A musicologia, sua técnica e seus problemas

Carlos Moreno

A musicologia é uma ciência, e como tal, mais do que um conjunto de noções e dados representa o desenvolvimento de uma atividade investigadora, de vasta projeção em diversas direções, procurando aprofundar, estender e aumentar os resultados alcançados. Não considera a prática musical própria da arte, nem os estudos de caráter filosófico e crítico, que formão parte da estética. A musicologia, como tal, propõe a elaboração de definições universalmente válidas; sendo que na sua realização, devido à existência de numerosos gêneros musicais, não abarca essa arte na sua entidade, mais em cada um dos seus aspectos específicos, concretos e determinados. Conseqüentemente articula-se em muitos setores particulares, utilizando em cada um deles métodos próprios, diversos, mais intimamente relacionados. Desta forma, os problemas oferecidos para o seu estudo são múltiplos e de solução freqüentemente difícil e incerta. Alguns são de caráter geral, outros de categoria particular.

O movimento musicológico contemporâneo tende a reconstruir a imagem do passado musical e muito sutilmente, descobrir e ressuscitar a pureza, ingenuidade e autenticidade da música que o tempo esqueceu, obscureceu e deformou, ou seja, estamos ante dois problemas; um histórico, vinculado ao científico e outro estético, relacionado ao artístico, que a pesar de heterogêneos são unidos numa harmonia pré-estabelecida. Realmente, o respeito que cada um sente e deve sentir para com a arte antiga, reclama uma diligente dedicação ao estudo mediante métodos apoiados na ciência e não na arbitrariedade.

Nos seus começos a musicologia tinha um matiz completamente histórico, logicamente, pois o seu fundamento e a sua motivação indicavam esse caminho. Depois com o advento da psicologia e a etnografia musical, a musicologia sem renunciar a seu campo de ação, chegou a absorve-las e subordina-las a seus próprios interesses históricos. A partir desse conceito genérico, a musicologia abre uma ampla serie de derivações, convertendo-as em temas capitais do estudo. O culto pela música do passado, evocado na história, origina a preocupação de rememorar a arte daquela época, sendo necessário transcrever para a notação moderna aquele repertório; uma árdua tarefa de restauração, que contém um alto conteúdo estético, em detrimento do material. No exercício e aplicação dos seus métodos, a musicologia aproveita disciplinas auxiliares como a diplomacia, bibliografia e biblioteconomia, destacando a paleografia que representa uma indispensável ajuda na hora de reconhecer corretamente a interpretação das numerosas e variadas escrituras musicais. Neste sentido é muito importante reconhecer o esforço realizado pelos artistas, através dos séculos, na busca de uma linguagem permanente que lhes permitisse expressar musicalmente sua criação artística através dos tempos, dando condições concretas ao artista de recrear fielmente o pensamento do compositor. Quantos anos transcorreram para conseguir esse feito? Com certeza um processo lento, árduo e continuo que proporcionou uma linguagem concreta, colaboradora auxiliar como veículo da consciência musical de cada civilização, na sua progressiva divulgação e desenvolvimento no tempo e no espaço. Nesse aspecto é sumamente útil e eficaz para a musicologia a estratografía musical, ciência próspera através de estudos comparativos, logra excelentes resultados. A esta devemos agregar a filologia musical, que considera o significado variável dos termos utilizados na prática e conferidos pela teoria. Assim, o vocábulo acorde é motivo de estudo, considerado pela teoria de Pitágoras; também a palavra tempo, que na época barroca adquiriu caráter expressivo e dinâmico; o próprio termo harmonia, discutido pelos musicólogos; o de concerto ou concertare em ordem à prática musical. Finalmente, entre outros podemos citar os de modalidade e tonalidade, que são motivo de importantes debates entre musicólogos. Não menos atuais resultam ainda os conceitos referentes ao do cantor e músico, considerados em si mesmos e na sua relação social dentro do âmbito da historia humana, como objeto preferencial da sociologia musical.

Junto a restauração melódica e rítmica, devemos colocar o problema acústico e tímbrico no uso dos instrumentos, particularmente antigos. De isto procede a organografia, com a que podemos almejar conclusões precisas e minuciosas sob a estrutura dos instrumentos, que nos permite ter uma audição fiel com relação ao matiz e a cor da época respectiva.

Na ordem prática, a musica instrumental, oferece para a análise uma serie de problemas que passam pela arte da variação, as notas ornamentais, o registro (que interessa aos organistas), a tablatura para os instrumentos de teclas e corda e o modo de tocá-los, o sentido da orquestra nos compositores do melodrama lírico, junto com o desenvolvimento do baixo continuo.

Todas as questões apontadas convergem para um ponto que representa a mutua relação entre o método musicológico e a prática musical. O trabalho mais nobre da musicologia consiste em reunir e ordenar todos os fatores que contribuem para uma realização musical artística e objetivamente autêntica. Por isso as relações entre a música e a musicologia devem ficar associadas, pois a compreensão mútua entre os músicos e musicólogos frente aos postulados e conclusões apresentados são fundamentais para resolver os problemas e dúvidas existentes. Por um lado, a musicologia está ao serviço da arte musical, pela utilização que a esta presta. Do outro, o músico criador não pode desestimar as considerações que a ciência propõe. A interpretação ideal será aquela que reúna as qualidades artísticas do intérprete unidas aos conhecimentos científicos que a musicologia considere oportunos e necessários. Sem este princípio o artista cairá facilmente na exaltada arbitrariedade da sua fantasia individual e o sábio, nas frias lucubrações dos seus dogmas. Exemplo sintomático poderá – se observar em algumas gravações musicais que disfarçam a autenticidade artística de um repertório interpretado com excessiva liberdade e perfeição técnica.

A música eletrônica trouxe para a musicologia a proposta obrigatória de uma revisão total dos conhecimentos acústicos sob esquemas tradicionais considerados intangíveis pela música tradicional. Uma revolução que mexe com toda uma estrutura conservadora, mantida através de séculos, e que traz para o convívio do universo musical um enriquecimento técnico notável, com perspectivas e opções infinitas na relação compositor – instrumentista – musicólogo. Quem seguramente ganha com isto é o grande publico.

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