Música que não vemos
Saulo
Wanderley Em
um universo que aparenta ser apenas visual, a música até que ocupa
uma posição de destaque. Já esteve melhor. Na Grécia
Antiga figurava ao lado da Astronomia e da Matemática no chamado Trivium,
uma espécie de tríade reunindo as disciplinas mais importantes
para o ensino. Nos dias de hoje é tratada como mero entretenimento, e
já foi absorvida pelo capitalismo globalizante. Talvez por ser invisível,
é confundida com a poesia na música popular, sendo comum as pessoas
se referirem a uma canção como "aquela música que diz assim..." O
som mata. O deslocamento do ar é o responsável pela destruição
da bomba. Muralhas de Jericó e outras efemérides históricas
fazem indicações neste sentido. O fenômeno da onda sonora
é facilmente percebido diante de uma caixa de som de porte médio.
A música da onda também. As grandes gravadoras estão sempre
fazendo ondas deste tipo. Quanto mais sofisticada a composição
musical, mais possibilidade tem de ficar longe dos ouvidos médios. E
a cada dia temos menos ouvidos treinados, mais ouvidos médios e bilhões
de ouvidos básicos.
Texto retirado do site: http://cafemusic.com.br
A música não diz, a música soa. Algumas manifestações
rítmicas que muitos chamam de música servem também para
suar. Fechadas em clubes noturnos, multidões oscilam ao sabor de apenas
uma das quatro propriedades do som, que além do ritmo - mais propriamente
definido como Duração - tem ainda em sua estrutura a Altura,
a Intensidade e o Timbre. Em flagrante ignorância não
apenas dessas propriedades, mas também contrariando a Física,
filmes de ficção científica mostram sons de explosões
no vácuo, onde o som não existe porque não se propaga.
O som é uma onda produzida por um agente e transmitida por um meio. Houve
quem dissesse que este agente é deus, como no livro sagrado dos cristãos
que noticia: "No princípio era o verbo..." E aqui temos a primeira
confusão semântica entre a palavra e a música. Ou seriam
a mesma coisa, sendo as duas manifestações do som? Há quem
afirme que uma palavra lançada no ar tem poder maior do que aparenta.
Há também quem se dedique a procurar na atmosfera do planeta palavras
famosas proferidas por personalidades igualmente famosas.
A falta de informação, educação e iniciação
musical gera um imenso círculo vicioso, no qual cada vez mais músicos
básicos compõem música básica para ouvidos básicos.
É perfeitamente possível para qualquer pessoa perceber a Altura
dos sons, ou seja, o quanto são mais graves ou agudos, da mesma forma
que os olhos distinguem as cores. É curioso e trágico como as
crianças cada vez menos estão sendo instruídas nesse sentido.
E "veja" que elas, antes mesmo de distinguirem a imagem da mãe, a reconhecem
pela freqüência do batimento cardíaco com o qual conviveram
meses no útero.
A percepção sonora humana sempre apresenta cuiosidades. Ouvindo
uma gravação da peça Quadros Em Uma Exposição,
do compositor russo Mussorgski, podemos notar em Promenade a presença
de um pequeno trecho da música popular de origem francesa, Frère
Jacques. Se Mussorgski nunca foi à França, e na época
não existia rádio, como explicar a influência? Resposta:
Na sua infância o compositor teve uma babá francesa. Era a Rússia
tzarista, com a nobreza e seus criados a cantar para ninar os filhos abastados
dos tzares, que herdaram a música nos ouvidos, sendo que Mussorgski foi
um deles.
A música popular de nossos dias é composta com a teoria musical
disponível no século 16. Bach e seus contemporâneos
faziam coisa melhor do que muito do que se faz na MPB. Mas a música chamada
de erudita, mais exatamente a música erudita de nossos dias atingiu um
grau de sofisticação bastante perigoso. O grupo de rock progressivo
Pink Floyd colocava uma freqüência de som subgrave - quase
não audível pelos humanos - antes do início de seus shows.
Ao começar a apresentação, desligava. Ufa! Qualquer coisa
que fôsse tocada então seria inesquecível.
Quantos casais de namorados e amantes já não elegeram "aquela"
canção inesquecível para ser o tema de seu romance? Quantos
de nós não vamos às lágrimas com certas melodias
que nos remetem a situações emocionais já vivenciadas?
Acredita-se que boa parte dos casos de plágio envolvendo direitos autorais
não sejam intencionais, tanto que a lei específica para tais situações
estabeleceu uma "quantidade mínima de coincidência" para inocentar
potenciais plagiadores.
Paradoxalmente, quando algum filho se decidi a seguir a profissão de
músico os pais torcem o nariz. "Não dá dinheiro" costumam
dizer de imediato. Não dá? Vamos a alguns números: apenas
em 1998 a venda de CDs cresceu 65%, com um faturamento mundial da indústria
fonográfica de 38,7 bilhões de dólares. Só no Brasil
foram US$ 1,23 bilhão entre 1997 e 1999, movimentando 66 mil empregos
diretos. Detalhe: o compositor costuma ver, no máximo, apenas 8% do preço
final de um CD, e o intérprete - aquele que é "visto" cantando
- leva até três vezes mais do que o autor da obra musical.
Desde meados do século passado a ciência se volta para a música.
Além do desenvolvimento de novos instrumentos e equipamentos musicais,
a eletrônica passou a não necessitar mais de instrumentistas. O
tocador de instrumento passou a fazer parte de uma mão-de- obra obsoleta,
circense e reciclável. Mas pelo menos o compositor continua sendo imprescindível,
mesmo diante da máquina de fazer música. A psicologia abraçou
a musicoterapia, a informática inventa sem parar novos timbres, novas
sonoridades que não precisam sair de cordas, tubos ou peles.
Segundo o musicoterapeuta argentino Lívio Vinardi, a cada órgão
do corpo humano está associado um acorde - conjunto de notas musicais
- que por sua vez se relaciona com um segmento da coluna vertebral. Lívio
relaciona ainda cada nota musical a uma cor: o DÓ é vermelho,
o RÉ laranja, o MI amarelo, o FÁ é verde, o SOL é
azul claro, o LÁ é azul escuro e o SI é violeta. Coincidência
ou não, uma tribo africana cuja escala musical tem apenas 6 notas se
utiliza da nota intermediária (SOL#) entre o SOL (azul claro) e o LÁ
(azul escuro), no lugar de ambas, que são nuances da mesma cor: o azul.
Essa relação entre musicoterapia e cromoterapia - antes apenas
teórica e objeto de controvérsia - foi comprovada cientificamente
na Universidade de Brasília por Aloísio Arcella, compositor
e pesquisador, na década de 90. O compositor de música erudita
de vanguarda Rodolfo Caesar, hoje vivendo na Europa, já compunha
baseado nessa relação, assim como Dvórak e outros
eruditos nem tão contemporâneos. Mas cuidado: há charlatães
usando iluminação colorida em seus shows e dizendo que são
especialistas no assunto.
É preciso muito cuidado para se entender o invisível, mas a ausência
da evidência não é a evidência da ausência.
Este presente da natureza em forma de freqüências, oscilações
e variações guarda um grande mistério, que quanto mais
se pesquisa mais surpreende. O status quo e a "globalização" já
têm provas disso, e têm medo de que outros não tenham medo
de usar essa arma para surpreendê-los. Afinal, a gente costuma ter medo
do que não vemos. Mas o mundo continua governado pela soma dos medos
existentes na face do planeta.
Saulo
Wanderley
Jornalista e
Músico formado pela Unicamp, membro fundador do Núcleo Musica
Nova de São Paulo.
Texto retirado do site: http://cafemusic.com.br