Minha liberdade é PINTAR.

A TINTA é o meu domínio sobre o mundo.

Eu pinto porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir.  

Não sou pretensiosa.  

Pinto para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando...

O ato criador é perigoso porque a gente pode ir e não voltar mais. Todo artista sofre um grande risco. 

Até de loucura.

Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. 

Eu não: quero é uma verdade inventada.

Quero pintar uma tela branca. Como se faz?

 É a coisa mais difícil do mundo. 

A nudez.

O número zero.

 Como atingi-los? Só chegando, suponho, ao núcleo último da pessoa.

Acho que o processo criador de um pintor e do escritor são da mesma fonte. 

O texto deve se exprimir através de imagens e as imagens são feitas de luz, cores, figuras, perspectivas, volumes, sensações.

Tento abrir um túnel na rocha bruta. 

Eu sei, sei que é penoso. Mas qual é a busca que em si mesma não traga sua pena?

 (textos adaptados de Clarice Lispector)

 

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