"O que me descontrai, por incrível que pareça, é pintar. Sem ser pintora de forma alguma, e sem aprender nenhuma técnica. Pinto tão mal que dá gosto e não mostro meus, entre aspas, quadros, a ninguém. É relaxante e ao mesmo tempo excitante mexer com cores e formas sem compromisso com coisa alguma. É a coisa mais pura que faço"

"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo 

desabrochar de um modo ou de outro..."

Clarice Lispector

 

 

Sinta-se bem. 

Eu na minha solidão quase vou explodir. 

Morrer deve ser uma muda explosão interna.

 O corpo não agüenta mais ser corpo. 

E se morrer tiver o gosto de comida quando se está com muita fome? 

E se morrer for um prazer, egoísta prazer?

Ontem eu estava tomando café e ouvi a empregada na área de serviço a pendurar roupa na corda e a cantar uma melodia sem palavras. 

Espécie de cantilena extremamente plangente.

 Perguntei-lhe de quem era a canção, e ela respondeu: é bobagem minha mesmo, não é de ninguém.

Sim, o que te escrevo não é de ninguém. 

E essa liberdade de ninguém é muito perigosa. 

É como o infinito que tem cor de ar.

Isto tudo que estou escrevendo é tão quente como um ovo quente que a gente passa depressa de uma mão para a outra e de novo da outra para a primeira a fim de não se queimar -- já pintei um ovo. 

E agora como na pintura só digo: ovo e basta.

Não, nunca fui moderna. 

E acontece o seguinte: quando estranho uma pintura é aí que é pintura. 

E quando estranho a palavra aí é que ela alcança o sentido. 

E quando estranho a vida aí é que começa a vida. 

Tomo conta para não me ultrapassar. 

Há nisto tudo aqui grande contenção. 

E então fico triste só para descansar.

 Chego a chorar manso de tristeza. Depois levanto e de novo recomeço. 

Só não te contaria agora uma história porque no caso seria prostituição. 

E não escrevo para te agradar.

 Principalmente a mim mesma.

 Tenho que seguir a linha pura e manter não contaminado o meu it.

Agora te escreverei tudo o que me vier à mente com o menor policiamento possível.

 É que me sinto atraída pelo desconhecido.

 Mas enquanto eu tiver a mim não estarei só.

 Vai começar: vou pegar o presente em cada frase que morre. Agora:

Ah se eu sei que era assim eu não nascia.

 Ah se eu sei eu não nascia.

 A loucura é vizinha da mais cruel sensatez.

 Isto é uma tempestade de cérebro e uma frase mal tem a ver com outra. 

Engulo a loucura que não é loucura -- é outra coisa. 

Você me entende?

 Mas vou ter que parar porque estou tão e tão cansada que só morrer me tiraria deste cansaço. 

Vou embora.

Voltei. 

Agora tentarei me atualizar de novo com o que no momento me ocorre -- e assim criarei a mim mesma. 

 (Clarice Lispector)

 


 

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