Clarice Lispector
Perto do Coração Selvagem
O
ARQUIVO DE CLARICE LISPECTOR Eliane Vasconcellos, do Arquivo-museu
de Literatura Brasileira da Fundação Casa Rui Barbosa Benedito
Nunes, na nota filológica à edição de A paixão
segundo G.H., observa que o arquivo de Clarice Lispector "tem toda a
aparência de uma coleção fortuita de despojos", mas mesmo
assim acreditamos que constitui importante material para o pesquisador de literatura
brasileira. A não ordenação do arquivo, a não conservação
do arquivo, a não conservação de seus originais levou o crítico
a concluir que a escritora "se descurou voluntariamente tanto da observação
dos originais de sua obra variada quanto da correção de seus textos,
uma vez impressos. Essa dupla indiferença se relaciona de certa maneira
com as condições que singularizam a sua escrita e o seu modo de
compor". Para Clarice o livro publicado é um livro morto. E a própria
autora, em 1975, declara: "Agora eu aprendi a não rasgar nada. Minha
empregada, por exemplo, tem ordem de deixar qualquer pedacinho de papel com alguma
coisa escrita lá como está", e completa "Ai, meus Deus,
eu rasguei tanto". Os
arquivos surgem espontaneamente, como conseqüência da vida de uma pessoa
ou instituição, que ficará refletida na organização
de seus papéis. Assim, pela ausência de certo tipo de material e
pela presença de outro se pode estabelecer o programa de escritura de Clarice
Lispector, sua inquietação, sua consciência relativa. O
material que constitui hoje o arquivo de Clarice Lispector foi doado por seu filho,
Paulo Gurgel Valente, em dois lotes. O primeiro chegou, a pedido de Plínio
Doyle, ao Arquivo Museu de Literatura Brasileira em 1977 e o segundo alguns anos
depois. Acreditamos que familiares e amigos ainda detenham em seu poder material
da escritora. Além da documentação que constitui o seu arquivo
privado, foram doados também livros que constitui o seu arquivo privado,
foram doados também livros que pertenceram à titular. São
principalmente as obras de Clarice em primeiras edições, algumas
traduções, trabalhos publicados no estrangeiro, produções
críticas sobre ela e livros de autores brasileiros. Como
a maioria dos arquivos que chegam às nossas mãos, este também
não possuía nenhuma ordenação, sendo impossível
à pesquisa. Nosso primeiro passo foi a identificação do material
e uma classificação cada vez mais específica. De acordo com
a prática arquivista, um fundo privado deve ser ordenado internamente em
séries e obedecer a um critério tipológico ou funcional.
Optamos pelo primeiro, que acreditamos atingir melhor nosso objetivo. Numa segunda
etapa, iniciou-se a descrição dos documentos, sendo a partir daí
feito o inventário. Para facilitar o acesso às informações
foi concomitantemente elaborado um índice geral, que remete o pesquisador
diretamente ao documento e informações nele contidas. Cabe aqui
ressaltar, entretanto, que este índice não é temático. O
arquivo de Clarice Lispector foi arranjado em nove séries, assim distribuídas: CORRESPONDÊNCIA:
Abrange a correspondência pessoal da escritora, além da de terceiros,
de familiares e familiares de terceiros. Esta série é constituída
por 322 documentos que cobrem o período de 1941 a 1977. Nele nos deparamos
com um problema: a impossibilidade de identificação de todas as
assinaturas, uma parte das dúvidas foi dirimida graças a outros
documentos encontrados no próprio fundo ou em arquivos de terceiros, mas
mesmo assim algumas assinaturas continuaram sem identificação. A
correspondência ativa é bastante reduzida. Limita-se a algumas cartas
da titular ao editor Pierre de Lescure, à Livraria Agir, ao Ministério
da Educação e Cultura, à revista New Mexico Quaterly, a Renée
Spodheim e a seu filho Paulo Gurgel Valente. Na
correspondência pessoal passiva destacamos a mantida com Fernando Sabino:
são 21 cartas, abrangendo o período de 1946 a 1959. Por meio delas
ficamos sabendo que Clarice remeteu ao amigo o original de A maçã
no escuro, que nesta época (1956) ainda não tinha título.
Em carta escrita no Rio de Janeiro, em 26 de setembro de 1956, o escritor mineiro
tece comentário sobre o romance e sugere algumas modificações. Você
está completamente enganada pensando que "o tom conceituoso e dogmático"
de seu livro vem da necessidade que você teve de se colocar fora dele e
para isso se colocou do lado de dentro, como pessoa à parte - atitude de
"todo mundo sabe que o rei está nu, porque não dizer?"
Para começar, não achei o tom de seu livro conceituoso nem dogmático,
conceituoso e dogmático, na minha opinião, são exatamente
algumas frases que marquei e que por isso mesmo fogem ao tom geral do livro, absolutamente
adequado ao que você tentou, e conseguiu, dizer. São apenas andaimes,
que podem ter ajudado a concepção do livro, mas que devem ser retirados,
obra acabada - e nelas incluo o "prefácio" e o uso excessivo
da primeira pessoa (onde assinalei). [...] "Todo mundo sabe que alguém
está escrevendo o livro, porque não admiti-lo?" Ora, seu livro,
da primeira à última linha, não é outra coisa senão
alguém escrevendo um livro - e isso devido à sua concepção
peculiaríssima, à técnica que você adotou, etc. [...]
Já a segunda razão que você apresenta, acho perfeitamente
legítima. Você não só teve a necessidade de afirmar
enfim alguma coisa, como na realidade afirmou. Mas isso nada tem a ver com a sua
"presença" no livro, nem com os comentários seus, de autora.
Afirmou, apesar deles... Tanto assim que não vi necessidade de nenhuma
alteração profunda no livro; de qualquer maneira, assim como está,
o livro se impõe, sua estrutura é perfeitamente legítima,
as alterações sugeridas não alterariam grande coisa. Em última
análise, questão apenas de gosto pessoa, mas que nem para mim mesmo
afeta fundamentalmente o valor do livro - e se volto a falar nisso aqui é
somente pelo puro prazer de discutir idéias que sua carta suscitou."
Mais
adiante ele discute o problema do título: O
título de seu livro: pensei, pensei, pensei, só me veio também
idéia maluca. Na sua carta há uma frase assim: "o melhor é
não precipitar a publicação, provavelmente as transformações
poderão ser feitas citando página e linha". O seu T minúsculo
parece maiúsculo, de modo que no primeiro momento me pareceu que você
estava chamando o livro de "Transformações"...Pensei qualquer
coisa na base de reconstrução de um homem, mas só me ocorria
"O homem feio", que é título de uma novela minha, [...].
Relendo o livro certamente se encontra um título, nas frases próximas
de "a veia no pulso" ou alguma idéia parecida. [...] "A
maçã no escuro" ainda é o melhor que me ocorre, apesar
de meio natureza morta e portanto pouco comercial como diria o editor.
Clarice
gostava de saber a opinião dos amigos sobre o que escrevia e parece segui-las,
uma vez que A maçã no escuro foi publicada sem prefácio
e sem abuso da primeira pessoa. Em outras cartas, Fernando Sabino também
faz observações sobre produção literária da
amiga, às vezes tecendo outros comentários como: "Gostei muito
do seu artigo, Children's Córner, depois te escrevo com ele na mão
para dizer o que achei, pois não o tenho aqui", ou apreciações
críticas mais profundas, como na carta de 30 de março de 1955, onde
comenta os contos que seriam mais tarde publicados em Laços de família: Me
penitencio escrevendo esta carta meio tonto de sono, às quatro da manhã,
depois de ler todos os contos de uma vez. Mas eu não poderia deixar para
amanhã. A primeira
sensação foi de desânimo. Ora, eis que estou empenhando em
escrever um romance importantíssimo para mim, mas impiedosamente limitado
com realização artística e - o que é pior - desgraçadamente
penoso de ser escrito. E me vem você com esses contos, dizendo como quem
não quer nada tudo aquilo que se pretenderia dizer um dia num terceiro
ou quarto romance, enfim liberto, enfim realizado, enfim obra-de-arte além
do que a gente é e do que é capaz. [...] A
imitação da rosa é uma obra-prima. A mensagem também.
A criança e o professor também. Os devaneios da galeguinha também.
O feliz aniversário tambemzissimo. E o crime do professor de matemática,
me lembro que um dia você me mandou este conto, mas ele não era assim,
ele não podia ser tão bom como agora. E os outros dois - a menina
ruiva e os obedientes - também são bons, ainda que nem tanto como
os outros. [...] Você está escrevendo como ninguém - você
está dizendo o que ninguém ousou dizer. Me desculpe o entusiasmo
muito pouco ao seu jeito, mas não é possível deixar por menos.
Mais
adiante, Fernando Sabino faz algumas observações: Tenho
sim, umas observações a fazer [...]. No conto do cachorro morto
a palavra saca tem de ser mudada para fardo, sacola, volume, etc..., por razões
óbvias, uma ou outra vez. Desculpe a grosseria mas os contos são
muito bons demais para a gente ficar com cerimônias.
O
conto a que se refere Fernando Sabino é O crime do professor de matemática.
Clarice, entretanto, não substituiu a palavra "saco" que dá
ao texto densidade maior do que as sugeridas pelo amigo. Alguns
anos mais tarde, é o filósofo José Américo Pessanha
que faz considerações sobre Água viva, intitulado
nesta época Objeto gritante: Li
seu livro. [...] Difícil de julgar o Objeto gritante. Sinto-me inseguro
para fazê-lo e, previno, não consegui nenhum juízo definitivo
a respeito. Até certo ponto o próprio livro parece suscitar esse
tipo de insegurança, já que escapa a padrões habituais que
facilitassem o confronto e o julgamento. [...] O que vou lhe dizer são
apenas impressões bastante pessoais e sem maior lastro crítico. Gostei
particularmente dos momentos em que você, diante do leitor, mostra como
de um universo mental voltado também para o dia-a-dia pode surgir uma trama
de ficção: parece uma bolha de criação artística
que você deixa que se desenvolva até certo ponto e, quando quer,
rompe. E volta ao cotidiano, ao telefone que toca, à reminiscência
de um fato qualquer. Acho que sob esse aspecto o livro vale muito. Notei
as repetições - que, no telefone, você disse ter suprimido.
Sem elas o livro ganhará, sem dúvida. Mas, de qualquer modo, você
deve estar certa de que ele permanecerá heterogêneo, suscitando a
impressão de bricolagem. E isso é intencional, como acredito, você
deverá mantê-lo assim, embora deva se prevenir para possíveis
incompreensões. [...] Queria
lhe dizer coisas úteis, boas, próprias. [...] Queria também
dizer coisas mais objetivas - como, por exemplo, se você deve ou não
publicar o livro. Olha, é um risco - você mesma sente e por isso
teme e pede minha opinião. Mas - e daí? Por que não o risco?
É claro que um leitor que não tenha lido seus livros anteriores
não poderá ter idéia - só através do Objeto
gritante - do que é você como escritora e talvez mesmo possa
emitir juízos equivocados. Por isso é que acho que talvez valesse
a pena um subtítulo que, na medida do possível, identificasse a
obra - como não-ficção, como apontamentos, como um certo
tipo de diário, enfim como você considere melhor qualificá-lo
sem traí-la em excesso.
A
correspondência com Rubem Braga também merece destaque. São
sete cartas, que abrangem o período de 1945 a 1962. Nelas, além
da situação política brasileira no ano de 1945, comenta-se
a produção literária de Clarice, do cronista e dos amigos.
Em carta de 4 de março de 1957, a propósito de Laços de
família, ainda não publicado, escreve: Acabo
de ler agora os nove contos que não conhecia; você não imagina
como gostei: saio meio crispado da leitura. É engraçado como tendo
um jeito tão diferente de sentir as coisas (você pega mil ondas que
eu capto, eu me sinto como rádio de vagabundo, de galena, só pegando
a estação da esquina e você de radar, televisão, ondas
curtas) é engraçado como você me atinge e me enriquece ao
mesmo tempo que faz um certo mal, me faz sentir menos sólido e seguro.
Leio o que você escreve com verdadeira emoção e não
resisto a lhe dizer muito e muito obrigado por causa disso.
Carlos
Drummond de Andrade escreve uma carta-poema inspirado na leitura de Onde estivestes
de noite: Que
impressão me deixou seu livro! Tentei exprimi-la nestas palavras: Onde
estivestes de noite Que de manhã regressais Com o ultra-mundo nas
veias, Entre flores abissais? Estivemos
no mais longe Que a letra pode alcançar: Lendo o livro de Clarice, Mistério
e chave do ar. Obrigado,
amiga! O mais carinhoso abraço de admiração do Carlos.
Por
meio da correspondência com Manuel Bandeira ficamos sabendo que Clarice
Lispector também percorreu os caminhos da poesia: Sabe
que vou dar em livro, editado pelo Zélio Valverde, a minha antologia dos
poetas bissextos? Sai a matéria já aparecida em Autores & livros
mais outros bissextos (Chico, Joel Silveira, Guilherme de Figueiredo, etc). Se
tivesse comigo aqueles poemas seus que você me mostrou um dia, incluiria
você também. Ficará para uma segunda edição.
Quer me mandar algumas coisas? Você é poeta, Clarice querida. Até
hoje tenho remorsos do que disse a respeito dos versos que você me mostrou.
Você interpretou mal as minhas palavras. Você tem peixinhos nos olhos:
você é bissexta: faça versos, Clarice, e se lembre de mim.
Quando
cotejamos a produção da titular com sua correspondência, encontramos
algumas explicações para seus procedimentos. Fernando Sabino comenta: Antes
de mais nada, Manchete: estou meio sem jeito de dizer a eles que você não
quer assinar, por duas razões: primeiro, a despeito da elevada estima e
distinta consideração que eles têm pela formosa Teresa Quadros,
sei que fazem questão de seu nome - e foi nessa base que se conversou;
não sei se você sabe que você tem nome. E segundo, porque acho
que você deveria assinar o que escreve [...]
Quase
um mês depois, Fernando Sabino em outra carta esclarece: Consegui
falar com Hélio Fernandes [...]. Disse-me ele que recebeu sua colaboração,
gostou muito [...]. E o interessa é Clarice Lispector, pelo menos uma Clarice
Lispector dando notícias - mesmo assinando C. L.
Esta
resistência de Clarice em assinar seus trabalhos jornalísticos é
explicada pela própria autora. Em entrevista feita a Fernando Sabino, diz:
sei também que a crônica para jornal não é obra literária
e na crônica publicada no Jornal do Brasil, em 29 de julho de 1972, comenta: Hemingway
e Camus foram bons jornalistas, sem prejuízo de sua literatura. Guardadíssima
as devidas e significativas proporções, era isto o que eu ambicionaria
para mim também, se tivesse fôlego.
E
Ângela, personagem autobiográfica, de Um sopro de vida,
"escreve crônicas para jornal. Crônicas semanais, mas não
fica satisfeita. Os outros podem achá-las de boa qualidade mas ela considera
medíocres. Queria era escrever um romance mas isto é impossível
porque não tem fôlego para tanto". A
crônica para Clarice Lispector parece ser um gênero menor, mas ela
mostra vontade de conciliar os dois tipos de fazer literário - crônica
e romance. Tal fato talvez possa ser explicado porque na primeira ela tem de ser
ela mesma, na segunda ela pode se esconder por detrás da máscara
do narrador. As outras
séries que completam o arquivo são: PRODUÇÃO
INTELECTUAL: esta série foi subdividida em produção intelectual
do titular e de terceiros. Como o próprio nome indica, abrange trabalhos
produzidos por Clarice Lispector e por outros nomes ligados à literatura
brasileira. A do titular foi organizada em três subséries: ficção,
não-ficção e tradução. Na série produção
intelectual de terceiros temos não só trabalhos sobre a titular,
mas também estudos sobre outros assuntos, estando organizada em ordem alfabética
pelo último sobrenome do autor. A
série produção intelectual do titular compõe-se de
84 trabalhos, entre originais, crônicas, artigos e traduções,
sendo que a maioria não traz indicação de data. No
que diz respeito à sua produção ficcional, temos acesso somente
ao datiloscrito de Água viva. Alexandrino
E. Severino, no seu artigo "As duas versões de Água viva"
informa que nos meses de julho e agosto de 1971 esteve em contato com Clarice
Lispector, que lhe entregou os originais de Água viva, que na ocasião
se chamava Atrás do pensamento: monólogo com a vida, para ser traduzido.
No arquivo há uma carta do tradutor de Nashville, de 2 de junho de 1972.
ele assim se expressa: Prezada
amiga: Não sei
ainda se lembra de mim. O ano passado tive o prazer de conhecê-la. [...].
Sei que é difícil responder a tanta carta que recebe e por isso
não me surpreende não ter tido notícias suas. Guardo ainda
o propósito de traduzir seu livro, O objeto, como lhe disse, mas não
sei até hoje o que fazer sobre ele. Não recebi qualquer notícia
de sua publicação no original.
No
artigo citado, o tradutor transcreve a resposta de Clarice: Quanto
ao livro interrompi-o porque achei que não estava atingindo o que eu queria
atingir. Não posso publicá-lo como está. Ou não o
publico ou resolvo trabalhar nele. Talvez daqui a uns meses eu trabalhe no Objeto
gritante.
Baseado
nestas informações, o que possuímos no arquivo é umas
das versões iniciais de Água viva, onde se pode dar na folha
de rosto o título primitivo Monólogo com a vida, segundo título
Objeto gritante e finalmente Água viva. O texto apresenta correções,
cortes, substituições preciosas para se observar a busca da forma
exata. O livro só seria publicado em 1973 bastante modificado. Merece
também destaque o manuscrito do conto A bela e a fera escrito em
duas laudas da editora Artenova. Sua
produção não ficcional está melhor representada. Há
originais datiloscritos, com emendas manuscritas, de várias de suas crônicas
e entrevistas, e a cópia da conferência "Literatura atual no
Brasil", pronunciada no Texas, em Brasília, Vitória, Belo Horizonte,
Campos, Belém, Recife e São Paulo, a qual aparece transcrita em
parte no texto "De uma conferência no Texas", cujo original se
encontra em seu arquivo. O
texto lido por Clarice Lispector no Primeiro Congresso Mundial de Bruxaria, realizado
em Bogotá entre 24 e 28 de agosto de 1975, aparece em duas versões,
uma em inglês, outra em português, onde ela nos diz que: Eu
tenho pouco a dizer sobre magia. Na verdade eu acho que nosso contato com o sobrenatural
deve ser feito em silêncio e numa profunda meditação solitária.
A inspiração, em todas as formas de arte, tem um toque de magia
porque a criação é uma coisa absolutamente inexplicável.
Ninguém sabe nada a propósito dela. Não creio que a inspiração
venha de fora para dentro, de forças sobrenaturais. Suponho que ela emerge
do mais profundo "eu" de uma pessoa, do mais profundo inconsciente individual,
coletivo e cósmico. Mas também é verdade que tudo o que tem
vida e é chamado por nós de "natural" é na verdade
tão inexplicável como se fosse sobrenatural. Acontece que tudo o
que eu tenho a dar a vocês é apenas minha literatura. Alguém
vai ler agora em espanhol um texto que eu escrevi, uma espécie de conto
chamado "O ovo e a galinha", que é misterioso mesmo para mim
e tem sua simbologia secreta porque, se vocês tentarem apenas raciocinar,
tudo o que vai ser dito escapará ao entendimento. Se uma dúzia de
ouvintes sentir o meu texto, já me darei por satisfeita. E agora por obséquio
ouçam "O ovo e a galinha".
Há
ainda farto material que serviu de subsídio para a autora de Perto do coração
selvagem escrever, com o pseudônimo de Helen Palmer, uma seção
feminina intitulada "Feira de Utilidades", publicada no Correio da Manhã.
Nesta coluna aborda temas femininos como: cuidados com o seu bebê, receitas
para você, como cuidar da sua pele. Olga
Borelli diz que Clarice detestava discutir sua obra com especialistas e em entrevista
concedida a Affonso Romano de Sant'Anna e a Marina Colassanti afirma que a crítica
interfere em sua vida íntima, inclusive as elogiosas. Apesar desta postura
em face da crítica, encontramos em seu arquivo farto material neste sentido.
São mais de cinqüenta textos, sendo sua maioria produção
de origem estrangeira, em tradução, apresentando correções
manuscritas da titular. Há o texto de Heinz Beckman sobre Laços
de família, publicado em 1966, o de William Buchanan sobre o mesmo livro,
da primavera de 1974, o de Haydée M. Jofre Barroso A paixão segundo
G.H.: ratificação de um pensamento, publicado na La Prensa,
em 1970, o de Georg Rudolf Lind Laços de família: manias tranquilas
de uma vitória régia. A arte do conto da brasileira Clarice Lispector;
o de Álvaro Manuel Machado, publicado em junho de 1970, no Magazine Littérraire,
sobre o romance A maçã no escuro, a introdução escrita
por Giovanni Pontiero ao Laços de família e o trabalho de E. Rodriguez
Monegal publicado no número 6 de Mundo nuevo. Nesta série encontramos
ainda a tradução para o francês do conto Mistério
em São Cristóvão e Uma galinha, a primeira realizada
por Georgete Tavares Bastos e a segunda por Pierre Furter. Há também
a tradução para o inglês de Os desastres de Sofia feita
por Elizabeth Lowe, e para o italiano foi traduzido o conto Uma galinha
por Mário Nati e o capítulo A tia de Perto do coração
selvagem. Neste documento há a seguinte observação de
Clarice: "traduzido por Ungaretti e por mim". A
série DOCUMENTOS PESSOAIS reflete de maneira bastante fragmentária
a vida da titular, temos 122 documentos nas datas limites de 1942 e 1977. Esta
série reúne tanto carteira de identidade, profissional, título
de eleitor, contrato de edições, diplomas, contra-cheques, recibos
e extratos de conta. Alguns
documentos desta série nos permitem estabelecer a trajetória da
escritora como jornalista. Por meio de uma declaração da Faculdade
Nacional de Direito ficamos sabendo que Clarice Lispector, quando estudante, foi
redatora da revista A Época, órgão da classe discente da
faculdade. Pela sua carteira profissional começou a trabalhar a 2 de março
de 1942, como repórter em A Noite, e uma carteira de 1968, nos atesta que
a escritora trabalhava nesta época no Jornal do Brasil. Estas informações
podem ser completadas por outros documentos existentes nas demais séries.
(Cf. série recortes) Os
dicionários de literatura brasileira dizem que Clarice nasceu a 10 de dezembro
de 1925. Entretanto, não é o que aparece em alguns de seus documentos.
Sua carteira de identidade, sua certidão de casamento, o cartão
de identidade do contribuinte (CPF) a primeira via do título de eleitor
trazem 10 de dezembro de 1920. Outros documentos apresentam datas diferentes:
a carteira de trabalho dá 10 de dezembro de 1921, um de seus passaportes
diz ter ela nascido a 10 de dezembro de 1927. Algum motivo levou a escritora a
esconder sua verdadeira idade. Não fizemos uma pesquisa exaustiva sobre
o assunto, mas os documentos consultados nos levaram a concluir que a própria
autora não queria esclarecer este problema. Olga Borelli, que a conheceu
de perto, escreve: "Em 1944, aos 17 anos terminou Perto do coração
selvagem, seu primeiro "romance". E quando Affonso Romano de Sant'Anna
afirma que ela era ainda uma "menininha de dezessete, dezoito anos"
quando escreveu seu primeiro romance, ela não contesta. Teria Clarice escrito
Perto do coração selvagem realmente aos dezes-sete anos e só
publicado em 1944. Parece-me que não, penso que a escritora o teria escrito
perto do ano da publicação, ou seja, com quase 23 anos. O livro
é complexo demais para ser obra de uma adolescente. Mas fica aí
a dúvida. Na
série DIVERSOS, como o nome indica, encontra-se material de natureza variada.
São boletins informativos, cadernos de endereços e telefones, cartões
de visita, cartões-postais, convites, impressos, menus, a programação
do Primeiro Congresso de Bruxaria e as mais diversas notas. Entre eles além
das notas merece destaque a proposta de trabalho na qual Clarice se propõe
a escrever uma secção feminina, assinada com pseudônimo, num
tom íntimo, bem-humorado e experiente. O assunto seria beleza, moda, problemas
de mãe, dona-de-casa. E o preço mensal seria de cinqüenta mil
cruzeiros. Os DOCUMENTOS
COMPLEMENTARES referem-se a material com data posterior à morte da titular.
É uma série pequena composta por quatro cartas, uma homenagem póstuma
da União Brasileira de Escritores e 23 recortes sobre sua obra. A
série RECORTE de jornais foi subdividida em duas subséries: de autoria
de Clarice Lispector e de autoria de terceiros. Na primeira temos seu trabalho
sobre assuntos femininos, publicado no Correio da Manhã na coluna Correio
Feminino/Feira de Utilidades e alguns artigos, para o Diário da Tarde,
redigidos por Clarice, mas assinados pela atriz Ilka Soares. Há também
algumas de suas crônicas para o Jornal do Brasil, apresentando emendas manuscritas
da autora, além dos Os diálogos possíveis com Clarice
Lispector. Alguns contos e entrevistas. A segunda série foi subdividida
por assunto. Há artigos sobre os diversos livros da titular, e artigos
que falam de forma geral sobre sua obra e outros onde seu nome aparece apenas
citado, além de textos em inglês coligidos por Clarice. Todos os
recortes foram colados em folhas de papel ofício e arquivados em pasta
própria. Há
ainda DOCUMENTOS ICONOGRÁFICOS, que são processados separadamente.
Entre eles há 16 quadros pintados por Clarice, que são: "Raiva
e [reunificação]", "Gruta", "Explosão",
"Tentativa de ser alegre", "Escuridão e luz: centro da vida",
"Luta sangrenta pela paz", "Ao amanhecer", "Pássaro
da liberdade", "Cérebro adormecido", "Sem sentido",
"Medo" e "Gruta" todos de 1975 e "Eu te pergunto por
quê?" e "Sol da meia-noite" de 1976, e dois sem título,
sendo um sem data e o outro de 1975. Dois destes quadros aparecem descritos em
Um sopro de vida: Estou
pintando uni quadro com o nome de "Sem sentido". São coisas soltas
- objetos e seres que não se dizem rrrespeito, como borboleta e máquina
de costura.
O
outro quadro descrito é "Gruta": Vivo
tão atribulada que não aperfeiçoei mais o que inventei em
matéria de pintura. Ou pelo menos nunca ouvi falar desse modo de pintar:
consiste em pegar uma tela de madeira - pinho de riga c a melhor - e prestar atenção
às suas nervuras. (...) a gente se joga nas nervuras acompanhando-as um
pouco - mas mantendo a liberdade. Fiz um quadro que saiu assim: um vigoroso cavalo
com longa e vasta cabeleira loura no meio de estalactites de uma gruta.
A
descrição de "Medo", feita pela própria Clarice,
aparece transcrita no livro de Olga Borelli: Pintei
um quadro que uma amiga me aconselhou a não olhar porque me fazia mal.
Concordei. Porque neste quadro que se chama medo eu conseguira por pra fora de
mini, quem sabe se magicamente, todo o medo-pânico de um ser no mundo. "É
uma tela pintada de preto tendo mais ou menos ao centro uma mancha terrivelmente
amarelo-escura c no meio uma nervura vermelha, preta e de amarelo-ouro. Parece
uma boca sem dentes tentando gritar c não conseguindo. Perto dessa massa
amarela, em cima do preto, duas manchas totalmente brancas que são talvez
a promessa de um alivio. Faz mal olhar este quadro.
Os
verbetes do inventário estão redigidos segundo critérios
adotados internacionalmente para a descrição de documentos. Deles
constam uma entrada identificadora, o tipo documental, que na série CORRESPONDÊNCIA
é seguido de um resumo. Há, ainda, referência ao número
de folhas, ao local e data. Quando estas duas últimas informações
não constam do documento e são recuperadas por meio de pesquisa
aparecem entre colchetes. O verbete da série produção intelectual
informa ao pesquisador se há cópia ou outra versão do documento.
Todos os verbetes são numerados tanto dentro de sua serie como dentro do
inventário como um todo e são acompanhados da sigla da série
a que pertencem. Os documentos estão guardados em folha de papel duplo
branco, onde se encontra registrado o seu código, e estas arquivadas em
pastas suspensas e arrumadas em armário próprio. Este
artigo é o resultado de uma análise técnica do material pertencente
a Clarice Lispector, mas temos a certeza de que o pesquisador que se propuser
a mergulhar no mais íntimo da escritora encontrará material para
melhor compreender, não só os ternas e a força artística
de sua obra, como, principalmente, para conhecer a substância mesma de seu
fazer literário e o sentido misterioso inerente à sua linguagem
narrativa.
Dados obtidos em livros da autora, sites da
Internet.
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