O Aprendizado da Leitura e Escrita Musical

Luciana Requião
Texto retirado do site: http://cafemusic.com.br

Quando falamos em escrita musical estamos nos referindo à um sistema de grafia. Assim como na língua materna, onde primeiro aprendemos a falar e depois a grafar, o aprendizado dos códigos para a escrita musical não deve anteceder a experiência concreta com a música.

Indo além do que o meio social e cultural nos proporciona, devemos ter a habilidade de expressar nossas próprias idéias musicais. Se, no seu processo de musicalização, o indivíduo está na fase da imitação ou reprodução de uma situação musical, ainda não é o momento de se aprender a grafar, pois qual seria a sua utilidade senão apenas uma forma mecânica de associação? Certamente que desta forma o processo robotizado de aprendizado seria tortuoso e árido e porque não dizer chato e desconectado com a realidade musical do aluno. Infelizmente essa cena ainda é muito comum nos nossos dias, e a leitura e escrita musical, descontextualizada e desvinculada do processo criativo do aluno, continua com o estigma de ser difícil, elitizada e, na maioria das vezes, associada à música erudita.

Assim como outras formas de notação foram propostas por educadores, compositores da chamada música contemporânea apresentaram outras possibilidades gráficas, até mesmo porque o sistema tradicional não era mais adequado ao registro de suas músicas. Porém, de forma alguma penso que estes fatos solucionaram o problema do ensino da escrita musical.

Os parâmetros musicais pulsação, altura, duração, timbre, intensidade são os mesmos em qualquer linguagem musical. A forma com que se vai agrupá-los e selecioná-los, ou seja, sua organização, é que varia de cultura para cultura, de gênero para gênero. Portanto, é necessária a mesma habilidade para se grafar qualquer tipo de música. O problema não se encontra no sistema gráfico vigente e em nenhum outro especificamente, mas sim na maneira como é compreendido pelos professores e na forma como eles o abordam na sala de aula. Percebemos que tudo isso acontece, muitas vezes, devido à uma formação incompleta e pouco especializada dos professores.

O nosso processo de musicalização por ser contínuo, se inicia desde que começamos a perceber os sons e prossegue por toda vida. A aprendizagem musical se dá a todo instante, e nada escapa principalmente aos ouvidos curiosos das crianças. O professor da pré-escola talvez seja o mais importante para a nossa formação musical, pois entra em contato com o aluno num momento muito especial de sua vida, onde ele está despojado de qualquer preconceito, ávido por experiências novas. O tipo de vivência musical proporcionada ao aluno será fundamental para o seu desenvolvimento musical pois 'a formação de conceitos vem da experiência'.1 No entanto, os conceitos que sempre deveriam ser formados a partir da experiência, não raro são apresentados aos alunos como conceitos pré-estabelecidos e que eles têm de simplesmente aceitá-los.

O enfoque dado à aprendizagem da leitura e escrita musical pode e deve variar de acordo com o contexto e fase do processo de musicalização em que o aluno se encontra. O currículo tem que considerar essa questão quando for formulado. O que leva o aluno à sala de aula é um dado muito importante a ser levado em conta na hora da elaboração tanto do currículo quanto do planejamento da aula. Para que o aprendizado de qualquer conteúdo se concretize é necessário antes de mais nada que o desejo de aprender tenha sido despertado. Por este motivo os professores das escolas regulares, principalmente os que trabalham com a pré-escola, têm de estar cientes de seu papel de motivadores. A introdução de conteúdos específicos tem de estar baseada neste desejo de aprender.

Houve e ainda há uma certa 'fobia' com qualquer tipo de teorização, como se ela ameaçasse a prática. É comum se encontrar advertências contra a grafia musical. Vejamos um exemplo de um conselho dado pelo músico e educador Ian Guest na epígrafe de seu livro Arranjo: método prático - vol.I :

'Aprender a falar
- o maior desafio na infância -
é combinar brincadeira e desejo de se comunicar.
A música nasce pela mesma motivação.
Não se prenda nos limites da leitura.
Ela é produto final e ameaça aposentar o ouvido.'2

No caso do aprendizado da leitura e escrita musical a ordem dos fatores altera o produto. Se a escrita 'ameaça aposentar o ouvido' é porque a forma como vem sendo abordada, e principalmente o momento em que ela é inserida no contexto da aprendizagem é que está errado. Na verdade a advertência deveria ser diretamente contra professores que utilizam procedimentos pedagógicos não apropriados, que podem estar contribuindo para que este 'tabú', este rótulo dado à grafia musical, permaneça transformando esta aprendizagem em um problema ao invés de solução.

'A música, enquanto fato empírico, só existe enquanto soa. A partitura não soa por si só; ela representa os sons - mas só representa efetivamente quando se liga a um significado sonoro'.3 Este pensamento de Maura Penna reitera o óbvio. A leitura e escrita musical tem o seu espaço reservado no processo de educação musical de qualquer indivíduo. Cabe ao professor saber o momento e a forma certa de abordagem.

1 (Santos, 1995, p.8) / 2 (Guest, 1996, p.1) / 3 (Penna, 1995, p.8).

Luciana Requião
Luciana é violonista e contrabaixista, faz Mestrado em Música pela Unirio e é também coordenadora e professora da escola Rio Música

Texto retirado do site: http://cafemusic.com.br

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