Se eu me confirmar e me considerar verdadeira, estarei perdida porque não saberei onde engastar meu novo modo de ser.
Se eu for adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele.
Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não é mais.
Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi.
E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas.
Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar.
A ausência inútil da terceira as vezes me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
Fiquei desorganizada porque perdi o que não precisava? A minha nova covardia é a minha maior aventura e essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la.
É como acordar de manhã na casa de um estrangeiro. não sei se simplesmente saberei ir.
É difícil perder-se.
Por isso procurei depressa um modo de me achar sem que eu seja uma mentira viva.
Estarei mais livre.
Não. Sei que ainda não estou me sentindo livremente. Assustei-me porque não sabia onde ia dar essa estrada, nem para o quê.
Ontem perdi durante horas e horas a minha montagem humana.
Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida.
Clarice Lispector
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