É curioso notar, porém, que o mais importante da
herança musical portuguesa é europeu e não exatamente lusitano, tonalidades, harmonia,
ritmos, etc.. A própria guitarra portuguesa não se aclimou entre nós, e lhe preferimos
a guitarra espanhola, nosso querido violão . . . O que mais incorporamos à nossa música
popular foram os textos das canções, sejam acalantos, rodas, quadrilhas soltas e os já
quase inteiramente esquecidos "romances velhos". A respeito de quadrinhas
soltas, então se muitas foram modificadas aqui e adaptadas antropogeograficamente à
nossa realidade, é incontestável que a nossa produção parece muito diminuta.
Em todo caso há que considerar a reciprocidade de influências. É certo que o Brasil deu musicalmente muito a Portugal. Lhe demos a sua dança e canção popularesca mais conhecida', o fado. Provavelmente lhe demos a modinha também. Em todo caso é certo que a "modinha brasileira", assim chamada em Portugal, obteve lá um sucesso formidável, era a preferida de viajantes como de reinós. Ainda lhe demos parte da nossa rítmica, por exemplo, o ritmo chamado "tangana", americano, peculiar da habanera. E em numerosas coletâneas musicais folclóricas de Portugal, não é raro a gente encontrar peças que o anteologista reconhece serem peças idas do Brasil para lá.
Quanto ao caso de Pastoris, Marujadas e Cheganças de Mouros, si a idéia tradicional é portuguesa e nelas é possível assinalar um romance velho como a "Nau Catarineta", algum verso português ou melodia aportuguesada, não é menos certo que, tais como existem, estes autos e danças-dramáticas foram construídos integralmente aqui, textos e músicas, e ordenados semi-eruditamente nos fins do séc. XVIII, ou princípios do século seguinte.