A notação musical e o músico popular
Luciana
Requião
Texto retirado do site: http://cafemusic.com.br
Podemos
dizer que o sistema de notação musical ocidental vem se desenvolvendo
desde a antigüidade até os dias de hoje, já que os gregos
e outros povos há muito se utilizavam da chamada notação
alfabética. A história indica que a notação musical
surgiu para que a música pudesse ser difundida e também pela necessidade
de muitas pessoas trabalharem em conjunto. Porém a música notada
era a religiosa. A popular era transmitida de forma oral.
Desde a Idade Média, quando o monge Guido d'Arezzo aperfeiçoou
o sistema de notação ocidental, o saber musical vem sendo relacionado
a conhecimentos teóricos e da escrita. Os conservatórios de música,
quando surgiram, se limitavam ao ensino da chamada música erudita, ou
melhor, da música grafada, ficando este conhecimento restrito aos músicos
eruditos.
Desde sempre existe um abismo entre a música dita erudita e a popular.
A educação musical certamente reflete esta imagem. No Brasil,
desde o período colonial e até bem pouco tempo atrás, qualquer
tentativa formal de educação musical estava associada à
música erudita européia. A notação, por estar inserida
neste contexto, ficou com o estigma de representar este gênero musical.
O músico profissional popular não tinha a oportunidade de aprender
a usar certas ferramentas de trabalho, como a escrita. Os conservatórios
e universidades não trabalhavam com sua linguagem, a popular, conservando
o abismo entre estes dois gêneros e, conseqüentemente , afastando-o
das escolas.
Porém, entre outros fatores, a música instrumental popular contribuiu
para provocar o encontro da escrita com os músicos populares. Estes passaram
a utilizá-la, já que para se tocar em conjunto o recurso da grafia
é fundamental, ainda mais em casos não muito raros nos quais os
arranjos são bastante complexos.
Na década de 40, no Brasil, músicos vindos de uma formação
erudita se misturavam a músicos populares que, por motivos profissionais,
já sentiam a necessidade de aprender a ler música para poder trabalhar,
principalmente nas orquestras das rádios que se proliferavam. A aprendizagem
da notação se dava principalmente através desses músicos
eruditos ou nas corporações militares. Uma carta de Jacob do
Bandolim a Radamés Gnatalli, enviada em 1964, ilustra bem
este fato:
''Meu caro Radamés: Antes de 'Retratos', eu vivia reclamando: 'preciso
ensaiar...'. E a coisa ficava por aí: ensaios e mais ensaios. Hoje minha
cantilena é outra: 'Mais do que ensaiar, é necessário estudar!'
E estou estudando. Meus rapazes também (o pandeirista já não
fala mais em paradas: 'Seu Jacob! O sr. quer aí uma fermata? Avise-me,
também, se quer adágio, moderato ou vivace!...' Veja, Radamés,
o que V. arrumou!'' (Revista Roda de Choro, 1995)
Uma das condições básicas para que se dê a aprendizagem
da notação musical é a sua contextualização.
No caso do músico popular, o próprio vocabulário existente
para designar os elementos da escrita já está longe da sua realidade.
As palavras não significam nada por si só, funcionam mais como
um símbolo de um símbolo, dificultando muito a aprendizagem.
Nós, brasileiros, temos a vantagem de ter na nossa língua palavras
muito semelhantes às da língua italiana, que é a língua
adotada em muitos países para designar termos musicais da notação
ocidental. Presenciei situações onde estudantes de música
americanos apresentavam bastante dificuldade para pronunciar e decorar o significado
de palavras como crescendo ou fortíssimo. Esse é
um tipo de dificuldade encontrada pelos estudantes de música e que não
precisaria existir. Horas preciosas de estudo são gastas com questões
como esta.
Uma outra situação muito freqüente e que acaba desestimulando
o aprendizado da grafia musical são os nomes utilizados para designar
as figuras rítmicas. Em uma época onde ainda se utilizavam as
figuras chamadas de máxima, longa e breve, fazia
sentido a semibreve ser assim chamada. Hoje em dia, a confusão
é geral. Como pode a figura de maior duração ser chamada
de semibreve? Melhor fazem os que optam pela denominação
redonda, branca e negra para respectivamente representar
a semibreve, mínima e semínima.
Essas e outras questões que aparecem no dia a dia dos professores e estudantes
de música devem ser discutidas para evitar que dificuldades inúteis
se coloquem à frente dos alunos. Este foi apenas um exemplo para se colocar
em questão a necessidade e a qualidade da formação dos
professores de música. A nosso ver, este é um dos caminhos para
solucionarmos pequenos e grandes problemas na forma de se entender e encarar
a Educação Musical.
Luciana
Requião
Luciana é
violonista e contrabaixista, faz Mestrado em Música pela Unirio e é
também coordenadora e professora da escola Rio Música
Texto retirado do site: http://cafemusic.com.br