O que sou neste instante? 

Sou uma máquina de escrever fazendo ecoar as teclas secas na úmida e escura madrugada.

Há muito já não sou gente. 

Quiseram que eu fosse um objeto. Sou um objeto. 

Que cria outros objetos e a máquina cria a nós todos. 

Ela exige. 

O mecanicismo exige e exige a minha vida. 

Mas eu não obedeço totalmente: se tenho que ser um objeto, que seja um objeto que grita.

Há uma coisa dentro de mim que dói.

Ah como dói e como grita pedindo socorro. 

Mas faltam lágrimas na máquina que sou. 

Sou um objeto sem destino. 

Sou um objeto nas mãos de quem? tal é o meu destino humano. 

O que me salva é meu grito. 

Eu protesto em nome do que está dentro do objeto atrás do atrás do pensamento-sentimento. 

Sou um objeto urgente.

(Clarice Lispector) 

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