Clarice
Lispector
Sinta-se bem.
Eu na minha solidão quase vou
explodir.
Morrer deve ser uma muda explosão
interna.
O corpo não agüenta mais
ser corpo.
E se morrer tiver o gosto de
comida quando se está com muita fome?
E se morrer for um prazer,
egoísta prazer?
Ontem eu estava tomando café e
ouvi a empregada na área de serviço a pendurar roupa na corda e a cantar
uma melodia sem palavras.
Espécie de cantilena extremamente
plangente.
Perguntei-lhe de quem era a
canção, e ela respondeu: é bobagem minha mesmo, não é de
ninguém.
Sim, o que te escrevo não é de ninguém.
E essa liberdade de ninguém é
muito perigosa.
É como o infinito que tem cor de
ar.
Isto tudo que estou escrevendo é tão quente como um ovo
quente que a gente passa depressa de uma mão para a outra e de novo da
outra para a primeira a fim de não se queimar -- já pintei um
ovo.
E agora como na pintura só digo:
ovo e basta.
Não, nunca fui moderna.
E acontece o seguinte: quando
estranho uma pintura é aí que é pintura.
E quando estranho a palavra aí é
que ela alcança o sentido.
E quando estranho a vida aí é que
começa a vida.
Tomo conta para não me
ultrapassar.
Há nisto tudo aqui grande
contenção.
E então fico triste só para
descansar.
Chego a chorar manso de
tristeza. Depois levanto e de novo recomeço.
Só não te contaria agora uma
história porque no caso seria prostituição.
E não escrevo para te
agradar.
Principalmente a mim
mesma.
Tenho que seguir a linha
pura e manter não contaminado o meu it.
Agora te escreverei tudo
o que me vier à mente com o menor policiamento possível.
É que me sinto atraída pelo
desconhecido.
Mas enquanto eu tiver a mim
não estarei só.
Vai começar: vou pegar o
presente em cada frase que morre. Agora:
Ah se eu sei que era
assim eu não nascia.
Ah se eu sei eu não
nascia.
A loucura é vizinha da mais
cruel sensatez.
Isto é uma tempestade de
cérebro e uma frase mal tem a ver com outra.
Engulo a loucura que não é
loucura -- é outra coisa.
Você me entende?
Mas vou ter que parar
porque estou tão e tão cansada que só morrer me tiraria deste
cansaço.
Vou
embora.
Voltei.
Agora tentarei me atualizar de
novo com o que no momento me ocorre -- e assim criarei a mim
mesma.