas da sonar ou para soar (destinada a grupos de instrumentos);
- ricercari (que significava "procurar" e u
"imitação" no instrumento, à maneira contrapontística vocal).