@LARDE ELETRONIC ZINE

#dois#

belo horizonte,25 de março de 2002
 
 
 

*** editorial***

 carnavais passados e canaviais incendiados alimentaram insones
noites à dentro na fogueira das vaidades.todos nós desejando frenética e frementemente encontrar justificativas para nossa caminhada pelas ébrias madrugadas e pelos becos e ruas dessa louca terra em transe.trepadas dadas e cervejas tomadas coroando lascivamente nossa santa insanidade.o que restará depois disso?talvez nossas tristes cinzas nas quartas e quartos...
 
 
 
 

***acidez crônica***
 

< eu odeio pessoas >

bukowski dizia isso.e faço dele as minhas palavras.ultimamente venho sendo sido taxado de sorumbático,depressivo,sem-graça,mal humorado etc.mas a realidade é que venho ficando cada vez mais entediado com as pessoas à minha volta,que demonstram cada vez mais serem afetadas pela poderosa máquina sugadora de mentes (televisão).a profundidade de certas conversas (profundas como pires de xícara!) às vezes me surpreende.mas,na maioria das vezes só consegue me causar tédio e sono.nesses momentos,prefiro concentrar minha atenção na cerveja,nas contas à pagar (que não são poucas...),ou na análise meticulosa das bundas das mulheres que passam nas calçadas dos bares onde costumo tomar umas e outras.é foda!nunca vi tanta gente cuspindo palavras ao léu,tão alto,ao mesmo tempo e sem sentido algum!não que eu queira sempre discutir sobre filosofia,música,anarquia,mulheres,cerveja e outros assuntos que para mim tem alguma relevância,porém,o que tenho sido forçado à testemunhar ultimamente me deixa de cabelo em pé.quem vai comer quem no big brother,na casa da mãe joana (ops,dos "artistas"),ou se o romário vai ser ou não convocado para jogar a copa do mundo!enquanto isso o governo continua aprovando os aumentos da gasolina (que embora o povão não saiba,ou finje não saber,incide diretamente no aumento do custo de vida),aprovando empréstimos milionários para salvar empresas privadas (vide caso globo cabo) em vez de se preocupar com a crise generalizada da segurança pública (fruto direto da  desigualdade social que assola o país,mas isso é assunto para outra hora...) e a falência do sistema único de saúde (SUS),que tem deixado "na mão" milhares de brasileiros que pagam devidamente seus impostos (ou você acha que não paga imposto só porque não paga imposto de renda?vide o ICMS cobrado nos produtos que você consome,como cerveja,cigarro,arroz,leite etc) a vida inteira e quando precisam de alguma espécie de assistência médica,correm o risco de morrer nas enormes filas dos hospitais públicos que não tem as devidas verbas repassadas pelo estado.para não compactuar com toda essa injustiça e mediocridade que assola essas paragens,prefiro continuar à ser taxado de chato,neurastêmico ou qualquer coisa que o valha.por enquanto...
 
 
 
 

*** non-sense crítico***
 

< uivo e outros poemas-allen ginsberg >

só para variar um pouco,este mês destilarei uma singela resenha sobre um livro que tem me acompanhado frequentemente pelos loucos delírios poéticos e alcóolicos em incontáveis madrugadas."uivo e outros poemas",do poeta beat allen ginsberg.lançado originalmente em 1956 no famoso recital da galeria six em san francisco (marco da geração beatnik),este livro enfrentou uma tentativa de censura no mesmo ano fazendo com que arrebatasse milhares de leitores,coisa que até então nenhum outro livro de poesia "underground" tinha conseguido.no recital,as presenças de jack kerouac,william burroughs,gary snyder,lawrence ferlingetti entre outros.
o poema uivo foi escrito em homenagem à carl solomon,o "poeta metálico",com quem ginsberg esteve internado em um hospício anos antes.ao se conhecerem ambos se apresentaram como personagens de dostoievsky.ginsberg era "michkine" e solomon era "kirilov".
o poema uivo,exemplo da prosódio bop espontânea narra de maneira delirante fatos e acontecimentos ocorridos com ginsberg e seus amigos beat.muitos amigos são citados no poema,como "nc",na verdade neal cassady,genuíno herói beat porra-louca conhecido pela sua capacidade de falar em interminável improvisação e seu voraz apetite sexual.solomon é citado também,no fim da primeira parte,e na terceira parte,totalmente dedicada à ele.no poema "nota de rodapé para uivo" o núcleo beat de nova york é lembrado,solomon (de novo),helbert hunckle,lucien carr,neal cassady e william burroughs (autor de "the naked lunch").os outros poemas do livro estão também entre os mais conhecidos de ginsberg como "um supermercado na califórnia",espécie de homenagem à walt whitman,poeta que influênciou profundamente ginsberg e outros beats,além de garcia lorca.
"sutra do girassol",poema singelo sobre san francisco,girassóis e loucas locomotivas enferrujadas,cita jack kerouac,prosador formidável que também influênciou profundamente ginsberg.o título de uivo foi dado por kerouac durante o período em que este residiu no méxico,quando ginsberg enviou-lhe os originais de um poema torrencial,ainda sem nome.no livro há ainda o famoso poema "américa",em que ginsberg n'algumas partes se "apropria" do vocabulário usado pelos negros,índios e "caipiras" da américa.nesse poema ginsberg trava uma espécie de monólogo com a américa,transmutada ali em uma entidade com vida própria.nesse fabuloso livro se destacam ainda os poemas "transcrição de música de órgão" e "canção",repletos de lirismo,misticismo e sexualidade,o tripé em que a fantástica poesia de ginsberg se apoiava,para mais tarde direcionar-se para um lado mais politizado nos anos 60.livro para se ler acompanhado de céus definitivos e boas doses de estupefacientes...
 
 

***pink freud***
 

< botecos >

ah!as amalgamas surreais deslizando viscosamente por entre idéias materializads solidamente em mesas de bilhar n'algum boteco lúgubre e tísico repleto de velhos vinhos submersos na poeira da eternidade.se respira o velho,o mofo,aço inoxidável enferrujado e copos quebrados em colapso pelos cantos ...
 
 

***odes bastardas***
 

< trevisan's cut-up >

baratas roendo a escuridão
manso repasto
sorvido,esganado
em compania de mil pulgas da insônia
miasmas alucinógenos
coxas fosforescentes
clarões de punhais e garrafadas
oh!coxas desnudas
resta a fome secular das seis da manhã
enquanto perambulo
por um quadro de desolação
na mente
ecoavam os quartos sórdidos
de fulgurante luz vermelha
o relógio retumba no peito
amargo na ponta da língua e nas dobras da alma
nesga de céu
mistério da carne
legendas retumbantes
nas narinas jazem
serpentes perfumadas de seda
(aqueles braços)
flores de espuma
esgueirando-se à sombra do amanhecer
 

< pacato pacto de sangue >

úmida atadura se desfralda
enquanto
penso em perder meus parcos dedos
ao largo das tumbas de sal,
infectando com quimeras sem igual
o sangue
doce moeda corrente que
orna lentamente
o chão
escurecendo abaixo dos meus
pés
 
 
 

***quem conta um conto aumenta um ponto***
 

< apenas uma segunda-feira >

subíamos uma rua qualquer à apenas alguns quarteirões do antigo colégio de padres,hoje somente uma edificação abandonada,fantasmagórica e lúgubre.uma densa chuva se abatia sobre a cidade ,iluminada naquele momento da madrugada por raios furiosos e postes que causavam uma terrível sensação de que estávamos sendo observados,assumindo assim o papel de eternos vigilantes noturnos e soturnos.mardem seguia na frente,com as mãos no bolso e passos trôpegos,pelo meio da rua,talvez rememorando os tempos de infância caminhando pela enxurrada quando,de repente,simplesmente desapareceu diante de nossos olhos!camilo,bêbado demais para esboçar qualquer reação,se limitou apenas à balbuciar algumas palavras ininteligíveis.eu,lutando contra o torpor que teimava em impregnar minha mente,pensava numa forma de conseguir localizar o companheiro desaparecido nas águas que rolavam de modo selvagem até certo ponto por sobre o asfalto.vencido o espanto e imobilidade iniciais,finalmente conseguir localizar um bueiro e,para minha estupefação,mardem,seco,são e salvo lá embaixo!sem esforço algum,retirei a grade de ferro do bueiro e puxei meu chapado e sorridente amigo para cima,sem ao menos questionar de que maneira ele poderia ter ido parar naquele lugar,já que a referida passagem,uma vez fechada,mal daria para que se passase um cão de pequeno porte ou mesmo um gato.uma sirene ao longe interrompeu nossa ébria comemoração.percebi que o uivo elétrico que cortava a densidade daquela madrugada não era exatamente uma sirene,mas sim  o apitar infernal do relógio despertador que teimava em martelar meus tímpanos às quinze para as sete da manhã.meus olhos enevoados,depois de fitarem por alguns segundos os números vermelhos do maldito aparato,se voltaram  para a claridade que arrombava vidraças e cortinas do meu quarto e me arremessava impiedosamente a mais uma segunda-feira qualquer da vida...
 

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***the end?***

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