| - Coletânea de Poemas e Biografia Resumida - |
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| POEMAS |
| BIOGRAFIA RESUMIDA |
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| "Aprendi com as Primaveras a me deixar cortar para poder voltar sempre inteira. (Cecília Meireles) |
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| Acalanto Dorme, que eu penso. Cada qual assim navega pelo seu mar imenso. Estarás vendo. Eu estou cega. Nem te vejo nem a mim. No teu mar, talvez se chega. Este, não tem fim. Dorme, que eu penso Que eu penso nesse navio clarividente em que vais. Mensagens tristes lhe envio. Pensamentos... - nada mais. Aceitação É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens e sentir passar as estrelas do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos. É mais fácil, também, debruçar os olhos nos oceanos e assistir, lá no fundo, ao nascimento mundo das formas, que desejar que apareças, criando com teu simples gesto o sinal de uma eterna esperança Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar, nem tu. Desenrolei de dentro do tempo a minha canção: não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar. Atitude Minha esperança perdeu seu nome... Fechei meu sonho, para chamá-la. A tristeza transfigurou-me como o luar que entra numa sala. O último passo do destino parará sem forma funesta, e a noite oscilará como um dourado sino derramando flores de festa. Meus olhos estarão sobre espelhos, pensando nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes. E um campo de estrelas irá brotando atrás das lembranças ardentes. Canção Pus o meu sonho num navio e o navio em cima do mar; - depois, abri o mar com as mãos, para o meu sonho naufragar Minhas mãos ainda estão molhadas do azul das ondas entreabertas, e a cor que escorre de meus dedos colore as areias desertas. O vento vem vindo de longe, a noite se curva de frio; debaixo da água vai morrendo meu sonho, dentro de um navio... Chorarei quanto for preciso, para fazer com que o mar cresça, e o meu navio chegue ao fundo e o meu sonho desapareça. Depois, tudo estará perfeito; praia lisa, águas ordenadas, meus olhos secos como pedras e as minhas duas mãos quebradas. Canção a caminho do céu Foram montanhas? foram mares? foram os números...? - não sei. Por muitas coisas singulares, não te encontrei. E te esperava, e te chamava, e entre os caminhos me perdi. Foi nuvem negra? maré brava? E era por ti! As mãos que trago, as mãos são estas. Elas sozinhas te dirão se vem de mortes ou de festas meu coração. Tal como sou, não te convido a ires para onde eu for. Tudo que tenho é haver sofrido pelo meu sonho, alto e perdido, - e o encantamento arrependido do meu amor. Canção do caminho Por aqui vou sem programa, sem rumo, sem nenhum itinerário. O destino de quem ama é vário, como o trajeto do fumo. Minha canção vai comigo. Vai doce. Tão sereno é seu compasso que penso em ti, meu amigo. - Se fosse, em vez da canção, teu braço! Ah! mas logo ali adiante - tão perto!- acaba-se a terra bela. Para este pequeno instante, decerto, é melhor ir só com ela. (Isto são coisas que digo, que invento, para achar a vida boa... A canção que vai comigo é a forma de esquecimento do sonho sonhado à toa...) Canção de alta noite Alta noite, lua quieta, muros frios, praia rasa. Andar, andar, que um poeta não necessita de casa. Acaba-se a última porta. O resto é o chão do abandono. Um poeta, na noite morta, não necessita de sono. Andar... Perder o seu passo na noite, também perdida. Um poeta, à mercê do espaço, nem necessita de vida. Andar... - enquanto consente Deus que a noite seja andada. Porque o poeta, indiferente, anda por andar - somente. Não necessita de nada. Canção quase inquieta De um lado, a eterna estrela, e do outro a vaga incerta, meu pé dançando pela extremidade da espuma, e meu cabelo por uma planície de luz deserta. Sempre assim: de um lado, estandartes do vento... - do outro, sepulcros fechados. E eu me partindo, dentro de mim, para estar no mesmo momento de ambos os lados. Se existe a tua Figura, se és o Sentido do Mundo, deixo-me, fujo por ti, nunca mais quero ser minha! (Mas, neste espelho, no fundo desta fria luz marinha, como dois baços peixes, nadam meus olhos à minha procura... Ando contigo - e sozinha. Vivo longe - e acham-me aqui...) Fazedor da minha vida, não me deixes! Entende a minha canção! Tem pena do meu murmúrio, reúne-me em tua mão! Que eu sou gota de mercúrio, dividida, desmanchada pelo chão... Canteiros Quando penso em você Fecho os olhos de saudade Tenho tido muita coisa, Menos a felicidade Correm os meus dedos longos Em versos tristes que invento Nem aquilo a que me entrego Já me traz contentamento Pode ser até manhã, Cedo claro feito dia mas nada do que me dizem Me faz sentir alegria Eu só queria ter no mato Um gosto de framboesa Para correr entre os canteiros E esconder minha tristeza Que eu ainda sou bem moço Para tanta tristeza E deixemos de coisa, Cuidemos da vida, Pois se não chega a morte Ou coisa parecida E nos arrasta moço, Sem ter visto a vida. Destino Pastora de nuvens, fui posta a serviço por uma campina desamparada que não principia e também não termina, onde nunca é noite e nunca madrugada. (Pastores da terra, vós tendes sossego, que olhais para o sol e encontrais direção. Sabeis quando é tarde, sabeis quando é cedo. Eu, não.) Pastora de nuvens, por muito que espere, não há quem me explique meu vário rebanho. Perdida atrás dele na planície aérea, não sei se o conduzo, não sei se o acompanho. (Pastores da terra, que saltais abismos, nunca entendereis a minha condição. Pensais que há firmezas, pensais que há limites. Eu, não.) Pastora de nuvens, cada luz colore meu canto e meu gado de tintas diversas. Por todos os lados o vento revolve os velos instáveis das reses dispersas. (Pastores da terra, de certeiros olhos, como é tão serena a vossa ocupação! Tendes sempre o indício da sombra que foge... Eu, não.) Pastora de nuvens, esqueceu-me o rosto do dono das reses, do dono do prado. E às vezes parece que dizem meu nome, que me andam seguindo, não sei por que lado. (Pastores da terra, que vedes pessoas sem serem apenas de imaginação, podeis encontrar-vos, falar tanta coisa! Eu, não) Pastora de nuvens, com a face deserta, sigo atrás de formas com feitios falsos, queimando vigílias na planície eterna que gira debaixo dos meus pés descalços. (Pastores da terra, tereis um salário, e andará por bailes vosso coração. Dormireis um dia como pedras suaves. Eu, não.) Discurso E aqui estou, cantando. Um poeta é sempre irmão do vento e da água: deixa seu ritmo por onde passa. Venho de longe e vou para longe: mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes andaram. Também procurei no céu a indicação de uma trajetória, mas houve sempre muitas nuvens. E suicidaram-se os operários de Babel. Pois aqui estou, cantando. Se eu nem sei onde estou, como posso esperar que algum ouvido me escute? Ah! Se eu nem sei quem sou, como posso esperar que venha alguém gostar de mim? Herança Eu vim de infinitos caminhos, e os meus sonhos choveram lúcido pranto pelo chão. Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos, essa vida, que era tão viva, tão fecunda, porque vinha de um coração? E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos, do pranto que caiu dos meus olhos passados, que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão? Inscrição na Areia O meu amor não tem importância nenhuma. Não tem o peso nem de uma rosa de espuma! Desfolha-se por quem? Para quem se perfuma? O meu amor não tem importância nenhuma. Leveza Leve é o pássaro: e a sua sombra voante, mais leve. E a cascata aérea de sua garganta, mais leve. E o que lembra, ouvindo-se deslizar seu canto, mais leve. E o desejo rápido desse mais antigo instante, mais leve. E a fuga invisível do amargo passante, mais leve. Lua Adversa Tenho fases, como a lua. Fases de andar escondida, fases de vir para a rua... Perdição da minha vida! Perdição da vida minha! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha. Fases que vão e que vem, no secreto calendário que um astrólogo arbitrário inventou para meu uso. E roda a melancolia seu interminável fuso! Não me encontro com ninguém (tenho fases, como a lua...) No dia de alguém ser meu não é dia de eu ser sua... E, quando chega esse dia, o outro desapareceu... Máquina breve O pequeno vaga-lume com sua verde lanterna, que passava pela sombra inquietando a flor e a treva - meteoro da noite, humilde, dos horizontes da relva; o pequeno vaga-lume, queimada a sua lanterna, jaz carbonizado e triste e qualquer brisa o carrega: mortalha de exíguas franjas que foi seu corpo de festa. Parecia uma esmeralda e é um ponto negro na pedra. Foi luz alada, pequena estrela em rápida seta. Quebrou-se a máquina breve na precipitada queda. E o maior sábio do mundo sabe que não a conserta. Motivo Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta. Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias no vento. Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, - não sei, não sei. Não sei se fico ou passo. Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo: - mais nada. Motivo da rosa Não te aflijas com a pétala que voa: também é ser, deixar de ser assim. Rosas verá, só de cinzas franzida, mortas, intactas pelo teu jardim. Eu deixo aroma até nos meus espinhos ao longe, o vento vai falando de mim. E por perder-me é que vão me lembrando, por desfolhar-me é que não tenho fim. Murmúrio Traze-me um pouco das sombras serenas que as nuvens transportam por cima do dia! Um pouco de sombra, apenas, - vê que nem te peço alegria. Traze-me um pouco da alvura dos luares que a noite sustenta no teu coração! A alvura, apenas, dos ares: - vê que nem te peço ilusão. Traze-me um pouco da tua lembrança, aroma perdido, saudade da flor! - Vê que nem te digo - esperança! - Vê que nem sequer sonho - amor! Não; não digas nada Não; não digas nada Supor o que dirá A tua boca velada É ouvi-lo já. É ouvi-lo melhor Do que o dirias. O que és não vem à flor Das frases e dos dias. És melhor do que tu. Não digas nada: sê! Graça do corpo nu Que invisível se vê. Ninguém venha me dar vida Ninguém venha me dar vida, que estou morrendo de amor, que estou feliz de morrer, que não tenho mal nem dor, que estou de sonho ferido, que não me quero curar, que estou deixando de ser, e não quero me encontrar, que estou dentro de um navio, que sei que vai naufragar, já não falo e ainda sorrio, porque está perto de mim o dono verde do mar que busquei desde o começo, e estava apenas no fim. Corações, por que chorais? Preparai meu arremesso para as algas e os corais. Fim ditoso, hora feliz: guardai meu amor sem preço, que só quis quem não me quis. Noções Entre mim e mim, há vastidões bastantes para a navegação dos meus desejos afligidos. Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos. Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge. Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza, só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram. Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a. Minha virtude era esta errância por mares contraditórios, e este abandono para além da felicidade e da beleza. Ó meu Deus, isto é minha alma: qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário, como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera... Panorama Além... Não sei que tempo faz, nem se é noite ou se é dia. Não sinto onde é que estou, nem se estou. Não sei nada. Nem ódio, nem amor. Tédio? Melancolia. - Existência parada. Existência acabada. Nem se pode saber do que outrora existia. A cegueira no olhar. Toda a noite calada no ouvido. Presa a voz. Gesto vão. Boca fria. A alma, um deserto branco: - o luar triste na geada... Silêncio. Eternidade. Infinito. Segredo. Onde, as almas irmãs? Onde, Deus? Que degredo! Ninguém... O ermo atrás do ermo: - é a paisagem daqui. Tudo opaco... E sem luz... E sem treva... O ar absorto... Tudo em paz... Tudo só... Tudo irreal... Tudo morto... Por que foi que eu morri? Quando foi que eu morri? Pássaro Aquilo que ontem cantava já não canta. Morreu de uma flor na boca: não do espinho na garganta. Ele amava a água sem sede, e, em verdade, tendo asas, fitava o tempo, livre de necessidade. Não foi desejo ou imprudência: não foi nada. E o dia toca em silêncio a desventura causada. Se acaso isso é desventura: ir-se a vida sobre uma rosa tão bela, por uma tênue ferida. Primeiro Motivo da Rosa Vejo-te em seda e nácar, e tão de orvalho trêmula, que penso ver, efêmera, toda a Beleza em lágrimas por ser bela e ser frágil. Meus olhos te ofereço: espelho para face que terás, no meu verso, quando, depois que passes, jamais ninguém te esqueça. Então, de seda e nácar, toda de orvalho trêmula, serás eterna. E efêmero o rosto meu, nas lágrimas do teu orvalho... E frágil. Reinvenção A vida só é possível reinventada. Anda o sol pelas campinas e passeia a mão dourada pelas águas, pelas folhas... Ah! tudo bolhas que vem de fundas piscinas de ilusionismo... - mais nada. Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada. Vem a lua, vem, retira as algemas dos meus braços. Projeto-me por espaços cheios da tua Figura. Tudo mentira! Mentira da lua, na noite escura. Não te encontro, não te alcanço... Só - no tempo equilibrada, desprendo-me do balanço que além do tempo me leva. Só - na treva, fico: recebida e dada. Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada. Retrato Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: - Em que espelho ficou perdida a minha face? Se não houvesse montanhas Se não houvesse montanhas! Se não houvesse paredes! Se o sonho tecesse malhas e os braços colhessem redes! Se a noite e o dia passassem como nuvens, sem cadeias, e os instantes da memória fossem vento nas areias! Se não houvesse saudade, solidão nem despedida... Se a vida inteira não fosse, além de breve, perdida! Eu não tinha cavalo de asas, que morreu sem ter pascigo E em labirintos se movem Os fantasmas que persigo. Serenata " ...Permita que eu feche os meus olhos, pois é muito longe e tão tarde! Pensei que era apenas demora, e cantando pus-me a esperar-te. Permite que agora emudeça: que me conforme em ser sozinha. Há uma doce luz no silencio, e a dor é de origem divina. Permite que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo, e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo ... " Timidez Basta-me um pequeno gesto, feito de longe e de leve, para que venhas comigo e eu para sempre te leve... - mas só esse eu não farei. Uma palavra caída das montanhas dos instantes desmancha todos os mares e une as terras mais distantes... - palavra que não direi. Para que tu me adivinhes, entre os ventos taciturnos, apago meus pensamentos, ponho vestidos noturnos, - que amargamente inventei. E, enquanto não me descobres, os mundos vão navegando nos ares certos do tempo, até não se sabe quando... e um dia me acabarei. Traze-me Traze-me um pouco das sombras serenas que as nuvens transportam por cima do dia! Um pouco de sombra, apenas, - vê que nem te peço alegria. Traze-me um pouco da alvura dos luares que a noite sustenta no teu coração! A alvura, apenas, dos ares: - vê que nem te peço ilusão. Traze-me um pouco da tua lembrança, aroma perdido, saudade da flor! -Vê que nem te digo - esperança! -Vê que nem sequer sonho - amor! Tu Tens um Medo Acabar. Não vês que acabas todo o dia. Que morres no amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que te renovas todo dia. No amor. Na tristeza Na dúvida. No desejo. Que és sempre outro. Que és sempre o mesmo. Que morrerás por idades imensas. Até não teres medo de morrer. E então serás eterno. Não ames como os homens amam. Não ames com amor. Ama sem amor. Ama sem querer. Ama sem sentir. Ama como se fosses outro. Como se fosses amar. Sem esperar. Tão separado do que ama, em ti, Que não te inquiete Se o amor leva à felicidade, Se leva à morte, Se leva a algum destino. Se te leva. E se vai, ele mesmo... Não faças de ti Um sonho a realizar. Vai. Sem caminho marcado. Tu és o de todos os caminhos. Sê apenas uma presença. Invisível presença silenciosa. Todas as coisas esperam a luz, Sem dizerem que a esperam. Sem saberem que existe. Todas as coisas esperarão por ti, Sem te falarem. Sem lhes falares. Sê o que renuncia Altamente: Sem tristeza da tua renúncia! Sem orgulho da tua renúncia! Abre as tuas mãos sobre o infinito. E não deixes ficar de ti Nem esse último gesto! O que tu viste amargo, Doloroso, Difícil, O que tu viste inútil Foi o que viram os teus olhos Humanos, Esquecidos... Enganados... No momento da tua renúncia Estende sobre a vida Os teus olhos E tu verás o que vias: Mas tu verás melhor... ... E tudo que era efêmero se desfez. E ficaste só tu, que é eterno. |
| Cecília Meireles nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 07/11/1901 e faleceu na mesma cidade em 09/11/1964. Casou-se duas vezes, teve três filhas. Poetisa, professora, pedagoga e jornalista. Sua poesia é lírica e altamente personalista, freqüentemente simples na forma, com imagens e simbolismos complexos. Sua poesia é considerada intemporal. Embora vivendo sob influência do Modernismo, apresenta em sua obra heranças do simbolismo e técnicas do classicismo, gongorismo, romantismo, parnasianismo, realismo e surrealismo. Aos 3 anos já havia perdido os pais e foi a única sobrevivente dos 4 filhos do casal. Foi criada pela avó Jacinta Garcia Benevides. Desde cedo habituou-se ao exercício da solidão, tendo precocemente desenvolvido sua consciência e sensibilidade. Começou a escrever poesia aos 9 anos de idade. Aluna exemplar, tornou-se professora pública aos 16 anos. Dois anos depois iniciou sua carreira literária com a publicação de Espectros (1919), uma coleção de sonetos simbolistas. A década de 20 foi uma época de revolução na literatura brasileira, mas o trabalho de Cecília naquele período mostra pouca afinidade com as tendências nacionalistas então em voga, ou com o verso livre e a linguagem coloquial. Boa parte dos críticos, inclusive, consideram suas formas mais tradicionais de poema (como sonetos), o ponto mais alto de sua obra. Com Nunca mais... e Poema dos Poemas (1923) adere ao Modernismo. Em 1924 publica Criança meu amor e em 1925 Baladas para El-Rei. Entre 1925 e 1939 dedicou-se à sua carreira docente publicando vários livros infantis e fundando, em 1934, a Biblioteca Infantil do Rio de Janeiro. A partir deste ano ensinou literatura brasileira em Portugal (Lisboa e Coimbra) e em 1936 foi nomeada para a UFRJ, recém-fundada. Cecília reaparece no cenário poético em 1939, com Viagem, considerado um marco de maturidade e individualidade na sua obra, que lhe rendeu o prêmio de poesia daquele ano da Academia Brasileira de Letras. Desta data em diante dedicou-se à carreira literária. Vários de seus livros são inspirados nas muitas viagens que fez, extraindo do contato com gente, costumes e idiomas diferentes matérias de compreensão da vida e da humanidade. Entre os vários livros de poesia publicados após 1939, destacam-se: Vaga Música (1942), Mar Absoluto e Outros Poemas (1945), Retrato Natural (1949), Romanceiro da Inconfidência (1953), Metal Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1962), Solombra (1963) e Ou Isto ou Aquilo (temática infantil, 1964). Escreveu também em prosa, dedicando-se a assuntos pedagógicos e folclóricos. Produziu também prosa lírica, com temas versando sobre sua infância, suas viagens e crônicas circunstanciais. |
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| Helena C. de Araujo Alguma poesia e outras palavras |