1916: O VIOLÃO BRASILEIRO JÁ É UMA ARTE
Um dos aspectos mais interessantes da música brasileira no século XX, é a evolução
de um violão despretensioso e marginalizado, para o instrumento mais utilizado na música
erudita ou popular, em qualquer classe social, como acompanhador ou solista. Esse
fenômeno ocorreu com uma rapidez tão grande, que os movimentos anteriores foram sendo
esquecidos, à medida que se alcançava uma nova etapa. Hoje, o maior desafio que se
apresenta ao violão brasileiro é a pesquisa e organização do seu repertório, o
levantamento dos principais violonistas e a recuperação de sua história.1916 é o ano
da primeira grande conquista do instrumento. O nome em destaque é o de Américo Jacomino.
Instrumento vulgar e sem valor no início do século, quando começava a se desenvolver,
no Brasil, a música para violão, No instrumento ainda era considerado "próprio
somente para modinhas e serenatas ao luar", [1] ou "vulgar e, por isso, sem
valor" [2]. Em maio de 1916, o Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, ainda se
referia ao violão desta maneira: "Debalde os cultivadores desse instrumento procuram
fazê-lo ascender aos círculos onde a arte paira .Tem sido um esforço vão o que se
desenvolve nesse sentido. O violão não tem ido além de simples acompanhador de
modinhas. E quando algum virtuoso quer tirar efeitos mais elevados na arte dos sons,
jamais consegue o objetivo desejado ou mesmo resultado apreciável. "A arte, no
violão, não passa por isso, até agora, do seu aspecto puramente pitoresco" [3].
Poucas semanas depois, o periódico continuava a insistir na "precariedade
artística" do violão, assim como da guitarra portuguesa: "A guitarra nasceu
para o fado e o violão para a modinha. Violão e guitarra são instrumentos populares,
através cujas cordas palpitam tristezas, lágrimas e risos de dois povos intimamente
ligados pela afinidade de raça, de coração e de língua. Acompanhando uma canção
sentimental ou dedilhando um fado corrido, a guitarra e o violão falam não só à alma
de popular, mas à alma de toda a gente. Uma e outro jamais lograrão alcançar a
perfeição sonhada pelos seus cultores apaixonados. As regiões da música clássica não
lhe são propícias, as suas cordas não se dão muito bem nos ambientes de arte
propriamente dita." [4]
Embora atacado por ser instrumento ligado à música popular, o violão já era utilizado
entre nós, nas duas primeiras décadas do século XX, também como instrumento solista
[5]. No Rio de Janeiro, os precursores mais importantes dessa inovação foram Ernani
Figueiredo e Alfredo de Sousa Imenez, falecidos, respectivamente, em 1917 e 1918. O
movimento violonístico, na cidade, cresceu com a atuação de Sátiro Bilhar, Brant
Horta, Joaquim Francisco dos Santos (Quincas Laranjeiras), Mozart Bicalho, Melchior Cortez
e Heitor Villa-Lobos, entre outros. A produção desses músicos, que inaugurou a arte
brasileira do violão, era fracamente aceita fora das classes populares, no início do
século e, com raras exceções, impedida de participar dos meios de difusão musical
reservados às elites. À exceção de Villa-Lobos, os demais nomes citados foram
praticamente esquecidos e a maior parte de sua obra irremediavelmente perdida.
Papel importantíssimo na reversão dessa tendência, desempenharam Catulo da Paixão
Cearense (1863-1946) e João Teixeira Guimarães (1883-1947), o "João
Pernambuco", sobretudo na difusão de canções regionalistas com acompanhamento de
violão, este último com apresentações bastante concorridas em 1916 [6]. Catulo chegou
a reivindicar para si a emancipação do instrumento:
" [...] Digamos mais que fui eu o introdutor do violão na alta sociedade. Os
cantadores de festas e de rádios sabem disto, mas fingem ignorar. [...]" [7]
A aceitação do violão como instrumento de concerto, no país, resultou não só da
atuação desse grupo pioneiro de músicos. Uma nova técnica de execução e um novo
repertório, transformaram completamente a receptividade do violão no meio musical
brasileiro. O marco é o ano de 1916 e os personagens principais são Agustin Barrios,
Josefina Robledo e Américo Jacomino.
Nos círculos onde a arte paira transcorria, na Europa, a I Guerra Mundial. As
apresentações do paraguaio Agustin Barrios (1885-1944) e da espanhola Josefina Robledo,
em várias cidades brasileiras, respectivamente a partir de 1916 e 1917, provocaram um
enorme impacto no público, nos músicos e na imprensa, derrubando o antigo argumento da
"incapacidade artística" do violão. Após o primeiro concerto de Barrios no
Rio de Janeiro, em 24 de julho de 1916, o mesmo Jornal do Comércio que,
semanas atrás, publicava fortes censuras ao violão, passa a reconhece-lo, então, como
instrumento digno das salas de concerto, dirigindo sua crítica, agora, a uma suposta
falta de qualidade da produção violonística brasileira: "Sem querer dar ao violão
a hierarquia aristocrática do violino, do violoncelo e de outros instrumentos que, como
ele, tiveram no alaúde o seu remoto ancestral, em todo caso acreditamos que não se faz
ainda ao violão a justiça que lhe é devida - o que, até certo ponto, se explica pela
dificuldade da técnica do instrumento que ninguém, quase, tenta vencer e dominar,
desanimados todos pela igualdade do timbre que lhe dá uma feição de monotonia.
"Não compreendemos, porém, que se cultive o bandolim em prejuízo do violão,
quando a superioridade deste é imensa como elemento de expressão, como variedade de
efeitos, como exemplar de harmonização interessante na formação dos acordes, como
recurso de modulações estranhas pela sua novidade. "De ordinário, os cultores do
violão limitam-se a fazer dele um instrumento de acompanhamento de modinhas chorosas, ou
o monótono repetidor de desenhos rítmicos de dança, ou o intérprete dos
rasgados sonorosos que convidam ao sapateado languoroso e lascivo! "Quanta
injustiça! "Essa mediocridade, a que condenaram o violão, tem a sua explicação na
ignorância dos que lhe ponteiam as cordas sem o conhecimento da riqueza de efeitos que se
podem obter do precioso instrumento, que mereceu particular atenção de Berlioz no seu
tratado de instrumentação. "Que o violão tenha um repertório limitadíssimo não
admira, porque, com exceção do piano e do órgão, isso acontece a todos os
instrumentos, até mesmo ao violino, cujos foros de nobreza ninguém contesta. E, quando
nos referimos à pobreza de repertório, deve ser entendido que aludimos à raridade das
composições de valor e não à quantidade, pois é sabido que, para o violino
principalmente, muito se tem escrito e pouco se tem mantido no repertório. "Como já
fizemos sentir, o violão sofre principalmente pelas dificuldades que ele oferece e que
poucos ousam afrontar pelo estudo. Só nestes últimos tempos é que por aqui tem
aparecido alguns cultores como os Srs. Ernani de Figueiredo, Brant Horta e alguns raros
mais." [8]
A falta de contato com o repertório violonístico, brasileiro e internacional, não foi
característica exclusiva daquela década. Manuel Bandeira, em 1924, apesar de elogiar a
sonoridade do instrumento, desconhece totalmente as composições para violão, daquele
período ou de épocas anteriores [9] e o eruditíssimo Domingo Prat, em 1934, ainda
afirmava que "Brasil, em guitarra, vive um tanto atrasado" [10]. Mesmo a
produção de Américo Jacomino, sobre a qual pouca coisa de valor tem sido escrita, não
despertou o interesse de José Ramos Tinhorão e Ary Vasconcelos, por exemplo, dois dos
mais importantes historiadores da música popular brasileira.
As apresentações de Agustin Barrios, contudo, provocararam, por todo o país, uma
repercussão impressionante, que somente poderá ser avaliada em um trabalho de tese.
Após os concertos do violonista paraguaio no Teatro Municipal de São Paulo, em 1917, a
imprensa já consegue se referir ao violão de forma mais racional, procurando compreender
melhor as características do instrumento e sua relação com o gosto musical vigente:
"O violão é um instrumento nobre. Pena é que a sua sonoridade não corresponda às
exigências do público dos concertos, que ansia sempre pelas grandes sonoridades. Em todo
o caso, num salão, todos poderão apreciar a voz poética do violão, intensamente
expressiva, a doçura e suavidade de suas inflexões sonoras, principalmente quando esse
instrumento tem ao seu serviço um concertista da envergadura de Artur [sic] de Barrios.
"Ele sabe elevar o violão à altura prestigiosa em que se manteve no período áureo
do século XVI, e que chegou a destronar a viola. "Dos seus magníficos dedos brotam
caudais de sons divinos. É que o seu mecanismo é irrepreensível, brilhante o seu
estilo, profundo o sentimento que agita a sua fina alma de artista." [11] Se Agustin
Barrios trouxe ao Brasil um virtuosismo violonístico sem precedentes e Josefina Robledo a
técnica refinada do concertista e didata espanhol Francisco Tárrega, cabe a Américo
Jacomino a criação do primeiro gênero brasileiro de música solística para violão que
obteve aceitação do público tradicional. Popular ou erudito? talvez, um pouco de cada.
O aplaudido violonista da Casa Édison Américo Jacomino, filho de imigrantes napolitanos,
nasceu presumivelmente em São Paulo, [12] em 1887. Sua atividade, até 1915, é quase
totalmente desconhecida, sabendo-se, apenas, que viveu certo tempo como pintor e
jornaleiro, enquanto se iniciava no instrumento, cremos, de maneira autodidata. Por volta
de 1904, já se apresentava como solista de violão, utilizando a estranha posição que
originou a alcunha pela qual é mais conhecido: "Canhoto". Não é sem razão
que, do período anterior a 1915, pouco se sabe a respeito de Jacomino. O movimento
violonístico em São Paulo, até essa data, foi quase inexistente e os registros
históricos são hoje raríssimos [13]. Isaías Sávio afirma que "o primeiro recital
de importância nesta capital" foi o do violonista cubano Gil Práxedes Orozco, em
1903, no Teatro Santana [14] e Ronoel Simões informa que Orozco lecionou o instrumento na
cidade entre 1903 e 1908, assim como o violonista italiano Eugene Pingitore, entre 1912 e
1915 [15]. Do primeiro, foi aluno Dante Rausse, outro italiano, que atuou na capital nas
décadas seguintes. O Estado de S. Paulo noticia alguns recitais de violão no período,
como os de Gil Orozco, no Salão Carlos Gomes, em 1904, {16] no Salão Steinway, em 1906,
com o violonista português Alberto Baltar [17] e nos salões da Casa Livro Azul [18] e do
Clube Campineiro [19] daquela cidade, em 1906.
O espanhol Manuel Gomes aparece em recitais de violão, nos salões da Casa Bevilacqua
[20] e do Centro Espanhol de Campinas, no ano de 1911 [21] e o português Francisco
Pistoresi em duas apresentações de 1914, no Conservatório Dramático e Musical de São
Paulo, [22] executando um exótico instrumento de nome "diamenofone", ao qual
adaptava ora um violoncelo, ora um violão. Se essas foram, na época, as principais
participações do violão em São Paulo, é possível afirmar que Américo Jacomino
desenvolveu a arte solística do seu instrumento, praticamente isolado de qualquer
influência significativa, criando uma maneira própria de executar valsas, polcas,
mazurcas, dobrados e outros gêneros que, naquele período, utilizavam o violão como mero
acompanhador. Entre 1912 e 1913, Jacomino gravou 12 discos pela Odeon do Rio de Janeiro, a
maioria como violonista do "Grupo do Canhoto", conjunto formado por clarineta,
trombone, cavaquinho e violão. Dessas "chapas", todas de uma única face, já
constavam 4 peças em solo de violão, provavelmente de sua autoria: [23] a valsa Belo
Horizonte (n.º 120.595), a polca Pisando na mola (n.º 120.596), o dobrado Campos Sales
(n.º 120.597) e a mazurca Devaneio (n.º 120.598). Por essa época, Américo Jacomino
tambem se apresentava em cinemas da capital, nos chamados "espetáculos de
variedade", bastante comuns na década de 10. Os autores que já se ocuparam do
"Canhoto", [24] citam os cinemas Bresser, Brás-Bijou e o Éden Teatro. Em
dezembro de 1915, O Estado de S. Paulo destacou suas apresentações no cinema High-Life
e, em 1916, nos teatros Minerva e Colombo, além de concertos em Descalvado e Amparo,
interior do Estado de São Paulo. Nesse ano, já era chamado "o Rei do violão"
e "o aplaudido violonista da Casa Édison", tornando-se bastante conhecido entre
os apreciadores de música "popular"."Canhoto" continuou a gravar. Em
datas desconhecidas, entre 1913 e 1918, sairam, pela Phoenix, 15 "chapas"
incluindo seu nome, dentre estas, 10 com o "Grupo do Canhoto" e 5 com Jacomino
ao violão, interpretanto, de sua autoria, as valsas Saudades de minha aurora (n.º
70.786) e Belo Horizonte (n.º 70.803, provável regravação), a polca Uiara (n.º
70.804), a mazurca Devaneio (n.º 70.805) e o chótis Sempre teu (n.º 70.806). Pela
Odeon, entre 1915 e 1921, foram lançados 30 discos com sua participação. Em 20 deles
toca no "Grupo do Canhoto", enquanto 4 outros sairam com obras suas, na
execução de grupos diversos. Jacomino acompanhou o popularíssimo "Baiano"
(Manuel Pedro dos Santos) em 2 discos e apareceu, em 4 títulos, tocando composições
próprias no seu instrumento: as valsas Beijo e lágrimas (n.º 121.248) e Acordes do
violão (n.º 121.249), além dos tangos Madrugando (n.º 121.478) e Recordações de
Cotinha (n.º 121.479). 5 de setembro de 1916 Em fins do primeiro semestre de 1916,
iniciou-se a ascenção do violonista aos palcos importantes da cidade. Apresentou-se, em
datas incertas, nos salões do jornal O Estado de S. Paulo, do Automóvel Clube, do
Trianon, do Conservatório Dramático e da revista A Cigarra [25] . Mas foi em setembro
desse ano que o "Canhoto" participou do evento que comparamos, em importância e
repercussão, aos concertos de Agustin Barrios e Josefina Robledo no Brasil: seu primeiro
recital para um grande público, acompanhado de conferências sobre a carreira de Jacomino
e sobre o violão, no Salão Nobre do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo,
um dos principais palcos da música erudita paulistana. É bem provável que esse concerto
tenha sido organizado e promovido pelo "Canhoto" e pelo escritor português
Manuel Leiroz, um admirador do violão e do conhecido violonista. Em junho de 1916, antes
mesmo da chegada de Barrios ao Brasil (a 19 de julho, no Rio de Janeiro), Leiroz
publicava, na revista A Cigarra, um artigo sobre Américo Jacomino, onde anunciava a
apresentação no Conservatório, elogiava sua arte e, surpreendentemente, referia-se ao
violão de forma bem diversa daquela encontrada nos periódicos da época: "O que
encanta neste concertista de violão não é propriamente a riqueza de técnica, em
verdade colossal, nem o senhorio legítimo do seu instrumento, mais indomável que uma
fera. O que em Américo Jacomino encanta é a sua ciência dos tons, que ele transforma
numa doce harmonia e transmite ao ouvinte, extasiando-o". [26]
Na semana anterior ao concerto do conservatório, Jacomino apresentou-se em uma audição
especial à imprensa, na Sala de Recepções do jornal A Capital, no Palacete Guinle, da
Rua Direita. O sucesso foi maior que o esperado: "Desde os primeiros acordes,
conseguiu o sr. Américo Jacomino prender a atenção do auditório,
entusiasmando-o e comovendo-o seguir. Quando terminado o primeiro número, não foi o
aplauso convencional e inexpressivo com que se costuma lisonjear a vaidade de alguns
artistas de exportação estranjeira, que na maioria dos casos não correspondem à fama
de que vêm precedidos, que alí seouvia. Não. Era o aplauso sincero de uma assistência
admirada e conquistada pelo som do mágico instrumento." [...] "Quanto ao valor
de Canhoto, desnecessárias se tornam quaisquer referências. É mais do que um
artista: é um verdadeiro talento musical." [27]
O concerto no Conservatório Dramático e Musical, no dia 5 de setembro de 1916, foi
motivo de ansiedade e, mesmo competindo com a última apresentação da dançarina Isadora
Duncan, no Teatro Municipal, esteve "a regurgitar de ouvintes". O Diário
Popular foi claro ao apontar Jacomino como um grande inovador na execução do violão:
" [...] Para encher o salão bastaria decerto o mérito excepcional do artista, que
soube evidenciar-se tanto na arte difícil do fazer falar, gemer e sentir um instrumento
rebelde às inspirações musicais. [...]"[28]
Além de frizar a diferença entre a arte de Jacomino e a dos violonistas acompanhadores,
A Gazeta reforçou os elogios ao "Canhoto", destacando algumas de suas técnicas
então mais apreciadas: "É hoje que se realiza, no Conservatório Dramático e
Musical, o concerto do simpático e habilíssimo violonista, Sr. Américo Jacomino. É
preciso advertir aos que o não conhecem ainda, que este artista não se pode confundir
com muitos outros que se apontam nesta cidade e que não passam de talentosos
'dilettanti'. Trata-se, na verdade, de um perfeito artista, possuidor de uma técnica
admirável e que sabe arrancar ao seu instrumento uma porção de efeitos surpreendentes.
Ninguém, antes de ouvi-lo, poderá supor de que recursos é capaz o violão. "Dentre
os seus segredos de técnica há um que, consoante a opinião dos entendidos, é
inimitável: é a maneira de fazer vibrar a corda por meio da pressão lenta dos dedos. O
efeito que ele tira, dessa pressão, que é, dizem, de sua criação exclusiva, tem uma
doçura encantadora." [29]
O concerto de 5 de setembro teve a participação de outro violonista, Álvaro Gaudêncio,
[30] que acompanhou Jacomino em todas as peças, como de costume, além do cantor Trajano
Vaz, que apresentou três números com acompanhamento de violão. O programa do evento foi
publicado, de forma mais completa, pelo jornal O Comércio de São Paulo [31]. Notícias
do dia seguinte indicam a autoria das obras [32] e o "bis" da peça A cigarra na
ponta, no final da primeira parte. Somente O Estado de S. Paulo menciona a execução, por
Jacomino, de uma obra com o título Tango da Agarra [33]. Utilizamos a versão de O
Comércio de São Paulo, com pequenas alterações, baseadas em artigos de outros jornais:
I PARTE
1 - O poeta Danton Vampré apresentará o K...nhoto ao público.
Trajano Vaz apresentará os artistas em caricaturas. Violão
2 - AMÉRICO JACOMINO: Suplicando amor (valsa).
Américo Jacomino, violão
3 - E. FRONTINI: Serenata árabe.
Américo Jacomino, violão
4 - AMÉRICO JACOMINO: A cigarra na ponta (tango),
"dedicada a esta distinta revista"
Américo Jacomino, violão
5 - [AMÉRICO JACOMINO]: Magia do olhar (valsa),
"dedicada ao meu amigo Trajano Vaz"
Américo Jacomino, violão
II PARTE
6 - CATULO DA PAIXÃO CEARENCE: A choça do monte [canção] e
O marroeiro (recitado)
Trajano Vaz, canto com violão
7 - A. CARLOS GOMES: Protofonia do "Guarany"
Américo Jacomino, violão
8 - [AMÉRICO JACOMINO]: Cateretê (imitação da viola sertaneja)
Américo Jacomino, violão
9 - AFONSO ARINOS: O capim mais mimoso [canção]
Trajano Vaz, canto com violão
10 - AMÉRICO JACOMINO: Campos Sales (dobrado),
"imitando tambores e cornetas"
Américo jacomino, violão
11 - [AMÉRICO JACOMINO]: Medrosa (valsa),
"dedicada ao exmo. sr. José Paulino"
Américo Jacomino, violão
12 - [AMÉRICO JACOMINO]: Sonhando (valsa),
"executada ao violão em diversas posições difíceis"
Américo Jacomino, violão
Das peças interpretadas por Jacomino, existem gravações da valsa Suplicando amor,
com o "Grupo do Canhoto" (Odeon, n.º 121.246, lançada entre 1915 e 1921), de
uma fantasia de O Guaraní, com Américo Jacomino (Odeon, n.º 123.210, lançada entre
1925 e 1927) e do dobrado Campos Sales (Odeon, n.º 120.597, lançado entre 1912 e 1913).
A valsa Suplicando amor também foi publicada, em vida do autor, por A. di Franco (São
Paulo), em uma versão para piano e outra para canto e pequena orquestra. À exceção da
Serenata árabe, de Frontini, popular na versão original para piano, as demais são
completamente desconhecidas. O próprio Juvenal Fernandes, em seu catálogo das obras de
Jacomino, [34] cita apenas Campos Sales, dentre as peças executadas no Conservatório.
Esse programa do "Canhoto" é, de fato, o primeiro que chegou até nós. Na
maior parte do seu repertório, transparece uma inegável herança romântica,
característica até de suas últimas composições. E é provável que tenha sido com
esse espírito romântico que o violonista fez penetrar sua arte nos círculos
conservadores de então. Das ruas, para os palcos e salões O violonista teve, nesse
concerto, um aliado sem precedentes.
O poeta Danton Vampré, após fazer "a apresentação de Jacomino, traçando-lhe a
biografia e acentuando o seu merecimento artístico", [35] leu a conferência de
Manuel Leiroz, sobre o violão, enquanto as obras da primeira parte eram executadas:
" [...] Manuel Leiroz é um erudito e um artista que na intimidade gosta de dedilhar
os bordões do violão e da guitarra [portuguesa]. Foi-se pois aos livros, compulsou
monografias e esgotou o assunto, na palestra com que hoje concorre para o festival de um
modesto mas digno artista, palestra que não pode deixar de ser um mimo literário e uma
revelação de fatos e anedotas curiosíssimas sobre o papel e a importância dos
instrumentos de corda na vida emotiva e sentimental dos povos latinos da Europa,
especialmente Portugal, Espanha, Itália e França. "Essa conferência, que não é,
como tantas, uma ressonância de palavras desmioladas de idéia, mas um estudo de arte e
uma reconstituição histórica, será, só por si, motivo bastante para que a culta
'elite' de S. Paulo não falhe ao Conservatório. [...]" [36]
Manuel Leiroz, natural do Porto, viveu cerca de 30 anos em São Paulo e foi redator de
O Estado de S. Paulo, desde 1895 e da revista A Cigarra, desde o primeiro número, em
1914, falecendo por volta de janeiro de 1919, em conseqüência da "epidemia de
gripe" que assolou a cidade. Leiroz apresentou, no concerto de Jacomino, o primeiro
texto escrito no Brasil sobre as origens do violão, antecipando-se até à conferência
de Ernani Figueiredo, de 1917, o mais antigo documento publicado sobre a
"história" do instrumento no Brasil [37]. Infelizmente, o texto completo de
Leiroz não foi impresso e está, hoje, perdido [38]. Dessa conferência, só nos chegaram
alguns resumos.Um deles foi publicado em O Commercio de São Paulo: " [...] Como é
natural, o tema da conferência é - o violão, por cuja trajetória histórica se verá
como esse indefectível companheiro das serenatas soube também brilhar em castelos e
palácios, pôde inspirar os restauradores da música pagã, serviu a fidalgos românticos
e a trovistas despretenciosos, impondo-se, afinal, aos centros artísticos onde se mantém
com honroso prestígio." [39] O outro, em O Estado de S. Paulo: "Nessa
conferência dir-se-á o que foi o violão em mãos de fidalgos melodiosos e de boêmios
tão pobres
como Job. Por-se-á em evidência a sedução que ele exerceu sempre nas imaginações
femininas numa noite, por exemplo, de céu alvinitente, a uma hora constelada, em que a
serenata aponta na rua, desperta as virgens no seu leito e recebe do alto das janelas a
moeda de ouro de um sorriso. "Far-se-á a reabilitação desse instrumento,
despoetizado por mãos inábeis, mas reivindicado por tradições românticas, em que
figuram 'los hermosos' da velha Espanha, os famosos Escarpins da poética Itália, os
alegres e espirituosos boêmios da França de Luís XI.
E provar-se-á que o violão, a que o plebeismo do nosso povo deu irreverentemente a
classificação de 'pinho', é um instrumento que tem tanto de aristocrático e de fino
quanto o violino e o violoncelo, ambos da mesma família, e que a canção e os cantores
populares, antes de subirem das ruas para os palcos e salões, fizeram o encanto dos
ambientes rústicos e alcançaram a glória de uma fatigante existência."[40]
Embora ingênua, do ponto de vista histórico, a conferência de Manuel Leiroz soube
colocar o violão, não como o acompanhante de amadores e músicos de rua, mas como
instrumento cujos ancestrais participaram da vida musical das mais altas classes
européias, deixando, portanto, sem fundamento a aversão ao violão como instrumento de
pessoas desqualificadas. Américo Jacomino e Manuel Leiroz conquistaram, assim, a elite
paulistana, possibilitando o início da dissolução do preconceito que freava, no Brasil,
o desenvolvimento da música solística para o violão. O resultado foi imediato. Em 26 de
novembro do mesmo ano, Jacomino apresentou três números de violão no Teatro Municipal,
"templo sagrado" da vida artística de São Paulo [41] e, em 5 de dezembro,
retorna ao Conservatório para um concerto ainda maior que o primeiro, [42] tomando parte,
no mesmo local, de outro evento, no dia 20 [43].
Américo Jacomino, a partir desse momento, iniciou uma vertiginosa carreira de
concertista, com apresentações por todo o país e pela América Latina, compondo,
gravando, ensinando, atuando ao lado dos músicos de maior renome da época e participando
dos movimentos mais inovadores da música popular brasileira, até 1928, ano de sua morte.
Uma história que ainda está por ser escrita. Seu instrumento tem o segredo de atrair as
almas Como testemunhos de sua estréia "em frente de um grande público", no
Conservatório, resta-nos somente as notícias do concerto e fragmentos da conferência do
escritor português. Uma descrição mais detalhada do texto de Leiroz foi impressa pelo
jornal O Estado de S. Paulo, no dia da apresentação [44]. Desconhecemos o nome do
crítico musical (em 1923 era Américo R. Netto), mas a leitura do artigo faz supor que o
resumo publicado seja do próprio Leiroz. Pela inegável importância que tiveram, na
inauguração de uma nova fase do movimento violonístico paulista e brasileiro,
reproduzimos, como documentos históricos, os textos de Manuel Leiroz, que sairam na
revista A Cigarra e no jornal O Estado de S. Paulo. A linguagem, excessivamente romântica
para os dias atuais, é mais a de um apaixonado pelo instrumento, que a de um crítico ou
historiador. Para o violão brasileiro daqueles tempos, esse romantismo foi fundamental...
Manuel Leiroz e o violão do Canhoto: duas crônicas de 1916 [45]
1 - AMÉRICO JACOMINO
Manuel Leiroz
(A Cigarra, 30 jun. 1916)
O que encanta neste concertista de violão não é propriamente a riqueza de técnica,
em verdade colossal, nem o senhorio legítimo do seu instrumento, mais indomável que uma
fera. O que em Américo Jacomino encanta é a sua ciência dos tons, que ele transforma
numa doce harmonia e transmite ao ouvinte, extasiando-o. É preciso porém vê-lo, para se
poder fazer uma idéia nítida do artista. Vê-lo com disposição de espírito, como nós
o vimos. Não há a maçada da afinação, os mil altos e baixos, até acertar. As chaves
do seu instrumento obedecem-lhe como os soldados de um exército à ordem de comando.
Quando menos se espera, ele fere as cordas em conjunto, fazendo os primeiros delineamentos
melódicos e passa logo às frases, por intermédio das primas e segundas, vertendo no
ouvido do assistente o drama de amor de uma alma. E é a partir daí que começa o encanto
dominador do artista, a sua soberana inteligência em fazer do tom uma linguagem e desta
linguagem a impressão comovida do motivo.
Na protofonia do Guarany, por exemplo, a paisagem visual vai-se operando em nós numa
lentidão condizente com o ritmo da luz nos primeiros albores. Se fechamos os olhos, à
maneira que a interpretação avança, a mafa surge-nos perlada dos primeiros vapores da
madrugada e sonorizada de todos os brandos rumores que antecedem o dia. Ouvem-se depois os
pios de flautim do passaredo que acorda, as vibrações misteriosas da selva despertando
do seu sono com as ondas de luz jocunda e é então que rompe a protofonia num conjunto de
primas e segundas traduzindo admiravelmente o hino ao sol.
Na Serenata árabe há a ternura, o mistério, a ironia. O intuito moral sublinham-no as
cordas numa vibração cromática, que vai das primeiras aos bordões, em cadências de
grande efeito, produzindo a nitidez melódica do assunto. Sente-se nessa música a alma
enamorada do Trovador, visiona-se uma cabeça de mulher que a noite perturba de sonhos
constelados, e ouvindo embevecida a voz que se ergue no silêncio para dizer toda a
história de um coração incompeendido...
No samba, então, em que os dedos do artista tanto se aplicam às cordas como ao costado
do instrumento, a gente sente, vê o pedaço da roça em festa, e umas figuras de ébano
reluzindo de suor, e uns corpos ora cingidos ora libertos, descrevendo a coreografia
africana, em volteios que não acabam mais. Mas onde, sobretudo, pudemos aferir do valor
do artista, por nos ser mais familiar a música, foi no Fado.
Muitos dos senhores não conhecem o fado, nunca o ouviram, talvez, tocar ou cantar... O
Fado é uma música genuinamente portuguesa que os portugueses amam e que anda pelo mundo
à procura de estados afetivos ou intelectuais que interpretar. Cantado e saracoteado nas
salas e salões da época de D. João V e indo, por aí fora até descer às tabernas dos
nossos dias, o fado zombou de todas as inovações musicais através os séculos e tem
vindo pela vida fóra com a sua característica própria, traduzindo amor, sonhos, ciumes,
ausência e saudade.
Rocha Peixoto no seu livro A Terra Portuguesa diz que "Portugal tem o fado para a
folia, para o amor, para a amargura e até para a morte" e acrescenta que, "num
mesmo esquema métrico, de norte a sul, dantes, hoje e sempre, o povo enquadra todas as
suas idéias e sentimentos, todos os fatos".
É uma música gemente, alanceada, posta ao serviço das almas sensíveis. Américo
Jacomino conseguiu apreender-lhe o caráter em pequenas variações, estudou-lhe a
melopéia, alargou-lhe o número de efeitos. Com o Fado, no seu violão surge
transfigurado, rico de melodia, acusando em todas as transições uma originalidade
individual, a originalidade do executante!
E para isto conseguir, Américo Jacomino não precisou deformar a estrutura, o fundo
primitivo da música. O que fez foi opulentá-la com uma alma nova, arrancá-la do
círculo vicioso da mesmíssima toada, vestí-la de cambiantes e alternativas, obtendo uma
composição que produz nas almas sensações cromáticas as mais variadas.
Numa audição à imprensa, realizada há dias nas salas da Cigarra, o artista que já
tínhamos ouvido antes, uma noite na redação do 'O Estado, revelou-se sob um aspecto
passional, dando-nos bocados heterogêneos de música fina, a que o Fado pôs remate.
Não ouve um só assistente que não adaptasse a esse delicioso momento psicológico, nem
que não reconhecesse em Américo Jacomino um autêntico tradutor de todas as
sensibilidaes contidas numa obra de arte. Deram-lhe por isso as mais frementes palmas e
foi bom que assim acontecesse, porque talvez elas sejam um estímulo para colocar este
bizarro artista em frente de um grande público.
O Conservatório Dramático é um bom recinto, pela capacidade e pela acústica. O violão
de Jacomino talvez ajustasse bem, alí . Depois de consagrado já, o artista poderia ir
por esse interior afora e subtrair à vida da roça a monotonia destas longas e fatigantes
noites de inverno. O seu instrumento tem o segredo de atrair as almas. Certamente, com o
seu talento e a sua emoção, Jacomino levaria à alma dos sertões um filtro capaz de
entornar nela a luz jocunda que faz da vida uma coisa apetecida. (28 de junho de 1916)
2 - AMÉRICO JACOMINO
[Manuel Leiroz]
(O Estado de S. Paulo, 5 set. 1916)
É hoje à noite que se realiza o concerto de violão organizado por este simpático
artista, com o concurso do sr. Danton Vampré, que lerá a conferência do nosso
companheiro Manuel Leiroz, o sr. Trajano Vaz, que cantará lindas canções do Brasil,
entre as quais o Marroeiro, e do sr. Silvério [sic] Gaudêncio, que acompanhará ao
violão.
O festival será iniciado com a conferência sobre instrumentos. Seguindo o pensamento de
Miguel Zamacois, o conferente porá em relevo a função e préstimo de vários
instrumentos. Depois, reivindicará para o violão o crédito que ele, na antiguidade,
sempre gozou, mostrando que em Portugal, nos séculos heróicos das viagens e das
batalhas, esse instrumento acompanhava trovadores e troveiros na sua vida amorosa e de
aventuras, conhecera desde os paços dos reis às vielas da mouraria e embarcara com mais
de cinco mil violas para os areais da África, onde testemunhou a derrota de Alcácer
Quibir. O violão exerceu a ditadura nas salas mais elegantes, fulgurou nos teatros,
perturbou e endoideceu uma legião de mulheres e obrigou muitos escritores estrangeiros a
render homenagem ao seu domínio encantador.
O seu papel saliente nos minuetos da cidade e da corte, nos fandangos, nos arrepia, no
oitavado, no arromba e outras danças, jamais poderá ser esquecido. D. João V, que era
um rei folgazão, considerava-o um instrumento precioso para aligeirar o fardo da vida...
Em França, no primeiro império, na devassidão dissolvente do segundo, sob a
restauração, o violão entrou no gosto do público, juntamente com as primeiras
"troupes" vindas da Itália, tomou parte num concerto de cães, inventado para
divertir Luís XI, deliciou epicuristas do bairro latino, os cabarets de Montmartre, deu
serenatas às mais aristocráticas mulheres e foi a causa, um dia, de Margarida de
Escócia, esposa de Luís XI, ao ver a dormir o normando Alain Chartier, beijar-lhe a
"preciosa boca", de onde tinham saído as palavras de um madrigal feiticeiro.
O violão acompanhou os cantos de Ninon, nas poesias folgazãs de Chaulieu e nas coplas
ferinas de João Batista Rousseau. E nos bailes de máscaras introduzidos em França, em
1716, esteve a serviço da Princeza de Valois e do Duque de Modena, seu noivo, encantando
os "cavalheiros de indústria", que sempre os acompanhavam.
Em Espanha, no século XVII, pontifica nas reuniões elegantes e nas alfurjas das
mancebas. Desce com escala ruidosa e despreocupação de vida de Madrid até Sevilha;
faz-se ouvir na Triana e na Torre del Cro, atrai os eirados de tijolo, cobertos de flores
e chiquetas de olhos negros e camélias no penteado, as donas de bloco escuro, os
espadachins de manto negro e bravura truculenta. Mistura-se com ciganas de face morena e
gandes brincos nos lóbulos das orelhas e chega a impor-se ao gosto estético e moral dos
mouros enamorados. Toma parte nos concertos, espetáculos de estudantes de La Picola
Escuela e dos Hidalgos Hermosos e no corro assombrado em que se exibia, foi muita vez
coberto pelo frêmito de aplausos e de gritos das "niñas" entusiasmadas.
Na Itália o violão inspirou árias, vilotas e vilancelas, fez parte de uma orquestra no
palácio de Joana de Aragão, deu concepções às melodias de Gesualdo, Príncipe de
Venosa, concorreu para a restauração da música pagã. Introduziu-se nas academias,
acordou as águas de Veneza em serenatas de guelfos e escarpins. Serviu o amor num
período em que a música fazia a paixão da época e concorreu com os filarmônicos de
Verona, instituídos por Alberto Lavezzola.
Nos Países Baixos, quando ainda no estado de uma só corda - a "tromba
marinha", e depois em transformações sucessivas, já com trinta e seis cordas,
alcançou ruidoso sucesso em Bruxelas, num concerto de gatos verdadeiros, que os Belgas
ofereceran a Felipe II da Espanha. Finalmente em quase todos os países da Europa, o
violão acompanhou a natureza das tradições e a disposição psicológica dos
respectivos povos. Como se vê, o programa da festa é atraente e porque o preço do
ingresso é reduzido, é de esperar que hoje à noite não haja um lugar no Conservatório
Dramático.