A Natureza dos Instrumentos
Musicais
Por um longo período da história, a tecnologia dos
instrumentos musicais fechou-se em densas camadas de segredos, os quais
somente seriam revelados de pai para filho, à maneira dos vinhos, dos perfumes e de
outras preciosidades do gosto humano.
Mesmo assim havia instrumentos considerados irreprodutíveis, como os violinos
Stradivarius construídos há quase 300
anos pelo luthier (fabricante de instrumentos musicais) Antonio Stradivari, em Cremona, na
Itália. Acredita-se que a
genialidade desse luthier, na aproximação da qualidade sônica do instrumento com os
valores estéticos da música daquela
época, foi, paradoxalmente, o que o impossibilitou de transmitir a parte mais nuclear da
sua técnica a quem quer que fosse.
Consta que nenhum de seus sete filhos obteve sucesso em inúmeras tentativas de
reprodução. Hoje em dia, ainda se
constroem violinos em Cremona com o mesmo procedimento artesanal de Stradivari, mas sem a
alma de Stradivari.
Os compositores dessa época escreviam partituras dentro do chamado sistema tonal, que é
um sistema musical construído
sobre uma certa hierarquia de intervalos. A organização básica do sistema tonal
considera uma nota de referência (a tônica)
ocupando o centro dos acontecimentos, enquanto um número finito de outras notas ou
graus gravitam em torno dela.
Numa visão simplista, uma seqüência melódica seria como uma viagem interplanetária,
na qual se permaneceria o suficiente em
cada planeta e sempre com o olhar voltado para o Sol. As sensações causadas pela
produção do sistema tonal são tais que
uma frase melódica em Dó Maior estará clamando pela nota Dó cada vez mais à medida
que os graus de consonância vão-se
tornando críticos e o equilíbrio do sistema se compromete. É o chamado sentimento da
tônica a que se referem os teóricos.
O mecanismo mais poderoso do sistema tonal é denominado modulação, e consta de se
transferir o centro tonal para um outro
grau abaixo na hierarquia. Novas notas associadas a um subconjunto da configuração
anterior, incluindo aquela que teria
definido o tom original, passam a gravitar em torno do novo centro. Isto demonstra que a
idéia subjacente de sistema
gravitacional na música dos séculos XVII e XVIII não se prendia apenas à organização
do nosso sistema solar, mas talvez a
um modelo para o universo. Nesse período, em que viveram Galileu Galilei e Isaac Newton,
as idéias a respeito do movimento
dos corpos ganhavam formalizações sólidas ao mesmo tempo em que surgia uma primeira
tecnologia óptica que dava
suporte experimental às formalizações matemáticas. Com um sistema musical que inclui
na sua essência as informações
cinemáticas do sistema solar e similares, a mudança de referência passa a ter uma
confluência lógica na percepção humana,
criando a sensação de um horizonte possível e natural.
Se a idéia de que "a música é a concretização da inteligência contida nos
sons" como escreveu o matemático tcheco H.
Wronski6.2 no século XIX for levada ao extremo, pode-se levantar a hipótese de
que o segredo de Stradivari residia na sua
intuição sobre os sistemas gravitacionais, pois se a cada música cabe um instrumento,
ao sistema tonal, por força de sua
analogia com os sistemas planetários, cabem os instrumentos cuja organização espectral
de seus timbres reflitam a dinâmica
gravitacional.
Contudo, ainda que nada parecesse abalar o equilíbrio das peças tonais, a evolução da
música faria com que muitos
compositores fizessem uso do sistema tonal até a exaustão. O domínio absoluto da
técnica de modulação possibilitou o
deslocamento do centro para intervalos distantes ou pouco ligados à tônica. E essa
simplificação do caminhamento no tecido
tonal diminuiu a importância dos critérios de consonância postulados pela modulação
convencional. Abandonou-se a noção de
hierarquia de alturas, que era a essência da tonalidade, em favor da estruturação de
outros parâmetros musicais, como a
intensidade. Era a dissolução do sistema tonal.
Simultaneamente a essas transformações dos sistemas de composição, acontecia nas
ciências exatas o desdobramento das
investigações sobre o interior da matéria, que se seguiu à descoberta do átomo. Essas
pesquisas trouxeram uma nova realidade
conceitual a respeito do movimento dos corpos e impôs um novo rumo à compreensão do
universo. A energia no interior do
átomo revela-se quântica, comprometendo a noção de contínuo. A geometria euclidiana
passa a dividir o seu lugar com outras,
que manipulam o invisível e o inimaginável. Matéria e antimatéria passam a conviver
lado a lado para dar significado à solução
das novas equações. Enfim, essa nova ordem da natureza revelada no século XX
incomparavelmente mais complexa que a
de Copérnico foi uma dose excessiva para o já combalido sistema tonal. E é nesse
contexto que a música enfrenta
problemas em conseguir uma química espontânea entre o instrumento e a partitura, pois,
conforme a hipótese de Wronski
enunciada acima, os instrumentos preparados para o sistema tonal produzem uma
inteligência que a rigor satisfaz
exclusivamente ao sistema tonal, de modo que um sistema musical que pretenda espelhar uma
outra circunstância física terá
que manufaturar instrumentos que acomodem as estruturas de informações dessa nova
circunstância.
Se a virada do século XIX para o século XX for tomado como o início do conflito entre
as idéias e os instrumentos, vê-se que
foram necessários ainda quase sessenta anos para que os primeiros instrumentos
algorítmicos viessem a ser implementados em
máquina1. Mas, felizmente, a moderna teoria espectral e as técnicas de processamento
digital de sinais que se desenvolveram
nos últimos quarenta anos resolveram seguramente todo o problema da produção de sons,
uma vez que qualquer som
devidamente especificado pode ser produzido por meios computacionais.