Uma Experiência de Extensão Universitária pela Música

Hector Jorge Rossi

A universidade pública tem sido chamada freqüentemente a colaborar com a sociedade civil na elaboração e efetivação de projetos que redundem em benefícios à comunidade.Em muitos momentos tem sido cobrada quanto às suas responsabilidades sociais. Isso tem se viabilizado através da extensão universitária. Segundo o Fórum Nacional de Pró-Reitores de Extensão Universitária das Universidades Públicas: “A Extensão Universitária é o processo educativo, cultural e científico que articula o ensino e a pesquisa de forma indissociável e viabiliza a relação transformadora entre universidade e sociedade”.

Ao respeito Melo Neto esclarece: “Ao assumir o conceito desse Fórum, o Mec coloca também como objetivos da extensão, no ano de 1996, a articulação do ensino e da pesquisa, no sentido de atender as demandas da sociedade. Estabelece mecanismos de integração entre o saber acadêmico e o saber popular. Propõe democratizar o conhecimento acadêmico promovendo a participação da sociedade na vida universitária e formando o profissional cidadão".(1)

Um primeiro esclarecimento faz-se necessário a respeito do próprio termo extensão, ou seja, quais são os sentidos da extensão universitária? Quais as concepções teórico-metódico lógicas presentes quando se fala em extensão? Quais os atores envolvidos em processos extensionistas? A extensão ainda é permeada por significados tais como prestação de serviços, transmissão de conhecimento, doação messianismo, invasão cultural, mecanicismo. Enfim, como dizia Paulo Freire, há pelo menos três décadas os termos que envolvem a extensão transformam o homem “... em quase coisa, o nega como um ser de transformação do mundo (...) alem de negar a formação e a constituição do conhecimento autêntico e de negar a ação e a reflexão verdadeiras àqueles que são objetos de tais ações”.(2) Ou seja, uma relação entre teoria e prática, entre sujeito extensionista e sujeito da ação ou “objeto da ação”.

A extensão universitária é mais que uma prestação de serviços ou doações; é construção de conhecimentos que ocorre num espaço privilegiado de relações, justamente a relação entre pesquisados, que se supõe que seja o extensionista, e a comunidade envolvida no processo. A comunidade não tem o sentido de mera receptora, mais de participante, propositora e reinvicadora da ação educativa, que se supõe seja a extensão universitária da qual estamos falando. Nas palavras de Freire( 1977, pág.69) “é comunicação, é diálogo, na medida em que não é a transferência de saber, mais um encontro de sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados”.(3)

Buscando esses significados; a extensão tem um papel orgânico a desempenhar, o de contribuir para a organização do pensar crítico e da ação transformadora da realidade, colocando-se a serviço da construção de uma sociedade independente, com soberania científica, tecnológica e cultural, voltada aos interesses concretos da população.

Em março de 2000 aceitamos o convite da Pia Sociedade de Padre Nicola Mazza em parceria com o Departamento de música da UFPB para nos integrar ao Projeto Beira da Linha e musicalizar crianças e jovens por meio de flauta doce, canto coral e percussão.

O projeto Beira da Linha atua no bairro Alto de Mateus situado em quase sua totalidade, na parte superior de um morro, ao soeste do Centro de João Pessoa, da capital paraibana. Localizada no referido bairro, a área da beira da linha o circula á meia lua, seguindo os contornos do manguezal. Acompanhando parte deste manguezal passa a linha ferroviária ligando o porto de Cabedelo á cidade de Santa Rita.

A Pia sociedade de Pe. Nicola Mazza trabalha na cidade de João Pessoa, PB desde 1978. Em 1991, uma equipe de educadores deu inicio a face operatória do projeto. Hoje o projeto trabalha em duas favelas do bairro Alto de Mateus, Beira da Linha e São Judas Tadeu, atuando em quatro espaços físicos: Centro Educacional Miramangue, Centro Educacional Beiramangue. Centro Comunitário São Judas Tadeu e Centro de Profissionalização situado na feirinha do bairro.

Visando a música como instrumento pedagógico e promotor da psicomotricidade, conhecimento, estética, auto-estima, concentração, disciplina, criatividades e o equilíbrio emocional e físico, situamos nosso projeto de musicalização no Centro Comunitário São Judas Tadeu.

Partindo do principio de que todos os seres humanos nascem músicos e capazes de apreciar a boa música ou atuar profissionalmente no palco e que “talento” é apenas o comportamento de alguém capaz de experiência com maior intensidade, de penetrar no ambiente e envolver-se total e organicamente nas atividades propostas, é que fundamentamos nosso método de trabalho.

A metodologia empregada foi à pesquisa-ação, “pesquisar a própria ação, constituí-se não só em elementos para revisão das práticas pedagógicas como serem geradoras de novas práticas e novas teorias”.(Fazenda, 1992. Pág.84)(4)

Na pesquisa-ação, o participante é conduzido à produção do próprio conhecimento e se torna o sujeito dessa produção. Nesse aspecto, “essa metodologia se distancia de todas as demais e se afirma, constituindo-se como instrumento fundamental de resistência e conquista popular”.(Melo Neto 1999, pg.17)(5)

O projeto foi desenvolvido com duas turmas de vinte alunos, ao todo, na faixa etária de 8 a 16 anos de idade, em o Centro Comunitário São Judas Tadeu. A escola dispõe de espaço físico adequado para essa quantidade de alunos, estando a disposição um teclado, flautas doces para cada aluno, como também material escolar para música.

As aulas de musicalização foram ministradas por mim junto a dois alunos bolsistas, um oferecido por a UFPB de seu projeto PROBEX, o outro por a Pia Sociedade de Padre Nicola Mazza, este sendo morador do bairro de Alto de Mateus; ambos alunos estam cursando o bacharelado em música da UFPB. As aulas foram dadas em três dias alternados perfazendo doze horas semanais.

A metodologia de ensino foi orientada pela fundamentação teórica da proposta curricular, a qual prevê que as atividades de execução estejam integradas ás experiências de composição e apreciação musical. Foi incentivado o uso de partituras convencionais e não convencionais em atividades de leitura e escrita musical, incluindo a representação de composições dos próprios alunos.

Dessa maneira, elementos do cotidiano dos alunos foram incluídos nas discussões. Alem disso, constantemente foi relacionado o que já havia sido trabalhado em outras aulas com o que estava sendo proposto naquele momento, permitindo que os alunos compreendessem a seqüência do trabalho desenvolvido, atribuíndole significado.

Com relação ao domínio técnico dos instrumentos, o grupo foi tornando-se mais hábil e conhecedor, sabe-se que a freqüência do contato com os instrumentos é um fator determinante para o seu domínio.

Para a seleção do repertório, partiu-se da idéia de que é possível fazer boa música em qualquer nível técnico. Para tanto foram selecionadas músicas que abordam diferentes formas de estruturação do discurso musical, sendo explorados diversos elementos musicais na sua interpretação. Podemos distinguir quatro categorias de repertório utilizado:

a) peças para execução instrumental e/ou vocal;
b) canções folclóricas;
c) gravações para atividades de apreciação musical;
d) as composições dos próprios alunos.

Este ano pretendemos dar a oportunidade a outras turmas de alunos, em turnos diversos, dependendo de mais alunos bolsistas, maior espaço físico, mais instrumentos musicais e material de música suficiente.

Também é nosso desejo poder ir a outras comunidades da periferia e ate levar nosso projeto ala Paraíba toda, pois o aproveitamento do trabalho musical foi surpreendente.

O interesse pelo projeto de musicalização no Bairro de Alto de Mateus foi suscitado pela constatação do prejuízo que a falta de educação musical nas escolas públicas brasileiras tem ocasionado, como bem o demonstram as políticas públicas que tem sido aplicadas desde a LDBN de n° 5692/71. Quando a chamada “pró-criatividade” foi oficializada nas escolas públicas, estabeleceu-se um ensino de artes calcado numa prática polivalente, que se mostrou caótica e ineficiente.

Com a criação, mediante a lei acima mencionada, da disciplina Educação Artística, as modalidades artes plásticas, artes cênicas e educação musical passaram a fazer parte do currículo escolar. A implantação da referida disciplina foi pautada pela proposta polivalente, que estabelece uma abordagem integrada linguagens artísticas e é prevista nos instrumentos normativos tanto para o 1° e 2° graus quanto para a formação do professor.

Hoje, a polivalência exacerbada no modelo de licenciatura curta, que pretende formar, até em um ano e meio, um professor capaz de atuar no 1° grau em todas as áreas artísticas contribui para a diluição dos conteúdos específicos de cada linguagem.

Somados a os efeitos devastadores do modelo polivalente, as deficiências dos cursos de formação do professores e o predomínio das Artes plásticas (e, em menor medida, das artes cênicas) no espaço da Educação Artística também foram decisivos para que a música não conseguisse conquistar um espaço definitivo nas escolas de 1° e 2° graus.

Para tanto, é fundamental que o ensino de Música nas escolas, seja ministrado por professores com formação específica e que a formação desses educadores seja repensada: nem os bacharelados em Música nem as licenciaturas plenas em Educação Artística/ habilitação em Música, do modo como estão atualmente estruturados, são capazes de garantir essa articulação.

Já a nova LDB 9394/96 dispõe, em seu artigo 26, parágrafo 2, que “o ensino de Arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis de educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos”. No entanto, o ensino de Música continua sendo ministrado por professores polivalentes, cobrando, assim, uma maior especialização para o docente em música.

Face às constatações acima, conclui-se que é premente tornar obrigatório o ensino de Música em todas as escolas de 1° e 2° graus, acompanhado também, do preparo desses futuros professores de música.

Acreditamos neste projeto de musicalização por meio de flauta doce, canto coral e percussão no Bairro de Alto de Mateus, pelos laços criados entre Universidade e Comunidade; laços que possibilitam a descentralização dos conhecimentos de difícil acesso a muitos brasileiros.

Este projeto procura fazer da comunidade de Alto de Mateus um bairro musicalmente auto-suficiente de João Pessoa e regiões vizinhas, alem de possibilitar aos seus alunos o ingresso nos cursos de bacharelado em música da UFPB e disseminação dos conteúdos adquiridos, através da atuação cultural-musical dos moradores monitores pela região. O maior ganho, porém, esta sendo a desejada relação Arte, Educação e Cidadania por meio da música.

Tendo em vista a importância da música para o desenvolvimento psicomotor, cognitivo e estético do educando, não se pode prescindir de seus efeitos positivos na educação geral daqueles que, mesmo sem se profissionalizar em música, poderam, no futuro, constituir um público consciente e preparado para uma apreciação musical efetiva e frutífica.

Referências Bibliográficas

(1) MELO Neto, José Francisco. Extensão Universitária; uma analise crítica. João Pessoa.Editora Universitária/UFPB/2001.

(2) FREIRE, Paulo. Extensão ou comunicação? SP, Paz e Terra 1969.

(3) ­________. 10 edição SP, Paz e Terra 1977.

(4) FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. A pesquisa como instrumentalização da prática pedagógica, SP, Cortez 1992.

(5) MELO Neto, José Francisco. Resistência popular, possibilidades ontem e hoje. João Pessoa. Editora Universitária 1999.


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HECTOR JORGE ROSSI
Mestre em Educação. Professor adjunto do Departamento de Música da UFPB.
E-mail: [email protected]

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