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Perto do Coração Selvagem:
Poesias, Crônicas,
Contos, Textos da Literatura Brasileira:
“As pessoas mais felizes não
têm as melhores coisas. Elas sabem fazer “o melhor” das
oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade
aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que
reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente
vivido. Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e
as decepções do passado.A vida é curta, mas as emoções que
podemos deixar, duram uma eternidade.”
Estou sentindo uma clareza tão
grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
– já me aconteceu antes.
Pois sei que
– em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade –
essa clareza de realidade
é um risco.
O mundo em que
vivemos, talvez seja um mundo de aparências. A
espuma de uma realidade mais profunda que escapa
ao tempo, ao espaço, a nossos sentidos e a nosso
entendimento. Mas, nosso mundo da separação, da
dispersão, da finitude, significa também o mundo
da atração, do reencontro, da exaltação. E
estamos plenamente imersos nesse mundo que é o
de nossos sentimentos, felicidades e amores. Não
experimentá-lo, é evitar o sentimento, mas
também não haverá o gozo. Quanto mais estamos
aptos a felicidade, mais nos aproximamos da
infelicidade…
A infelicidade caminha lado a lado com a
felicidade, a felicidade dorme ao pé da
infelicidade.
Significa que
ao abrir nosso coração abrimos pra tudo, pq no
fim tudo valeu!
O amor é tão
mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão
inerente quanto a própria carência, e nós somos
garantidos por uma necessidade que se renovará
continuamente.o amor já está, está sempre. Falta
apenas o golpe de graça - que se chama paixão.
-Só telefonei para lhe dizer
que depois de beijá-lo e antes de novamente beijá-lo é o momento
mais lindo do mundo. É claro que eu gosto de você. Nem é preciso
perguntar. Adeus.
(Clarice Lispector)
Perdi alguma coisa que me era
essencial, e que já não me é mais. Não me é
necessária, assim como se eu tivesse perdido uma
terceira perna que até então me impossibilitava de
andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa
terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa
que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas
as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é
que posso caminhar. Mas a ausência inútil da
terceira me faz falta e me assusta, era ela que
fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e
sem sequer precisar me procurar.
“Até cortar os próprios defeitos pode
ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que
sustenta nosso edifício inteiro.”
Na arte, a inspiração
tem um toque de magia, porque é uma
coisa absoluta, inexplicável. Não
creio que venha de fora pra dentro,
de forças sobrenaturais. Suponho que
emerge do mais profundo “eu” da
pessoa, do inconsciente individual,
coletivo e cósmico.
Rifa-se um coração
Um coração idealista
Um coração como
poucos
Um coração à moda
antiga.
Um coração moleque
Que insiste em
pregar peças no seu
usuário.
Rifa-se um coração
Que, na realidade,
está pouco usado
Meio calejado, meio
machucado
E que teima em
alimentar sonhos e
cultivar ilusões.
Um pouco
inconseqüente
Que nunca desiste
Um leviano
E precipitado
coração
Que acha que Tim
Maia estava certo
quando escreveu:
“Não quero dinheiro,
quero amor sincero,
isso é que eu
espero!”
Um idealista
Um verdadeiro
sonhador.
Rifa-se um coração
Que nunca aprende,
que não endurece
E mantém sempre viva
a esperança de ser
feliz
Sendo simples e
natural.
Um coração insensato
Que comanda o
racional
Sendo louco o
suficiente
Para se apaixonar.
Um furioso suicida
Que vive procurando
Relações e emoções
verdadeiras.
Rifa-se um coração
Que insiste em
cometer
Sempre os mesmos
erros.
Esse coração
Que erra, que briga,
se expõe
Perde o juízo por
completo
Em nome de causas e
paixões. Sai do
sério e, às vezes,
Revê suas posições
Arrependido de
palavras e gestos.
Este coração tantas
vezes incompreendido
Tantas vezes
provocado
Tantas vezes
impulsivo
Um coração para ser
alugado
Ou mesmo utilizado
por quem gosta de
emoções fortes. Um
coração abastado
Indicado apenas para
quem quer viver
intensamente.
E, contra indicado
para os que apenas
pretendem passar
pela vida
Defendendo-se das
emoções.
Rifa-se um coração
Tão inocente
Que se mostra
Sem armaduras
E deixa louco
O seu usuário.
Um coração que,
quando parar de
bater, ouvirá seu
usuário dizer:
“O senhor pode
conferir, eu fiz
tudo certo, só errei
quando coloquei
sentimento,
Só fiz bobagens e me
dei mal quando ouvi
este louco coração
de criança,
Que insiste em não
endurecer se recusa
a envelhecer.”
Rifa-se um coração
Ou até mesmo
troca-se por outro
que tenha um pouco
mais de juízo,
Um órgão fiel ao seu
usuário
Um “amigo do peito”
que não maltrate
tanto o ser que o
abriga
Um coração que não
seja tão
inconseqüente.
Rifa-se um coração
Cego, surdo, mudo
Mas que incomoda um
bocado.
Um verdadeiro
caçador de aventuras
que ainda não foi
adotado.
Provavelmente, por
se recusar a
cultivar ares
selvagens ou
racionais
Por não querer
perder o estilo.
Oferece-se um
coração vadio, sem
raça, sem pedigree.
Um simples coração
humano,
Um impulsivo membro
de comportamento até
meio ultrapassado,
Um modelo cheio de
defeitos que, mesmo
estando fora do
mercado, faz questão
de não se
modernizar.
Uma vez por outra
constrange o corpo
que domina.
Um velho coração que
convence seu usuário
a publicar seus
segredos,
A ter a petulância
de se aventurar como
poeta.
(Clarice Lispector)
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