Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou a minha vida.
Nasci para amar os outros, nasci para pintar, e nasci para criar minhas filhas.
"O amar os outros" é tão vasto que inclui até o perdão para mim mesma com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida . Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.
E nasci para pintar. A tela é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era pintar. E não sei por que, foi esta que eu segui. Talvez porque para outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para pintar o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo pintar. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a mão em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou pintar, é como se fosse a primeira vez. Cada tela minha é uma estréia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e pintar
Quanto às minhas filhas, o nascimento delas não foi casual. Eu quis ser mãe. Minhas duas filhas foram gerados voluntariamente. As duas meninas estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho delas, eu me renovo nelas, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência, e para elas no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o vôo necessário, e eu ficarei sozinha: É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.
Sempre me restará amar. Pintar é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já pintei o que é meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em pintar eu não tenho nenhuma garantia.
Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse a minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.
(texto adaptado de Clarice Lispector)
(Clarice Lispector)
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