#tres#
belo horizonte,11 de abril de
2002
*** editorial***
dúvidas rondando minha atormentada e confusa alma
como sempre.
bússolas birutas,relógios atrasados (ou
adiantados),telefonemas não atendidos e tropeços gramaticais.gagueira
mental,lavagem cerebral, televisão e tristezas demais. álcool,sexo,jazz,marijuana,(como
eram bons os anos 50!)sonhos.quais são meus sonhos e meus desejos?quem
sou?sou alguém ou somente coisa?m-6.210.350,11/10/1975,R$30.00 nos
bolsos,o quê na cabeça sonhadora?
***acidez
crônica***
< auto-ajuda >
é impressionante como sempre
venho abandonando meus sonhos e objetivos de forma quase sistemática.na
infância queria ser motorista de ônibus.com a chegada da adolescência,meus
objetivos se voltaram para a carreira militar(ainda que influênciado
por amigos).pouco depois já não queria mais encerrar as fileiras
das forças armadas,pois finalmente havia conseguido montar uma banda
de rock'n roll.como a coisa não deu muito certo,passei um longo
tempo sem traçar nenhum objetivo específico.talvez fazer
faculdade ou coisa parecida era a idéia que me tomava de assalto
quando o remorso por não ter conseguido ser "nada" na vida martelava
minha pobre caixa craniana,além das adicionais pressões dos
meus pais,que viam todos os meus amigos de infância conseguirem casa,carro
e essas coisas que nunca dei muito importâcia.aí,recomecei
a escrever poesia,coisa que fazia na adolescência e tomada como a
salvação da lavoura,ainda que seja impossível viver
de poesia ou qualquer outro tipo de literatura séria nesse país
de merda.talvez eu precise ler um livro de auto-juda,ou melhor,escrever
um livro de auto-juda e ajudar minha parca conta bancária à
ter dias melhores.como as contas dos autores dos referidos livros que hoje
são fenômenos editoriais à custa do "desespero" alheio
e,por que não,falta de senso de ridículo...
*** non-sense
crítico***
< kleiderman-con el mundo a mis pies >
vou resgatar um disco ( ou cd,whatever ...) da minha empoeirada
coleção de bandas que nunca foram adiante.formado em 1994
por branco mello e sérgio britto (titãs) e pela baterista
roberta parisi, o kleiderman (favor não confundir com aquele pianista
que só toca músicas babas...),legou ao brasil uma das mais
esquizofrênicas e mórbidas bandas que já apareceram
por estas paragens.lançado também em 94,o disco,intitulado
"con el mundo a mis pies" começa detonando alto-falantes e apaixonados
de plantão com "o amor é uma coisa feia".arrepiando na cola
surge "let me be your nightmare",com letra em inglês e uma temática
que lembra bastante uma banda de estética punk-horror, os "misfits"."nem
mãe,nem puta" continua à nos conduzir pelos estranhos labirintos
das mentes de britto e mello proclamando em alto e bom som que "todas as
mulheres são loucas,a começar pela mãe da gente"."all
rock bands" destila uma crítica ácida à todas as bandas
que se dizem rock and roll mas que na verdade não passam de conjuntinhos
manipulados pelas grandes gravadoras com a intenção de vender
milhões sem um mínimo de contéudo ou verdadeira atitude
rock."dragula's tea bag" também parece trilhar os caminhos do punk-horror.a
faixa título do disco tras a doce voz da baterista roberta cantando
uma letra em espanhol."eu vou ficar dopado" caberia perfeitamente no álbum
"titanomaquia",um dos discos mais pesados já feitos pelos titãs."o
colecionador", faixa instrumental,dá um refresco e antecipa uma
das letras mais bizarras do disco,"testosterona"."roberta" toma de assalto
nossos ouvidos com seu refrão hipnótico "conhaque e diet
coke"."plastic" critica impiedosamente a cultura vigente de que somos o
que nossa aparência indica."não quero mudar" é uma
bela música punk-pop-pesada que já frequentou até
o top brasil da mtv."lick my dirt" prepara o terreno para "se eu sei que
me faz mal",uma espécie de resposta à "eu vou ficar dopado"."êxtase"
( favor não confundir com aquela música horrorosa do barão
vermelho,puro êxtase) continua a viagem de sexo,drogas e rock and
roll compostas pelas músicas citadas anteriormente."nojo",bem nojo
é sobre aquela hora em que tudo se torna uma confusão em
nossas cabeças em em nosso atormentados estômagos em chamas."get
me higher" é a "celebração" da imagem de auto-destruição
de rock-stars que infelizmente a mídia insiste em glamourizar.um
disco forte e temático,sobre glamour,sexo,drogas e morte ...
***pink
freud***
< sonho enfumaçado >
diabo de sonho (ou pesadelo) esquisito!numa
madrugada qualquer eu e um amigo estávamos fumando "um" tranquilamente,sabe
como é,curtindo e tudo os "efeitos do ragga".aí,surge na
avenida um carrão esporte amarelo (devia ser um camaro ou qualquer
outro do gênero).descem uma morena gostosíssima e um sujeito
que nunca tinha visto na vida.discutem qualquer coisa e a morena volta
a entrar no carro.de repente,o tal sujeito já esta perto da gente
(eu e meu amigo) compartilhando o baseado.mas,estranhamente,á partir
desse ponto eu não consigo mais sorver a ganja,deixando que o baseado
se abra todo.meu amigo pega-o de volta e enrola-o novamente.aí,quando
finalmente consigo retornar às baforadas,surge na avenida um ônibus
apinhado de policiais militares.o sujeito se apavora e vai embora,enquanto
eu e meu amigo descemos uma estranha escada rumo à avenida,mais
à frente,quando nos deparamos com a mãe dele.ela começa
à nos dar um sermão incrível,ameaçando ir à
minha casa naquela mesma hora e contar à meus pais sobre o ocorrido.seguimos
os três (eu,meu amigo e a mãe do meu amigo) e continuamos
fumando sem dar atenção ao que ela dizia.finalmente,chegamos
à um viaduto.nos despedimos cordialmente,e logo após,para
meu espanto,encontrava-me em uma rua desconhencida (cerca de dois segundos
atrás estava à apenas uns poucos quarteirões de casa)
e vou parar numa escola abandonada que se transformou num ponto de reunião
de viciados e desocupados.percorrendo um caminho lodoso e lúgure,sobre
um barranco de uns dez metros de altura,percebo que estranhamente já
tinha feito aquele caminho,só que de modo inverso e começo
a voltar por onde vim.logo após,percorrendo um avenida abandonada
nas primeiras horas do amanhecer,completamente perdido,chego à uma
lanchonete,construída no estilo de lanchonetes japonesas feitas
de sucatas brilhantes, e com ecos de fumaça(!?) por todos os lados
do pequeno ambiente.não sei como,mas acabo indo parar atrás
do balcão atendendo um jovem senhora que queria levar dezesseis
garrafas de uma espécie de suco de leite com manga industrializado.peço
ajuda ao senhor que parece ser o dono do estabelecimento e enquanto ele
atende à senhora eu me distraio com uma adolescente de uns doze
ou treze anos que teimava em fazer o dever de matemática (ou caligrafia
japonesa) no meio daquele burburinho todo.
***odes
bastardas***
< a eternidade >
a eternidade brilha com a clamor
de mil sóis
expurgando o cinza do céu de toneladas
sobre nossas lúgubres cabeças
repletas de sonhos em sussurros & desejos puros
florescendo nos campos férteis da mente insana
em transe
psicologia do invisível
dourados portões na eternidade do beco sem saída
iluminação alquímico-cerebral celebrando
o advento da anarquia e do
surrealismo como verdadeira evolução da
humanidade
parnasianas persianas escancaradas
às gargalhadas
queimando o veludo do absurdo que recobria
esquizofrênicas poltronas
no canto de nossas salas
< bajo el sol >
o sol
reverberando furioso
dourado
no branco muro
o fim do mundo
diante dos nosso olhos
janelas cegas
a mudez & o cansaço
e nossas almas absorvendo
ondas de tormento excretadas
pelo
vermelho
dos telhados
sob a loucura do meio-dia
*** quem
conta um conto aumenta um ponto***
< o último cigarro >
caminhava a passos largos,quase correndo,esbarrando e
se desviando das pessoas a sua frente.queria se desvencilhar daquele mar
de gente o mais rapidamente possível.atravessava ruas e avenidas
repletas de carros com donos que tão cedo não chegariam à
algum lugar,condenados a eternidade dos minutos impostos por solenes semáforos
e frenéticos guardas se desdobrando para que aquele novelo de maquinaria
continuasse em movimento,num balé metálico oscliando entre
a singela precisão de um centenário relógio de bolso
e o colapso sempre iminente coroado por ferragens retorcidas e fumegantes.
suores urbanos empapavam sua fronte,torso e braços;ares
carbônicos insistiam em tomar de assalto seus pulmões;uma
massa sonora dissonante arrombava seus tímpanos,fazendo com que
se sentisse desorientado por algumas vezes.
para sua sorte ou azar,assim que conseguiu chegar ao
ponto de ônibus,o veículo que fazia o intinerário para
sua casa vinha passando.freneticamente ele acenou para o mal-humorado motorista
que,bruscamente,parou o coletivo,colhendo buzinas furiosas de outros veículos
e alguns impropérios dos passageiros,quase espremidos dentro do
ônibus.saltou para dentro tentando achar qualquer lugar para se segurar
enquanto o motorista arrancava também de forma abrupta,colhendo
novamente mais uma chuva de reclamações e xingamentos.à
partir daquele momento,o ônibus,lotado,já não parava
para recolher nenhum passageiro,limitando-se ao jogo de frear,esperar,arrancar
e buzinar no caótico tráfego daquela hora.após quase
uma hora de insana jornada motorizada,finalmente conseguiu saltar num ponto
à apenas uns poucos quarteirões de casa,num bairro lúgubre
e melancólico,com suas ruas calçadas e velhas árvores
curvadas pelo peso do tempo.já estava farto e fatigado daquela situação,sempre
a mesma insipiente rotina de todos os dias.já não suportava
a falta de perspectivas,materializada quando se mudou de sua cidade natal,num
distante e bucólico interior envolto por sonhos e esperanças
infantis.viera para a capital á fim de completar seus estudos e
ganhar a vida,porém só conseguira um triste emprego de contínuo
num decadente prédio de mais um inútil órgão
estatal,bolorento e sombrio,infestado de desesperança e amargura,nas
paredes e pessoas.com um habitual ranger, a velha porta do quarto nos fundos
de uma outrora bela casa cedeu e ele adentrou a humilde construção,não
sem uma certa desolação,para em seguida se jogar,exausto,sobre
uma cadeira rente ao pequeno fogão de quatro bocas.sua alma atormentada
ansiava por dias melhores,mas,para seu pesar,apenas conseguia vislumbrar
becos longos e sem saída.de súbito,uma idéia que lhe
tomava à mente de forma frequente nos últimos meses voltou
à tona no seu confuso cérebro.fechou a porta,dirigiu-se ao
fogão e abriu o registro do gás e os botões dos queimadores.caminhou
alguns passos e deitou-se tranquilamente sobre seu catre,enquanto,de olhos
fechados e um certo sorriso nos lábios,aguardava o momento certo
de acender displicentemente o seu último cigarro...
***bookmark***
http://www.marchioro.com.br/fabio
http://www.digestivocultural.com
http://fauth.cjb.net
***the end?***
< críticas,sugestões,colaborações,papo-furado etc >
***todos os textos by leonardo de morais***